Soulmate - Spideypool

7 "...não ter medo de amar o garoto com asas de morcego." P.P.


SMS

Wade Wilson:

"Me avisa quando sua tutoria acabar." 16:27h

SMS

Peter Parker:

"Ok! ;)" 16:28h

SMS

Peter Parker:

"Acabou agora. Você já vai vir?" 18:23h

SMS

Wade Wilson:

"Estou indo." 18:25h

Peter respira fundo ao ver a mensagem do loiro e se desculpa mais uma vez com o aluno daquela tarde. Se sentia culpado por não conseguir se concentrar na matéria, mas como poderia? Sua mente fazia questão de lembrar a cada segundo que Wade Wilson estava o aguardando! Que ficariam em seu apartamento, tão perto, respirando o mesmo ar, como ele poderia se concentrar em qualquer outra coisa?

Um frio gelado passa por sua barriga. Em parte, sente medo por talvez estar entrando na boca do Leão, já que segundo os rumores, Wade queria matá-lo vingando a morte de seus pais. E em outra parte, era o real descontentamento em saber que só iriam estudar, não só por Wade parecer compromissado com Vanessa, mas porque um anjo nunca poderia ficar com qualquer outro ser sobrenatural que não fosse um anjo. E se pudesse, Peter tinha certeza que demônios seriam proibidos ainda.

O castanho respira fundo esfregando os olhos por baixo dos óculos, a imagem do breve selinho entre Wade e Vanessa não sai de sua mente. Ele sabia que não podia pensar sobre isso, Vanessa poderia ter Wade se quisesse, já que a mesma era um demônio, mas se Peter fosse pego sequer pensando nisso, seria punido. Ele estremece com o pensamento, não havia chances de sua situação ser piorada.

Gostar do cara que aparentemente queria matá-lo, que parecia ser comprometido e pior ainda, que era a única coisa terminantemente proibida a um anjo. Só Peter para cair em uma situação dessa.

— Devo ter nascido com defeito. — Ele reclama.

Quando está prestes a suspirar pela terceira vez em menos de 20 minutos, seus sentidos captam a chegada de Wade. Ele ainda está muito longe para que seus olhos se encontrem, o que dá um tempo maior para Peter olhar para tudo aquilo.

Era a primeira vez que via Wade fora do uniforme escolar. Se Deus pudesse lhe conceder um desejo, seria ter o prazer de ver Wade Wilson sem uma jaqueta todos os dias. Raras as pessoas que tinham a oportunidade de ver Wade sem uma jaqueta em cima das asas similares a de morcegos. Apesar dos meninos que compartilhavam o vestiário do colégio terem uma chance, Wade sempre se preocupava em se trocar meio sozinho, como se tivesse algo a esconder. Por isso era difícil ver o real tamanho das asas sem que elas estivessem descobertas, mas agora, Peter quase babava vendo como elas o deixavam ainda mais bonito e com uma aparência feroz enquanto andava.

Não somente as asas, mas os fios loiros que brilhavam ao redor de chifres arroxeados por conta do sol. A imagem era tão resplandecente, que Peter jurava que podia sentir a maciez dos fios em seus dedos, mesmo sem nunca ter tocado. O azul dos olhos que chegavam cada vez mais perto o cativaram, Peter poderia passar o resto de seus dias encarando a imensidão azul que se assemelhava ao mar.

A boca, que parecia impregnada com a imagem do batom de Vanessa na mente do anjinho, ainda era tão convidativa ao ponto de deixá-lo a encarando sem qualquer pudor. Peter daria tudo para ver Wade sorrindo. Tinha certeza de que morreria ao ouvi-lo dar uma risada, ou a simplesmente poder sentir a respiração do garoto adormecido em sua nuca.

Peter tinha que ser sincero, uma das coisas que mais imaginava em seu tempo livre, era como seu maior sonho era poder dormir nos braços de Wade. Não só passar a noite, mas como seria perfeito acordar e sentir os músculos dos braços de Wade a sua volta o segurando, ao ponto de não conseguir sair de seu aperto. Observar as pálpebras fechadas, entrelaçar suas pernas embaixo de um lençol e poder beijar os lábios ainda adormecidos e voltar a se aninhar no peito forte e adormecer, sabendo que ele estaria ali quando voltasse a acordar.

