Notas iniciais
Essa é uma fic que eu escrevi há muito tempo com personagens originais e estava engavetada. Resolvi adaptar par ao universo CDZ para quem sabe concluí-la! Tive novas ideias a respeito e vamos ver que bicho dá

— Bem vindo à divisão de intervenção das Forças especiais Primeiro Tenente Camus Chevalier. Seu posto é o 491 ala norte, lá está sua especificação de treinamento. – boas vindas dignas do exército, embora o oficial Memphis fosse um tanto caloroso no sorriso que deu. Esse sorriso poderia muito bem ser de “Bem vindo ao inferno recruta” pensou Camus consigo.

Camus já tinha passado pela grande prova nos campos de treinamento das forças especiais então sabia bem como era a coisa toda. O treinamento era sub-humano, os recrutas eram alimentados pior que cães de rua e no final quem sobrevivesse ganhava o direito de fazer parte da força de intervenção intergaláctica da Terra. Era realmente uma “dádiva” para poucos e só desesperados se candidatavam ao treinamento.

O que era o caso de Camus.

Ele não poderia fazer outra coisa depois de ficar sozinho no mundo aos treze anos e ter que se virar nos abrigos até que o Patriarca decidiu que todos os “incapazes abaixo da idade mínima de dezesseis anos” seriam recolhidos pelo Estado para serem soldados das Forças Especiais. Era um modo pratico de ter soldados para a guerra e livrar os países da pobreza extrema. Sendo assim desde os treze anos sua vida tem sido as Forças especiais e lutar, para sobreviver e por respeito.

Era o melhor soldado da sua divisão. Precisava ser ou então seria apenas a boneca de trapos dos oficiais. Agora eles sabiam que ninguém poderia acordá-lo no meio da noite sem ter a garganta cortada. Mas isso foi durante o treinamento básico, atualmente sua patente de Primeiro-Tenente Chevalier é algo respeitável... Pelo menos era na sua divisão, agora não tinha tanta certeza.

Na divisão de intervenção as coisas eram um pouco diferentes, fora o que ouvira dizer... As histórias não o deixaram dormir por dias! Porém, Camus não teve alternativa a não ser aceitar a transferência para lá, tinha que obedecer.

Então, cheio de temor interior foi se apresentar no posto 491.

— Primeiro-Tenente Camus Chevalier se apresentando no posto 491 das Forças Especiais Intergalácticas. – disse o general assim que Camus ficou frente a frente com o oficial responsável do regimento. Ele estava de costas olhando pela janela quando se virou e o primeiro tenente ficou surpreso. Era tão jovem! Talvez apenas uns quatro ou cinco anos mais velho que ele.

— Bem vindo Primeiro Tenente Chevalier. – a voz era grave e rouca, profunda, uma voz que conseguiria respeito mesmo se fosse sussurrada. O rosto era viril, os olhos pareciam supernovas com uma miríade de cores, a boca perfeita. Camus nunca reparou em beleza, mas não conseguia deixar de notar que ele era bonito demais para estar ali. Ele poderia ser um astro de cinema, um modelo ou apenas rico demais para não precisar se juntar a força intergaláctica – Suas recomendações?

Camus estendeu sua ficha e ele a pegou sentando-se na própria mesa para examiná-la enquanto o outro permanecia em posição de sentido esperando que terminasse de ler e o dispensar ou indicasse onde Camus deveria ficar.

— Você tem credenciais impressionantes para alguém tão jovem... – o general o olhou bem nos olhos e completou – E para alguém tão delicado.

Camus se mostrou impassível diante do comentário. Já ouvira coisas piores então estava relativamente acostumado, o general à sua frente não seria o primeiro a tentar desestabilizá-lo com aquele tipo de comentário ferino. O general esperou uma resposta ácida que Camus guardou num lugar trancado em sua mente e então se resignou e lhe entregou o painel portátil.

— Tenente Chevalier vá alocar-se no bloco de dormitórios e esteja presente as primeiras instruções das Forças Especiais no pátio central em vinte minutos. Está dispensado.

