Soul Master
6 Memórias- Parte 1: o forasteiro e a menina dos girassóis
Notas iniciais
Oito anos no passado Martha Birch se mudou, com o filho, para a cidade de Orleans. Josh, na época com 9 anos, não gostou nem um pouco da mudança, e demonstrou isso de todas as formas possíveis, reclamando sempre que achava conveniente. O que chateava o garoto era o fato de não poder ver o pai (não que isso acontecesse com frequência.) e ficar impedido de ouvir as histórias do trabalho dele. Na cidade em que moravam, St Louis, existiam várias formas de transporte, mágicas ou analógicas, e mesmo assim eram raras as ocasiões em que o pai os visitava mais de uma vez por ano. Indo para tão longe, a perspectiva era de não vê-lo nunca mais.
Martha começou a usar o nome de solteira desde pouco tempo depois que Joshua nasceu. Sempre que o garoto perguntava a razão do divórcio, a mãe ressaltava o grande amor que tinha (às vezes ela, por ato falho, falava do amor que “ainda tem”) pelo ex marido, mas dizia que a rotina de trabalho de um agente da Thelema deixava qualquer relação complicada, e por isso os dois preferiram continuar como bons amigos para não desgastar o sentimento. Para falar a verdade era difícil mesmo para uma criança não perceber que a mulher mentia quando falava que foi uma decisão que saiu de uma conversa franca onde ambos concordaram na hora. Martha parecia estar realmente frustrada, e demonstrava isso com as duas carteiras de cigarro que fumava todos os dias.
Pouco tempo depois que se estabeleceram, Martha conseguiu um emprego na TV Orleans como repórter freelancer. Alguns anos depois seria a jornalista mais respeitada do jornal, mas precisou de muita cara de pau e sangue de barata para chegar aonde chegou. Não que fosse uma profissional ruim, porque estava longe disso,era porque as coisas em Orleans funcionavam de um jeito diferente mesmo. Se você não tinha um sobrenome pomposo, as outras formas de ascender na vida Orleanígena é se dar muito bem com os detentores desses sobrenomes. Com o tempo, a mulher aprendeu a lidar com isso.
Meses depois da mudança, o tio Benjamin se mudou para a cidade, através de uma transferência que o jogou direto num cargo burocrático na polícia municipal. A longa carreira de agente da Thelema o rendeu uma série de contatos que, depois que ficou manco, serviram para ele descolar uma série de favores que, dentre outras coisas, possibilitaram que ficasse perto da irmã e do sobrinho. A presença do tio Ben era um pequeno alívio para Josh, já que eram dele as segundas melhores histórias de batalhas para ouvir.
O Tio desde sempre tinha uma personalidade que variava entre “rabugento” e “Simpático”, e uma das coisas que mais gostava de fazer era reclamar sobre como os civis faziam pouco caso do trabalho dos guerreiros que perdiam as vidas, ao redor do globo, para tornar o mundo um lugar seguro para todos.
—Enquanto todos os guerreiros dizem “nós vamos sobreviver a guerra se durarmos mais uma noite”- resmungava sua frase de efeito entre goles do cantil de whisky que mantinha no bolso do casaco- as pessoas falam “que dia ótimo, vencemos a guerra, perdemos um milhão de homens mas ainda temos um milhão deles”, deprimente- E ia dormir logo depois
Nessa época, para alívio da mãe, passava longe da cabeça do jovem josh se alistar na Thelema. Não se considerava excepcionalmente corajoso nem possuía nenhuma habilidade que fizesse com que ele achasse que se destacaria. O garoto não fazia a menor ideia do que queria fazer da vida, mas sempre gostou de uma boa história. Achava especialmente mais interessante ouvir sobre as façanhas dsos profissionais que lidavam com o sobrenatural.