Um Wade inteiro e exclusivamente seu, que fosse real e que não sumisse quando ele acordasse.

Peter afastou os pensamentos com a chegada de Wade a sua frente, como conseguia ficar fantasiando esse tipo de coisa com o cara que queria sua cabeça numa bandeja? O anjo realmente não devia ter amor à vida.

— Oi. — Wade cumprimenta baixo.

"Uau", Peter pensa ao ouvir sua voz e engole em seco, ele realmente não devia ter amor à vida.

— Vamos? — Wade estende a mão em convite. — É mais rápido para ir do que vir.

Peter fica confuso por um segundo com a mão estendida de Wade. Ele nem mesmo pensa antes de seu corpo agir e agarrar a mão do loiro.

"Meu Deus, ele quer que vamos de mãos dadas?" Ele gritava dentro de sua própria mente, tentando controlar o vermelho em suas bochechas. "AI MEU DEUS, será que é para eu não ter a opção de fugir?" As pernas de Peter tremem com a ideia e ele começa a suar frio com o pensamento, sua cabeça abaixa e ele sente um frio no estômago de medo. Wade pigarreia.

— Sua bolsa, eu queria carregar sua bolsa.

— Ah. Ok. É. Faz mais sentido. — Peter responde sem graça, sem saber onde enfiar a cara. — Eu consigo levar.

A mão de Wade nem mesmo titubeia, continua entendida como uma ordem de que não vai dar um passo enquanto não carregar a bolsa do menino. Peter não vê outra saída e entrega a mochila.

Wade a joga sobre o ombro, a asa se ajeitando para cobrir o material, enquanto ele passa a andar, indicando para Peter o segui-lo. O castanho segue atrás do mais velho, tímido e agradecido por Wade não poder ver seu rosto vermelho escarlate agora. O que ele estava pensando? Andar de mãos dadas? Pelo amor de Deus, se alguém visse aquilo? Meu Deus! E se Vanessa visse aquilo? Peter se sente mal imediatamente, porém não quer pensar em admitir que parte de si gostaria que a garota tivesse visto. Ele balança a cabeça, levando a mão à boca quando pensa em algo pior ainda, e se Wade se sentisse enojado? O garoto treme só de pensar em deixar o loiro se sentindo dessa forma. Mesmo que Wade quisesse matá-lo, Peter jamais gostaria de deixar o loiro triste ou com nojo de si.

Ele balança a cabeça negativamente, tinha que se manter frio e controlado, essa era a única chance que tinha de realmente ficar perto de Wade, não poderia estragá-la com suas mãos atrapalhadas fazendo Wade se sentir mal em tocar um anjo, aquele anjo em particular.

O garoto respira fundo três vezes tentando se acalmar.

— Você se importa? — Wade questiona sobre o cigarro que segura entre os dedos enquanto anda.

— Não. Pode fumar. — Peter permite e por não conseguir ver o rosto de Wade, não consegue perceber que o loiro quase tremia ao levar o cigarro até os lábios.

Segurar a mão de Peter por alguns segundos não estava em seus planos, seu corpo não conseguia pensar direito por causa disso.

Wade esfregou os dígitos uns nos outros, como se ainda conseguisse sentir o calor do toque de Peter em seus dedos. Ele respirou fundo, tragando a nicotina, era verdade. Anjos realmente eram muito quentes.

Tudo era mais por uma questão geográfica do que biológica. Demônios se mantinham quentes quando estavam no inferno, o tempo todo. Ao ir para a Terra ou o céu, eles sofriam com a falta do calor que fazia lá embaixo, sendo conhecidos como a um ponto muito próximo da pele fria que vampiros tinham. Diferentemente, os anjos viviam nos céus, que sempre tinha um clima perfeito. Não muito quente, não muito frio, mas ao se descer à Terra, sua pele absorve o calor do sol com maior facilidade, fazendo com que o corpo dos anjos vivesse quentinho, mesmo no frio. Pela noite, anjos que não estavam no céu, sofriam com uma queda grande de temperatura, por isso muitos se protegem com suas asas, mantendo o calor dentro do corpo para se manter quentes.

