Notas iniciais
-Boa Leitura!

Dia 1
19:25

Já não se passa mais nada na televisão e nem no rádio. O radioamador que eu comprei já não capita nenhum sinal de vida, dentro ou fora do Brasil. A movimentação lá fora está começando e eu estou ficando preocupado com o que pode acontecer comigo nos próximos dias. Minhas reservas de comida estão acabando, quase não sai água das torneiras e a energia elétrica acaba quase o tempo todo.
Estou sentado no sofá da minha casa, escrevendo neste diário que encontrei no porão. Era da minha filha, Esther. Ela havia me pedido de presente antes de toda essa desgraça, que aconteceu alguns meses depois.
Ela estava brincando em frente nossa casa quando eu percebi uma movimentação muito agitada na rua. Carros em alta velocidade, pessoas correndo desesperadas para todos os lados e tentando abrir caminho em meio à multidão. Eu confesso que estava com medo. Avistei minha filha no meio de toda aquela gente, tentando abrir caminho para voltar para a segurança de nossa casa. No mesmo momento eu corri até as escadas e desci ao primeiro andar. Corri em meio à bagunça, abrindo a porta da frente e correndo em direção ao tumulto. Mas quando eu cheguei ao lado de fora, senti meu mundo ser destruído. Ela estava lá, deitada no chão, respirando com muita dificuldade pela sua boca. Seu braço estava ferido. E percebi que ela não havia sido a única com ferimentos. Outras pessoas na rua estavam mancando com a pele de suas pernas rasgadas, ou com um pedaço do corpo faltando. Deus, aquilo era horrível. Eram como monstros. Monstros correndo em nossa direção. Eles estavam vindo para cima de nós. Esticando seus braços deformados em nossa direção, com seus olhos sem vida. Segurei minha filha em meus braços com toda a força que pude. Minhas pernas estavam tremendo quase sem equilíbrio. Corri para dentro de minha casa e fechei o portão de aço atrás de mim, quando larguei minha filha no chão e corri para buscar algo para bloquear o caminho daquelas coisas lá fora. Estavam chamando a atenção dos outros. Quando voltei, eu não havia encontrado nada pesado o suficiente para segurar o portão, ou o caminho daquelas coisas. Rezarei para que o aço maciço do portão fosse suficiente para segurá-los.
Minha filha estava sangrando muito, e eu não queria perdê-la. Eu ficaria sozinho no mundo. Mas temo que não haja nada a fazer, infelizmente. Pegue-a em meus braços, quando ela começou a sofrer convulsões e espasmos de dor pelo corpo. Ela gritava e chorava muito alto. Eu a abracei e pedi perdão à ela, pois não poderia fazer muita coisa. Eu nunca entendi nada sobre ferimentos, ou melhor, não sabia absolutamente nada sobre medicina. De certo modo eu já sabia o que aconteceria. De maneira alguma haveriam hospitais em funcionamento no meio desse inferno. Agora tudo que poderia fazer era rezar e esperar que tudo ficasse bem, o que eu estava achando muito improvável. Ela perdeu muito sangue neste dia e ainda estava com suas convulsões.
Eu havia colocado ela em sua cama e estava ajoelhado ao lado dela esperando para ver o que aconteceria. Já haviam se passado mais de quatro horas desde que ela havia sido machucada lá na rua e ainda podia-se ouvir o ruído infernal que aquelas coisas produziam quando ela deu seu último suspiro. Fiquei em choque, não conseguia me mover, até que eu desabei em choro, e pude perceber que seu rosto estava pálido e suas têmporas estavam coradas com um tom avermelhado, quando ela abriu os olhos para mim. O que está acontecendo aqui? Ela ainda está viva? Que alívio. Mas algo estava errado em seu olhar, quando ela começou a se contorcer sobre o lençol sujo de sangue, como se estivesse sendo eletrocutada. Me joguei para trás, recuei com muito medo quando ela caiu da cama e estava se arrastando para cima de mim. Levantei-me de um salto e corri, quando percebi que ela estava me perseguindo. Se jogou por cima de mim, mas consegui afastá-la para longe. Ela me alcançou e... Quando percebi, eu havia dado uma facada em sua cabeça. Mas não foi por minha própria vontade, por Deus. Eu nem sabia de onde havia tirado aquela faca. Talvez de cima da mesa em que esbarrei quando caí. Eu não me perdoo até hoje pelo que fiz. Chorei por horas, espiava pela janela como estava a movimentação lá fora e aquelas coisas ainda vagavam por lá e por todos os lados em que pudesse enxergar. Enterrei o corpo de minha filha atrás de minha casa no outro dia, durante a madrugada. estava chovendo e eu fiquei ajoelhado por um tempo ao lado do buraco no chão. Chorei o resto da noite, quando decidi escrever tudo aqui neste diário. Vou sair amanhã pela manhã daqui, e esta pode ser a última vez que registro algo sobre minha história.