Soul Healer - Viva La Revolución
3 Crônica II
Notas iniciais
Crônica II] – Caleb Hund/ Cães infernais / Italianos e sua forma torta de ver as coisas
“Para muitos seres humanos, o verdadeiro inferno é a terra.”
(Arthur Schopenhauer)
Ele estava numa capela, em uma noite particularmente quente, na cidade de Engels. O silêncio ao seu redor era tão maciço que era quase palpável. Somente sua respiração entrecortada perfurava o ar denso, se chocando com os vitrais coloridos, nas janelas altas, sagradas.
Desde criança Caleb era bom em arrumar confusões. Apesar disso não tinha muitas cicatrizes da sua época de menino pra provar sua valentia e sua provável estupidez, quando corria pelas ruas de Nebula fugindo dos lojistas, policiais, membros de gangues e outros meninos de rua. Sem a sensação de adrenalina que sentia na hora da luta, do perigo, da dificuldade, era quase como não estar vivo, como se uma parte sua estivesse adormecida... Apagada. A sua vida não fora feita pra ser vivida sem liberdade. Preso por uma coleira. Principalmente se essa coleira arrastava 100 kg de uma hierarquia de patriotas babacas como era o Exército. O emprego de caçador de recompensas era perfeito pra ele.
Caleb era especialista em arrumar confusões, mas na maioria das vezes era hábil – ou sortudo – o suficiente pra se sair delas, por que confiava nos seus instintos.
Dessa vez, ele tinha se metido numa sinuca de bico. Ele não era um espadachim medíocre; No entanto, os instintos diziam-lhe expressamente que ele não conseguiria escapar.
Caleb suava- um suor que fedia à morte.
Recostado na parede lateral da capela, perto da caixinha de ofertas, ele tentava conter o sangramento que vinha de um buraco na altura do diafragma. Em vão, no entanto. Havia mais dos seus 5 litros de sangue escorrendo pelos outros três buracos de bala abertos no peito. Estava molemente jogado em um canto, um presunto quase pronto pra ser fatiado e devorado.
Ele ouviu o som de passos na capela e a risada ridícula do homem que andava na sua direção, apontando um Magnum 357 pra sua cabeça, e sorriu junto. Droga, apanhar pra um cara tão patético.
- Confesso que você me deu certo trabalho, espadachim... – o homem tinha um tom de zombaria na voz. — Você foi o melhor em alguns tempo. O lixo em quem descarreguei mais chumbo. Veja, esta foi a minha última carga.
Havia duas únicas balas restando no tambor.
A recompensa pela cabeça de Billyjack Travière, um mafioso local lhe renderia uma bolada de quase 15.000 quadrantes. Não era uma quantia pequena, e com a recente baixa na economia, aquilo faria toda a diferença.
Ali, jogado no canto de uma igreja, com quatro tiros no peito, as espadas caídas ao seu lado e Billyjack se aproximando com seus pés enfiados em botas de couro de jacaré, ele descobrira por que a recompensa era tão alta. Veja bem, ele não morreria só pela grana. Era algo pessoal. O cara estava bagunçando na área dele — por que apesar de Caleb se considerar um nebulano da gema, Engels ainda era sua cidade natal. Não era só por causa dos 14.600 quadrantes. Não era...
- Você devia conhecer a minha fama antes de vir me caçar. Foi um tanto desleixado da sua parte... Se tivesse ouvido falar de mim como o “gangster sem capangas” não teria sido tão imprudente. Você é um neófito.
Caleb tossiu e cuspiu um pouco de sangue. Havia muito mais escorrendo abundantemente de um talho profundo, perto da raiz de seus cabelos. Ele esfregou os olhos com as costas da mão tentando limpar a vista, num movimento mole. Enxergava tudo através de uma película vermelha e desfocada. Não bastasse a escuridão que tomava conta da capela ainda havia todo aquele sangue turvando a sua visão... Merda.
- Não use palavras almofadinhas como... Imprudente e neófito comigo, seu saco de bosta.... Se for pra ouvir seus discursos baratos... Enfia logo uma bala na minha cabeça.
Uma risada solitária.
- Ele ainda pode blasfemar com essa boca imunda... Respeite o ambiente sagrado. Aliás, ele é um ótimo lugar pra morrer, não? Já se imaginou morrendo em um lugar assim? É bom demais pra você, seu vira-lata.
Billyjack se agachou ao lado de Caleb, e encostou o cano de metal quente na têmpora do rapaz. Ele teve um vislumbre mais perfeito do reluzente couro púrpuro de suas botas extravagantes.
