Soulmate
28 Espetinho de Poodle
Notas iniciais
POV JACOB
Uma dor estranha incomodava meu peito, era como se após eu saber a notícia de que Renesmee havia deixado Forks, La Push, sua família – deixado à mim – um buraco se fez outra vez em meu coração. Era estranho sentir aquilo, inovador até de certa forma. Mas não era bom, nenhum pouco bom. Mesmo que minha cabeça dissesse que estava na hora de seguir em frente, meu interior continuava a me martirizar dizendo o contrário.
Achei que fazendo uma visita a Bella, as coisas iriam melhorar. Afinal, ela foi durante anos minha melhor amiga, e uma boa parte dela, meu primeiro amor. Mas não, a conversa com os Cullens só atiçou minha curiosidade. Compreendi o porque de esconderem a origem de Nessie, mas achei exagerado da parte deles achar que algum dos Quileutes pudessem fazer algo de ruim contra ela. Foi inconsequente de minha parte mentir para Renesmee sobre meu antigo relacionamento com Isabella, mas ela pareceu tão surpresa quando joguei tudo em sua cara que cheguei a conclusão de que ela também não sabia. Me arrependi por isso, me arrependi profundamente. Ela não sabia de nada, não poderia estar seguindo os passos da mãe. Mas eu não podia ser deixado outra vez. Aquilo seria demais, e estranhamente o que eu sentia por Nessie era muito maior do que um dia eu senti por Bella. Saber que ela voltou para Bergen sozinha, e não para os braços de outro, de certa maneira acalentou meu coração.
Mas o que mais estava me inquietando era entender porque Edward e Bella eram tão firmes com ela quando o assunto eram os lobos. Não posso dizer que minha conversa com os Cullens tenha sido reveladora. Durante o caminho até a casa, pesei os prós e os contras de contar sobre eu e a pequena vampira híbrida deles. E por mais que não tivéssemos mais nada, havíamos combinado de não contar a ninguém. Eu continuaria com a minha palavra. E sua volta para Bergen só confirmou que ela queria deixar o passado enterrado a sete palmos na terra. Então eu iria fazer o mesmo.
Por algum tempo evitei me transformar para não ter nenhum lobo curioso lendo minha mente. E confesso que foi torturante não pensar em nossos momentos juntos quando estava na presença do leitor de mentes. Eu não era mais um moleque, já havia amadurecido o suficiente para conseguir controlar meus pensamentos. Então como qualquer homem normal faz para não ficar pensando em uma mulher, pensei em jogo de futebol americano, comidas gostosas, lugares que eu gostaria de viajar, vampiros sugando meu sangue. Homens pelados. Pensei de propósito nisso para zoar com a cara do sanguessuga comedor de melhores amigas. Mas parecia que estar na presença deles, tudo me levava a ela. Até mesmo com a casa lotada de vampiros fedorentos, o cheiro dela flutuava pelo lugar, grudando em minha pele. Como se ela tivesse recém deixado a casa.
Voltei para casa correndo, precisava extravasar minha mente. Tomei um banho, coloquei uma bermuda azul escura e uma camiseta branca, passei meu melhor perfume e rezei para que a noite desse frutos. Já acomodado dentro da nossa velha pickup desbotada, meu pai olhou-me estranho. Intercalou olhares confusos entre mim, e a estrada a frente. Estávamos indo jantar na casa de Charlie.
– Pode falar. Qual o problema agora? – indaguei, mantendo minha visão na estrada escura.
– Nada. – ele deu de ombros.
– Então porque está me olhando dessa maneira?
– Você parece magoado. – ele suspirou.
– Deve ser coisa da sua cabeça, velho. – me permiti sorrir para ele. Não queria meter meu pai em meus problemas, ele já estava tendo os seus ao ter que lidar com a velhice.
– Irá sair com alguém?
– Pensei que a fase das perguntas acontecia na infância. – ri sozinho, e ele me olhou atravessado – Talvez eu de uma volta por Forks. Faz algum tempo já que não dou uma olhada na cidade.
– Na cidade, ou nas garotas?
– Nos dois.
– Jacob nós já conversamos sobre isso...
– Eu sei pai. O senhor passou esses últimos 18 anos me alertando.
– Estou te alertando porque não acho certo. E não quero que machuque alguém. Você sabe que nós lobos sofremos...
– Sim, o maldito imprinting. Só que eu cansei de esperar pai, não posso esperar por alguém que eu sequer sei se existe. Preciso viver minha vida enquanto essa maldição não acontece. – falei desgosoto.