Wade fecha a mão em punho. Mal conseguia conter o pensamento de que, dentro das paredes finas e frias da Mansão dos Demônios, pela primeira vez seu apartamento não estaria tão frio.

O caminho continua silencioso até Wade terminar seu cigarro quando estão próximos ao portão da Mansão. Peter não sabia o que tinha de bom nos cigarros humanos, muito menos nas bebidas, mas nenhum deles eram proibidos a seres sobrenaturais, já que era praticamente impossível qualquer coisa mundana afetar sua saúde.

Seja se curando, ou simplesmente pelo fato de não ter efeito, as drogas da Terra não serviam para mais do que uma distração para os seres sobrenaturais, por isso Wade nunca teria um problema de desempenho nos pulmões ou outros órgãos por causa dos cigarros que fumava.

Peter passa a olhar para todos os cantos, a Mansão e o Colégio ficavam na Terra por ser um local de neutralidade para os sobrenaturais. Dessa forma, até mesmo voar fora das dependências era proibido, já que, somente nos locais estabelecidos com uma barreira de proteção específica, os humanos eram completamente enganados a não ver pessoas flutuando ou usando poderes.

No dia a dia, asas, chifres e caninos naturalmente se escondiam dos olhos humanos, o que tornava mais difícil de explicar porque um adolescente "normal" estava flutuando a caminho do colégio. Wade estava sobre último aviso se tratando disso.

Os garotos atravessaram o imponente, porém velho e barulhento portão da Mansão. O local era bem mais verde do que Peter imaginava. Árvores frutíferas os rodeavam, servindo como uma proteção extra além dos muros. Havia mesas de piquenique espalhadas e preenchidas por demônios e outros seres visitantes. Um caminho de cascalhos envolvia uma fonte seca no meio do jardim até a porta principal. As paredes externas tinham cor de tijolos mescladas com vigas de madeira marrom entalhadas com feitiços de proteção para os moradores. As janelas eram padronizadas para cada apartamento, o que dava um ar de uma mansão antiga, porém adaptada para os dias atuais.

O lugar era bonito à sua maneira, diferente de todo o branco, azul e amarelo ouro que Peter via todos os dias em sua casa. Parecia bem mais vívido e caloroso do que as paredes das casas padronizadas no céu.

Tudo era bem diferente, inclusive a sensação latente no fundo de sua cabeça de que estava sendo observado. O que, realmente estava.

Entre todos os moradores, Wade era o mais conhecido por trazer alguém novo. Normalmente, os outros demônios olhariam por um segundo para avaliar o novo produto e logo depois já se esqueceriam, pois nunca mais veriam aquele rosto. Entretanto, de todas as conquistas fáceis de Wade, um anjo nunca tinha acontecido.

O burburinho de medo, misturado com surpresa era enorme, Wade parecia não ligar o que em parte tranquiliza Peter, até o loiro se deter no meio do hall de entrada.

— Santo Lucifer, Wadezinho, o que você está fazendo com um anjo nessa hora da noite?! — A voz do demônio era alta e assustadora. — Você sabe que eu vou ter que denunciar isso, não sabe? É proibi…

— Dá pra calar a boca, Eddie? — Wade pede exasperado, era a última pessoa que ele queria encontrar ali. — Não é o que você está pensando, só viemos estudar.

— Estudar? A essa hora? — O homem ri como se fosse uma piada boa, mas quando Wade não reage, ele para. — Oh, é sério?

— Porque não seria?

— Uau, você deve estar falhando muito forte se conseguiu arrastar o anjinho até aqui. — O homem ri novamente, como se ter um anjo ali fosse uma ilusão pros seus olhos.

— Ei! — Wade ralha, mas não discorda sobre estar falhando na matéria. — Eu não arrastei ninguém até aqui.

— Quem te ajudaria de graça? — O homem coça sua orelha, com pouco interesse no loiro agora. — Além da Vanessa é claro.

— Ele é tutor do colégio.

— Ah! Claro! Um tutor! Agora faz mais sentido. — O homem claramente se diverte com a situação do demônio. — Aliás, prazer em conhecê-lo, Eddie Brock ao seu dispor, um dos melhores amigos do demônio invocado a badboy aqui e senhorio da Mansão.

