Quatro anos haviam se passado. Quatro longos anos. Sem nenhum tipo de contato, sem notícia alguma. Sem saber se Gabriel estava bem ou não. Suas últimas palavras dirigidas a mim em cima daquele palco em frente à multidão ainda eram frescas em minha memória.

“Eu nunca vou esquecê-la, Jenna.”

Eu nunca o esqueci. Uma parte de mim queria ter certeza que ele também não o fizera, mas a outra era realista demais e tentava me convencer da ideia de que o tempo havia me apagado de sua memória. E talvez fosse tempo de aceitá-la já que olhar para o céu no primeiro sábado de agosto, todos os anos, só me trazia tristeza e aguçava a saudade que era incontável.

Eu estava ali de novo, mas dessa vez no terraço do prédio que estava morando sozinha há alguns meses no centro de Londres. O telescópio apontado para o norte, com o brilho da Cassiopeia capturado por sua lente. Perguntei-me se Gabe estava fazendo o mesmo, seja lá onde estivesse. Será que ele ainda pensava em mim? Será que ele havia se apaixonado por outra pessoa? Por mais que me doesse pensar nessa possibilidade, será que Gabe ainda estava vivo? Sim. Vivo ele estava. Se algo tivesse acontecido, Lorde Netherby teria a sensibilidade de alguma maneira tentar me informar.

Netherby. Fazia tempo em que eu não botava os pés lá. Aquele lugar era muito carregado de lembranças, tais que não saberia se seria capaz de suporta-las retomar a minha mente.

Balancei a cabeça em uma tentativa de livrar-me daqueles pensamentos que tanto me feriam, peguei o telescópio e saí dali. O que eu mais precisava era de uma boa noite de sono.

...

Os primeiros raios de sol iluminavam meu quarto. O aconchego de meu apartamento compensava a falta de espaço. Eu tinha uma vista ampla da cidade de minha varanda e o sol me dava bom dia todas as manhãs.

Levantei-me preguiçosamente e fui até a cozinha, tal que era apenas um espaço divido por um grande balcão de madeira com a sala. Se é que poderia chamar aquilo de sala, pois ela havia sido tomada por estantes cheias de livro. Agora parecia mais uma biblioteca do que uma sala propriamente dita. Mas eu adorava deitar-me no tapete felpudo no meio das prateleiras, isso me lembrava um pouco do sebo de minha tia Sarah, o único lugar de Netherby que não me deixava deprimida só em pensar.

Foi graças meu tempo no sebo que virei o que sou hoje: uma poeta. Escrevo livros que circulam bem no circuito underground de Londres e de algumas outras cidades. Eu consigo sobreviver com que ganho, mas como eu queria fazer isso de modo transparente, eu acabei por assinar meus poemas com um pseudônimo. Para todo o caso, sou M.J. Wittlemore. Ninguém sabe o rosto da pessoa que escreve os poemas, nem se é uma mulher ou homem. Eu gosto do anonimato e da curiosidade que aguça nas pessoas.

Eu era uma pessoa solitária se não fossemos contar meu amigo Peter e minha gata Cherrie, que deveria estar debaixo de algum móvel dormindo, como sempre. Depois do festival, eu nunca mais havia visto Mia e Jackson, o que de certo modo era realmente um alívio.

Estava esquentando meu chá quando a campainha tocou. Naquela hora em pleno um domingo só poderia ser uma pessoa. Fui até a porta e a abri para dar de cara com Peter e seus imensos olhos azuis balançando um CD em mãos.

– Você tem que escutar esses caras – ele passou por mim e em seguida fechei a porta.

– Bom dia pra você também, Peter – falei irônica.

–É uma banda nova – ele ignorou completamente meu comentário – Vão se apresentar hoje à noite no Yellow Brick.

Yellow Brick era uma pequena casa de shows que abria espaço para as bandas independentes. Eu já havia ido algumas vezes, mas Peter era frequentador assíduo do lugar.

– E como se chamam? – perguntei.

– The Bad Trippers – disse colocando o CD no aparelho – Tocam música anti-folk.

A primeira faixa começou a tocar e a voz do vocalista ecoou pela sala em versos carregados de sentimentos.

You really enjoy break other people's heart?

Or you don't know that you always do that?

I'm running of fear while I'm drowning in my tears

But I'm still hearing your voice

Saying you got not choice

Unless leave me

A voz. Eu conhecia aquela voz. Eu nunca me esqueceria daquela voz. Ou só seria uma outra voz parecida e minha mente estava me pregando peças? Pois até onde eu me lembrava, a banda se chamava Goats In A Spin.

– Peter, você sabe o nome do vocalista?

Ele balançou a cabeça em negação.

– Não faço a mínima ideia. Mas você pode descobrir se for comigo a apresentação deles hoje à noite – ele sorriu – Você vem, não é?

Eu cruzei meus braços enquanto analisava a proposta. O que afinal eu teria a perder?

– É claro. Eu vou sim.

Peter deu um sorriso de satisfação e aumentou o volume do som.

...

Chegamos ao Yellow Brick por volta das nove da noite. Um número razoável de pessoas já estava no lugar, alguns sentados nas mesas, outros no bar e ainda aqueles que esperavam o show perto do palco. Não havia sinal da banda, entretanto.

– Que horas o show começa? – perguntei para Peter enquanto nos sentávamos em uma mesa que fornecia uma boa visão do palco.

– Daqui a pouco.