Camus bateu continência e saiu pensando que talvez a divisão de treinamento das Forças Especiais não fosse tão ruim assim no fim de tudo.

Depois acomodar-se no pavilhão de dormitórios conforme indicado, Camus estava a caminho do pátio central com algumas dezenas de recrutas. Observou que todos ali eram muito jovens, até os oficiais. O General ao qual se apresentou nem parecia ter quarenta anos ainda e todos os outros eram assim, jovens e fortes.

Também não havia os brutamontes que conhecera na divisão de treinamento. A maioria dos soldados era de estatura média, atléticos sem serem magros demais, todos pareciam pertencer a um padrão. Acho que o mais robusto de todos era o General que ele observou com pesar não tivera a decência de saber o nome.

— Novo aqui? Apesar de eu achar que já vi você em algum lugar.

A pergunta lhe despertou do exame que fazia em volta e então notou que havia um homem do seu lado que sorria abertamente. Era um sorriso enorme e cheio de calor, que o surpreendeu um pouco. Camus assentiu e ele estendeu a mão.

— Meu nome é Mu como você se chama?

— Primeiro Tenente Chevalier. – ele o olhou espantado – Desculpe, mas na minha divisão não permitem primeiros nomes.

— Divisão de treinamento para as Forças Especiais nível onze certo? Sabia que tinha visto você antes! – ele deu de ombros – Eu também sou de lá, fui transferido ano passado. Aqui é mais brando do que nas outras divisões você vai ver. A maioria aqui é amiga, nós temos bastante companheirismo e os oficiais são legais.

— Deve ser para vocês. – o ruivo fez um gesto em volta – Não há mulheres aqui?

— Há sim olhe para a primeira fileira. – ele indicou para a primeira fileira do pelotão. Havia três mulheres lá junto com mais quatro oficiais. – A de cabelos castanhos é a Primeiro Tenente Shina Macqueen e ao lado dela Segundo Tenente Pandora Bellow, são da inteligência. Capitã Marin Craig, ela é chefe do corpo médico e os outros são Subtenentes médicos Saga e Kannon Papadopoulos. Por último o assistente do comando tático e braço direito do General Savalas, Major Shaka Parker. Não se engane com aquela cara de anjo, ele é durão. E qual sua especialidade Tenente?

— Primeiro Tenente Camus Chevalier especialista em dispositivos explosivos, combate armado e perito em artefatos nucleares. E você é? – perguntou ainda olhando os oficiais perfilados na primeira fileira, outros oficiais tinham se juntado a eles e conversavam até que o General chegou com mais dois Tenentes, mas esses eram tenentes coronéis.

— WOL! Você conseguiu me impressionar. Eu sou o subtenente Mu Ngapoi... – ele sorriu outra vez – Acho que eu tenho que bater continência para você.

— Dessa vez eu deixo passar subtenente Mu Ngapoi. – Camus bateu no bolso do uniforme onde estava a patente dele e o seu nome de oficial e os dois sorriram, Mu parecia um cara bem amistoso. Pelo menos tinha indo falar com Camus amigavelmente, o que não aconteceria na sua antiga divisão.

— O chefe Milo chegou. – ele apontou outra vez. Parecia verdadeiramente feliz em colocar o francês a par de todos ali e Camus deixou que ele continuasse a se divertir – Foi a ele que você se apresentou? Ele é bem durão, mas não fique preocupado ele só um pouco intimidador... Tem os problemas dele lá, mas é um cara legal e ele não vai tratar você injustamente. Eu sei como é difícil a divisão de treinamento então eu entendo você.

— Obrigado Mu... – essa declaração o desarmou, as palavras dele tinham tanta sinceridade e compaixão que Camus se comoveu um pouco, não estava acostumado com aquela civilidade e companheirismo e pensou que talvez Mu fosse um bom amigo se permitisse.

— Atenção pelotão!

Os soldados perfilaram-se com a ordem. Com aquela voz grave e forte o General Savalas não precisaria de muita coisa para intimidar. “Chefe Milo” Mu o chamara e Camus ficou se perguntando como seria esse tal chefe que era chamado pelo primeiro nome pelos seus soldados e ainda sim era tão intimidador.

