Soulmate
1 Soulmate — capítulo único
Ás vezes ela pegava a palma de sua mão direita e traçava as linhas marcadas ali com seus dedos agéis, seguindo todas as ramificações que poderiam existir nelas, como se tentasse ler algo invisível aos olhos dele e algum momento mais tarde, ele descobrira que ela realmente lia algo invisível, algo imutável e efêmero, algo sobre a vida dele.
Ela deduzia, através das linhas na palma de sua mão o tempo de vida que ele teria e dizia que ele viveria muito, muito tempo.
E que aquilo a aliviava.
Saber que Leo poderia acompanhá-la por mais tempo a aliviava de uma preocupação frequente, uma insegurança que vinha a superfície sempre que algo dava errado. Por menor que fosse.
Era difícil de Calipso admitir isso a si mesma mas ela temia a ideia de ficar sozinha novamente, mesmo depois de séculos abandona em uma ilha, presa sem chance de refutar em liberdade, amaldiçoada pelos deuses ela já deveria estar acostumada a essa constante mas só de pensar que em algum momento ele poderia deixá-la por qualquer outra coisa bem, o sentimento retornava com força.
A fazendo ver coisas que não existiam. Fantasmas no calor que subia do asfalto da pequena cidade onde estavam naquele momento.
Por isso ela se resumia aquela leitura diária, depois de meses isso se tornara um hábito difícil de largar.
Ela esperava que em dado momento as linhas mudassem — as linhas sempre mudavam conforme as pessoas cresciam — mas na palma de Leo a única novidade eram calos vermelhos e brancos.
Eles estavam trabalhando bastante, afinal.
"Como eu montaria a Oficina Mecânica Leo e Calipso, sem a Calipso?", ela sorria sempre que se lembrava daquela frase. Mesmo depois dele tê-la tirado daquela ilha, os momentos que passaram lá juntos insistiam em perturbá-la em pequenos ciclos, nos seus pensamentos, até mesmo se assimilavam a alguma das engenhocas que ele criava — sempre girando — pois ele odiava quando algo que deveria funcionar, não funcionava.
Era para Calipso odiá-lo desde o momento que colocara seus olhos nele e em sua mesa de jantar totalmente destruída mas de alguma forma, ele a conquistara.
E assim vice versa.
No tempo em que ele a deixara com a promessa de retornar para buscá-la, ela duvidara inúmeras vezes se o sentimento que o fizera ir fosse apenas parte da maldição — que mais uma vez ela houvesse sido feita de idiota — por se apaixonar por um herói que não sentia o mesmo por ela mas,- no momento em que ele aparecera no céu em um enorme dragão de bronze, a certeza que ela tivera quando o encontrara pela primeira vez, voltara.
Leo não fazia parte da constante que era sua maldição.
E estava tudo bem, enquanto o êxtase de finalmente ser livre corresse em suas veias. Calipso precisava desapegar dessas pequenas coisas. Ainda mais agora que tinha um mundo de novidades bem abaixo de seus pés.
Mas dúvidas surgem quando menos se espera e com o passar dos meses, conforme viajavam de um lugar a outro — vendo pessoas, conhecendo pessoas — ela percebera que talvez, e só talvez, algo não estivesse completamente certo em seu coração. Pois estar livre fisicamente era algo libertador, até mesmo para seus sentimentos.
E ela tinha dúvidas do que sentia por Leo.
Calipso por muito tempo não teve sobre o quê se questionar e se ver diante disso, tão de repente, logo agora que ela tinha o gostinho da liberdade, da felicidade na ponta de sua língua, a fazia se sentir um tanto quanto ingrata por tudo aquilo que Leo fizera por ela enquanto que ele não pedia por nada em troca.
Ele apenas sorria com o rosto inteiro, fazendo pés de galinha se formarem no canto de seus olhos.
