Depois de tanta provocação, Malena apenas parou e abaixou a cabeça, como se alguém a tivesse desligado, apertando um botão em suas costas. Era o fim, estava atrasada... Fazia mais de meia hora que estava ali, brigando com um estranho gritalhão. Sua raiva se transformou numa mistura de estranhos e indesejáveis sentimentos.

— Veja só, acabou! O combustível do trator acabou! — caçoou Lauro, agora equilibrado numa majestosa pedra, sentindo-se o rei da selva.

Pode parecer um tanto quanto infantil, leitor, mas espere e verá...

— O que aconteceu, pobre menina?

— Os minutos...

— Que minutos?

— Os que eu tinha... Das poucas coisas que tenho... Você os roubou!

— Roubei? Minha nossa, vou para a forca! Ou para a grilhotina, né?

— Aff, é “guilhotina”! E cale a boca!

— Esquisita!

— Sou? Sou... Mesmo? Obrigada!

De seus olhos agora brotavam lágrimas. Sem forças, ela caiu na grama macia e notou as pequenas estrelas no céu enegrecido, piscando com humildade, como se estivessem lamentando o que acabavam de presenciar. As lágrimas não paravam de lhe escapar dos olhos, inundando tudo, transformando o lago num rio, o rio num mar, o mar num oceano. Não podia nadar, não conseguia se mover naquela inundação. Mas seu corpo não afundava...

— Bosta boia! — berrou Lauro, agarrado num tronco de árvore para não se afogar.

A esta altura, Malena não estava mais dando atenção. Aquelas pequenas estrelas começaram a crescer! Cresceram de uma vez! Estavam enormes e seu brilho fez com que os olhos da moça se fechassem. Aquilo tudo parecia um estranho pesadelo, uma confusão dolorosa.

Malena se agarrou numa estrela, ainda com olhos fechados. Conseguiu sentir que podia pegar naquela esfera brilhosa, cheia de mini espetos. Agarrou o astro com firmeza e, quando abriu os olhos, viu Lauro rindo sem parar, ainda agarrado ao tronco.

— Escute, você causou tudo isso, peste! — acusou Malena, apontando o dedo com gosto na cara de seu inimigo.

— Claro que não, baby! Você que começou com “nhe-nhe-nhé” e eu não pude evitar um contra ataque!

— A água está ficando verde! — avisou a moça, mas ele deu de ombros.

— Deve ter gosto de menta, vou provar!

— Não beba!

— Está preocupada comigo? Sabia! Você me ama, né?

— Idiota, não beba! Não quero ficar traumatizada por ver alguém morrer, quem quer que seja.

Sem lhe dar ouvidos, Lauro provou da água esverdeada. Olhou para cima e, com uma risadinha cínica, tentou provocar. Malena não deu a mínima, continuou agarrada na estrela, como se aquilo fosse fácil como se equilibrar numa bicicleta.

— Menta nada! É pura hortelã!

— Como se eu ligasse... Grande bosta! — Malena respondeu rispidamente.

— Hey, olhe só! Tem uma criatura estranha voando atrás de você! — disse Lauro, apontando.

Quando olhou para trás, Malena viu um rinoceronte com asas de borboleta, enormes e cintilantes asas de borboleta, sobrevoando com leveza o oceano de lágrimas verdes. O animal fez um gesto com a cabeça e logo apareceram outras criaturas bizarras, como um peixe de cabelos loiros, lisos e compridos que saltava das águas de hortelã, fazendo coreografias no ar.

— São seus parentes? — indagou Malena, sentindo-se relativamente bem agora.

Sem palavras para contra atacar, Lauro abaixou a cabeça. Seus cabelos negros brilhavam intensamente (eram um charme!) e a jovem notou com certa relutância, pois não queria admirar aquele estúpido.

— Quer saber? Estou amando tudo isso! Eu sempre sonhei com um momento assim, pequena rebelde... Você é única, eu confesso.

— Por que está dizendo isso?

— Por que você me faz sentir...

— Blá, blá, blá...

— Não, é sério... Você me fez compreender muita coisa em menos de uma hora.

— O que, por exemplo?

— Que eu não preciso entender nada, apenas sentir! Não existe explicação, apenas sensação...

— O que você acha, querido borboceronte? — perguntou Malena ao rinoceronte alado.

A criatura balançou a cabeça e continuou no mesmo lugar. Dali a pouco, suas asas se transformaram em serpentina... Logo seu corpo também. Os demais animais bizarros igualmente se desfizeram em serpentina, colorindo o céu.