Sparda era um demônio diferente, muito diferente dos outros. Enquanto a elite e os demônios menores mostravam seu poder através da crueldade, meu senhor preferia apenas observar e usar sua força quando realmente fosse necessário. Afinal, ele era o demônio mais poderoso da elite e o braço direito de Mundus. Não precisava usar crueldade para mostrar o tamanho de seu poder. Mas algo me incomodava. Havia vários demônios que tinham inveja de Sparda e muitos deles queriam destruí-lo e por causa disso existiam várias conversas que jogavam Sparda contra o próprio Príncipe e uma dessas histórias me chamou atenção. Segundo um demônio, Sparda estava indo para o Mundo Humano sem o consentimento de Mundus e isso poderia trazer graves consequências. Então fiz a primeira coisa que veio em minha cabeça: ir até sua morada, dentro da fortaleza, e ver se a história era realmente verdadeira.

Andei por um longo corredor iluminado por tochas, o que dava impressão que em cada sombra havia algum demônio me observando. Eu deveria estar acostumada, já que desde quando fui dada a Sparda, os demônios parecem sempre estar me observando de longe, esperando o momento para poder me devorar e tomar meu lugar. Como eu disse, demônios são invejosos.

Abri a grande e pesada porta me deparando com uma grande sala também iluminada por tochas. No fundo da mesma, havia um grande trono de pedra onde Sparda estava sentado. Aproximei-me e notei que ele estava de olhos fechados, talvez dormindo e eu não acordaria um demônio da elite, não mesmo. Teria que deixar as minhas dúvidas para mais tarde.

-Algum problema Ilya? — Ouvi ele perguntar assim que me afastei indo para os outros lugares da morada.

-Não queria acordá-lo, senhor – Aproximei-me e fiz uma pequena reverencia mantendo meus olhos no chão.

-Não acordou. O que aconteceu, me parece um pouco agitada. — engoli a seco.

Demônios da elite sempre sabiam como eu estava e esse era um dos motivos para eles me irritarem de todos os jeitos. Eu temia a maioria deles e eles sabiam disso pelo mesmo motivo que Sparda: eles eram muito fortes e eu muito fraca para bater de frente.

-O senhor irá me trocar por um servo humano... — Disse, ainda sem tirar meus olhos do chão. Eu tinha certeza que Lívia, o segundo demônio da elite que tem mais poder, havia feito a cabeça de Sparda. Uma hora ele acabaria cedendo e me trocaria por um humano, como Lívia disse: “...ela é um demônio e você o que isso pode significar: Falta de controle. Traição... Inúmeras coisas; é por isso que escolhemos humanos como escravos e não demônios.”. E bem, realmente humanos são mais fáceis de se lidar do que demônios.

-Não Ilya, eu não irei trocá-la por um servo humano – Ele riu como realmente estivesse se divertindo, o que fez me sentir a pior das criaturas. Pelo menos, ele não me trocaria pro azar de Lívia.

-Então o que irá fazer naquele lugar? — Perguntei sem querer e levei as mãos a boca. Isso me interessava, sim, mas eu não precisava perguntar. As vezes isso podia ser perigoso demais pra um demônio menor como eu.

Sparda suspirou , pensativo. Parecia estar incomodado com a pergunta e também não aprecia estar com muita vontade de falar sobre. Levantou-se e começou a andar pela grande sala.

-O que irei falar é para ficar entre nós e isso é uma ordem. — Eu concordei com a cabeça. Nunca iria desobedecê-lo. — Eu realmente irei a Mundo Humano, Ilya. E eu espero que você não seja como a maioria dos demônios e que me entenda. Eu irei ajudá-los.

Primeiro, assim que ouvi, não tive reação alguma, mas depois de alguns segundos pude ver o quanto Sparda estava louco em ir realmente contra o Príncipe.

-Senhor! Ouviu o que acabou de dizer? Irá ajudar humanos? São seres inferiores! — Disse, completamente irritada — Eles só servem para serem servos e... — Sparda me repreendeu com o olhar me fazendo ficar quieta.

-Podem ser inferiores, Ilya, mas isso não quer dizer que eles devem ser exterminados porque Mundus quer. — Rebateu.

-Mas... mas isso é loucura! Os outros da elite vão ficar furiosos, sem contar o próprio Príncipe! Ele irá perder seu melhor demônio...

-Se está com medo, – falou me interrompendo – não precisa me acompanhar.

Mais uma vez eu fiquei sem reação e comecei a pensar na ideia de Sparda. Eu não entendia por que ele queria salvar os humanos, mas eu não queria ser morta no meio da guerra. Mas mesmo assim... Sparda era meu senhor, eu fui dada a ele para ser sua serva e segui-lo em qualquer circunstâncias, mesmo elas sendo absurdas.

-Senhor... Eu irei acompanhá-lo – Finalmente disse.

