Speranza

4 A espera pela esperança.


Notas iniciais
Yuu Kanda x Ayami.

Ayami - By Aayacchi!

A espera pela esperança.

Kanda x Ayami

O som do mar me tirava a atenção lentamente, provocando-me a guiar meus olhos pelas águas escuras. No horizonte, bem no meio, pude observar o reflexo da lua cheia navegar pelas ondas que aquele oceano frio e escuro produzia. A brisa soprava suavemente, trazendo o cheio do mar até a costa, bagunçando meus cabelos presos em um coque alto, porém com muitos fios soltos.

Fechei os olhos enquanto segurava em meu peito a flor de lótus que o Yuu tanto guardava em seu quarto. A textura macia de suas pétalas acariciava a pele dos meus dedos lentamente, como se desejasse suprir minha dor e não aliviar-me daquela sensação de solidão tão assustadora. As últimas lembranças vinham com força em minha mente, me fazendo reviver aqueles últimos momentos antes que mais uma vez ele fosse embora e não voltasse mais.

Dois corpos jaziam sobre uma cama de solteiro em um quarto escuro, iluminado apenas por uma luminária sobre a cabeceira. O rapaz estava sentado na beirada, com uma perna dobrada sobre o colchão e a outra parada, com o pé encostado ao chão. Seu semblante era misterioso e sério, como se ele focasse algo inexistente a sua frente, mas o impressionava seriamente. Seus cabelos longos e escuros estavam soltos, levemente bagunçados e molhados. O torso nu tinha pequenas gotas de suor, enquanto vestia apenas uma calça branca, com escritas chinesas. Seus olhos tinham a luz da luminária refletida neles, porém de uma maneira mais sombria graças ao resto da escuridão.

Deitada sobre a cama, o corpo pequeno de uma jovem jazia adormecido. Seus cabelos idênticos ao do rapaz estavam espalhados pelo colchão e travesseiro, num aspecto suave e delicado. Seus lábios se encontravam levemente abertos e sua respiração saía pausada, típica de uma pessoa adormecida. O corpo nu era coberto por um lençol fino branco, mas amassado pelo uso.

O silêncio era a única coisa que podia ser escutado no quarto, dançando por toda a sua extensão num ritmo invisível, sem qualquer intenção de abandonar aquele local. A pouca ventilação provinha das trincas do vidro, produzindo os uivos do vento à medida que entravam no quarto. A mesa desgastada e esquecida no canto esquerdo do quarto tinha uma flor dentro de um recipiente de vidro, que trabalhava como uma barreira contra qualquer maldade e empecilho que pudesse atrapalhá-la em seu desenvolvimento. Era uma lótus. Bela e viva, com algumas pétalas caídas, mas que ainda sustentavam a sua divina beleza.

O rapaz se levantou sem cerimônia e caminhou em direção ao objeto, o tirando para logo em seguida poder admirar a flor. Momentos e lembranças passaram em sua mente e as que envolviam a irmã eram as mais marcantes e importantes para si, mesmo que jamais pudesse ou quisesse admitir. Kanda sempre seria daquela forma. Frio e seco. Distante e intocável, mas talvez não tanto para ela. Ayami.

O olhar escuro do rapaz caiu sobre o corpo da gêmea e ali permaneceu por um tempo indecifrável e indiscutível. Apenas aproveitado. Ao lado da jovem sua espada se encontrava repousando sobre a beira da cama, restaurando suas energias. Em sua bainha podia ser visto um pingente em forma de Yin-Yang, porém apenas a metade. A parte maior prata, com um ponto dourado. Seu olhar demorou-se ali, mas logo desviou em direção ao rosto da outra ao vê-la se mexer sobre a cama.

Lentamente a jovem abriu os olhos e encontrou o olhar do mais forte sobre si, provocando-lhe não só o tremor e rubor, como um frio intenso no estomago. Não que achasse ruim ser observada por ele, mas era tão forte e calorosa aquela sensação que se pegava diversas vezes surpresa por se tornar o centro das atenções dele. Com calma levantou-se e sentou-se sobre a cama, usando o lençol para cobrir seu corpo nu.

“Yuu...”, o chamou baixinho.

“Onde está seu colar?”, foi a única coisa que perguntou.

“Hm?”, demorou alguns segundos para desvendar sobre o que ele estava falando, até ver o pingente no cabo da Mugen. “Ah.”, soltou por impulso, mas uma expressão triste tomou conta de seu rosto. “Eu perdi...”, mentiu.

“A verdade, Ayami.”, respondeu curto.

“Estou falando a verdade, Yuu!”, insistiu levemente agoniada por mentir para o outro.

“Não está. Seus olhos estão tremendo.”, respondeu frio. “Não vou perguntar mais uma vez...”