- Ande logo, seu panaca... Se eu me levantar daqui eu... Vou chutar a sua bunda até o fuzilamento...
- Como queira, mio signore. Vá pro inferno.
O caçador olhou nos olhos do seu assassino antes que ele pudesse atirar. E antes que atirasse, Caleb viu os olhos dele se arregalarem.
Houve um estampido surdo e o revólver pulou na mão do mafioso. A cabeça de Caleb foi jogada para o lado e ele viu todas as coisas se desfazerem num borrão de dor. Antes de apagar por completo e se declarar um cão oficialmente morto, ele sentiu o cheiro de pólvora se misturar com o mormaço que vinha do lado de fora da igreja – Estava chovendo quando Caleb morreu.
Aquela fora sua primeira morte, tão dolorida quanto ele imaginou que fosse morrer.
22h32min, 15 de outubro de 5845, Zona Leste de Nebula.
A porta voou depois de dois estampidos surdos, partida em pedaços.
- Cacete! – Caleb largou o corpo semimorto do Dom da Eleventh Street, apenas um garoto vestido em um terno caro. Ele precisava dar um ciao rápido.
Caleb Hund, o caçador, só conhecia duas formas de se sair de uma sala trancada: escapando pela janela ou arrombando a porta. No momento em que percebeu que o parapeito da janela se encontrava numa altura mais ou menos na medida certa para quebrar-lhe todos os ossos duas vezes, ele decidiu tentar a porta.
Diante dos seus 1,87 e 80 quilos a porta não ofereceria muita resistência.
O problema se concentrava em dois pontos. Primeiro, Caleb tinha descoberto a menos de duas semanas que era, como Alphonse o denominou, “imorrível”, e, portanto, com muitas possibilidades positivas, ele sairia ileso daquela queda. Segundo, arrombaram a porta primeiro pelo lado de fora.
Havia uma horda de mais ou menos uns 20 caras armados de Ingrans esperando-o bem em frente à porta.
Caleb se abaixou, xingando feito um marinheiro bêbado, correndo da chuva de balas na direção janela, e se jogou pro céu quente de outono, seu casaco comprido e escuro flutuando, rasgando nos cacos de vidro.
- Cacete! – o impropério soou novamente, agora vindo de um dos capangas, ao ver um caçador de recompensas cometer suicídio.
Por algum tipo de milagre, daqueles que vinham se repetindo constantemente desde que Caleb tinha se descoberto como um Imune (o que o fazia temer um tsunami repentino de azar) havia uma escada de incêndio correndo pela parede. Ele se agarrou ao passar pelos degraus do quarto andar. Abaixo dos seus pés havia um carro estacionado. Era o carro do cara que estava jogado sobre uma piscininha de sangue dentro da sala de onde Caleb tinha saído voando.
O Dodge Coronet ’75 era simplesmente uma raridade. Caleb achou que Dom Francesco, o (in) feliz proprietário, não se incomodaria com um par de pés permanentemente marcados em baixo relevo no capô do seu veículo de colecionador por que estava ocupado demais tentando negociar com o diabo, com toda a sua lábia de mafioso (ou seja, apontando uma Tommy Gun bem pra cachola do capeta), a sua transferência de endereço pra passar a danação eterna em paragens mais frescas.
- Foda-se... Eu prefiro motos.
Caleb se soltou da escada e caiu bem em cima do capô, deixando-o mais amassado que dinheiro de bêbado, e logo depois correu o máximo que suas pernas conseguiam até chegar à sua moto, que tinha estacionado algumas ruas abaixo.
Ele sentou ofegando na softail preta e acelerou a moto. Tudo o que ele queria era ir pra casa, tomar um banho, abrir um maço de cigarros, fumar e dormir. Tinha aquele pressentimento de que as coisas iam se tornar mais agitadas de repente (talvez por que tivesse acabado de quase matar um dos mafiosos da Zona Leste).
O que ele podia dizer em sua defesa? Caleb gostava de hospitalidade. E no seu conceito não se encaixava uma penca de canos de Mac 10 apontados pra ele sem motivo algum. Dom Francesco, um recém chegado na cadeira de Dom (o adolescente tinha matado o próprio tio para ascender ao trono) provavelmente não conhecia as regras de boa convivência. Pensando a fundo no assunto, a cova era o destino mais próximo do desgraçado. Em breve deveria haver movimentação de outros mafiosos pra tirá-lo do poder.