Não demorou muito e Sparda não tinha somente a mim como seguidora, e sim uma quantidade grande de demônios que compartilhava sua ideia. Alguns, como o demônio que ficava com Lívia, fazia isso somente para provocar Mundus, outros realmente apoiavam Sparda. Em pouco tempo, estávamos partindo.

A primeira coisa que estranhei quando pisei no Mundo Humano, foi a claridade. Diferentemente do Inferno, o Mundo Humano era muito, muito mais claro e meus olhos ardiam por causa disso. Até eu me acostumar com isso demorou um tempo. Afinal eu vinha de um lugar onde a luz não chegava, mas isso não era importante, e sim como Sparda estava conseguindo lidar com a sua traição e como ele estava ajudando seres tão frágeis. Mas ele sabia que ficar lutando com os demônios no mundo humano não levaria a nada, já que os mundos estavam quase se tornando um. Então mais uma vez Sparda teve uma ideia. Dessa vez ele usou uma de suas espada, Yamato, para poder separar os mundos e com a outra, Rebellion, ele destruía os demônios que continuavam a vagar pelo Mundo Humano. A única espada que ele não tocava era Force Edge. Eu nunca soube o motivo dele não usá-la, pelo menos até ele ter outra ideia absurda.

Era noite quando ele chegou na antiga casa em que morou e que eu, agora, morava no Mundo Humano. Ele parecia calmo, apesar de nós dois sabermos que a situação estava complicada. Ele havia se relacionado com uma humana e, para todos os demônios, dessa relação nasceu um mestiço. O problema, é que não era apenas um mestiço e sim dois e isso não levaria Sparda a um lugar muito bom...

-Quero que você proteja Eva e os meninos – Disse olhando pela janela da sala.

-Para onde o senhor vai? Não me diga que teve mais uma ideia... — Sparda deu uma pequena risada.

-Irei usar Force Edge para prendê-los no Inferno.

-O senhor o quê? — Perguntei chocada o suficiente para não acreditar no que tinha acabado de escutar. — Se-Senhor isso é a maior loucura de todas! O senhor sabe que se fizer isso talvez não volte mais!

-Eu sei, Ilya. Por isso peço para que os proteja. — Ele me encarou sorrindo. Como se aquilo não fosse arriscado.

-Eu não acredito... Está fazendo isso pelos humanos, seres que as vezes são piores que nós demônios? Não, não é só por eles... É por ela também... Pela humana, não é?

-Eu sei que você não compreende o meu motivo, Ilya.

-E o senhor não compreende o meu! É uma humana...Ser com vida limitada! Ela não ficará aqui para sempre, senhor!

-Apenas, os proteja, sim? Você não precisa entender, apenas faça o que peço.

Assim que acabou de falar, saiu da casa me deixando sozinha e olhando para porta aberta. Ele não voltaria em sua decisão e talvez ele nunca mais voltaria. Então eu decidi que eu iria continuar a obedecê-lo, esperando e acreditando que ele voltaria.

-x-

Escuto Dante descer as escadas, mas não tiro meus olhos da Force Edge, agora, renomeada de Sparda, que estava apoiada na parede atrás da mesa de Dante. Uma bela homenagem, creio eu.

-O que está fazendo? — Ouço ele perguntar, mas as lembranças estavam me segurando – Ilya?

-O que é? — Viro-me para encara-lo e encontro um Dante me olhando confuso.

-Você está chorando? — Ele perguntou. Levei uma das mãos ao meu rosto e noto que ele está úmido.

-Que estranho – Dou um sorriso – Estranho para um demônio chorar não é? — Dante sorri, coisa que realmente é difícil de se ver.

-Demônios não choram, Ilya. — Eu rio com a frase.

-Então, pra você, eu não sou um demônio? — Dante concorda com a cabeça. As vezes ele é tão... diferente.

-O que estava fazendo? — Voltou a perguntar. Ando até o sofá, mas não sento.

-Estava lembrando... de seu pai.

-Do meu pai... Certo... — Dante dá um sorriso para mim, um sorriso quase malicioso.

-Não é nada disso! — Digo antes que ele falasse algo – Você é um idiota! Ele era meu senhor!

-E daí? — Dante pergunta sem se importar. Ele realmente é terrível.

-Como assim “e daí?” Dante? Eu sou – Ele me olha atravessado – Era uma serva.

Dante abre a boca para responder, mas o telefone o impede de dizer sabe-se lá o que e eu realmente não estou interessada em saber o que ele falaria.

-Tenho que ir – Dante se levanta pegando Rebellion, passa por mim e em cima da mesa de sinuca, pega as suas pistolas.

-Sem problemas – Digo sorrindo. — E pare de pensar idiotices. Seu pai amava sua mãe.

-Certo... Até mais tarde.

Assim que Dante sai, volto a minha atenção a Force Edge. Sparda foi um demônio especial e ele mudou a vida não só dos humanos, mas de muitos demônios também. Eu realmente queria, muito, que ele tivesse voltado. Não por minha causa, mas pelas pessoas que o amavam tanto e que nunca o esqueceram...

FIM

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