Kanda se aproximou da outra, ficando de joelhos sobre a cama e agarrando pelos ombros. Tomada pelo susto, a morena soltou o lençol deixando que o mesmo escorregasse para o colchão e fizesse ondas pelo acumulo de tecido. Seus olhos fitaram os olhos escuros e fortes do outro e por um momento jurou ter visto algo diferente ali. Algo como magoa. Sentiu-se horrível pela mentira contada e por isso sua reação fora abaixar a cabeça em sinal de que se arrependera.

“O Tykki roubou de mim.”, respondeu baixo.

“...”

A reação seguinte fez à jovem tremer e temer ao mesmo tempo. Kanda a soltou de repente e pegou a Mugen, puxou o sobretudo da Ordem Negra e saiu pela porta a batendo forte. E só depois que o silêncio retornara aquele quarto que ela percebera que o som que batia na janela eram as gotas de chuva que escorregavam pelo vidro assim como as lágrimas que corriam de seus olhos e pingavam sobre o lençol frio.

As lágrimas voltavam com a mesma intensidade daquele dia em que ele saíra e não mais retornara. Um sentimento de melancolia nascia em meu peito, o apertando ainda mais do que já estava. Isso acontecera há dez meses e ninguém mais sabia sobre seu paradeiro ou tinha qualquer noticia sua. Quis correr atrás dele, sair a sua procura e pedir perdão pelo meu passado, mas jamais poderia fazer algo que não me arrependera. Amei um Noah sem qualquer receio e tão pouco qualquer culpa, mesmo sendo por fim rejeitada por ele, eu o amei e continuaria a amar se não tivesse reencontrado o Yuu.

E mesmo sabendo que ele fora como meu irmão gêmeo, desde que nos encontramos eu soube que estávamos ligados não só pela genética como pelo destino. Ele tinha tudo o que eu precisava para me sentir completa e mesmo após tantos problemas e desafios para que finalmente ficássemos juntos, o Yuu me assumiu e pouco se importou com a opinião dos outros.

E era pensando em sua posição perante todos que a esperança ainda crescia em meu peito. Eu queria vê-lo o mais rápido possível. Saber que ele ainda voltaria para mim. Por mim. E foi pensando nisso que fiz uma prece àquele que fora chamado de Deus por muitos, e foi a ele que roguei para que trouxesse o Yuu de volta.

Mas foi dando atenção a sinceridade de minhas palavras que deixei que a lótus escapasse das minhas mãos e voasse em direção a areia da praia. Não consegui terminar o pedido, pois logo em seguida corri pela areia fria e fofa daquela madrugada atrás da única coisa que ainda me mantenha conectada a ele.

A vi parada na frente de uma pedra única no meio da praia, e com passos rápidos me aproximei da pequena flor para pegá-la de volta. Ao me agachar e estender a mão senti o vento soprar e quase deixei que a areia caísse sobre meus olhos e me impedisse de enxergar qualquer coisa. Precisei fechar os olhos por um momento e só os abri quando senti a brisa se acalmar, e percebi que a flor não se encontrava mais ali, pois mais uma vez fora arrastada pelo ar forte soprado pelo mar e afastada de mim.

Senti um pouco de desespero ao imaginar que a única coisa que ainda restara do Yuu havia simplesmente desaparecido num piscar de olhos e do alcance de minha mão. Com os olhos marejados, procurei angustiada por ela andando de uma ponta a outra da praia. A preocupação e a dor da perda surgiram mais uma vez, porém mais intensas e me obrigando a expelir o medo através das lágrimas que saiam enraivecidas dos meus olhos. Eu precisava daquela flor, e precisava dela como meu organismo precisava de oxigênio para se manter vivo. Eu precisava dela para saber que ele sempre voltaria mais uma vez.

Com o cansaço já enraizado em minhas pernas e meu corpo em si, senti meus pés tremerem a cada passo que dava em direção ao mar. Sem forças, caí ajoelhada sobre a pequena onda que acariciava a areia, como os lábios de enamorados se acariciavam num beijo calmo, suave. O choro voltara intenso e desesperado, com uma força anormal e aterradora. Eu tive medo. Eu senti o medo de perdê-lo para sempre naquele instante e foi olhando para o céu que implorei para tê-lo de volta.

“Yuu... Volta para mim...”, minha voz saíra falha, num sussurro expelido com dificuldade perante o choro infantil que gritava em minha garganta.

“Tsc... Que cena patética...”, uma voz máscula e fria soou as minhas costas. “Não precisa suplicar.”

Congelei por alguns segundos ainda tentando relacionar a voz com seu dono, ou talvez a sanidade com a realidade, ou talvez ignorando a hipótese de que aquilo poderia ser apenas uma ilusão causada pela abstinência que aqueles lábios e aquele corpo me faziam ter com o longo passar dos meses. Vir-me-ei lentamente, em choque, como se duvidasse que ainda me mantinha sã ali, na praia da Sede nova.