– Não fale dessa maneira garoto. – virei o carro na rua da casa de Charlie e estacionei a camionete, desci do carro, peguei a cadeira de rodas de meu pai e fui ajudá-lo a descer – Ás vezes as coisas estão bem na sua frente, você só precisa abrir os olhos.
– E você precisa parar com essas metáforas. – empurrei a cadeira para cima da calçada – Me deixa maluco.
Ele riu e a porta a frente se abriu, revelando um Charlie idoso, beirando os 60 anos, com cabelos grisalhos, um pouco corcunda, mas com o mesmo senso de humor de sempre. Estampava no rosto um sorriso alegre por nos ver, e eu estava feliz por vê-lo novamente. Visitar Charlie me lembrava da época em que eu vinha até sua casa com meu pai, e enquanto eles jogavam cartas e planejavam as próximas pescas, eu assistia filmes esparramado no sofá com...
Senti uma dor forte em minhas têmporas, me obrigando a parar no caminho. Meu pai olhou-me assustado, mas não perguntou nada. Tentei mais um vez lembrar porque eu vinha até a casa de Charlie, mas aconteceu novamente aquela dor e expulsei a memória de mim. A porta bateu com o vento e Charlie desceu os degraus para nos ajudar com as coisas, novamente meu pai havia trazido peixe frito.
– Billy, Jacob! – ele nos cumprimentou – Que bom que vieram. E vejo que trouxeram peixe frito.
– Caprichei neste aqui. – meu pai estendeu as mãos e entregou o prato a Charlie.
– Tenho alguém que irá gostar mais. – ele disse sorridente.
– Alguém irá jantar junto conosco? – perguntei.
Com Charlie atrás de mim, subi os degraus com a cadeira e esperei nosso anfitrião da noite juntar-se a nós. Ele bateu na porta, e escutei passos leves sob o assoalho da casa.
– Eu quis fazer surpresa, por isso não disse nada. Mas hoje temos uma visita muito especial. – a porta se abriu e se não fosse pela minha condição sobrenatural, eu já teria tido uma síncope – Billy e Jacob, eu quero que conheçam minha neta...
– Renesmee.
Pronunciar seu nome foi inconsciente. Saiu tão facilmente de mim, como um alívio. Por um momento me esqueci o real motivo do nosso afastamento, e eu só queria beijá-la outra vez. Eu estava tão atônico por vê-la que não conseguia desviar meu olhar de espanto, do seu rosto confuso. Eu estava ciente dos olhares de Charlie e de meu pai para nós. Felizmente fomos salvos pelo gongo, quando Charlie interviu nosso momento nostálgico.
– Vejo que já se conhecem. – ele colocou uma mão no ombro de Renesmee, e automaticamente ela relaxou e voltou a agir normalmente, sorrindo para meu pai – Isso não é maravilhoso?
– O senhor deve ser o Billy, é um prazer conhecê-lo. Sinto que o conheço a anos, claro, Charlie me contou muito sobre o senhor.
Meu pai pareceu relutante em pegar na sua mão. Estudou milimetricamente o rosto de Nessie, e quando a mesma estava a ponto de retirar a oferta de cumprimento, meu pai sorriu e apertou calorosamente a mão pequena dela. Estranhei aquela atitude de meu pai, ele nunca fora contido, nunca analisou alguém como ele acabará de fazer. Bem pelo contrário, meu pai era o homem mais amigável que eu havia conhecido.
–Por favor querida, sem formalidades. – ele sorriu e ela retribuiu.
– Prometo tentar, chefe. – ela respondeu timidamente.
– Do que você o chamou? – a palavra chefe, saída recém da doce boca dela, ecoou por entre meus ouvidos e a esquisita sensação de já tê-la ouvido o chamar daquela maneira permaneceu ali.Meu pai enrijeceu no lugar, e apenas assentiu com a cabeça.
E assim como ela apareceu doce e encantadora em meu campo de visão, Nessie sumiu por entre as paredes da casa. Os pés descalços, andando na ponta dos pés, como se não quisesse que seus passos fossem ouvidos e fosse seguida. Instintivamente empurrei a cadeira casa adentro, Billy e Charlie conversavam sobre alguma coisa, mas meus ouvidos não conseguiam captar qual era o assunto. Minha cabeça já não doía mais, mas o fato de saber que ela estava de volta, simplesmente mudava tudo.
Então porque Edward e Bella mentiram ao dizer que ela havia ido embora? Porque ela estava na casa de Charlie? E porque agora ela me olhava tão friamente, a ponto de doer em meu coração? Eu não sabia porque, mas algo dentro de mim dizia que havia muita coisa ainda a ser esclarecida.