Peter pega em sua mão estendida e a primeira coisa que pensa é em como é fria como a mão de Wade, mas como também é diferente. Ele demora no aperto, se repreendendo por pensar em Wade dessa forma de novo.

— Hm, Peter Parker, creio que nos veremos por um tempo até as notas do Wade melhorarem. — Ele tenta soar engraçado, mas vê o Wade fazendo um biquinho encabulado.

— Então acho melhor você arranjar um quarto aqui logo, isso não vai se resolver tão fácil. — Eddie responde positivamente a tentativa de Peter de ser engraçado.

— Ei. — Wade repreende e ignora o olhar de "mas não é verdade?" que vem de Eddie.

Ele volta a andar pelo hall e passa a subir as escadas. Peter se despede e passa a subir atrás, porém Eddie o segura nos primeiros degraus.

— Se ele tentar alguma coisa, só começar a gritar. — O tom de Eddie parecia mais sombrio agora. — As paredes são bem finas, eu vou conseguir ouvir.

Peter sente o corpo arrepiar e agora que tinha sido avisado, percebeu que com o cair da noite, o local parecia realmente gelado, como um freezer que parecia perfeito para guardar seu corpo em pedaços depois de ser morto.

— Hm. Obrigado. — O castanho agradeceu com a garganta seca e recebeu uma piscadela em resposta.

Seus ouvidos pareciam surdos. Sempre que pensava em Wade, ele se esquecia das ameaças que todo o Colégio gostava de comentar, porém agora, sua mente criava mil e um cenários onde seria torturado. Ele engole em seco, estava ali para ensinar álgebra elevado a tortura, o que podia ser considerado como afiar as facas com a qual seria desmantelado.

Ele se vira, completamente absorto em pensamentos de morte, mal dá um passo e sente seu rosto ser recebido diretamente nos peitos de Wade.

Se a vida fosse um cartoon, seria essa a hora em que o corpo de Peter se encheria dos pés a cabeça de uma cor vermelha e a fumaça explodiria de sua cabeça.

O vermelho não aparece, já que a poucos segundos Peter estava azul de medo, porém ele sente o corpo todo esquentar, assim como o rosto que continuava enfiado no vinco firme do peitoral do loiro.

Peter se desespera e reage antes que Wade possa falar qualquer coisa. Suas asas batem, descontroladas, o puxando para trás, ele flutua sobre a escada ficando na altura do rosto de Wade.

— Aí meu Deus! Me desculp-

— Hump. — Wade interrompe suas desculpas e se vira andando pelo resto da escada e indo pelo corredor à esquerda.

As asas de Peter param de bater rapidamente, se acalmando e colocando o anjo de volta no chão. "Ele deve estar tão bravo", Peter teme pela própria vida, mas não existe desculpa que possa ser inventada agora, então o Peter só segue em direção a morte.

Wade precisa se controlar quando chega à porta de casa. O que está acontecendo hoje? Primeiro as mãos, agora o rosto angelical e inocente de Peter em seu peito? Quanto de contato físico ele aguentaria antes de explodir e realmente tentar agarrar o anjo ali mesmo? Ele balança a cabeça levemente, soltando um suspiro frustrado. Precisava controlar o que estava nas suas calças, eles tinham mais três ou quatro horas juntos e Wade já estava começando a perder a força em formular frases completas. Ele tinha certeza que tinha pensando em dizer “Sem problemas”, quando Peter bateu em seu peito, porém o que ouviu sair foi algo que nem mesmo era uma palavra. Wade precisava se afastar do garoto por pelo menos alguns segundos, ou então estariam em sérios problemas.

Ele abre a porta, deixando o castanho entrar e o loiro praticamente foge pra cozinha.

Diferente do imaginado por Peter, Wade não vive em um calabouço com ferramenta de tortura e um altar de adoração a Satã. O apartamento parece muito normal? Wade vai direto na direção da cozinha, dizendo que a mesa de estudos é a única mesa na sala, que Peter podia ficar à vontade. O garoto se força a andar até o sofá, com as pernas duras e pesadas como chumbo, ele só queria fugir dali depois daquele papelão na escada e do aviso sombrio de Eddie, mas a atmosfera não estava tão ameaçadora quanto imaginou que estaria.

