Sounds Of Wave
2 Compartilhando algumas memórias
Notas iniciais

Eu nunca pensei que uma rapariga daquelas, uma rapariga que até então se mantinha calada, tinha um potencial tão grande. Mas a canção que cantava não era feliz, era bem triste, com sentimentos fortes… Ela virou-se para mim com os seus olhos transbordando lágrimas e disse “Socorro” com aquela voz, que me era bastante familiar…
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Acordei na minha cama.
Coloquei a minha mão na testa, sentia-a molhada. Mais uma vez, tive este sonho.
Essa menina, a Rin, nunca falou com ninguém da turma… só a ouvia a cantar naquele dia, e também já a vi a ter uma “conversa” com a Miku (ela simplesmente dizia “hm” e suspirava).
Elas duas, a Miku e a Rin, têm uma grande conetividade. A Miku, nestas duas semanas de início de aulas, ia sempre ver se a Rin tinha companhia e sempre almoçava com ela.
Olhei para as horas, 7:15. Levantei-me silenciosamente e fui vestir o uniforme e lavei a cara. De seguida desci as escadas com cuidado e dirigi-me para a cozinha, onde coloquei um avental e comecei a preparar uns salgados para o almoço, pretendendo oferecer a elas duas. Durante esse tempo assobiei uma canção, a canção que ela cantava, que desde então não a esqueci.
Consegui ouvir o despertador dos meus pais da cozinha e a prepararem-se, igual a todas as manhãs. Chegando à cozinha, a minha mãe perguntou o que eu fazia.
– Não vez bem querida, é comida para oferecer à namorada – respondeu o meu pai.
Corei e respondi que não era isso, que simplesmente queria ajudar uma amiga. Minha mãe agarrou-me e começou a dizer – o meu menino está a crescer tão depressa! Daqui a pouco já está a ir para bares e festas todas as noites e a fugir de casa!
Às vezes queria uma família um pouco… mais normal… Entrando no carro dirigimo-nos para o metrô como sempre, mas desta vez ao chegar à beira mar encontrei a Rin (algo normal) sendo que estava acompanhada pela Miku.
Pedi aos meus pais para pararem e perguntei se queria boleia (carona no Brasil). A Miku abanou a cabeça para um “sim” enquanto a Rin continuava com os seus olhos perdidos, desta vez no fundo do mar. Puxada pela azulada (ou esverdeada… ou como quiserem), a loirinha entrou dentro do carro.
Seguimos a viagem todos sossegados a ouvir rádio, até ao meu pai decidir começar (infelizmente) uma conversa.
– Não sabia que o meu filho tinha amigas tão bonitas – coloquei a mão da testa, o meu pai desde sempre que estraga as relações que tenho com os meus amigos quando fala, mesmo que seja algo simples.
– Eu acho que o problema era sermos só nós – respondeu a Miku ao comentário do meu pai, dando uma risada pequena.
– Também acho! Filho meus, sem poder de engate!? Não poderia se chamado meu filho esse – e dá um riso forte.
– Mas… — começa a azulada sussurrando para mim – acho que se demonstrasse as tuas qualidades seria muito mais bem-sucedido da vida – e de seguida olha para mim, com um olhar firme.
Eu sei o que ela queria dizer, desde pequeno que eu oiço os adultos a dizer “este rapaz é fantástico” e “se te esforçares um pouco mais poderás superar os melhores do mundo”. Desviei o olhar, para ver a última linha do azul do mar, numa tentativa de esquecer algumas memórias passadas…
Quando chegámos ao estacionamento, a Miku agradeceu e saímos todos do carro. Decidi então ter uma oportunidade de me aproximar dela.
– E-Então Miku, tu nunca andas ir por aqui…
–Eu moro aqui, mas costumo ir de carro com os meus pais. Hoje pediram-me para acompanhar a Rin.
Olhamos ambos para ela, estava a observar as árvores que perdiam as usas folhas de cores quentes, o outono acabara de chegar.
–Compreendo...
– E tu Len? Também moras por aqui?
– Sim, mas eu venho de carro com os meus pais até à paragem.
Ficamos calados por um bom bocado. Por simples aborrecimento comecei a assobiar, mas só depois de reparar que a Rin observava-me, só depois é que percebi que a canção que eu tocava era aquela que ela tinha cantado. Nesse instante que ficámos calados a olhar uns para os outros, o metrô tinha chegado e aproveitei a oportunidade de não começar a dizer nada de jeito.
