Soulmates
2 Father
Notas iniciais
Albus acordou acreditando que estava atrasado. Levantou correndo e foi direto para o banheiro. Abriu a torneira, encheu a mão de água e a jogou no rosto. Se arrependeu imediatamente, a água estava fria como gelo. Escovou os dentes o mais rápido possível, ignorando seu ritual matinal de tentar imitar os comerciais de pasta de dente. Voltou para o quarto num pulo, abriu o guarda-roupa e viu o uniforme perfeitamente arrumado no canto dele. Foi Ginny que havia o posto lá e ele amava muito sua mãe por isso. Vestiu a calça, os sapatos e começou a fechar os botões da camisa. Não tinha tempo para aquilo, enfiou a gravata verde e prata num bolso e o celular no outro. Pegou a mochila já arrumada e começou a descer as escadas em direção à cozinha. Ainda abotoando os botões da camisa, ele adentrou no cômodo e disse:
— Já to pronto, to pronto. — Desajeitadamente ele fechou o último botão da camisa e olhou para cima.
A cozinha estava vazia. Sua cozinha era toda rodeada por balcões brancos, os móveis haviam sido desenhados especialmente para ela. Tinha um fogão e uma geladeira muito grande, destoando-se do resto da cozinha. Em cima dos balcões tinham uma torradeira, um micro-ondas e uma máquina de waffle do Darth Vader, tudo perfeitamente intocado. Não havia nenhum indício de que havia algum ser humano naquela casa. Albus parou e sentou-se no banco do balcão que separava a cozinha da sala de jantar. Pegou o celular no bolso, e teve a confirmação. Acordou cedo demais, ainda poderia dormir uma hora e meia.
Esse tipo de coisa não costumava acontecer com Albus. Ele mais do que qualquer pessoa naquela casa amava dormir. Perdera a conta de quantas vezes ele e os irmãos haviam se atrasado porque ele havia dormido demais. Agora lá estava ele deitado sobre o balcão sem sentir nenhum pingo de sono. Não era à toa que ele acordou tão cedo, estava ansioso. Era segunda feira, o início da segunda semana de aula e o dia do teste de futebol da Sonserina.
Estar no time oficial de Hogwarts, era seu sonho desde que era apenas um menino e pela primeira vez ele se sentia pronto para isto. Hogwarts funciona da seguinte maneira. Os alunos fazem os testes para participar dos jogos internos, cada um para sua casa, e depois são selecionados para o time oficial que joga contra outras escolas. No ano passado Albus havia amarelado na última hora. Ele ainda tem pesadelos com aquele dia. O sinal havia acabado de tocar e era hora do teste, porém ao invés de ir em direção ao campo, tomou a direção contraria indo parar em casa. Depois de pensar com clareza ele se odiou, principalmente quando viu o quanto o time era fraco. Apesar de tudo, esse ano seria diferente Albus iria conseguir, ele tinha de conseguir.
— Albus, o que você está fazendo aqui? – A voz sonolenta de Ginny soou perto dele.
A mãe dele estava parada na sua frente com um olhar de preocupação. Ela ainda estava de pijama, um todo rosa que Lily havia dado a ela de Natal no qual estava escrito melhor mãe do mundo. O cabelo todo bagunçado, preso num rabo com alguns fios despontando para cima. Era obvio que ela havia acabado de sair da cama.
— Eu acordei cedo demais. — Ele murmurou e voltou a se deitar sobre o balcão.
— Filho, vai dormir na cama, vai. Daqui a pouco eu te chamo. — Ginny disse já se aproximando do fogão para preparar seu café. – Você tem um longo dia pela frente.
Ele não pensou, só ouviu o pedido de sua mãe e foi para quarto. Ele não havia notado o quanto o tinha bagunçado no momento da correria. As paredes de seu quarto eram verdes claras, cor que combinava perfeitamente com o guarda roupa branco, que no momento estava com todas as portas abertas. Do outro lado do quarto, logo abaixo da janela encontrava-se sua escrivaninha, que agora havia sumido embaixo dos edredons, no qual ele havia dormido. De frente para porta estava sua cama de casal, e em cima dela era onde ficavam os nichos de parede. Cada um separado para uma coisa, o do lado esquerdo tinha uma bola de futebol autografada pelo próprio Cristiano Ronaldo, e todas as medalhas e troféus que ele havia ganhado na vida. Não eram muitos, mas entre aqueles ele se orgulhava principalmente da medalha de ouro ganhada graças a olimpíada de matemática do primeiro ano de Hogwarts. Nem estudou para a competição e mesmo assim ganhou de Rose e todas as outras criancinhas. Sem contar que foi através dela que ele virou amigo de Scorpius. O garoto não sabia como havia parado lá, mas seu pijama estava em cima da sua bola tão preciosa. O nicho do meio continha os presentes que o pai sempre trazia para ele, eram coisas completamente diferentes umas das outras. Lá ele guardava desde um carrinho até uma arma quebrada. No nicho direito era onde ficava os seus colecionáveis, era onde ele guardava sua mini TARDIS e seus funkos de Game of Thrones. Aquela parede ainda era toda decorada com os pôsteres de seus filmes e series favoritos.