Ele consegue ouvir o barulho da geladeira, de lacres e o que parece ser um armário batendo. O balcão impede sua visão completa da cozinha, então depois de retirar os livros da bolsa, ele espera ansioso enquanto observa as costas largas de Wade com o canto do olho.

O loiro volta com uma bandeja de salgadinhos e um par de chinelos para não sujar as meias brancas de Peter. Ele agradece pela boa recepção e tenta respirar normalmente, não demonstrando o medo se misturando com a ansiedade que batia em seu peito. Desde ter pego a mão de Wade por acidente, esbarrando em seu peito nas escadas e o aviso de Eddie, Peter mal conseguia distinguir pelo o que seu coração batia. Medo, ansiedade, paixão ou desespero.

Sua situação era difícil de explicar. Devia ter medo de Wade, sabia disso, toda a escola apostava que até o final do terceiro ano, se Wade não o matasse, ia fazê-lo em campo de guerra. Wade era o melhor soldado que tinham naquele ano, era uma promessa gigantesca esperada para lutar contra o anti-cristo. Peter devia temer tudo isso, certo? Mas sempre que olhava para seus olhos, o medo se envolvia com uma atração de outro mundo e quando percebia, estava tentando entrar na direção do loiro, mesmo que por um segundo, só para poder transformar o medo naquela sensação boa de paixão que o fazia perder os sentidos.

Peter era como um gato que foge com medo por sua vida quando falam sobre um banho, mas que para sem pensar duas vezes, pela menor menção do seu brinquedo favorito que representava a atração que sentia. O perigo e o desejo se misturando até ser impossível reconhecê-los.

O castanho que encarava Wade sem perceber, acorda de sua transe e tenta se distrair pegando a caneca disposta a sua frente. A caneca tem um formato diferente, o que é difícil de pegar no início, até Peter perceber o que era.

Ele faz o maior esforço para não rir, mas um sorriso abre em seus lábios deixando todo o clima suavizar de repente.

— Você gosta de gatos? — Peter pergunta, a caneca que tinha o formato de uma patinha de gato sendo observada por suas mãos.

— Hum? Ah, sim. — Wade confirma se ajustando no sofá a uma distância segura de duas almofadas de Peter.

— Eu tenho um gato. — Peter se sente na obrigação de explicar sua curiosidade. — E gostei da caneca.

— Ah, obrigado. — Wade agradece meio sem jeito. Peter sente o restante da apreensão sair de seu peito, como um demônio que fica sem jeito ao receber um elogio pela caneca de gatinho poderia estar planejando seu assassinato? — Eu queria ter um gato, mas eles não sobrevivem no inferno, tentei trazer um pra casa quando meus pais ainda estavam vivos, mas ele queimou na minha mão antes de atravessar o portão.

Peter o encara de forma estática com a pata do gatinho em direção a boca. Aquilo era horrível! Ele não queria nem imaginar como deve ter sido traumatizante para Wade e para o gato, porém, Wade estava com o rosto limpo, como se não tivesse remorso pelo bichinho.

Talvez gostar de gatos não interferia em nada com relação a assassinato.

— Bem, isso foi só uma vez e agora eu moro aqui onde bichos de estimação não são permitidos, porque no verão, se você não for um demônio, é bem difícil aguentar ficar na mansão. — O loiro tenta sair do clima mórbido em que entrou sem querer, mas para a mente fértil e assustada de Peter, aquilo quase se transforma em uma ameaça velada.

Vendo que o olhar assustado de Peter não some, ele tenta mudar de assunto.

— V-você gosta da bebida?

— Hum, ah, cla...Ugh, ro. — Peter faz uma careta com o gosto. — É minha marca favorita, porque é tão azedo?

— Azedo? — Wade arqueia a sobrancelha e bebe para conferir. — É de maçã-verde.

— Ew, é por isso. — Peter afasta o copo e diante de sua preocupação de que pode ter soado rude, ele explica. — Bom, é que lá no céu temos todos os tipos de bebidas, mas minha mãe só me alimentava com a bebida arco-íris porque era a favorita dela. Então eu gosto de coisas mais doces, minhas favoritas são de morango e tangerina doce. Maçã-verde parece muito azedo pra mim.