— Bem vindos à divisão de intervenção das Forças especiais. Nós somos um grupo tático especializado em intervenção em terreno hostil, convocado para intervir dentro do território inimigo se necessário. Muitos de vocês já ouviram falar de nós e nada do que ouviram é verdade – ele se permitiu um meio sorriso – É tudo bem pior.

Gargalhadas que deixaram Camus de boca aberta. Realmente tudo ali era diferente.

— Aviso que todo o empenho de vocês será pouco, eu exijo mais. Não podemos errar ou o inimigo vence. Nos próximos meses vocês serão treinados dentro dos nossos programas de intervenção e assim poderemos alocar vocês conforme suas melhores habilidades. Eu sou o General Milo Savalas o dono de vocês agora e vocês me devem a sua alma.

— E ele não está brincando quando diz isso. – Mu segredou e ambos riram discretos. Mu parecia pacifico e amigável, mas Camus acreditava que tudo seria uma fachada para uma personalidade excêntrica.

Alguns oficiais se apresentaram e logo os novos recrutas foram divididos em grupos para iniciar o treinamento. Camus e Mu ficaram no mesmo grupo o que deixou. Passaram à tarde entre primeiras noções de estratégia e exercícios físicos até que chegou a hora do almoço.

— De onde você é? Você tem família? – Mu perguntou depois que sentaram em uma mesa afastada só os dois.

— Sou do cinturão do Sul, mas depois de recolhimento vivi no cinturão de Greenwich quase sempre. Minha família foi morta na Primeira catástrofe, só sobrou meu irmão e eu... Mas eu não o vejo desde que fomos separados em Greenwich. – Camus falou aparentemente indiferente, mesmo que lhe doesse falar aquelas coisas Mu de certa forma notou ou aquilo era triste demais e o tibetano se confrangeu, porque sua expressão ficou pesarosa e ele esticou a mão para confortar Camus que se retesou e Mu mudou de ideia no meio do caminho – E você?

— Cinturão Sul hein? Eu imaginei por causa de toda essa sua frieza! Quase não há sobreviventes por lá não é?

— Não... Depois da Primeira catástrofe pouca coisa sobreviveu por lá, nós mesmos vivemos nos subterrâneos por anos e pouca gente sobreviveu aquilo... – Camus continuou com sua fachada indiferente. Era uma tragédia geral, muitos viveram coisas parecidas, mas falar disso para ele era difícil do mesmo jeito – As crianças todas foram levadas para o Cinturão de Greenwich e muitas foram parar na Divisão.

— Eu tive mais sorte do que a maioria das pessoas na Primeira catástrofe. Depois que as bombas começaram a explodir e espalhar radiação, muita gente do meu cinturão conseguiu sobreviver nas montanhas, poucos foram os que morreram nos ataques. Nós estávamos preparados para os ataques, é incrível como a maioria dos cinturões não estava! No cinturão do Norte, a gente tinha os abrigos e tudo mais e conseguimos acolher até os refugiados dos outros cinturões que sobreviveram.

— É por isso que agora o seu Cinturão é a capital da Nova Terra Mu e não os outros. Não fique se remoendo por isso! – retorquiu Camus – Por que você come sozinho tenente? Eu pensei que antissocial fosse só o “Chefe Milo”.

— Por que eu sofro bullying por ser do Cinturão Norte e ninguém entende o que eu faço aqui. – ele respondeu sem olhar e Camus compreendeu o desespero dele por querer fazer amizade. Pessoas do Cinturão Norte eram hostilizadas porque eram sobreviventes da Primeira catástrofe, do primeiro ataque que a Terra sofreu dos alienígenas. Anos e anos pesquisando vida extraterrestre para o planeta ser quase exterminado por essas coisas. Todo o mundo sofreu com o ataque, alguns lugares foram totalmente dizimados, mas alguns resistiram e com muito esforço e sangue surgiu a Nova Terra... Que está resistindo até agora.