Mas Caleb tinha que enfiar o seu rabo bem no meio disso, não é? Por que não deixar os italianos cuidarem dos italianos? Não senhor, ele mesmo tinha que ir lá e apagar o maldito canalha e fazer todos os outros filhos da puta irem atrás dele. Era coisa de italiano se vingar do cara que apagou o cara que ele queria apagar, munido apenas do escroto pretexto que você cuspiu na porra da honra deles. Estúpidos mafiosos, só queriam um motivo pra ver sangue jorrar.
E pra variar, aquilo era culpa de Alphonse. Desde 5834 envolvendo-o nas maiores furadas. Era nessas horas que Caleb desconfiava que o sangue italiano de Al traía-lhe a amizade. Não havia uma vez que o Castiglione tivesse lhe indicado um trabalho ou um informante e as coisas não tivessem ido pras cucuias. No fim das contas, ele nem conseguira as informações que queria.
Muito bem, cavalheiros, podem vir. Eu já estou morto mesmo.
Ele estava cruzando a Seventh Avenue quando o sinal fechou. Então ela veio caindo do alto como uma coisa de aspecto prateado. No começo parecia com agulhas no ar, depois veio povoando o chão com pequenos pedacinhos brilhantes, como se o asfalto tivesse sido cravejado de fragmentos de diamantes. Droga, ele odiava chuva.
Olhou pra sua esquerda e então um letreiro conhecido despertou a habitual depravação: ele precisava de um cigarro feito a morte. E queria por todos os demônios do inferno escapar da chuva.
¶
No subterrâneo do bar, ele sacou o celular do bolso. Discou um dos números mais recentes e esperou atenderem.
Caixa postal.
- Alphonse, seu imbecil! Dom Francesco não tinha o que eu queria. Acabei de me ferrar com a máfia! Me retorne assim que ouvir isso.
Jogou o celular no bolso interno do casaco e quando se virou, deu de cara com uma cena que o fez preferir ter os olhos arrancados da cara (ou arrancar os olhos da cara de alguém): Alphonse estava com uma mulher no colo bebendo uma dose de tequila — e terminando o ritual limão-sal com a ajuda da já citada mulher — rindo como se estivesse bêbado, como se não houvesse mais nada na bosta desse mundo que importasse, nem mafiosos, nem amigos doentes nem Dodges Coronet amassados. Parecia a antítese de Caleb. Vestia-se com uma capa amarela e uma calça folgada em um tom de turquesa escuro. Ele tinha olhos grandes, de um castanho avermelhado muito vivo. Os cabelos necessitavam de um corte, e estavam espalhados desordenadamente na cabeça. Tinha alguns piercings e uma tatuagem debaixo do olho direito: duas listras vermelhas.
Caleb, ao contrário era alto e vestia-se com roupas discretas e escuras. Por trás do cabelo liso que caia sobre os olhos puxados, havia um rosto inexpressivo e de traços firmes. Uma pequena e solitária cicatriz se desenhava debaixo do olho esquerdo. Um rosto limpo demais pra um motoqueiro era o que ele sempre ouvia, pra seu desgosto.
- Levanta o rabo daí, boneca – Caleb se referia ao ruivo, mas possivelmente a mocinha de vestido apertado no colo do amigo se sentiu ofendida de modo pessoal. – O seu informante não tinha nada além de uns 20 caras com uns trabucos e muita marra.
- A nossa conversa fica pra depois docinho... – Al fez a garota levantar e levar os copos para longe, apesar do beicinho (auto-avaliado como) irresistível que ela fez. – E então, Hund... Quantos deles sobraram?
- Sem contar com o Dom “Frescura”? Eu dei à ele uma dose do meu tratamento pra aprender a ser mais bonzinho com as pessoas. Um maço de Stella, por favor. –O caçador pediu à garota ruiva do balcão.
Neriah acenou com a cabeça e foi buscar.
- O Dom Frescura não tinha nada. Ele não sabia nada sobre ela.
Al suspirou.
- Bem, depois de pensar sobre o assunto, eu cheguei à conclusão de que ele não devia saber de muita coisa mesmo... Só não achei que você fosse chegar tão longe a ponto de cortar o cara...
- Ah... Você concluiu, é? Belíssima informação. Mais alguma desse tipo pra me vender, Sr Mercador? Ou você pretende me jogar no meio dos mafiosos de novo?
Neriah apareceu com um maço de cigarros e o depositou sobre a mesa junto com uma caixa de fósforos com o logotipo do lugar. Recebeu o dinheiro e saiu.
- Bem, se você não percebeu, eu não estive aqui a noite toda só pra fazer entregas ou ficar atrás de rabo de saia...