Assim como no caso dos cigarros, os sobrenaturais não necessitavam de comida humana para sobreviver, porém o ato de comer era cultivado. Seus corpos não poderiam adoecer facilmente e diabetes ou colesterol não eram coisas que existiam para eles.

— Maçã-verde é minha favorita. — Wade declara.

— Oh. — Peter nem mesmo sabe o que fazer agora.

Vendo que a situação não era muito boa, Wade achou melhor tentar parar por ali antes que falasse mais besteira por estar tão nervoso. Ele pega o livro e silenciosamente ambos concordam em começar a estudar.

Peter que jurava que ia sofrer para se concentrar depois de tudo aquilo e para dar aula para o menino que gostava, teve uma resposta completamente diferente da imaginada. Ele sabia que Wade tinha dificuldades na matéria, mas não imaginou que seria tanta.

Desde o minuto em que começaram, Peter passou a procurar mais espaço em sua agenda. As aulas que tinha programado não eram nada referente às dificuldades e dúvidas de Wade, e como o excelente tutor que era, Peter não ia deixá-lo na mão e se recusaria a aceitar menos do que um A + vindo na matéria no próximo semestre.

As quatro horas seguintes passam num raio e Peter se assusta quando encara o relógio e vê que já passa das 23 horas. Apesar do clima esquisito no início, Wade era um aluno muito aplicado quando conseguia se concentrar, o que, apesar do TDAH, pareceu estar muito focado hoje.

O que Peter não conseguia imaginar e sequer ficaria sabendo, é que toda a concentração nos problemas de Wade se deviam somente a presença do anjinho.

Ele não fazia por mal, Wade sabia disso, mas Peter tinha a mania de colocar a caneca na boca sempre que ia corrigir algo ou pensar profundamente e, quanto mais profundamente pensava, mais a caneta passava por seus lábios e descia por sua língua. Wade precisou delicadamente cruzar as pernas na direção contrária de Peter em determinado momento, onde a caneca se soltou das mãos do anjo e ficou presa entre os lábios de Peter fazendo pressão em sua bochecha.

Wade sabia que a grossura da caneta não era nada comparada ao que tinha duro em suas calças, mas o fato de conseguir imaginar seu membro no lugar da caneta, não ajudava em nada. A imagem de Peter ajoelhado entre suas pernas, enquanto sua cabeça subia e descia, juntamente de sua língua, o roçar de seus lábios e a sensação de chegar a sua garganta, não estava ajudando em nada.

Até o ponto que Wade precisava desviar o olhar do tutor e começar a realmente se concentrar nos próximos exercícios de álgebra para ver se a pressão em sua calça diminuía.

— Pronto. — Peter declarou com o material arrumado.

Wade estendeu a mão novamente e, dessa vez, Peter lhe entregou a mochila primeiro antes de pensar em agarrar a mão de Wade.

O caminho de volta foi mais tranquilo, porém mais longo do que o de ida. Wade estava certo, ir para a mansão era menos demorado do que voltar ao colégio.

Do colégio, Peter tinha a permissão de voar para o céu, pois por causa da proteção no colégio, seria impossível vê-lo voando por aí. Se os anjos confiassem um pouco mais nos demônios, existiria uma entrada para o céu na direção da Mansão, porém eles não haviam progredido a esse ponto.

O caminho foi menos silencioso do que antes, Peter preencheu o ar ao redor deles com explicações das próximas aulas e de como se veriam todas as noites, com exceção dos domingos. Como Wade era um aluno muito aplicado e que, se continuassem com um bom ritmo de estudos, ele previa uma melhora significativa nas notas do loiro assim que a época dos exames começassem.

Peter também se prontificou a ajudá-lo em outros horários quando outros alunos parassem de comparecer à tutoria. O que parecia somente um tutor preocupado com o melhor para seu aluno, camuflava a vontade louca de Peter de não precisar ir embora, de ter mais tempo para ficar ao lado de Wade.