Entrei no metro e sentei-me descansado, não conseguia parar de imaginar no que a Rin estava a pensar naquele momento, pois os seus olhos estavam radiantes, como se tivesse feito algo incrível…
# mais tarde #
O toque da escola tocou para o almoço.
Depois do metro não falei mais com a Miku, nem um simples “adeus” ou “vemo-nos logo”.
Suspirei.
Olhei para dentro da mala e olhei para os salgados. Nesse mesmo momento a Miku entrou dentro da sala para “levar” a Rin para não sei onde. Ela virou-se para mim e sorriu, de seguida vira as costa para a porta. Fiquei com vergonha de pedir e simplesmente decidi ir atrás delas.
Elas dirigiram-se para um jardim onde de seguida sentaram-se na relva, debaixo da sombra de uma árvore. Eu simplesmente encostei-me à árvore, no lado contrário sem que elas me visem, ou eu pensava que não estavam a ver pois passado um pouco a Rin levantou-se e sentou-se ao meu lado.
– Len, não te vi aí, estás sozinho? – perguntou a Miku.
– Eh, não... Acabei de chegar. Hehe! Ela sentou-se do outro lado e disse: — Então não te importas que nós possamos-te fazer companhia?
– Não, até fico agradecido – e sorri.
Lembrei-me dos salgados e retirei da pasta que estava ao meu lado e tirei a tupperware. Abri e perguntei – bem, eu fiz uns salgados, alguma das duas quer? – e só vi a mão da Rin a saltar com uma velocidade enorme, a tirar uns 5 croquetes e a correr para o grande edifício da escola.
A Miku suspirou – desculpa pelo comportamento dela, ela não costuma ficar com outras pessoas durante muito tempo.
– Mas… qual é o problema dela? – Perguntei com um ar calmo mas curioso.
– Eu também não sei bem, só sei que ela vive no seu mundo.
– Não será autismo?
– Eu já perguntei isso, mas dizem que não, que se comporta assim por coisas do passado...
– Como assim?
– Também não sei, talvez comece desde o início.
– Do início do quê?
– Se eu contar-te tu percebes. Eu tinha uns 9 anos quando a conheci…
# Memórias do passado da Miku #
– Vem cá Miku. — Meu pai chamou-me, a seu lado estava uma criança bonita, loira de olhos azuis – esta é a Rin, ela tem vivido uma vida um pouco triste, por isso quero que sejas amiga dela e brinques muito – ele foi-se embora deixando eu e a menina sozinhas.
– Olá o meu nome é Miku, você quer brincar? – Estendi uma das minhas bonecas para ela.
Ela olhou para mim com uma cara assustada, começou a andar para trás até cair no chão. Os seus olhos começar a ficar molhados e começou a chorar. Nesse momento entrou um rapaz alto de cabelos curtos que se agarrou a ela no momento que a viu a chorar.
– Eu… eu não queria que… eu prometo que não fiz nada! – Disse para defender-me.
O rapaz olhou para mim e sorriu, começou a acariciar a cabeça da pequena, olhou nos olhos dela e disse:
– Esta é a Miku – apontou para mim – ela quer ser tua amiga e brincar contigo, não te vai fazer mal nenhum.
A pequena olhou para mim, limpou os olhos, levantou-se e abraçou-me. A loirinha tinha um abraço quente que me confortava.
– Miku, porque é que não cantas para ela? – Perguntou o rapaz.
A pequena olhou para mim com uns olhos de desejo. Então comecei a cantar a primeira música que me lembrei, comecei a cantar o Hino da Alegria que tanto cantava na escola.
# Fim das memórias#
– E foi assim que a conheci, desde esse dia que eu tento fazê-la feliz, cantando, pois é a única maneira de a fazer feliz… E você Len, como a conheces-te?
– Como ei de dizer, eu ajudei-a no metro que ela ia se esquecendo da pasta. Quando cheguei à sala ela estava lá, e como ela estava numa maneira bonita de olhar para o céu que eu comecei a desenhá-la. Quando eu ia entregar-lhe o desenho ouvia a cantar… — … e deixa adivinhar, ignorou-te e continuou em frente – e deu uma risada. — Sim… mas nem é isso que me incomoda… é que tenho sonhado com elas todas as noites a pedir ajuda e… não sei o que devo fazer…
– Vou só dar-te uma dica, só faças o que quiseres, se não quiseres ajudar não o faças – levantou-se — okay?
– Okay – e sorri.
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