O Potter encarando toda sua própria bagunça se jogou na cama e decidiu que arrumaria o quarto só depois. Ele abraçou seu travesseiro e tentou dormir, mas os pensamentos o atingiram como um meteoro. Se ele não fosse bom? Se ele não conseguisse entrar no time? O que sua mãe pensaria? O que seu pai acharia? Ele roubaria o título “decepção da família” de James? Ele passara muito tempo sendo atormentado por aqueles pensamentos. Pela primeira vez na vida ficara feliz ao ouvir os gritos de sua mãe pela manhã.
Ele caminhou para fora do quarto e se deparou com uma cena habitual. James estava tomando banho, enquanto Lily batia na porta com uma toalha no ombro e gritava:
— James, sai da porra do banheiro. Você não é o único ser dessa casa!
— Quanto mais você gritar mais eu vou demorar! — O irmão gritara de volta.
Albus simplesmente suspirou já cansado daquela cena, era assim todos os dias. Passou pela confusão e escolheu ir no banheiro depois do café da manhã.
— Bom dia, chuchu! — Ginny disse quando ele se sentou no balcão da cozinha.
Ele sempre se impressionava com o bom humor matinal dela. Preparou o seu cereal e começou a comê-lo vagarosamente.
—Grande dia, hein. — A mãe disse depois de um tempo de silencio. Ele definitivamente não queria falar sobre aquilo.
— É, grande dia.- Ele resmungou antes de enfiar mais uma colherada de cereal na boca.
Ela ia acrescentar alguma coisa mas antes de conseguir pronunciar qualquer coisa, um grito veio do andar de cima:
— Mãe, o James não quer sair do banheiro.
— James Sirius Potter se você não sair do banheiro, agora, eu vou te tirar daí no tapa. – Ginny gritou de volta.
Qualquer um teria medo de um grito daqueles. James não era idiota de enfrentar a mãe. Depois do grito ele acabou quase se tele transportando para o balcão da cozinha.
— Eaí maninho. — Ele disse enquanto colocava as panquecas recém feitas por Ginny num prato.
Por mais que uma das heranças genéticas dos Potters fosse a beleza, James era com certeza o mais bonito deles. Tinha um cabelo preto sempre despenteado, mas que de alguma forma combinava perfeitamente para ele. Os olhos dele eram castanho esverdeados e faziam qualquer garota se perder neles. Tinha uma forma física impressionante para quem não fazia academia, era alto mas nem tanto considerando a estatura média da família. Por onde ele passava ele era o centro das atenções e James adorava isso.
— Então, Al você está nervoso? — Ginny era insistente. Ainda tentando evitar o assunto, ele enfiou uma outra colherada na boca.
— Ah, hoje é seu teste de futebol. — James se sentou ao lado, olhando para ele como se estivesse prestes a fazer uma piada muito ruim. — Não vai fugir de novo, vai Severus?
Albus sentiu vontade de esganá-lo, mas se contentou a colocar outra colherada na boca. Ele olhou para o irmão como se o cereal que ele mastigasse fosse a cabeça dele. James nem viu sua tentativa de ameaçá-lo já que estava concentrado demais nas suas panquecas.
— James quem é você para falar alguma coisa? — A voz de Lily surgiu do corredor. — Esqueceu que você é a ovelha negra da família que não gosta de futebol?
— Já tomou banho, Lily? Aposto que não lavou essas orelhas direito, porquinha. – James mudou de assunto, tentando miseravelmente imitar a voz de um pai preocupado.
— Ao contrário de você eu não preciso passar 40 horas no banho para me limpar. — Lily respondeu. — E só para constar não dá mais tempo deu tomar banho, só consegui escovar os dentes.
— Dá para vocês darem um tempo? Por favor. – A mãe interviu na briga infantil deles.
Num gesto mais que infantil, James deu língua para irmã, Lily semicerrou os olhos e Albus se limitou a rolar os olhos. A esse ponto Lily já estava sentada devorando suas panquecas, sua mente desviou da briga com o irmão e voltou para algo que a perturbara durante a semana inteira.
— Mãe. – Lily disse quase em um sussurro. — Posso perguntar uma coisa?
Ela não esperou a mulher responder para ela continuar:
— Quando o papai volta? — Lily disse com seu último segundo de coragem e a encarou.
Ginny parou de comer suas panquecas, colocou a colher no prato e encarou Lily de volta. O que ela responderia para sua filha de 14 anos? Diria que não recebia notícias de Harry há um mês?