Mesmo nas noites em que ela madrugava o observando dormir, seus pensamentos não deixavam de apertar a mesma tecla e ela sabia que ler suas próprias linhas não traria a resposta desejada, pois lhe fora dito que a autoleitura de nada valia, mas ela sempre o fazia e ali encontrava algo que se repetia mais que seus pensamentos.
Não havia nada de errado.
Por tanto tempo, seu corpo se acostumara a sentir emoções negativas e pensamentos nada agradáveis surgiam com facilidade devido ao seu ego ferido, mas Leo quebrara essa constante, ele apenas surgira e colocara suas engrenagens no lugar, como se ela fosse uma de suas invenções problemáticas.
Leo se importava com ela, mais do que qualquer outro herói com o qual ela tivesse convivido.
Ele a amava.
E ela não sabia exatamente o que sentia por ele, mas com certeza era algo bom.
— De novo?
— Fique quieto, eu só quero confirmar uma coisa.
A palma da mão dele permanecia a mesma.
— Então qual o motivo de fazer isso todos os dias?
— Eu só quero ter certeza que nada vai mudar.
— Flor do dia, você está bitolada. O que acha de irmos para outro lugar amanhã?
— Aqui está bom, não precisamos viajar mais.
— Tem certeza?
O semblante dele parecia preocupado.
— Tenho Leo.
— E quando vai me dizer o motivo de ficar assim?
— Assim como?
— Como se algo te preocupasse.
Ele sabia.
Sabia que algo estava diferente nela, havia notado isso a algumas semanas, na verdade.
E não importava o quanto ela se empenhasse em distraí-lo, os olhos e atenção de Leo sempre se voltavam para ela. Era por ela que eles estavam ali afinal, viajando até se cansarem e pensando nisso, não haveria oportunidade melhor do que aquela para deixar de esconder algo dele.
Ela mordia fortemente a parte interna da bochecha enquanto seu indicador parava em uma ruptura na linha da vida dele, uma que indicava mudança. Uma mudança que já havia ocorrido.
— Eu não sei o que sinto por você. Não me entenda mal mas, depois de tudo o quê passei é estranho pensar se o que sinto por você é realmente verdadeiro.
— E o que você sente?
— Já disse que não sei Leo.
Ele deu de ombros.
— Qualquer sentimento é valido.
Não havia tristeza, nem desapontamento no olhar dele e isso a aliviou de uma forma que ela sequer conseguia projetar quando esses pensamentos começaram.
— Eu não tenho mais vontade de bater em você.
— Então isso é algo bom!
— E estar com você foi a melhor coisa que me aconteceu.
— E onde isso é algo ruim? Eu sou uma ótima companhia!
O riso surgiu naturalmente, fazendo Calipso deixar de dar atenção a linha da vida de Leo. O vendo sorrir, contagiado por ela e puxando uma de suas bochechas no instante seguinte.
— Seja menos convencido, Valdez.
— E você seja mais honesta comigo, flor do dia.
Dito isso, ele colocou uma de suas mãos sobre a dela, que deixara de pressionar-lhe a maçã do rosto com tanta insistência, batendo com o indicador sobre a face da mão algumas vezes a fazendo encará-lo com um olhar confuso.
— O que foi isso?
— Código Morse — quando ela não entendeu, acrescentou — você tem as suas manias e eu tenho as minhas, Calipso.
— E o que disse?
— Se você me ensinar o que tanto vê na minha mão, eu te ensino o código. Não é tão difícil, você vai aprender rápido!
Dias mais tarde ela descobrira que Morse não era algo tão simples quanto parecia e levara mais algumas semanas até que conseguisse compreender o que Leo havia lhe dito daquela vez. Mesmo não se lembrando por completo dos toques, ela pode ter uma ideia do que ele dissera — a fazendo pensar no quanto Leo sabia sobre ela, mas pouco deixava transparecer.
"Vou sempre estar ao seu lado".
Pois ele entendia como era ser sozinho e assim como ela, não desejava mais voltar aquele estado.
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