- Nem passou pela minha cabeça... – Caleb acendeu um cigarro novo com um zippo que tirou do bolso.
-... E sim coletando informações. Sabe aquele cara ali? – Apontou para Bo, vestido com uma calça branca e uma blusa florida apostando nos dardos com um rapaz loiro bonito e muito bem vestido– Ele conhece uma porrada de gente. Com acesso à rede. Não é o que você precisa? Pra descobrir sobre a sua Doença?
- Exatamente. Agora, você podia falar um pouquinho mais alto? Por eu acho que o pessoal do Controle de Epidemias ainda não escutou.
- Então... Não vai dar agora, mas em breve eu envio pra eles um relatório escrito avisando que o meu camarada aqui acabou de descobrir que é um zumbi imortal... Mas enquanto isso celebremos!
Caleb reclinou no balcão.
- Celebrar o que? Uma garotinha desaparecida e minha cabeça à prêmio?
Os homens vestidos de cinza chegaram bem quando Caleb dava uma profunda tragada em seu cigarro com cara de desgosto. Eles se aproximaram do balcão e Homem 1 encostou-se a Caleb.
- Com os cumprimentos de Dom Marcilio...
Caleb suspirou.
- Veio mais cedo do que eu pensava...
Aconteceu tão rápido que não deu tempo de registrar. Caleb sentiu alguém se aproximando por trás e se virou, ao mesmo tempo que sentiu o cano da arma sobre as costelas. Foi puro instinto o que o fez usar o cotovelo pra atingir o Homem 1 bem no maxilar. O capanga não foi capaz de usar a Beretta com o silenciador, totalmente desnorteado, mas o homem 2 ergueu uma Mauser pequena e apontou pra sua cabeça, surpreso.
- Morra de uma vez!
Ele apertou o gatilho um milionésimo de segundo depois que Caleb desviou a cabeça pra direita. Foi apenas esse movimento que o impediu de ter os miolos estourados pelos 9 mm de chumbo. Houve o som, a luz, a explosão bem no meio dos olhos de Caleb e depois disso ele começou a ver tudo vermelho. Ele não sentiu o corte na bochecha que a bala deixou quando passou de raspão e não ouviu a garrafa na estante logo atrás da cabeça dele explodir.
Agarrou o Homem 2 pela nuca e puxou a cabeça dele de encontro ao seu joelho, aproveitando o impulso de levantar do banco. Golpeou duas vezes. Homem 1 reagiu à tontura e avançou pra ele, fazendo menção de erguer a pistola, mas Caleb virou pra ele de punho fechado e o soco lateral explodiu contra a cara já amassada de Homem 1. Quando Homem 2, mostrando toda a sua tenacidade de italiano resistia bravamente aos murros de Alphonse, eles ouviram um click seco de pistola engatilhando.
– Os rapazes são durões, hein? Se quiserem brincar com suas armas, brinquem lá fora... – Bastou um pequeno movimento de olhos pra Caleb ver os dois canos de pistola apontados, um pra ele e um pra Alphonse. Logo atrás, o brilho azul que ele já tinha visto nos olhos daquela garota ruiva– Não quero problema nem com o Dom nem com os tiras no meu estabelecimento. Certo, soldado?
Caleb desceu os olhos pras plaquetas militares que ainda balançavam sobre a camisa preta.
– Eu não sou soldado... E eu não gosto muito de armas apontando pra minha cabeça. Você devia estar apontando esse negócio pra esse cara aqui... Ele me atacou sem motivo.
- Não me importa. Alphonse tire seus coleguinhas daqui. Por que senão eu vou acabar me juntando na brincadeira e o negócio vai feder.
Al soltou o capanga com efeito, e ergueu as mãos em sinal de rendição.
- Deixe Caleb. Deixe pra outro dia...
Caleb observou-a um instante, de cima à baixo, antes de ir embora, acompanhando o ruivo. Ela tinha abaixado os braços do lado do corpo e ainda segurava as pistolas, com jeito de quem sabe mesmo usá-las. Eram assimétricas, uma enorme, que devia ser 45 segundo os cálculos de Caleb (muito pesado pra uma garota) e outra menor, compacta de 9 mm.
- Isso não é brinquedo pra estar nas mãos de uma mulher – sussurrou, já de costas.
Neriah franziu o cenho.
- Como é?
Caleb respondeu somente com um último olhar pra menina e saiu pela porta. Neriah percebeu então que não havia mais sangue escorrendo da sua bochecha.
Notas finais
deixem reviews e esperem.
ósculos e amplexos da tia Schnell.
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