Logo vi que era verdade. Ele estava ali, parado a minha frente com as roupas desgastadas, os cabelos curtos na altura do peito e soltos. Apoiado por duas muletas enquanto a Mugen descansava ao lado esquerdo de seu corpo forte, belo e viril e seus olhos me observavam com um ar diferente. Vitorioso talvez. Os machucados e a sujeira estavam presentes por todo o sua extensão, mas lhe davam um ar lutador e um tanto desbravador.

“Yuu...”, foi à única palavra que consegui sussurrar.

“Tsc...”, o vi se aproximar com alguma dificuldade, apenas parando onde eu me encontrava e me olhando com sua expressão séria. “Dá próxima vez... Vê se me faz ir até um lugar mais perto, Ayami.”

“O quê?!”, minhas mãos tremiam assim como meus lábios que lutavam para que eu não gaguejasse.

“Tsc, sua lerda. Estou falando disso...”

Vi Yuu se ajoelhar a minha frente e tirar algo do bolso. Arregalei os olhos ao observar que de seu bolso ele retirava o colar que havia perdido quando ainda estava com Tykki. Meu colar que era a metade do Yin-Yang, a parte dourada com um ponto prateado. Meus olhos já pareciam ter se acostumado com tantas lágrimas, pois não parecia mais se importar com tantas gotas derramadas e que escapavam com tamanha facilidade.

Sem qualquer pergunta Yuu se aproximou e colocou o colar em mim delicadamente, me surpreendendo com um gesto tão doce e nada natural de sua parte. Ao terminar, ele se afastou e permaneceu sentado, fechando os olhos calmamente enquanto suas vestes se sujavam com a areia.

“Onde você... Como você...”

“Tive que lutar com seu...”, o vi fazer uma careta e virar o rosto enciumado.

“Você lutou contra o Tykki?”, perguntei preocupada.

“Isso é o de menos. Vai querer ou não? Se não quiser, posso devolver pessoalmente...”

Não permiti que ele continuasse a frase, pois me joguei em seus braços e agarrei fortemente seu pescoço. Afundei meu rosto nele ignorando o fato de que parecia uma criança ao fazer aquilo, e nem me importei quando senti um dos seus braços me agarrarem. Eu não me importava. Yuu havia voltado para mim. Havia procurado o meu colar para trazê-lo de volta enquanto eu não havia movido um único dedo para correr atrás do mesmo.

“Você fez isso por mim...”

“Não Ayami.”

“Então por quê?”

“...”, ele se afastou e me fitou seriamente.

Aquele instante me fez com que eu perdesse toda e qualquer noção de tempo e espaço, pois para mim ali só existia Yuu, eu e o som do mar batendo contra as rochas. Encantada com aqueles olhos escuros e tão ardentes, minha voz morreu em minha garganta ao mesmo tempo em que meu coração desejava saltar pela minha boca tamanha a intensidade de nossa conexão. Pouco a pouco, o vi se aproximar de mim com o olhar felino e sedento de desejo. Senti sua mão subir pelas minhas costas e arranhá-las num gesto sutil, mas bastante preciso, até que chegassem a minha nuca e a apertasse levemente, fazendo-me aproximar um pouco mais dele.

Não vi o exato momento em que aquilo acontecera, apenas sentira seus lábios secos e machucados tocarem os meus num gesto urgente. Seus braços me abraçaram com força e me impulsionaram para que sentasse em seu colo, deixando assim um caminho mais livre para que aproveitássemos o momento. Senti sua língua avançar com desejo e saudade por minha boca, num desbravamento fogoso e sensual, causando-me leves tremores e vertigens que apenas ele conseguia me causar.

Separamos-nos minutos depois por falta de ar, mas sem perdemos o contato visual. Lentamente fechei os olhos e encostei minha testa a sua, sorrindo livremente, sem receio de demonstrar a felicidade que sentia por ele estar ali.

“Finalmente...”

“Heh... Vê se não me perde mais isso, garota. Ou você que vai correr atrás da próxima.”

“Ha-Hai~”

“Oe, você sabe do segredo?”, escutei sua voz grave me recordar à atenção.

“Segredo?”

“Tsc.. É uma lerda, mesmo. Me dá isso aqui, Ayami.”

Mesmo reclamando, o vi retirar o colar de meu pescoço e logo em seguida puxar o que estava preso a Mugen. Ao pressionar um no outro, as duas partes de cima se abriram e em seu interior havia um relevo rebaixado de uma linda lótus desenhada.

“Escuta, garota. Da próxima vez, vê se guarda contigo e não com terceiros.”, ele fechou os dois pingentes e os separou, me dando a minha parte.

Naquele momento entendi o porquê de toda a esperança que eu sentia mesmo que ele estivesse longe ou saísse sem me dizer para onde ele iria. Ali estava a prova de que eu mais precisava. O Yuu era sempre voltaria para mim, pois eu era o seu destino e ele sempre seria a minha sina.

FIM.


Notas finais
Em breve; Tão Sonhada. - Leoni x Lenna.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!