Faziam já 2 meses que se mudaram, e a rotina do garoto não poderia ser mais entediante. Como havia abandonado a escola em St. Louis e estavam no meio do ano, precisava esperar o começo de mais um ano letivo para prosseguir os estudos. Por conta disso, a maior parte do tempo era gasta assistindo televisão, e discutindo com a mãe sobre o tempo que ele gastava na televisão.
—De novo nesse sofá? Bem que você podia sair de casa pra variar- Resmungou Martha
— Pra quê? Não tem nada pra fazer aqui!- Respondeu, sem olhar pra ela, enquanto mudava os canais da televisão
—Tá, agora chega- Tirou o televisor da tomada e ouviu algumas reclamações do garoto, dando de ombros- Vai procurar o que fazer na rua, não faz bem ficar trancado em casa.
Então josh saiu pela porta da frente e andou por todo o bairro, não achando nada que o interessasse. Cruzou várias ruas até chegar na entrada de uma reserva ambiental. Como ainda estava cedo e sabia que a mãe reclamaria se voltasse logo, decidiu entrar.
A reserva florestal de Orleans é muito vasta. Possui uma rica vegetação e algumas árvores muito altas, de cerca de 20 metros de altura. Como essas árvores ficam muito perto umas das outras, existe muita sombra pra caminhar. No meio de várias árvores formava-se uma trilha, que o garoto seguiu. Enquanto andava, ouviu um barulho acima da cabeça e observou que alguns macacos estavam nos galhos. Como cresceu em uma cidade mais desenvolvida e ligada à magia e ao sobrenatural, era a primeira vez que estava em uma floresta como essa, sem grande interferencia dos humanos ou de outras criaturas inteligentes.
Florestas são locais muito espirituais, e frequentemente são utilizados para diversos rituais. Ao longo dos anos, tantos feitiços transformaram a maior parte das florestas em um cruzamento de ecossistemas de diversas dimensões. Não era incomum encontrar seres inteligentes que contruíam civilizações inteiras em lugares como esse. Em St Louis, por exemplo, existiam os Quibaras, seres de outra dimensão que há centenas de anos foram invocados na floresta e lá ficaram após a morte daquele que o invocou. Viviam em tribos na floresta e possuíam profundo conhecimento de medicina, principalmente no tratamento de ferimentos mágicos. Aliados da Thelema há mais de cem anos, prestam consultoria em vários casos de agentes feridos em combate.
Como os habitantes de Orleans nunca cultivaram esses hábitos mágicos, a vegetação e a fauna do local permanecia quase intocada de ação mágica. Ao invés de criaturas aladas e civilizações mágicas, tudo que se via eram macacos, insetos e pássaros.
O garoto andou no meio de varias árvores até avistar uma regiao sem elas. Era a margem de um rio Enquanto andava, ouviu um grito de longe.
—EI! mais nenhum passo- Uma voz feminina foi ouvida de cima- Vai pisar nas flores!- Primeiro josh olhou pra frente e percebeu que tinham centenas de girassóis na sua frente, em todo o caminho até o rio, olhou pra cima e viu uma garota sentada em cima de um galho muito alto. Ela parecia ter mais ou menos a idade dele, usava um vestido florido e tinha um cabelo longo e castanho. Josh não percebeu, mas tinha corado um pouco quando a viu.
—D-desculpa- Disse, dando meia volta
—Não precisa ir embora, só não pisa nas flores, fica aí
Josh sentou e ficou uns 10 minutos sem dizer nada. Falar com garotas não era seu forte, não queria ir embora mas também nao queria ficar ali que nem um idiota calado. Quando tinha finalmente decidido que ia sair, a garota perguntou:
—Qual o seu nome? É a primeira vez que te vejo
—Meu nome é josh-ficou calado por mais alguns segundos- me mudei faz pouco tempo
—É mesmo? De onde você é?
—St Louis
—Nossa, é bem longe daqui, que inveja
—Não gosta de ficar aqui?
