Spectral - Os Signos da Noite

1 Capítulo I: Descida ao Submundo


Acordei assustada com o alarme que me despertara ás sete da manhã; Hora de ir pra escola, bufei. A vida na pacata cidade do interior de São Paulo não era o que se podia dizer ser movimentada. A maioria das pessoas ali cresceram, juntas e tiveram seus filhos que também cresceram juntos e assim por diante. E eu era uma estrangeira ali. Me mudara para aquela cidade aos sete anos e nunca me sentira parte da população, no geral.

Não que eu fosse alguém com quem alguém iria querer se relacionar. Beatriz? — Minha mãe chamou da cozinha. Me levantei das cobertas macias e quentes direto para o vento cortante de junho.

Meus coturnos pretos afundavam na lama da estrada de terra; chovera um bocado à noite. Meu agasalho de lã não conseguia me proteger cem por cento do vento, então me abracei para tentar me esquentar um pouco. O Sol começara a lançar um pouco de seus raios pela estrada enlameada e o clima esquentou um pouquinho. O vento soprou sobre meus cabelos castanhos e eles bateram de encontro ao meu rosto. Quando empurrei-os de volta para trás das orelhas, um feixe de luz me atingiu nos olhos e quase me cegou. Ele vinha do fundo da mata. Estreitei os meus olhos redondos e vasculhei a área, mas não consegui ver de onde vinha exatamente, apenas sabia que estava bem longe, no fundo da mata. Me aproximei e separei as folhas que atrapalhavam minha visão; O feixe se intensificou. De alguma forma estranha, ele parecia me chamar.

Eu resisti por um breve segundo e me embrenhei no meio do mato, tamanha era minha curiosidade. Eu sempre fui uma garota regida por impulsos, talvez por causa de meu ascendente.

As botas se afundaram totalmente na lama da floresta, chegando às minhas canelas. O feixe vinha de mais de um sete metros à minha frente; respirei fundo.

Caminhar ali era tão difícil quanto, suponho, andar na face da Lua. As botas se afundavam e era um esforço tremendo para tirá-las de dentro da lama. No fim eu mal havia saído da entrada da mata e já estava exausta. Mas como tinha uma personalidade teimosa, prossegui me esforçando o máximo e resistindo a dor que vinha das minhas canelas e panturrilhas. Eu estava suando, mesmo com o frio costumeiro de junho. Uma vez quase caí com os braços estendidos na lama, mas esta estava tão dura sobre meus pés que eu parecia cimentada no chão, assim me recuperando o equilíbrio. Estava morrendo de sede, minha garganta ardia por causa do tempo seco e eu não conseguia abrir minha mochila de escola para pegar a garrafa de suco que tinha lá, para a hora do lanche. No fim, desisti e prossegui o caminho com sede mesmo. Estava me aproximando, agora estava á uns dois metros do lugar e eu podia ver parte da silhueta daquilo que causava o feixe. Parecia feito de vidro, mas ainda restavam muitas árvores á minha frente pra eu ter plena certeza. Parei para respirar um pouco e descansar minhas pernas enquanto pensava na burrada que fiz. Como pude me enfiar no meio da mata, no inverno, na hora em que devia estar já na escola, para encontrar o criador do feixe de luz que, provavelmente, era só um caco de vidro de alguém que jogara lixo ilegalmente ali. Bati com a mão na minha testa várias vezes enquanto repetia "Burra, burra, burra" para mim mesma. Bom, agora que estávamos aqui, iríamos até o fim, certo? Me pus a andar novamente e novamente quase caí na lama. É, hoje, definitivamente, não era meu dia de sorte. Quando cheguei mais alguns metros perto, engoli em seco. Aquilo não era um caco de vidro.

Definitivamente.

Andei fascinada direto para a visão a minha frente. Eu não podia acreditar! Como pude viver esses anos todos aqui e não perceber? Era lindo!

Respirei fundo e me esgueirei para fora da mata, parando de frente à um casarão antigo, completamente intocado. Ele era fascinante! Suas paredes brancas se estendiam bem ao alto em um estilo nobre, sacadas brilhantes pareciam feitas de mármore, mas acredito q isso estava longe do possível, sua porta principal, que parecia feita de mogno, tinha mais de 3 metros e era inteiramente decorada de desenhos florais uniformes que se completavam entre si. Um jardim florido de rosas, amores-perfeitos, jasmins e heliotrópios roxos se estendia à frente graciosamente, quase uma extensão da casa; no meio uma fonte redonda que expelia água tranquilamente. Meus ouvidos se concentraram no barulho da água até meu fôlego se normalizar. Eu estava aturdida com tamanha beleza daquele lugar perdido no nada; era tão belo que pensei seriamente duas vezes se estava vendo aquilo de fato, ou alucinando. Seus portões elegantes se estendiam à metros de minha cabeça em uma dança harmoniosa de hastes de ferro negras. Pequenos botões de flor feitos de metal enfeitava as ondas do portão em intervalos regulares. Respirei fundo por um minuto, não resistiria à uma olhadela mais de perto. Minha mão levemente suada tocou a maçaneta de metal esquia e empurrei o portão pra dentro. Ele rangeu levemente e abriu passagem. Com as canelas ainda dormentes do esforço de pouco tempo atrás, me arrastei calmamente pra dentro do enorme pátio florido.

