Spanish Guitar
1 Capítulo único
Notas iniciais
Espero que gostem.
A noite estava fria e nublada, flocos de neve caiam preguiçosamente do céu, a multidão apressada se espremia pelas calçadas da 7th Avenue South, apertando seus casacos contra o corpo, e eu estava estupidamente parado em frente ao Village Vanguard, hesitando em entrar ou não.
Por que meu coração estava tão disparado?
Segui o recepcionista que me guiou para minha mesa habitual e sorri de lado quando o garçom já me serviu meu drink de sempre. Eu já podia ser considerado um cliente frequente do clube. Vi as pessoas se acomodarem nas mesas ao meu redor e aos poucos as luzes foram de abaixando para que só o palco pudesse ser iluminado.
Por que me sinto tão ansioso?
O pequeno salão começou a ser envolto numa nevoa de gelo seco e então as primeiras notas ecoaram pelo local. As pessoas aplaudiram e você apareceu em toda sua glória angelical e com seu violão espanhol.
Por que estou fazendo isso?
A maioria das pessoas vinha para beber e dançar a noite toda, mas eu sabia que era você que elas queriam ver. Elas queriam ver o homem por trás daquele violão espanhol. Por trás daquela voz suave e contagiante. Fechei os olhos, totalmente embalado com a música, e deixei um sorriso sincero escapar pelos lábios.
Imaginei você me tocando, me abraçando e encostando seus lábios rosados por toda minha pele, a noite inteira. Fantasiei o momento em que nossos olhos se encontravam e com um sorriso malicioso você me dissesse: “sou seu”. Queria que você soubesse o quanto sonho em ter você pra mim, o quanto você é meu. Rezo baixinho para que seu olhar se esbarre no meu, para que sinta o mesmo que eu e que seja eu a pessoa que você acaricia e declama palavras de amor.
A cada nota musical eu me sinto ainda mais entregue a você, me tornei refém do meu imaginário e me decepciono quando a realidade vem à tona. É sempre assim...
Você não é meu. Não sabe nem que eu existo.
Já faz três semanas consecutivas que venho até o clube, sento no meio da multidão e imagino nós dois. Estou tão entregue numa paixão unilateral que me assusta. Seus dedos finos dedilham as cordas do violão com extrema habilidade, seu sorriso contagiante me faz querer sorrir de volta, apenas e exclusivamente para você, e seus olhos... Ah! Esses foram os culpados por esse pequeno fascínio que tenho.
Azuis como um céu límpido.
Mas você não sabe que eu existo... Provavelmente nunca saberá.
— Quer mais alguma coisa senhor? — o garçom me perguntou sorrindo polidamente e com um cardápio em mãos.
Nem por um segundo desviei meus olhos de você ou parei com meus pensamentos ao seu respeito.
— O de sempre — minha voz sai baixa, quase que num sussurro.
Como num estalo me lembrei de que até agora não sei seu nome. Não sei nada sobre você. Sinto uma paixão pelo cantor da casa e nem ao menos sei seu nome! Chamei novamente o garçom e numa voz contida, como se fosse proferir um segredo guardado a sete chaves, perguntei:
—Qual o nome do cantor? — tentei ao máximo esconder minha ansiedade e vesti minha tão habitual máscara de indiferença.
— Uzumaki Naruto, senhor — o garçom sorriu e olhou para o loiro no palco. — Ele está em meio período aqui no clube pra pagar a faculdade, sabe?
Escutei o garçom falar e meus olhos se voltaram para você. Sorriso satisfeito no rosto, olhos fechados e entoando melodias que me inebriavam de tal maneira que eu nem conseguia expressar em palavras.
— Faculdade de que? — perguntei ansiando por mais. Por saber sobre você.
— Música no New York University — prendi a respiração quando escutei o garçom e tentei não expressar a surpresa evidente.
Estudávamos tão perto e eu nunca havia te visto! Dispensei o garçom e voltei a te olhar. Meu coração palpitava em meu peito e minha boca estava seca. Talvez fosse a possibilidade de ter te encontrado na faculdade sem saber, talvez fosse o fato de que agora você cantava olhando para a plateia... Talvez fosse tudo isso, mas eu não estava pensando em descobrir porque me encontrava tão desconcertado.
Repreendi-me mentalmente e me indignei. Eu não era assim! Eu, sempre tão centrado, controlado e desprovido de sentimentos, não podia estar tão entregue para outro homem que eu nem ao menos conhecia!
Eu sou Uchiha Sasuke e não fico suspirando ao olhar um cantor meia-boca cantar num bar simplório! Faça-me o favor!
Olhei uma última vez para você e num momento inesperado, você me viu. Seus olhos azuis se prenderam nos meus orbes negros e vi seu sorriso se ampliar. Minhas bochechas esquentarem e me senti patético ao constatar que corava. Eu já não consegui desviar os olhos do seu e durante toda a noite você cantou me olhando.
Analisando cada pequeno movimento meu, assim como eu sempre fiz com você durante as três semanas consecutivas.
.
Eu via você ser um dos primeiros a chegar, se sentava de frente ao palco, na mesa no centro do salão. Pedia sempre a mesma coisa, e quase nunca terminava o segundo copo. Seus olhos negros me observavam com uma atenção exagerada e todas as noites, num momento qualquer, você fechava os olhos e sorria pequeno e feliz.
