Spellbook Of Lost Souls

2 Capítulo 2 - O rei e o Herói


Notas iniciais
Segundo capítulo, espero que curtam!

A espada movimentava-se rapidamente pelo ar, deslizando com facilidade. Era empunhada por um jovem garoto que, apesar de muito baixo, tinha dezesseis anos. Esboçava um sorriso descomunal, enquanto olhava sua habilidade com tal arma sobre seus dedos. Os olhos verdes concentravam-se no movimento lembrando um pássaro, um pássaro se libertando de um confinamento.

– Mais para a esquerda! – gritou um homem alto, próximo dele. Seus cabelos eram castanhos e iam até os calcanhares, em um rabo de cavalo interminável. O garoto assentiu, silenciosamente e moveu a espada com velocidade para a esquerda, logo em seguida, cortou o ar profundamente, como se rasgassem um adversário, transformasse-o em dois.

– Assim? – perguntou apreensivo. Os cabelos negros, apesar de curtos, balançavam levemente por causa do vento. O céu estava nublado. As nuvens haviam tomado o reino do Sol, que se escondera atrás das mesmas. Novamente, o garoto voltou a movimentar-se, com a arma.

– Está perfeito. – comentou o homem, revelando uma pequena katana em sua cintura. Ele suava vestes escuras, que batiam contra o chão e arrastavam as folhas daquele jardim. Estavam nos fundos da casa do homem, que por sinal era muito bonita. À direita do garoto, havia flores cor amarela, que brilhavam e se transformavam em laranja, certas vezes.

Os dois ficaram ali, treinando em silêncio por mais dez minutos, até o homem de cabelos longos interromper o outro.

– Muito bem, Haru. Acho que está na hora. – revelou, com clareza, enquanto desembainhava a katana. Ele retirou com velocidade, porém cuidado, e girou-a em seus dedos longos.

– Sério?

A pergunta saiu depressa da boca do garoto chamado Haru, que não conseguiu controlar as palavras. Finalmente havia chegado a hora. Estava se preparando há tanto tempo... iria enfrentar seu treinador, Mirh, para demonstrar sua força e poder. Ele ganharia um prêmio no caso de vitória e nem sabia qual era.

– Sim. Prepara-se, não vou pegar leve desta vez. – murmurou seriamente, enquanto girava a katana novamente entre os dedos longos. Ele era muito habilidoso. Foi um membro do Esquadrão B de Haru, a cidade, e estava ensinando a Haru, o garoto, a como ser um espadachim.

Haru apoiou-se em suas pernas e ergueu a espada de cinqüenta e dois centímetros que empunhavam. Um pouco encurvada na ponta, destacava-se pelo uso em jovens aprendizes.

– Se tiver a oportunidade, mate-me. – disse Mirh, ríspido.

– Sim – concordou Haru, inclinando a cabeça para frente.

Os dois se encontraram, em uma fração de segundo. As espadas chocaram-se em diagonal, formando um "X". Haru girou os calcanhares e abaixou-se, tentando acertar o joelho do adversário, porém o mesmo saltou. Sua katana de quarenta de dois centímetros cortou o ar na vertical, buscando atingir a cabeça de Haru.

O jovem desviou e a arma chocou-se contra a grama. Os dois ficaram se encarando e um novo choque formou um "X". Porém, Haru não quis acertar o joelho novamente. Insistiu em atingir o peito, mas não foi bem sucedido. Ele sabia que a vantagem de seu adversário era a defesa. Seria difícil atingi-lo, principalmente em sua velocidade atual. Porém, sabia de sua fraqueza. Golpes pela esquerda!

Haru moveu sua espada contra o braço esquerdo de Mirh, que empunhou a sua katana contra.

"Droga... graças a habilidade no braço direito, ele consegue superar esse "defeito". Agora eu vou me ferrar..." pensou Haru, não conseguindo terminar. Teve que se abaixar para evitar uma possível decapitação. Seus lábios separaram-se e ele sorriu falsamente.

– Agora é minha vez.