Mal tivemos tempo de sentar no sofá, e Renesmee anunciou da cozinha que o jantar estava pronto.
– Adivinhe só Billy, minha amada neta irá morar comigo a partir de hoje. – Charlie exalava alegria a cada palavra pronunciada – Irá dormir no quarto de Bella.
– Hum, interessante. Será muito bom para você. – meu pai assentiu – E o que a fez vir morar aqui, querida?
– Na verdade, eu estava voltando para Bergen. Mas decidi ficar aqui, e aproveitar o meu avô. – ela sorriu docemente. Seus olhos se mantiveram apenas em Billy, Charlie e no prato. Em momento algum ousou olhar para mim, e aquilo estava me torturando.
– E o que a fez ficar? – eu e minha boca grande de lobo. Acho que minha curiosidade para saber o motivo da mudança de planos, era maior que a minha vontade de ficar quieto.
– Levei um pé na bunda. – ela olhou-me com desdém, lambendo lentamente o garfo – Decidi que não precisava me mudar de cidade, para seguir em frente. – e após a bela provocação com os lábios, Ness voltou a olhar para o prato e sorrir teatralmente para meu pai e Charlie.
– Sinto muito querida. – Charlie acariciou sua mão – Aposto que esse garoto deve ser um idiota. Você é perfeita, apenas um cego para não ver a belezura que você é.
– Obrigada vovô. – ela beijou sua bochecha.
– Talvez ele tenha tido motivos que o levaram a isso. – lá vinha eu mais uma vez defender minha honra.
– Ele teve? – meu pai perguntou dessa vez.
– Digamos que ele me culpou por algo que nunca fiz. – ela deu de ombros – Mas passado é passado certo? – ela disse confiante.
– Talvez ele estivesse com medo de ser machucado outra vez. – respondi.
– Sabe o que isso me parece? – Charlie disse com a boca ainda cheia de peixe frito, enquanto balançava o garfo no ar – Fresco. Esse garoto deve ser molenga.
Billy e Renesmee riram juntos, enquanto Charlie continuava com o ar pensativo.
– Acho que você está certo, vovô. Talvez eu seja muita areia para o caminhãozinho dele. – Nessie olhou-me presunçosa, e vê-la me encarar daquela maneira, fazia minhas entranhas queimarem de raiva e desejo. Ela estava claramente debochando de mim, na frente de meu pai.
– É o que veremos. – acho que falei mais para mim mesmo, mas a frase foi ouvida por todos.
– O que você disse filho? – Charlie indagou.
– Sereno. Eu disse que lá fora tem muito sereno. – respondi meio desconcertado por ter sido pego de surpresa.
Um longo silêncio se seguiu, até que meu pai quebrou-o. Agradeci mentalmente por ele ter feito aquilo, eu já não sabia mais se comia antes, ou pensava nela.
– Você lembra de alguma coisa de quando era criança, Renesmee?
– Lembro-me pouco. Na verdade, lembro-me com certeza tudo após a chegada a Bergen, antes disso nada.
– Por isso que estamos tratando hoje como um dia especial. Faziam anos que eu e Renesmee não nos víamos, fiquei com medo de que ela pudesse me esquecer. Graças a Deus, ela voltou a tempo disso não acontecer. – Charlie sorriu emocionado.
– E como foram seus anos após irem morar em Bergen?
Renesmee havia parado de comer, e agora brincava com o cabo do garfo entre os dedos. O olhar baixo, preso no prato de comida, quase vazio, exceto pela salada verde que enfeitava-o. Ness botou uma mexa de cabelo atrás da orelha, e a feição de seu rosto delatou uma lembrança dolorosa.
– Foram...como eu posso dizer, confusos. Passei boa parte de minha vida vivendo apenas entre minha família. Eu sentia um constante vazio dentro do peito, como se eu tivessem arrancado algo de dentro de mim. E havia aqueles sonhos estranhos e escuros.
Meu pai com a cabeça, encorajou a continuar.
– Negros, escuros. Olhos tão profundos e dolorosos. Sonhar com eles doía em mim. Era olhos tristes, cansados, e nunca vinham acompanhados de um rosto. Mas ao mesmo tempo eram olhos lindos, encantadores, de uma profundidade de emoções gigantescas, que até se parecem demais com os de Ja...