No final do show, era sempre o primeiro a levantar e ir embora. Seu copo esquecido pela metade na mesa era a última coisa que eu via quando olhava em sua direção aos finais de cada apresentação.
Fugia.
Não sei por que, mas sempre parecia fugir de alguém. Talvez de mim, quem sabe. Nunca me deu brechas para uma aproximação, mas sempre me observava com um brilho diferente no olhar.
Quem era você?
Hoje completa três semanas que vem me ver. Nunca parei para olhar você, mas sabia que me olhava. Nunca cruzamos os olhares ou sorrisos, nunca escutei sua voz. Provavelmente você pensa que eu não sei que você existe. Que não sei que me observa todas as noite e que fecha os olhos imaginando coisas sobre nós dois.
Eu conheço aquele olhar.
Além de que meus amigos comentam sobre você. Eles também sabem o que você pensa. Sabem o que vem fazer aqui todas as noites. Estou curioso, não posso negar, para saber quem é você. Saber sobre sua vida, seus gostos. Provavelmente tem a minha idade. Será que estudamos na mesma universidade? Talvez não. Nova Iorque é uma cidade grande, afinal.
Pedi ao meu amigo que te impedisse de sair correndo ao final do show. Quero falar contigo, saber sobre você e descobrir qual o seu timbre de voz. Ver de perto seus olhos tão negros e sentir o perfume e maciez desses fios negros azulados.
Encantei-me quando trocamos olhares e você corou.
.
No final fui impedido de sair do bar. Disseram-me que alguém queria falar comigo e que era para eu continuar sentado em minha mesa. Por algum motivo meu coração está acelerado e meu estomago está se revirando, agitado.
Minha imaginação diz que você vai se sentar bem na minha frente e vai sorrir daquele jeito lindo de quando trocamos olhares a poucos minutos atrás. Apertei minhas mãos por debaixo da mesa e fechei meus olhos, tentando me acalmar e deixar que minha máscara de indiferença pareça mais natural. Escutei a cadeira a minha frente ser arrastada e pressupus que o motivo de eu ainda estar aqui havia acabado de chegar.
Qual não foi minha surpresa ao te ver sentado a minha frente, com um sorriso lindo nos lábios rosados e olhos brilhantes me fitando divertidos?
Arfei assustado e senti meu corpo tremer ansiando por toques seus. Como meu corpo ansiava isso se nem havíamos trocados cumprimentos?!
— Boa noite — escutar sua voz tão de perto e tão baixa foi quase um crime. Um assassinato a sangue frio. Meu coração palpitou e por um momento me perdi em seu olhar.
Por que estou assim?
Por que me sinto assim?
O que você tem, afinal?
— Boa noite — respondi depois de alguns segundos tentando me acalmar mentalmente e forçar minha voz a sair firme.
Vi quando fechou os olhos e pareceu apreciar minha voz.
— Sou Uzumaki Naruto, e você? — perguntou me estendendo a mão.
Tocar em sua pele foi maravilhoso. Como conseguia ter mãos tão macias?
— Uchiha Sasuke — disse sorrindo de volta, só você me fazia sorrir assim.
Vi Naruto sorrir ladino e um arrepio gostoso percorreu minha espinha. Nossas mãos ainda estavam juntas, você apertava levemente, e eu não fiz menção alguma de querer soltá-la.
— É um prazer te conhecer, Sasuke — não deixei passar despercebida a entonação naquela palavra.
Agradeci mentalmente por não ter saído mais cedo como eu teria feito normalmente, mesmo o garçom tendo pedido para que eu esperasse. Talvez se eu tivesse ido embora, nunca teria tido coragem para me aproximar de você.
Talvez...
.
Sua voz era levemente rouca, firme e decidida. Senti meus pelos se arrepiarem quando se apresentou e tive que saborear o som daquelas palavras saindo de seus lábios finos. Temi que não me esperasse como pedi para avisarem. Você não tem cara de quem obedece à ordem de alguém desconhecido. Mas suspirei aliviado quando te vi sentado à mesa, esperando quase impaciente que eu aparecesse-se.
Tenho certeza que não sabe que fui eu quem pediu que esperasse.
Quando me sentei a sua frente e me viu, me segurei para não rir da cara assustada que fez. Trocamos formalidades e embalamos numa conversa gostosa. Você não é de falar muito, mas eu fazia isso por nós dois.
No final da noite eu percebi que estava tenso. Provavelmente pensando como se despedir de mim. Ri divertido com seu constrangimento e facilitei as coisas quando te puxei e te beijei com desejo.
Não consigo imaginar final melhor para aquela noite. Foi tudo tão gostoso e intimo que me arrepio só em lembrar. Seus gemidos em meu ouvido, suas unhas deslizando por minhas costas, seus cabelos negros azulados grudando na testa devido ao suor.
Foi naquele momento de prazer que eu percebi que você seria minha perdição.
Você seria minha mais louca paixão.
Acho que...
.
...Eu já te amasse desde aquele primeiro dia.
Há três anos, numa noite fria quando você me sorriu pela primeira vez.
.
...Eu comecei a te amar sem saber naquele primeiro dia, quando sorri para você pela primeira vez.
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