Ele deu um impulso e saltou, erguendo a espada sobre sua cabeça. Com um único e certeiro movimento, atingiu, de propósito, a katana que Mirh segurava. Concentrando toda a sua força em sua arma, Haru conseguiu tirar a outra da mão de seu adversário, que ficou desprotegido. A mão direita, então, agarrou a espada e fez um movimento horizontal rápido. Mirh saltou duas vezes para trás, dando pequenos mortais. Pisou na espada e pressionou a sua lâmina, fazendo ela saltar para o alto. Agarrou-a firmemente e combateu os cortes horizontais do inimigo com uma pancada vertical. As duas lâminas chocaram-se e um barulho estridente tomou conta do jardim.

– Mas que...? – surpreendeu-se Haru, observando os dedos longos de Mirh movimentarem a espada de todos os jeitos possíveis. O mesmo avançou com uma perna atrás e outra na frente, deixando os braços em uma posição idêntica. Os cabelos moveram-se sem que ele encostasse e se levantaram, ficando a cima de sua cabeça. – Que...?

Os fios voaram pelo ar, velozes, como se fossem raízes de árvores. Eles tremiam enquanto avançavam contra Haru. Eles tinham a mesma força que Mirh e o jovem não conseguiu defender-se com sua espada: foi arremessado ao chão. Os cabelos tomaram um impulso e avançaram novamente, como se fossem chicotes. Com uma pancada seca, atingiram o estômago do jovem, que se contorceu no chão.

– E agora, Haru? O que você vai fazer? – indagou Mirh, preocupado com o jovem, mas tentando falar com desdém.

Os cabelos estavam altos novamente, prontos para o bote, como uma cobra. Eles mexiam-se graças ao vento. Segundos depois, já estava agindo num terceiro ataque fulminante. Porém, desta vez, sucumbiram: Haru rolou para a esquerda, escapando do golpe. Em seguida, usou a espada para cortar metade dos fios. Mirh soltou um grito esganiçado.

– Seu... seu... – disse, tremendo de raiva. Era apenas um "teatrinho", na verdade. Suas pernas foram para frente e ele começou a usar golpes abusando da força.

Haru não disse palavra alguma, apenas tentou se esquivar dos movimentos perigosos que Mirh estava realizando. Os cabelos agora iam até as costas, alguns fios um pouco maiores e outros menores. Mirh parecia ter adquirido um ódio enorme. A força dele dobrou depois de alguns segundos e triplicou após míseros milésimos. Haru não agüentaria por mais tempo. Tinha que ousar...

Quando a força quadruplicou, o jovem teve uma idéia. Esperou seu adversário atacar e rolou para o lado. A katana bateu no chão e Mirh não conseguiu levantá-la para se defender. A ponta da espada de Haru tocou o pescoço dele e ele fez um leve movimento, sorrindo com o canto da boca.

– Morto. – sussurrou orgulhoso de si mesmo.

Mirh levantou os braços, rendendo-se. E sorriu também. Ele estava pronto, sabia disso. Estava preparado para a sua missão, designada desde o dia em que nascera. O professor sorriu com mais gosto ainda, gargalhando. Os olhos observavam seu aluno. Estavam treinando há bastante tempo e Haru havia crescido muito em todos os aspectos.

– Parabéns! – berrou Mirh, abraçando o garoto. – Não gostei de você ter cortado o meu cabelo, claro, mas com as minhas habilidades, consigo o fazer crescer em uma noite. – explicou ele, tranqüilo.

– Obrigado... – disse Haru, nem acreditando no que havia feito. Vencera seu mestre, seu treinador. Estava pronto para o que acreditava ser um prêmio, mas afinal, era sua sentença de morte.

Mirh acompanhou-o até o castelo. Haru ficou impressionado com os jardins cheios de homens trabalhando com plantas raras e esquisitas. Observou o lago com incrível admiração, principalmente quando uma criatura gorducha, com um bico de pato e asas saltou da água, exatamente do modo que um golfinho faria. Ele acenou com as pequenas patas abaixo do pescoço e caiu com leveza na água, mergulhando profundamente.