Não é tão simples sobreviver atualmente. Antes onde existiam países existem os Cinturões. São faixas de território fortemente guardadas onde um terço da antiga população humana tenta viver normalmente. A vida corre normal até que as sirenes soem com o anúncio de um ataque eminente! As pessoas não podem sair de um cinturão ao outro sem estarem fortemente armadas e verificadas, onde antes existiam estradas e arranha-céus hoje existem escombros e mata selvagem onde habitam criaturas que nem nos piores pesadelos o ser humano foi capaz de um dia imaginar.

Os aliens estão por toda parte e é por isso que há guerra. Nova Terra luta para sobreviver.

— E o que você está fazendo aqui Mu?

Camus queria verdadeiramente saber. Pessoas do Cinturão Norte não precisavam lutar porque o Patriarca assim determinou, o Cinturão Norte seria o líder da guerra, mas não estaria nas trincheiras. Mas sempre havia pessoas como o garoto a sua frente, que tinham seus próprios motivos para lutar e não a necessidade. O Patriarca era o líder da resistência, era o líder do Cinturão do Norte e o salvador.

— Eu quero fazer alguma coisa, não ficar com meu rabo sentado num sofá esperando que pessoas morram para me proteger. – ele falou convicto.

E esse é Mu Ngapoi. Agora Camus via mais dele do que da primeira vez, apesar de lembrar vagamente daquele garoto loiro e de sorriso fácil do seu regimento antigo. Os olhos verdes dele estavam perdidos em lembranças agora, e ele parecia muito jovem para estar ali. Mas estava e merecia mais respeito do que a maioria, por querer fazer alguma coisa sem ser por obrigação.

— Você está fazendo a coisa certa Mu, não deixe que os outros o façam sentir o contrário – em um gesto atípico dele, Camus estendeu a mão e afagou a de Mu sobre a mesa – Eu mesmo estou aqui porque era minha única saída, muito embora eu provavelmente acabasse aqui por vontade própria porque também não admito ficar sem fazer nada.

— Me conta aí como era na sua divisão? – ele mudou de assunto bruscamente – Imagino que deva ter tido uma vida difícil. Vi você uma vez brigando com dois caras enormes no bloco F e confesso que até apostei que eles te matariam. – ele riu meio sem graça – “O que esse cara ruivo tem na cabeça por deus?!” eu pensei comigo.

— Eu tive que me virar, eu sempre fui um alvo fácil no começo. – o francês deu ombros – Como você disse minha vida lá era difícil.

— Eu imagino... Um cara bonito como você.

Camus desviou o olhar e Mu riu de novo, o ruivo não se dava bem com elogios. Ser bonito, como ele disse nunca fora uma vantagem para ele, sempre fora uma maldição! Na Divisão de treinamento desde os treze anos ele já parecia grande o suficiente para ser atraente e não foram poucas às vezes em que teve que repelir algum tipo de ataque no meio da noite ou investidas nojentas em plena luz do dia. Metia-se em brigas na maior parte do tempo pelo simples fato de ser quem era e isso o deixava enfurecido. Com a maioridade isso só piorou, pois agora era um adulto e potencialmente disponível para o sexo como ele tinha ouvido uma vez. Tentava ao máximo passar despercebido, mas os cabelos ruivos e o corpo levemente musculoso dos exercícios, os olhos castanhos avermelhados misteriosos e a indiferença gritante com que se portava, não ajudavam. Camus nunca se deixava dobrar facilmente e isso atiçava os outros mais que tudo até que um dia ele parou de se importar e começou a se defender. Depois de virar perito em combate corpo a corpo, armas brancas e degolar os dois soldados que o atacaram durante a noite no dormitório, ele fora deixado em paz.

— A última pessoa que me disse isso foi parar na enfermaria Mu.

— Foi só um elogio, não seja ingrato. – Mu terminou a comida dele e depois falou mais baixo – Mas não fique tão na defensiva porque aqui as coisas são bem diferentes do que na Divisão onze e um cara atraente como você vai chamar muita atenção.