Ness silenciou-se após parecer entender o que estava falando. O meio sorriso que antes estampava nos lábios ao relembrar com carinho os tais olhos negros, fechou-se ao cravar o olhar em mim. Ela estava tão absorta em seus pensamentos, e em sua dor, que eu me permiti mergulhar nas minhas próprias lembranças. Eu quis falar, dizer a ela como eu a compreendia, abraçá-la e fazer a lembrança dolorosa ir embora. Afastar a dor, para longe de nós dois, afinal, eu já havia sentido a mesma coisa. Estranhamente, durante anos eu vive com aquela mesma sensação de vazio.
– Você se sentia incompleta.
Não pensei muito no momento, se iria ser reprimido por Charlie e meu pai, ou se eles iriam rir de mim. Eu apenas precisava compartilhar aquele pensamento com ela. Renesmee me olhou cabisbaixa, colocou outra mecha grossa de cabelo atrás da orelha, e suspirou longamente. O velho Charlie parecia alienado á nossa conversa, entretanto, meu pai olhava tanto a mim, como a Renesmee com pena. Olhava-nos de uma maneira que parecia dizer que sentia muito pelo que havíamos vivido.
– É. – outro longo e constrangedor silêncio se fez presente na cozinha, mas Nessie tratou logo de quebrá-lo – Mas, felizmente, isso tudo já passou. – ela levantou-se e começou a retirar os pratos da mesa – Não me sinto tão sozinha agora, acho que eu apenas precisava voltar para casa, minha verdadeira casa.
– Que peixão!
Charlie gritou eufórico, após terminar de ingerir o último pedaço de peixe frito que estava em seu prato. Não me contive, e soltei uma leve risada. Era aquilo que eu tanto gostava no velho Charlie, ele nunca perdia o humor, e mesmo quando não tinha intenção de ser engraçado, ele era. Ele espreguiçou o corpo, e olhou com admiração para Renesmee.
– Que grande idiota. – ele balbuciou.
– Quem? – ela indagou.
– O cara que te fez sofrer. Minha maior vontade é fazer espetinho de gato, desse garoto. – ele riu.
– O certo seria, espetinho de poodle. – ela disse, olhando sarcasticamente para mim – Mas não se dê ao trabalho, vovô. Não val a pena.
Bufei sentado na cadeira da cozinha. Minha perna esquerda balançava incessante, num ataque de ansiedade, e minhas mãos, presas dentro dos bolsos da minha bermuda, apertavam o tecido abaixo delas. Charlie parecia estar se divertindo com os pensamentos de vinganças contra o tal cara que magoou a pequena e indefesa netinha dele. Já meu pai, parecia estar divertindo-se da situação, intercalando olhares entre mim, e a sanguessuga.
– Charlie, por acaso a árvore que fica ao lado da janela do antigo quarto de Bella, ainda está lá? – meu pai perguntou. Cachorro safado, ele me conhecia melhor do que ninguém.
– Firme e forte. – Charlie respondeu alegre.
– Então acho melhor cortá-la. – ele olhou sugestivamente para mim, enquanto Charlie franzia o cenho.
– Como se isso fosse me impedir. – tive cuidado dessa vez e sussurrei. Sabendo que apenas Renesmee havia escutado.
Charlie era um mero humano, e mesmo que a idade não fosse um empecilho, ele nunca escutaria o que eu havia dito, no tom de voz baixo do qual sussurrei. Olhei de relance para meu pai e ele parecia estar agindo normalmente, Billy já fazia algumas décadas que não se transformava, então cada vez mais ele se tornava humano, e cada vez menos lobo. Agradeci mentalmente por isso, meu pai não precisava ficar ouvindo tais coisas.
– Charlie você ainda assina aquele canal de televisão que transmite pescas ao vivo? – meu pai inquiriu, ao mesmo tempo que a mão passeava levemente pela barriga saliente.
– Oh, tenho sim. Já que não tenho mais tanto vigor para ficar esperando por horas os peixes, me deleito assistindo a esse programa. Lembro-me de antigamente. – ele disse pensativo – Hum, Jacob, você ainda não me contou como conheceu Renesmee.
– Cidade pequena. – respondi calmamente – E seria um pouco estranho, eu não conhecer a filha de Bella.
– Eu ainda não compreendo esse mundo de vocês. E acho que nem quero compreender. – ele olhou-nos confuso – Vocês parecem ter a mesma idade, mesmo quando eu sei que você é muito mais velho que Renesmee! – Charlie deu de ombros – De qualquer forma, vamos assistir logo á esse programa Billy. Jacob você se importa de ajudar Renesmee com a louça?
Neguei com a cabeça, eu é que não perderia a chance de ficar alguns minutos sozinho com ela. A ânsia por respostas se apoderava novamente de mim. Estava na hora de “lavar a louça suja”.
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