Soul Healer - Viva La Revolución
4 O fim das Crônicas
[Crônica Final]- Prelúdio/ Repercussão / A fagulha que incendiou a floresta de metal
"A imprensa é o quarto poder.”
(Edmund Burke)
“A autópsia preliminar revelou que a causa da morte de Charles Daniel Pope, um médico-pesquisador do importante instituto de pesquisa Per Ahnk, foi infarto causado por forte emoção. O cadáver foi achado apenas alguns minutos após a morte, ocorrida em torno das dez e meia da noite de ontem, dentro de um elevador, no Imperial Hotel, zona oeste da capital, quando a porta do elevador se abriu e revelou o corpo já morto do pesquisador. Os paramédicos foram chamados, mas não havia mais o que ser feito.
Charles Pope vinha sofrendo ameaças a dois meses, por motivos desconhecidos do público geral. Havia alguma tensão na capital, com a chegada do médico, que vinha pra uma turnê de palestras. Seu endereço fora mantido em segredo. A segurança ao seu redor foi reforçada. Pope pediu proteção policial e andava com um cordão de pânico, um dispositivo que enviaria um alarme pra polícia caso ele estivesse em perigo.
O seu cordão de pânico ainda estava com ele após a morte, com sinais de que tinha sido ativado. A chefatura de polícia do bairro, a responsável pela segurança do médico, recebera o sinal enviado pelo sistema do cordão, conectado diretamente ao carro-patrulha mais próximo ao hotel, que no momento da morte estava no cruzamento da Backleberry com a Tenth, ajudando o corpo de bombeiros a retirar as vítimas do engavetamento (matéria na coluna ao lado), que aconteceu alguns minutos antes do incidente.
O cadáver foi retirado às 00h00min de hoje, e levado para o Instituto Médico Legal para mais análises, logo depois da chegada dos policiais responsáveis pela investigação, que não quiseram fazer declarações.
‘Ele parece ter morrido no elevador, enquanto tentava descer pro saguão, pra fugir do blecaute’ declarou um dos legistas que estava no local ‘era óbvio, apenas pela idade, condição física e à pressão que vinha sendo submetido, que uma tragédia dessas podia acontecer a qualquer momento’.
Segundo relato do recepcionista do hotel, uma garota loira, que não era hóspede do hotel, invadiu o elevador, por onde minutos depois desceria o corpo já morto do médico.
Resta às autoridades competentes verificarem a informação, que lança sobre o caso a suspeita de um assassinato.”
Esta matéria foi a capa de um dos jornais mais influentes de Nebula- o Arauto da Capital– na manhã do dia seguinte à morte de Charles Pope. Logo estaria em todas as redes de tevê, a maioria delas pesadamente censuradas pelo Governo Central, com as informações à respeito do caso mais manipuladas que uma marionete nas mãos de um ventríloquo.
O atentado contra Dom Francesco, que apesar dos ferimentos escapara com vida, não foi noticiado por aquele jornal em particular. A notícia e a foto do agressor, no entanto, estavam circulando rapidamente pelo círculo dos mafiosos da cidade de Nebula.
O fim da importante noite de 15 de outubro de 5845
No exato momento que o cordão de pânico enviou um sinal pra rádio-patrulha, ocupada em ajudar a dispersar a multidão ao redor dos acidentes na Backleberry Street, outro sinal de mesma freqüência foi enviado pra uma sala, na cobertura de um prédio empresarial, na zona norte, a parte nobre de Nebula.
Havia apenas uma pessoa naquela sala. Era um contorno masculino e magro, eclipsado pela luz que vinha da cidade, vista magnificamente através da enorme parede de vidro que era a janela. Havia um charuto aceso em sua boca — dava pra perceber por causa da brasa viva, como um borrão fluorescente em uma foto escura. A fumaça que saía da sua ponta laranja e das vias aéreas do homem refratava a luz da cidade logo atrás. Um pontinho vermelho piscava vagarosamente na mesa, em intervalos regulares e preguiçosos, e lançava um brilho estranho que refletia nos olhos daquela silhueta. Um brilho de satisfação.