Eu estava mais que ansiosa e sabia exatamente o porque. A possibilidade de ver Charlie subindo ao palco depois de tanto tempo fazia meu coração acelerar.

Foi ai que as luzes se apagaram e as pessoas começaram a gritar. Joe, um dos funcionários do Yellow Brick subiu ao palco para anunciar a entrada da banda:

– Senhoras e senhores, é com muito prazer que recebemos eles: The Bad Trippers.

Todos iam à loucura. Talvez a banda fosse mais conhecida do que parecia. Ou as pessoas só gostavam de animar. Pude ver os membros subindo ao palco, mas as luzes principais continuavam apagadas, o que me impedia de reconhecer alguém. Eram quatro integrantes no total.

Então as luzes se acenderam, ele deu um passo à frente e segurou o microfone em seu apoio.

– Boa noite, Londres. Está fazendo uma bela noite, não acham? – a plateia gritou em concordância – Bem, a primeira música que iremos tocar se chama “The Prettiest Night”.

A canção começou e Charlie cantou seus primeiros versos. Eu mal podia acreditar naquilo que se passava diante meus olhos. Ele mudara muito pouco, apenas estava mais alto e mais magro. Olhei para os outros três a procura de Freddie, mas não o encontrei. Nunca havia visto aqueles rostos antes.

Então, voltei minha atenção a Charlie novamente que não perdera seu jeito de cantar. Eu deixei um riso escapar. Será que o meu passado decidira bater na porta?

...

Quando a apresentação acabou, todos aplaudiram e gritaram. A banda era realmente muito boa.

– Eu já volto – avisei Peter já me levantando da mesa.

– Tudo bem... Será que você poderia trazer algo para beber?

Eu concordei com um aceno e fui à busca de Charlie em meio de todas aquelas pessoas.

Depois de um tempo o procurando o vi do outro lado do balcão do bar, sentado, conversando com um homem que aparentava já ter os seus trinta anos. Meio receosa, fui a sua direção e não demorou em que ele me avistasse. Assim que seus olhos encontraram os meus, ele se levantou e sorriu animadamente.

– Jenna! – ele me abraçou assim que me aproximei.

– Charlie! – retribui com o mesmo entusiasmo – Eu mal posso acreditar que é você.

– Eu digo o mesmo – ele me analisou por um tempo quando nos separamos – Você está ainda mais bonita.

– É, eu tento às vezes – sorri sem graça – E você também não está nada mal.

– Eu tento às vezes – deu de ombros.

– Touché! – e com isso, começamos a rir.

– Você não quer sentar? – ele perguntou.

Eu concordei e nos sentamos onde ele o outro homem estavam antes.

– Acho que seu amigo o abandonou – comentei.

– Ah, aquele era Matthew. Um velho conhecido. Mas e você, veio sozinha?

– Não, vim com meu amigo Peter. Que já deve estar conversando com outra pessoa já que eu não voltei para lá.

– Amigo, huh? – seu tom era malicioso.

Amigo – frisei – Nos conhecemos há uns três anos atrás e desde então, ele é como um irmão para mim.

– E você não está com ninguém?

– Não, não desse jeito. Não gosto de namoros.

– Qual é, Jenna. Vai me dizer que o último que você... – ele começou, mas interrompeu-se no meio ao ver minha expressão. Depois de Gabe, eu não havia me relacionado com mais ninguém.

– Me desculpe, é só que...

– Não precisamos falar sobre isso – eu disse.

– Mas Jenna, você...

– Não quero ser grosseira, mas não quero falar sobre ele Charlie – o interrompi novamente.

Eu respirei fundo e senti meu coração começar a doer novamente. Talvez ter ido até lá não tivesse sido uma boa ideia.

– Acho melhor eu ir indo. Foi bom revê-lo, Charlie – eu me levantei e não correspondi o seu pedido para que eu ficasse.

Fui a procura de Peter que ainda estava em nossa mesa mexendo em seu celular.

– Nossa, você demorou. E cadê minha bebida?

– Peter, vamos embora. Por favor – pedi.

Não precisou dizer mais nada, pois meus olhos marejados já deixavam claro que eu não estava em meus melhores dias.

– Tudo bem. Claro – ele se levantou e colocou seu braço ao redor de meus ombros.

Caminhamos para a saída e não demorou muito para que a brisa da noite tocasse meu rosto. Peter me abraçava enquanto caminhávamos pela calçada para longe dali, quando em um gesto desastrado, eu colidi com alguém que saía apressado de uma loja de conveniência 24 horas. A sacola da pessoa foi ao chão junto com o seu pequeno caderno em capa de couro.

Eu me desgrudei de Peter e me abaixei para pegar o objeto. O pequeno caderno surrado fez com que eu receasse olhar para pessoa a quem pertencia. Eu o abri, sem ligar para a voz de Peter falando para eu não mexer nas coisas do rapaz estranho no qual eu esbarrara.

Eu ergui minha cabeça lentamente para encarar aqueles olhos petrificados que me fitavam. Eu me botei de pé novamente e o entreguei seu caderno. Eu juntei todas as forças possíveis para poder falar sem me debulhar em lágrimas:

– Há quanto tempo você voltou? – minha voz saíra falha.

Ele me encarou por um longo tempo antes que respondesse aquilo que me acertaria em cheio no estômago.

– Há um ano.

Notas finais
Bem, para aqueles que como eu se desesperam para uma continuação de Soul Love, eu decidi escrever uma fic sobre. Espero que gostem!! Beijos, Bel ♥