A terra lá dentro era fofa e macia, o completo oposto do lamaçal da floresta. Bem-te-vis voavam freneticamente nas copas das árvores mais altas, cantando alegres. O lugar parecia ter saído de um sonho. Me belisquei, só para verificar. Andando pelo que me pareceu uns vinte minutos, cheguei á soleira da porta. Ela parecia ainda mais altiva e fascinante de tão perto. Pude ver claramente os desenhos de querubins voando aqui e ali, feitos na madeira da porta. Fiquei parada por o que pareceu uma eternidade, até criar coragem suficiente para empurrar a grossa e grande porta de mogno.

O interior, como presumi, era tão fabuloso e fascinante quanto sua visão exterior. A sala se estendia pela direita em um enorme espaço preenchido de um tapete vermelho vinho pesado, janelas ao fundo deixavam transpassar a leve claridade de fora, em um brilho mágico. À minha frente se estendia uma grande escadaria curva, alva e intocada, com corrimãos que se ondulavam do topo em uma graciosa dança prateada. Onde eu havia parado, notei, era um corredor pequeno que unia ambos os cômodos, incluindo uma passagem ao fundo da grande sala, onde achei que ficaria a cozinha. À minha esquerda, um pequeno móvel de mogno, de aparência antiquada, do tipo que encontramos em brechós e lojas de antiguidade, reluzia num brilho estranhamente novo. Em cima dele pendia um espelho de mesmo estilo, onde pude ver o reflexo de minha fronte levemente redonda em um tom azeitonado que agora estava pálida pelo frio. Minhas bochechas ardiam, mas minha pele não estava suficientemente pálida para poder ver o rubor nelas. Pressionei meus lábios fortemente, enquanto via como meu cabelo comprido e castanho estava espetado e bagunçado. De fato eu não estava no meu melhor dia, mas nunca me senti feia, na verdade. Meus olhos castanhos, eram redondos como bolas de gude e brilhavam em um tom chocolate e minhas bochechas eram cheias, redondas e saltadas, mas nada era tão exagerado ao ponto de me fazer me odiar. Me analisei meticulosamente por alguns minutos, sem parar de pressionar meus lábios sequer um minuto. Foi quando pensei ter visto um vulto apressado passar pela sala, me fazendo saltar pra trás com espanto. Eu varri com os olhos o ambiente, mas nada parecia ter ocorrido. Minha respiração, que se acelerou pelo susto, agora começara á se normalizar. Levei uns trinta minutos para arriscar algum movimento, mas de fato nada havia ocorrido.

Bufei.

Depois de mais uma olhadela pelo ambiente, decidi me aventurar ao segundo andar da casa. Corri meus dedos levemente pelo corrimão prateado enquanto subia as escadas lentamente. Ao chegar ao topo, me deparei com outro corredor, desta vez mais amplo, onde ambos os fundos ostentavam janelas amplas, com cortinas claras, trazendo claridade e vida ao local. À minha frente uma sequência de portas alinhadas que eu presumi que levaria aos quartos cujo as sacadas eu observei do lado de fora da casa. Decidi, mais uma vez motivada por minha curiosidade, que checaria pelo menos um dos quartos antes de sair. Escolhi o quarto do meio. Abri a maçaneta revestida em ouro e pus-me dentro do maior quarto que já vi. As paredes brancas e largas davam ao quarto uma claridade natural. Á esquerda tinham uma bela penteadeira rosa clara com um enorme espelho emoldurado com mais desenhos de querubins, á direita um enorme quarda-roupas também rosa claro adornados com desenhos de ninfas perfeitas, parecidas com a estátua de uma ninfa grega que vira uma vez numa excursão da escola á um museu. Ao lado da penteadeira, a ampla sacada que vi pelo lado de fora. No centro, uma cama de casal simples, porém, encantadora.

Me deitei por um minuto nela, me desviando o máximo pra não me enrolar no mosquiteiro que á cobria.

Me aconcheguei nos raios de sol que brincavam na grossa colcha e fechei os olhos para dar uma longa inspirada.

O pensamento coeso de que eu não devia estar fazendo isso se dissipou tão rápido de minha cabeça quanto o vapor criado por uma chaleira. Fiquei deitada pelo que pareceu alguns minutos até eu ouvir um som alto de asas batendo. Abri meus olhos, assustada, e vasculhei o lugar com meu olhar. Tal foi meu espanto quando vi um pássaro grande e negro, pousado na ponta adornada da cama.