Ele apertou um botão no dispositivo que parecia um gravador e o pontinho vermelho foi se desvanecendo até morrer de vez. O homem esticou a mão um pouco mais e apertou outro botão sobre o aparelho de telefone. A voz impessoal de uma telefonista cortou dolorosamente o silêncio, preenchendo cada centímetro quadrado de espaço, se espalhando e ricocheteando nas paredes.
– Passe-me pela linha segura até LeFebvre.
Um assentimento insípido da voz do outro lado da linha, e depois de um bip longo, a sala mergulhou de novo no silêncio, que só foi quebrado quase um minuto depois.
– LeFebvre. – A voz feminina era, acima de todas as sensações, aveludada, com um leve sotaque.
–É a terceira vez que o sinal toca. Fique alerta.
– A entrega já foi confirmada no ninho, senhor. O Pontífice não é mais um problema.
– Entendido. Bom trabalho, Lefebvre. Parabenize sua equipe por mim.
– Obrigado, senhor.
Outro bip longo e o ambiente ficou vazio de sons, exceto pelo crepitar do papel do charuto pendurado nos lábios daquele homem.
Ele virou-se na cadeira e por um instante a luz mortiça de Nebula refletiu em seu rosto – um rosto realmente pacífico. Por trás das primeiras gotas de chuva que embaçavam a janela, ele passou a fitar a cidade. E podia vê-la em chamas.
¶
Quem o visse, certamente diria que era muito jovem para ser um mordomo. Fazia quase uma hora que ele estava miseravelmente em pé, limpando alguns bibelôs numa prateleira – ela e sua bendita coleção de bibelôs – quando uma voz soou às suas costas.
– Heine?
– Sim, Srta?
A voz era de uma mulher. Ele se virou, e ela estava sentada em uma poltrona um pouco atrás dele, iluminada pela luz amarela de um abajur, escrevendo em um diário.
Os cabelos dela, que caíam em grandes e volumosos cachos sobre os ombros, eram de um tom azul-safira tão brilhante que parecia ser feito de plástico. Parecia jovem; Devia ter por volta dos trinta anos. Usava uns óculos de armação vermelha que não permitiam que o rapaz visse seus olhos, por causa do reflexo do abajur nas lentes. As três estrelas nas ombreiras da jaqueta brilhavam, apenas pedaçinhos de dourado em meio ao azul do cabelo. O rapaz loiro depositou o último bibelô (um elefante anil, importado de um país exótico, o preferido dela) na prateleira e fechou a portinhola de vidro, passando o trinco.
– Você os viu, hoje à noite?
A mulher segurou a caneta bico-de-pena entre o dedo indicador e médio e pegou uma xícara de louça que estava na mesinha ao seu lado, bebericando o seu conteúdo. Em nenhum momento dirigiu sequer um olhar pra Heine.
– Sim. Eu estive seguindo-os.
– E onde eles estiveram? — Rabiscou mais uma ou duas palavras.
– Nenhuma novidade, senhorita.Estiveram se metendo em enrascadas. Os dois.
– Como sempre, huh? –respondeu vagamente, parando de escrever e se concentrando em ler o que já tinha escrito. Ela deu mais um gole na xícara, e depois a recolocou sobre o pires na mesinha.
– Como sempre.
Houve um silencio prolongado. A mulher passava os olhos pelo papel como se o estivesse lendo, mas Heine convivera tempo demais com ela pra saber que ela não estava concentrada.
– O tempo está passando. Eles estão se movendo, Heine... Precisamos fazer algo para contê-los.
– Eles quem, Srta? A garota e o caçador?
– Não, meu jovem. Os outros.
Ele reclinou, sem entender absolutamente nada. Dirigiu-se até sua patroa e despejou mais chá em sua xícara.
– Aceita uma massagem? Percebo que está acumulando muita tensão nos ombros.
Olhando-o sob luz direta, via-se que ele teria uma carreira brilhante como modelo ou ator. Era extremamente bonito.
Ela desviou a atenção do seu diário para os olhos verdes do rapaz e assentiu com um gesto de cabeça.
– Sim, obrigado. Você é muito atencioso, meu jovem. – Ela depositou o diário sobre a mesa.
– Como queira, Senhorita Littlechapel.
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