O anjo nem mesmo percebe que ambos diminuíram o ritmo dos passos para demorar a chegar à entrada do colégio. Wade não fala mais do que alguns “ok” ou “uhum”, porém Peter não se incomoda, gostando de poder falar de forma livre e solta e não ver uma reação ruim no rosto do outro.

Peter gostava de falar e muito, mas raras as pessoas que o ouviam. Fora seus melhores amigos, as únicas pessoas que o procuravam estavam pedindo ajuda e assim que a conseguiam, mandavam o mais rápido que podia. Porém com Wade não. Mesmo quando Peter parava de falar, imaginando que estava incomodando o demônio com toda essa boca tagarela, o loiro o olhava e fazia um “hum” o instigando a continuar.

O garoto se sentia importante, mesmo com tão poucas palavras.

Eles chegam ao portão e Peter fica triste em se despedir.

— Acho que é só por hoje. — Ele não sabe como continuar.

— Sim. — Wade também não quer partir, mas não sabe como continuar, normalmente ele é um tagarela ao lado dos amigos, mas ali, com Peter, todas as palavras pareciam sumir de sua mente e era difícil formar uma simples frase. — Você…

— Eu acho…

Ambos param quando se interrompem e Peter dá um risinho nervoso.

— Pode ir.

— Você acha que consegue me passar uma lista por escrito do que vamos estudar? — Wade questiona, já querendo criar um motivo para falar com Peter no dia seguinte no colégio. — Assim a Vanessa consegue me ensinar caso você fique ocupado.

O brilho no olhar de Peter parece se apagar quando ele lembra da garota. Ele se segura para não colocar as mãos na cabeça e gritar em repulsa a si mesmo.

Ali estava ele novamente fantasiando e se apegando a um cara, não, um demônio que já tinha namorada! Pelo amor de Deus, Peter! Qual era o seu problema?

— C-Claro. — Ele pigarreia e enterra o péssimo sentimento no seu peito. — Eu te entrego amanhã, pode ser? Por um segundo eu esqueci que a sua namorada também te ensina.

— Namorada? — Wade levanta uma sobrancelha e Peter recua com medo de ter tocado num assunto que não devia.

— É-é. Namorada. Ela é sua namorada, não é?

— Ness? Pff. — Wade dá um riso baixo, fazendo Peter abrir a boca em contemplação.

O riso de Wade, mesmo que baixo e quase nasalado, ainda era a coisa mais bonita que Peter tinha ouvido.

— Eu falei algo engraçado? — Peter pergunta, mas tem um sorriso que não quer morrer no rosto.

— Sim. Bom, não, eu acho. — Wade se atrapalha. — Eu e Vanessa não temos mais nada. Não somos mais um casal a um bom tempo.

— Espera. — O sorriso de Peter se transforma em uma careta. — Mas vocês se beijaram hoje de manhã.

Wade olha para cima como se avaliasse a sua manhã e Peter acha que ele está pensando em maneiras de enterrar esse bisbilhoteiro que ele era.

— Hum, na saída. — O loiro percebe que foi ali que Peter os flagrou dando um selinho. — É uma coisa de amigos.

— Coisa de amigos? — Peter repete em parte invejoso e em outra, enciumada. — Você beija todos os seus amigos?

— Bom, não. — Wade percebe que explicou mal. — É mais uma coisa nossa, de demônios, não existe esse tabu sobre quem beijar ou não. Ainda mais que já fomos namorados.

— Hum. — Peter precisa se controlar para não fazer um biquinho chateado.

Era bom que Wade estivesse solteiro, então aquele sentimento ruim podia se desprender de seu peito, mas porque ele não estava feliz? Não gostava de pensar que qualquer demônio podia viver beijando Wade mesmo que eles não tivessem nada, só porque “deu na telha” ou porque ele “quis dar um alô”. Era irracional que tivesse ciúmes de um garoto que nem mesmo era seu, mas ciúmes era uma das poucas coisas que Peter não conseguia controlar.

— É muito diferente com anjos? — Wade questiona trazendo Peter de volta.

— Sim. Só beija dessa maneira quem dorme consigo. — Peter cruza os braços, encabulado. — Seja um namorado ou seu marido, mas você só pode beijar por quem tem sentimentos românticos.