Harry trabalhava como soldado no exército britânico desde os 18 anos. Antes disso ele ficou conhecido por ter derrubado a maior ameaça de golpe feita ao Reino Unido. Todos haviam se surpreendido quando a oposição formada por meros adolescentes havia derrotado o ditador britânico mais perigoso de todos os tempos, Voldemort. A maioria acreditava que Harry era um herói, mas ainda havia quem dissesse que suas intenções eram só vingativas. Apenas uma vingança contra a morte de seus pais, mortos na época em que Voldemort havia conseguido ficar no poder. Depois do ato heroico Harry e seu melhor amigo, Ron Weasley haviam se alistado no exército. Passariam a vida defendendo o Reino Unido de seus piores inimigos.
Ginny estava acostumada com Harry passando tanto tempo fora, mas ela sempre tinha notícias. Às vezes eram cartas, telefonemas ou ultimamente uma vídeochamada pelo Skype, até uma mensagem escrito estou vivo contava. Fazia um mês que ela não recebia notícias nem do marido nem do irmão, ela já estava desesperada. Não havia contado aos filhos, não queria deixá-los também desesperados. Agora lá estava a pequena Lily ao lado de seus dois irmãos, perguntando sobre o pai. Ela se segurou para não chorar, para não pensar no pior.
—Eu.... Eu.... Eu não sei. — Ela disse encarando sua garotinha.
Lily desviou o olhar e encarou suas panquecas quando disse:
—Ele disse que viria para as férias, mas ele não veio. — Ela mexeu as panquecas com a colher, tentando evitar o olhar da mãe. — Eu só... sinto falta dele.
Ginny piscou várias vezes, antes de responder:
— Eu também.
James sentiu o clima pesado que ficou na cozinha, precisava mudar de assunto. Olhou o relógio no celular e disse:
—Galerinha, está na hora da gente ir. São vinte para às oito.
Albus foi o primeiro a se levantar com um “tchau, mãe” e caminhou em direção a sala tentando colocar a gravata verde e prata da sonserina. Lily terminou de comer e seguiu o irmão sem dizer nada. James foi até a mãe que ainda parecia chocada com a pergunta de Lily, deu um abraço bem forte e profetizou:
— Vai dar tudo certo, mãe. Ele vai voltar. Ele sempre volta.
Com essas palavras ele seguiu na direção em que os irmãos haviam desaparecidos.
Era necessário atravessar a cidade inteira e ainda um pouco de estrada para os Potters chegarem até Hogwarts. Eles já sabiam que iriam chegar atrasados no momento em que entraram no carro, mas estavam acostumados. O que eles não estavam acostumados era com o silencio mortal que se instaurou no carro. Nenhum dos três disse absolutamente nada, mas todos eles estavam pensando na mesma coisa. Lily sentada no banco da frente, olhava para a janela atordoada, procurava na paisagem alguma resposta, alguma saída. Se segurou por um tempo para não tocar no assunto do pai, sentia que os irmãos não queriam falar sobre aquilo. Porém isto a consumia, precisava compartilhar o sentimento, não era possível ela ser a única a sentir assim. Sem tirar os olhos da paisagem Lily quebrou o silêncio do carro:
— O que vocês acham que aconteceu com o papai?
James apenas se remexeu no banco do motorista com os olhos fixos na estrada a sua frente. Albus olhou de um para o outro, nunca havia visto os irmãos daquele jeito. Eles costumavam ser cheios de alegria e agiam como se nada pudesse os atingir. Afinal eles eram Grifinórios, não poderiam ter medo, mas naquele momento era o sentimento que mais os atingia. O Potter do meio se sentiu no dever de espalhar a esperança, pela primeira vez ele precisava ser forte.
— Ele provavelmente teve um problema com a comunicação. Onde ele está não deve ter sinal de telefone, muito menos internet. — Albus pronunciou querendo mais do que tudo acreditar em suas próprias palavras.
Lily suspirou fundo:
— Ou ele está num coma e ninguém sabe sua verdadeira identidade para poder avisar a gente.
James e Albus encararam Lily abismados. Ela falara aquilo num tom sério, ela realmente acreditava naquilo.
— Ah Lily, isso é coisa de novela mexicana. Não fica pensando nesse tipo de coisa. — James disse calmamente. – Albus deve ter razão, ele só não consegue se comunicar com a gente.
— Se algo ruim tivesse acontecido nós já saberíamos. — Albus complementou.
Lily não respondeu, com os olhos marejados, ela desejava esquecer tudo. Ela abriu o porta luvas, tirou de lá um CD qualquer e colocou ele no rádio. Durante todo o caminho eles não disseram nada, deixaram a música preencher o vazio deixado pela falta de notícias sobre o pai.
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