A dupla entrou no castelo e foi de encontro ao rei, que estava na mesma sala de algumas horas anteriores, quando conversara com o guerreiro Dan. O mesmo encontrava-se descansando em um cômodo do castelo.

– Aqui está o meu garoto! – exclamou Alquies, sorridente. Ele apertou a mão magra de Haru com seus dedos gigantescos.

– Oi. – disse o jovem, timidamente, enquanto recebia abraços e mais apertos de mão.

O rei convidou-o a se sentir e ofereceu uma cerveja.

– Eu tenho dezesseis anos. – informou ele, com indignação. Porém, ao perceber que Alquies não se importava, tomou alguns golinhos com gosto. Seus olhos percorreram a sala espaçosa.

– Então, fui informado que terminou seus treinamentos? – indagou Alquies, arrogante e impaciente, enquanto acendia um cigarro. Deu uma leve tragada e depois esperou a resposta.

– Sim, senhor. – assentiu Haru, movimentando a cabeça também. O presidente bebeu um grande gole da sua bebida e tragou profundamente o cigarro que tinha na boca. Gargalhou despreocupado.

– Muito bem! – exclamou, ainda mostrando os dentes branquíssimos.

Os dois se encararam. Haru ficou esperando alguma outra coisa, o prêmio do qual haviam falado. Mesmo desconfiando, esperava que recebesse algo. Mais duas tragadas. A fumaça invadiu a sala com força total, o que o fez tossir de leve.

– Qual era a urgência de todos os treinamentos? – indagou, confuso. – E que prêmio é esse que ganharei?

Sua voz estava arrogante, o que fez o rei erguer as sobrancelhas. Parou de rir, mas não de tragar. A cerveja terminou, mas ele não fez menção de pegar outra garrafa.

– Bem, – ensaiou surpreso, enquanto batia o cigarro no cinzeiro, deixando cair uma parte dele, – Você será designado para uma missão.

– Missão? E o prêmio?

As palavras saíram sem controle da boca de Haru, o que fez Alquies se ofender. Ele coçou o queixo, intrigado com a posição do garoto. Era um pirralho ainda.

– Você será enviado para uma missão. Buscará um tesouro. – explicou o rei.

– Hmm. – concordou o outro, imaginando-se com um baú repleto e de moedas e itens de ouro. Viu-se com uma coroa tapando os cabelos negros, colares e até uma armadura banhada a ouro. Seus olhos cintilavam.

– Você buscará um item perdido, nas Montanhas Sangrentas.

– Como? – duvidou ele, intrigado. Iria até as Montanhas Sangrentas? Sozinho? Alquies estava enlouquecendo? Só podia ser, pensou.

– Exatamente o que ouviu. Irá até as Montanhas Sangrentas. Mais precisamente, a oeste delas. – e o rei estendeu um mapa grande, que estava em uma mesinha de vidro ao seu lado. Havia um longo e tortuoso caminho, marcado por locais extremamente hostis e perigosos.

– Sr. Alquies, o senhor enlouqueceu? Vai me mandar para as Montanhas Sangrentas, principalmente sabendo do caminho que percorrerei? – perguntou um aflito Haru, que estava prevendo algo do tipo "Te peguei, otário!". Mas isso não veio. Apenas um sinal de positivo com a cabeça.

– Não estou louco. Você é o único apto. – justificou-se Alquies, sentindo-se ofendido. – Seu potencial é Magnífico, esplêndido! – elogiou o rei, abrindo bem os lábios.

– Sim, mas isso não quer dizer que eu queria morrer! – gritou o jovem, revoltado. Seu rosto tornou-se vermelho.

– Você é meu sobrinho, Haru. Confie em mim. Nunca mandaria você para a morte. Confie em mim.

O jovem ficou pensativo, olhando para o chão e para o teto, nunca encarando o tio e rei. Alquies ficou incomodado, mas tentou novamente convencê-lo.

– Se você buscar esse objeto perdido venceremos a guerra. Você perdeu seu irmão na guerra. Quem mais quer deixar de possuir? Sua mãe, Helenn? – o argumento foi convincente. Haru havia sido designado para esta tarefa e devia cumprir as expectativas, mesmo pensando isto ser uma tolice. Perdera seu irmão na guerra e faria de tudo para acabar com ela. Talvez por isso o mandaram nessa tarefa. Por sua vontade de acabar com Lord Novák.

