Soul Side

1 Capítulo 1



Não sei como, mas acabei em um encontro de otherkins com meu melhor e único amigo, Magni. O primo do garoto decidiu nos arrastar até aqui, tentando achar uma resposta para o nosso "problema dos sonhos".

Oh, certo, esqueci que devia me apresentar. Sou Mell, e a minha vida começou a ir de mal pra pior enquanto eu dormia. É, estranho, eu sei. Mas basicamente meus sonhos começaram a desencadear a sequência de bizarrices que minha vida se tornou de uns meses pra cá.

Como você, obviamente, não deve estar entendendo absolutamente nada, vou ir para o ponto onde tudo começou.

Eu me lembro de estar calmamente dormindo, em um sonho qualquer, dos meus normais, nada memoráveis. Então, as coisas começaram a ficar estranhas. Um sonho novo começou, no qual eu era uma raposa e corria livremente em uma campina ao lado de um cão — um golden retriever majestoso. O cachorro começou a falar comigo, e era exatamente a voz de Magni — uma voz que pertenceria a um andrógeno adolescente com um sotaque irreconhecível -, mas as palavras não faziam sentido, como se ele falasse em grego.

Acordei subitamente, confusa. Me sentia estranhamente cansada, como se tivesse ficado trabalhando durante toda a noite. Antes que pudesse pensar mais nisso, Magni me cutucou, assim como eu, ainda de pijamas. Ele fica ainda mais estranho sem o binder, pensei silenciosamente. Ele não tomou a iniciativa de falar, então, como eu era ainda menos sociável que ele, também fiquei em silêncio. Me olhei no espelho: Uma garota baixinha, olhos castanhos, como os de qualquer pessoa. Meus cabelos ruivos, crespos e despenteados, caiam selvagens pelos ombros. Acho que a ultima vez na qual penteei o cabelo foi mês passado. Coloquei os meus óculos, apenas para perceber o quão pálida minha pele salpicada de sardas estava. Você, querida, está horrenda, pensei.

Decidi que era hora do café da manhã. Iria avisar Magni, mas quando olhei, ele já tinha saído do quarto. Malditos sejam os transgêneros ninjas.
Fui até a minuscula cozinha do apartamento, logo avistando ele: Se não fossem pelas roupas, seria difícil saber qual o gênero dele. O cabelo loiro encaracolado estava penteado, e dava para ver que ele detestava desconfortável com o binder. Assim que percebeu que eu estava lá, ele olhou para mim com os seus olhos azuis brilhosos, e deu um sorriso, mesmo que esse parecesse mais uma careta. Eu precisava conseguir mais seringas de hormônios para ele, afinal, nunca gostei de ver ele desconfortável. Diferente de mim, Magni era alto, magrelo. Sua aparência melhorou bastante. O garoto estava melhorando de seu problema com anorexia.

— Bom dia! Quer cereal? Tá acabando. — Ele falou. Balancei a cabeça, concordando.

— Obrigado. Você vai tentar conseguir um emprego de novo hoje? — Perguntei — Aposto que você consegue.
— Uh... Bem, eu acho que não. Quase consegui um em um mercadinho, mas quando falei que era transgênero, a gerente me despachou na hora. Acho que não é muito possível, mas eu posso trabalhar aqui em casa.

— Bem, se você se sente melhor assim. — Respondi, pegando o cereal. Pelo menos aqui no Brasil, Magni nunca iria conseguir um bom emprego sem sofrer preconceitos.

Mesmo assim, seria difícil nos sustentarmos, principalmente comigo trabalhando na loja quase falida da minha tia.

Hoje, como sempre, iria até lá trabalhar, e assim fui. Minha tia era terrível, tão intolerante quanto intolerável. O único motivo de eu continuar no negócio dela era o pouco trabalho e salário decente. O tempo livre se devia aos pouquíssimos visitantes na loja, um lugar de paredes desbotadas, um dia já azuis, mas agora verde muco, e a localização: Um bairro um tanto perigoso, melhor não rondar por lá durante as noites. Convenhamos, o meu trabalho dava pro gasto, mesmo não sendo a melhor coisa do mundo.

Depois de comer um pouco do cereal (o bastante para não passar mal enquanto no trabalho), dei um tchau rápido para Magni e saí do apartamento. Felizmente, ninguém prestava muita atenção em mim, afinal, aquela era uma cidade cheia de colegiais muito mais bagunçados do que eu — inclusive topei com alguns desses na rua, jovens que mais pareciam zumbis -. Mesmo assim, a loja não era exatamente o lugar mais próximo do mundo. Fiquei vinte minutos caminhando no meio das pessoas que vagavam na rua, indo aos seus ótimos trabalhos, ou até levando crianças para a escola.

Antes que pudesse chegar ao lugar do trabalho, ouvi um homem gritando em um pequeno caixote, no meio da rua:

— Atenção! Atenção! Atenção! Dois renegados da sociedade tem o poder dos sonhos!

Algo se agitou dentro de mim, me chamando para mais perto do homem. Quase obedeci esse estranho impulso.

Quase.

Voltei a andar, afinal, precisava chegar ao meu trabalho. Mesmo assim, não pude deixar de notar o homem gritando sobre "Os dois M's são os escolhidos".

Apressei o passo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.