— Meio retrógrado, não acha? — Wade dá de ombros. — Beijar não é um ato exclusivo de um ato romântico.

— Para anjos é. — Peter vira o rosto, o biquinho aparecendo. — Não somos retrógrados, só prezamos pela tradição de um ato de amor. Deve ser por isso que anjos e demônios não podem ficar juntos, uma das principais proibições.

O silêncio que se segue é o motivo para Peter perceber o que falou. Citando uma das proibições demoníacas para um demônio. Ele pragueja sua boca grande que não sabia se controlar quando estava bravo ou com ciúmes.

— Pff. — Wade ri novamente chamando a atenção de Peter.

Ele descruza os braços e observa Wade realmente rir mais alto e de forma mais prolongada dessa vez.

— O que?

— Por um segundo eu tinha me esquecido dessa proibição. — Wade parece ter um tom amargo. — Realmente, talvez a proibição exista para nos proteger do jeitinho quadrado que vocês, anjos, têm.

Peter abre a boca para discordar, mas se sente chateado de uma hora para a outra. Wade o achava quadrado por não querer beijar todo anjo que visse? Era tão ruim assim preservar um pouco de significado de um ato de amor entre duas pessoas que se amam?

Ambos ficam em silêncio por mais alguns segundos, como se estivesse pensando nas coisas que disseram. Anjos e demônios eram diferentes, era fato, mas isso devia impedir que eles não tentassem se ajustar e quem sabe, tentar algo se realmente se gostassem?

Porque algo tão pequeno como a raça do ser devia ser um fator decisivo sobre o amor e sobre a união?

O clima se torna ainda mais frio. Dúvidas não respondidas entre dois corações jovens que se atraem, mas que são impedidos de se abrir por condições que nenhum deles consegue controlar. Se vivessem entre os humanos, quem sabe em outra vida, eles teriam a chance de terem dado certo em uma primeira tentativa.

Com os pensamentos cada vez mais sombrios, Wade decide que precisa deixar Peter ir. Ele só precisa se afastar e tentar raciocinar. Existe um motivo para tais proibições, ele sabe que existem regras e que por mais forte que deseje, Peter nunca as quebraria. Por Lúcifer, ele nem sabia se o garoto sentia o mesmo.

— Eu já vou. — Ele passa a se despedir. — Até amanhã.

O loiro se vira para ir embora, mas Peter, que apesar de ser um dos anjos que mais conhecia as regras, que podia cita as proibições de trás pra frente, que sabia que aquilo nunca aconteceria e que Wade nunca desejaria ficar com um anjo com sangue nas mãos como ele, é o anjo que corre atrás do demônio gritando seu nome.

— Wade! Wade!

O loiro se vira a tempo de segurar o anjo nos braços. O cheiro de baunilha de Peter se misturando ao cheiro de maçã-verde de Wade, naquele momento, nada mais parece existir. Os olhares se cruzam e Peter vê somente o azul do mar à sua frente.

Ele quer, ele sabe que quer tanto beijar Wade. Ele quer, por Deus, ele quer.

Mas o mesmo azul dos olhos de Wade, são os azuis dos olhos de seus pais. Peter só sabe disso porque as fotos dos traidores foram expostas em todos os meios de comunicação dos seres sobrenaturais e é esse flash de azul que pinta as fotografias do Sr. Wilson, que foi morto pelos Parkers, que faz Peter desviar sua direção no último segundo e dar um beijo enorme na bochecha de Wade.

— Até amanhã! — O anjo se apressa a se despedir e deixa um Wade estático no meio da calçada, correndo para o colégio e alçando voo.

Ambos os corações batem com força e rapidez, ambos os seres coram com tanta força que seus rostos ficam completamente vermelhos, mas, ambos que precisam de um banho gelado quando chegam em casa, só conseguem pensar em que, se aquele beijo amigável de despedida fosse um pouco mais para a direita, eles seriam condenados por terem quebrado uma das três grandes proibições.

Naquela noite, Peter só consegue pensar na sensação quente em seus lábios e como pela primeira vez, ele desejava não ser um anjo, para poder fazer o que quisesse e não ter medo de amar o garoto com asas de morcego.