Sozinho
6 Capítulo 5
Notas iniciais
Dia 5
Algumas horas da madrugada
Acordei ouvindo algumas batidas na porta do andar de baixo. Fiquei assustado, me perguntando se aquelas coisas conseguiram invadir minha casa durante a noite. Eram gemidos abafados, uma voz embargada, mas que parecia humana. Não eram aquelas coisas invadindo. Era uma pessoa.
Corri escada abaixo em direção à entrada e pude avistar uma sombra através do vidro.Estava escuro como nunca e a chuva caía torrencialmente lá fora. Alguém parecia estar chamando meu nome. Peguei um guarda-chuva que estava próximo e me pus em posição de ataque, então abri a porta. Era Cody. Estava enxarcado e ofegante. Ele entrou e eu dei uma olhada pela porta. Aquelas coisas pareciam em transe, paradas no meio da rua, balançando-se de um lado para outro.
Uau, o quê aconteceu aqui? — perguntou ele olhando para a bagunça. Mesmo no escuro, era possível distinguir caixas espalhadas pelo chão e móveis fora do lugar.
Bom te ver também, Cody Respondi, um tanto mais contente por saber aquele grandalhão, meu único amigo, ainda estava vivo — E o cachorro?
Está aí na frente Olhei pela porta e o avistei ao lado da porta.
Cody chamou Brad para dentro de casa e fomos até a cozinha. Sentei-me ao lado de Cody, de forma a ficar de frente para ele.
Uma daquelas coisas quase me pegou lá fora disse ele É como se conseguissem sentir a presença humana, mesmo com o som da chuva abafando qualquer tipo de ruído... Tem vinho?
Tenho Peguei uma garrafa de vinho e entreguei nas mãos de Cody. A chuva lá fora já estava se acalmando.
Ele se serviu, balançou um pouco a taça em que pôs o vinho. Eu olhava pra ele feito bobo. Era tão bom saber que meu amigo estava bem. Ele parecia neutro em relação a esse inferno. Cody está sempre de bom humor, não importa o que aconteça. Literalmente.
Não vai querer? — Ele ergueu a garrafa.
Não bebo, cara. Você sabe.
Então para quê tem vinho em casa?
Para o caso de alguém aparecer durante a madrugada, no meio de chuva e com um monte de monstros lá na rua tentando matar as pessoas, pra me pedir vinho, sabe? Nada demais Respondi e ele abriu um sorriso Aliás, como conseguiu entrar?
Pulei o portão. Ele Apontou para o cachorro cavou um buraco e passou por baixo.
É bom te ver, cara nós nos levantamos e abraçamo-nos. Cody estava gelado e molhado por conta da chuva. Busquei uma toalha e roupas limpas e cedi o quarto de minha filha para ele dormir.
Era pouco mais de nove horas quando acordei. Cody estava deitado na cama de minha filha olhando para o teto, e Brad estava correndo em círculos atrás de sua cauda.
Bom dia, senhor dorminhoco Disse ele.
Está acordado há muito tempo? — Perguntei e me encostei na parede.
Não dormi. Estive pensando... — Ele se interrompeu por um instante O quê faremos depois? E se morrermos? Eu não vejo minha família há muito tempo. Eles podem ter morrido. E se estiverem vivos, eu preciso encontrá-los Sua cara era de preocupação
Você tem algum objetivo, alguém para reencontrar nesse inferno? Talvez queira fazer algo antes de morrer para aquelas coisas lá fora?
Já que não é possível trazer de volta à vida pessoas que já morreram, a não ser aquelas coisas que parecem pessoas lá fora, então, bem, eu acho que não Respondi Nós temos que formar um plano, cara. Independente do que faremos daqui pra frente, teremos de conseguir um estoque de comida, roupas, armas, transporte...
Então começaremos agora mesmo.
Combinamos que traçaríamos uma rota até algum local seguro. O problema seria encontrar um local seguro. Aquelas coisas estão por todas as partes. Peguei tudo que poderia nos ajudar lá fora. Duas mochilas, algumas comidas enlatadas que não durariam dois dias sequer, roupas, uma barraca que era muito pequena, mas caberia Cody, seu cachorro Brad e eu, consegui uma corda para o caso de desistirmos de tudo e cometer suicídio ali mesmo a qualquer momento(Eu realmente pensei nessa possibilidade), alguns analgésicos, também tinha uma bússola, que eu nunca aprendi a usar, umas facas grandes e afiadas, que não seriam muito úteis, porém, seriam melhor que nada, meu diário e mais algumas coisas.
Combinamos que passaríamos em uma farmácia e compraríamos algumas gazes, comprimidos aleatórios que poderiam nos matar(Mas acho que isso até seria bom se acontecesse), e talvez pegássemos camisinhas para usar com aquelas coisas se ficássemos muito necessitados... É, acho que não é uma ideia muito inteligente. Depois partiríamos em busca de comida, e decidimos procurar por comida no mugar mais óbvio: O supermercado! Mas eu nunca me arrependi tanto em minha vida por ir fazer compras.