—Não é que eu nao goste, mas queria conhecer o mundo.- Josh, sentado, precisava torcer o pescoço para olhar na direção da garota, que estava vários metros acima dele- Pera aí, vou descer
Lisa saltou e Josh se assustou, não tinha como pular de uma altura como essas sem se machucar. Fechou os olhos como reflexo para não ver uma tragédia mas após alguns segundos percebeu que não tinha ouvido ela cair.Abriu os olhos e viu que ela descia devagar, e que da palma de sua mão brotava um cipó, que estava conectado com um galho acima. O cipó ia aumentado de tamanho, possibilidando que a garota descesse, até chegar no chão. Josh estava boquiaberto
—Que cara é essa?- Lisa respondeu olhando para os lados, nervosa- Você me acha estranha?
—QUE INVEJA- respondeu josh- como você faz isso?
—inveja?- Lisa sorriu- você realmente não é daqui.
Lisa respondeu que era de uma familia de druidas e que eles não eram bem vistos na cidade.Depois de muito preconceito, seus pais resolveram construir um chalé na reserva, isolados do resto das pessoas.
—O pessoal aqui não acha isso legal?- Perguntou josh, confuso- Lá em St Louis todo mundo ia achar um máximo
—Viu só? Por isso que eu quero ir embora daqui.- Lisa olhou pro céu- devem ter lugares onde nós não precisaríamos nos esconder.
—Mas porque vocês não vão embora daqui? Deve ser uma droga ficar aqui para os seus pais também.
—porque eles se sentem responsaveis
—como assim?
—Minha familia cuida dessa região desde que a floresta era muito mais que uma reserva, e eles tem medo que esse lugar fique ainda menor se eles saírem.
—então eles ficam aqui pra proteger a floresta?
—Proteger não é a palavra, eles reduzem os danos causados pelos humanos, mas não impedem que eles sejam feitos.-O sol já havia se posto a algum tempo e agora se ouvia de longe um barulho de vozes humanas gritando, garotos e garotas gargalhando alto.
—o que é isso?- perguntou josh
—ah, são uns idiotas que vem aqui fazer festa na floresta- reclamou lisa- eles vem aqui escondido dos pais para beber e fumar, deixam tudo sujo. Eles tem vontade de fazer fogueira e pra isso cortam várias árvores, fora o lixo que eles deixam, eu tento limpar mas fica tudo muito ruim.-Lisa abraçou as pernas e colocou a cabeça entre elas.
—Os seus pais não podem fazer nada?
—Eles dizem que não podem intervir, só torcer para que nao seja nada que nao se possa consertar. Eu queria ir lá dizer umas coisas pra eles.
Lisa ficou quieta por um tempo, josh nao sabia o que responder pra animá-la, depois de alguns momentos ela finalmente falou
—Tá tarde ne? Acho que preciso ir pra casa- a garota forçou um sorriso
—Siim, minha mãe deve estar preocupada- respondeu
—Se você quiser aparecer aqui de novo, eu sempre fico no mesmo lugar
—Ah, sim, eu vou aparecer
Josh voltou pra casa oito horas da noite. Quando chegou sua mãe estava na sala, assistindo televisão e tomando café.
—olha só, achei que voce ia voltar em meia hora, aonde voce estava?
—dando uma volta- josh abriu a geladeira, estava sorrindo, e Martha percebeu
—Fez algum amigo?
—Não- desfez o sorriso- só fiquei andando por aí- quando desviou o olhar da mãe voltou a sorrir.
—É a primeira vez que te vejo sorrindo desde que a gente veio pra cá- Martha sorriu- acho que você fez algum amigo novo
—Não fiz mãe- resmungou e foi pro quarto com um copo de achocolatado
—Qual o nome da sua nova namorada?- Martha gritou, de longe deu pra ouvir o copo caindo no chão
—ELA NAO É MINHA NAMORADA- gritou josh, do quarto.
—então é uma garota- Martha sorriu
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