– Que objeto é esse? – sua voz ecoou pela sala.

– O velho Spellbook. Livro Mágico. – informou Alquies, sentindo-se vitorioso. – Spellbook of Lost Souls.

– O mesmo da lenda?

– Exatamente o mesmo. – confirmou.

Haru lembrou-se vagamente das histórias que contavam aos garotos na escola, sobre artefatos extremamente valiosos e poderosos, que estavam perdidos pelo mundo todo. Essa tal livro guardava um segredo oculto que apenas algumas o conheciam. Alquies era um deles. Porém, um tratado foi assinado e uma magia poderosa caiu sobre todos que guardavam o segredo: se revelasse a outro alguém, morreria, junto com a outra pessoa.

"Todos se apavoraram. Eram dez, no total. Ficaram calados, por muito tempo, até conseguirem ter confiança de conversar com amigos e familiares. Uma vez, o Barão de Merih contou a sua filha o grande segredo e os dois foram encontrados sem cabeça, no banheiro de sua casa. Haru também recordava de uma poderosa guerra que seu avô tinha participado, na qual humanos e aves haviam disputado a posse da pena dourado, objeto que dava a qualquer um a chance de voar e ter a velocidade da luz, sendo que os pássaros desejavam o segundo benefício."

O jovem retornou a sala com o rei. Pelo visto, seu relance de memória havia durado milésimos, o que era muito estranho.

– Você conhece Dan? – indagou Alquies, levantando as sobrancelhas peludas.

– Sim, sim, o comandante do Esquadrão C, certo?

– Isso. Ele irá com você.

A revelação foi bombástica. Haru sonhava em conhecer Dan Schmid. Era um grande ídolo, principalmente depois das Batalhas de Yussek e Oruka. Ele era quase um Deus para o jovem. Seus olhos novamente cintilaram intensamente. O rosto ficou pálido.

– Irá... comigo...? – disse perplexo, enquanto imaginava-se ao lado do ídolo, lutando. "Irmãos da Espada". Novamente o rei assentiu.

– Iremos encontrá-lo... – parecia tentar se lembrar o dia, mas bateu a mão contra a testa, ao perceber que era amanhã. – Amanhã.

– Tudo bem... OK, OK. OK. – Haru apertava a mão do tio, – OK.

O jovem se retirou, indo para seu quarto. Precisava descansar para o grande dia que seria o seguinte. Não conseguia acreditar que iria numa jornada juntamente de Dan.

Ele caminhou pelas ruas quieto, observando as paredes das casas sendo pintadas. Haru, a cidade, passava por reformas. Principalmente as casas mais antigas.

O adolescente passou por uma verdadeira mansão, com um chafariz na entrada. Havia uma baleia, que lançava água pelas costas e mexia o rabo. A casa tinha dois pisos e tinham duas crianças brincando numa janela do segundo andar. Aquela devia ser uma família suntuosa.

Haru entrou em sua pequena casa no centro. Apesar de ter um parentesco com o rei, não morava no castelo ou numa mansão. Seus pais não queriam na verdade. Por isso, eles tinham uma casa mais ou menos, perto de onde seu treinador morava. O jovem passou pela cozinha deserta e pegou uma maça. Encontrou seu pai lendo na sala e cumprimentou-o com uma reverência.

– Está pegando o jeito. – disse o pai, sorrindo.

Haru foi para o quarto e fechou a porta. Deitou-se em sua cama. Parecia estar bastante entusiasmado com o dia seguinte. Iria partir para o desconhecido, à procura de algo quase impossível de se achar, porém, teria a companhia de seu maior ídolo.

– Vai ser incrível... – murmurou no escuro, horas depois, quando a noite tomava conta da cidade. Seu rosto iluminado por causa da lua que adentrava em sua janela fitou o céu estrelado. Não havia nuvens.

Adormeceu, finalmente.

Notas finais
Reviews?