Saímos de casa, a farmácia e o supermercado não eram muito longe dali. Apenas algumas quadras. Brad estava conosco. Eu achei que ele poderia acabar atacando alguma daquelas coisas durante o caminho, mas ele estava ocupado demais tremendo de medo. Estávamos escondidos atrás de um carro branco, e espiávamos por entre as janelas do carro a movimentação da rua. Não tinham muitos monstros, mas o pior era que um estava vindo para a calçada, perto de onde estávamos. Contornamos o carro e quando tivemos chance, atravessamos a rua. Dali, seria mais fácil seguir em frente e chegar na porcaria da farmácia. O caminho foi um tanto tranquilo, tirando que uma das coisas quase me matou. Mas Cody enfiou a faca que carregava entre os olhos daquele monstro. Nunca vi tanto sangue frio. Eu teria me agachado e cagado nas calças, por conta do medo.
Chegando na frente da farmácia, a rua estava quase deserta, não fosse por aquelas duas coisas que andavam por ali, mas estavam longe, então não seriam uma ameaça muito grande. A porta não estava trancada. A farmácia estava um caos. Remédios jogados pelo chão, estantes reviradas, marcas de sangue espalhadas pelo chão branco. Aquilo era de assustar qualquer um.
Entramos, e fomos pegos de surpresa. Uma daquelas coisas estava lá dentro e nós não vimos. Cody entrou na frente quando foi atacado, e Brad se escondeu em um canto, com medo. Na hora eu não soube o que fazer, e quando percebi, o monstro estava caído co lado de Cody, que também estava no chão, ofegante. A coisa tinha uma faca enfiada no olho, parecia morta(Assim como todas aquelas outras coisas que vagam pela cidade, mas essa não se movia. Não mais) Eu havia dado um fim nela
Eu estava tremendo. Tinha acabado de matar algo que um dia já foi um humano, já teve sonhos, talvez tivesse filhos-monstrinhos espalhados pelas ruas... Eu me senti como um deles, um monstro. Cody percebeu que minha cara não era como a de alguém que passa sorridente pela rua como se tivesse conseguido a tão aclamada promoção no emprego.
Eu sei o que está pensando, Paul Ele começou Você se sente mal por ter de fazer isso, não é? — Assenti.
Cody levantou, puxou a faca e me entregou, toda ensanguentada. Limpei-a com uma gaze e fomos pegar tudo que pudéssemos carregar em minha mochila. A de Cody seria usada para a comida. Entrei no banheiro e parei em frente à pia. O espelo me mostrou o resultado de todo esse inferno; Um homem de trinta e cinco anos, rosto magro, marcas de idade aparecendo precocemente, primeiros fios de cabelo branco e a barba por fazer. Isso até me deu um charme, mas esse tipo de coisa não é importante nesses dias.
Quando juntamos tudo que podíamos, pusemos na minha mochila, descansamos um pouco. Eu e Brad brincamos de pegue o frasco. Eu jogava um frasco de remédio para longe, e ele não ia buscar. Estava começando a me apegar àquele cachorro(Sim, foi ironia). Cada vez que eu jogava um frasco diferente, o máximo que Brad fazia era abanar o rabo e botar a língua para fora. Cody estava sentado no chão, lendo algumas revistas que estavam jogadas por perto, até que decidimos seguir em frente.
Demoraríamos um pouco até chegarmos ao supermercado, então decidimos continuar logo. Haviam alguns mortos pela rua, carros largados no meio do caminho atrás de um congestionamento enorme, de carros que estavam tentando fugir da cidade e pessoas mortas por todos os lados. Eu perderia o juízo a qualquer momento. Os carros espalhados pela pista nos ajudaram a nos esconder daquelas coisas, então não demoramos tanto quanto pensei que seria. Cody e eu normalmente tínhamos assuntos para conversar, mas era muita tensão sobre nós, então passamos a maior parte do caminho calados, não fosse pelas vezes que chamávamos um ao outro pra decidir que caminho tomar para desviar de uma daquelas coisas.
Aquele supermercado era grande. Grande do tipo WOOOOOOW!!! Já visitei muito aquele lugar, e ainda assim não conheço todas as partes. A porta de vidro estava aberta, como de costume. O interior não estava muito melhor que a parte de fora. Pudemos ver lá dentro alguns corpos, comida espalhada pelo chão, aquelas coisas olhando para o nada, prateleiras quebradas... enfim, um inferno.
Tudo estava ocorrendo bem, conseguimos passar despercebidos por aqueles monstros, estávamos enchendo uma das mochilas com enlatados e frutas, coisas que fossem durar por alguns dias para sobrevivermos. Estávamos ao lado de uma prateleira cheia de todo o tipo de chocolate, quando atrás de nós, irrompeu uma coisa daquelas, gritando desesperada enquanto seguia em nossa direção. Faltava-lhe um pedaço do braço, sua roupa estava rasgada e suja de sangue. Sua pele era pálida, um tanto esverdeada e seus olhos eram órbitas sem vida. Quando aquilo nos alcançou, Cody lhe deu uma facada. Mas aquilo era o menor de nossos problemas. Do outro lado do corredor haviam um monte deles seguindo em nossa direção. Gritei para corrermos, então Cody pegou sua mochila e carregou Brad. Brad latia feito louco para aquelas coisas. Uma vez ou outra tivemos de desviar por corredores diferentes para sair do caminho de alguns daqueles monstros, mas conseguimos despistá-los por um tempo. Aproveitamos a deixa e corremos para o banheiro, nos trancamos e decidimos ficar até ter certeza de que está tudo bem. Comemos alguns enlatados e bebemos um pouco da água que conseguimos. No momento, estou sentado ao lado de Cody, escrevendo no diário. Pretendo escrever mais assim que possível, espero que eu ainda tenha chances de escrever de novo. Pretendemos partir daqui pela manhã, se nada der errado.
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