Soul Healer - Viva La Revolución
6 Anel de Fadas (Ou os Jogos de Poder)
Notas iniciais
Bon apetit
*Capítulo revisado
"O poder é o camaleão ao contrário: todos tomam a sua cor."
Millôr Fernandes
19h51min, 19 de outubro de 5845, Zona oeste de Nebula
No lado oeste da cidade, existe um pequeno centro de comércio popular à céu aberto. Uma feira de pulga. Nela, pode-se encontrar de tudo um pouco: roupas, objetos pra casa, artesanato, comida pronta e sendo feita, produtos pirateados e drogas ilícitas. Tudo à gosto do cliente. Lá, poucos produtos – inclusos, claro, aqueles mais difíceis de passar pela barreira alfandegária – ultrapassam o valor de 50 quadrantes. Não se aceitam cheques ou cartões nessa feira. Nenhum de seus vendedores pode se orgulhar de ter um alvará emoldurado na sua barraquinha.
Os limites dessa feira são bem conhecidos. As avenidas principais de Nebula se cortam no ponto oeste da cidade, na forma de um enorme Y. Bem no meio, sob a coordenada geográfica 48°26"N — 77°9'L, está o marco zero de Nebula: Uma estátua de uma mulher com três cabeças, cada uma olhando para cada bifurcação da colossal avenida. Em frente a esta estátua, e localizados ao redor, estão alguns dos prédios mais importantes pra vida pública da cidade. Entre eles está o imponente prédio do Parlamento e o seu vizinho, o arquitetônico Banco Central.
Muito espanta aos novos na cidade o fato de que o prédio de maior importância política seja a parede contra a qual se escoram as barraquinhas onde ficam expostas longas fitas de pó branco e barras de erva cor de esterco para o mundo todo e quem mais quiser ver. Dá pra assistir as negociações agitadas e por vezes um tanto turvas das janelas do palacete do Parlamento.
Mas as coisas sempre foram assim por ali. Não há distinção exata na mente de quase ninguém a respeito do que é lícito ou não.
O fato importante daquela noite é, que como um belo microcosmo refletindo a noite Nebulana, um SUV preto, tão discreto quanto um SUV pode ser, parou em uma das ruas transversais.
Dele se esgueirou uma perna bonita e nua. Uma mulher loira em trajes executivos desceu do carro e se dirigiu à uma pequena loja de roupas e acessórios de rock. O vento balançava uma placa velha onde tinha escrito em letras garrafais “Estige”rodeado por desenhos de várias rosas vermelhas e negras.
Ela entrou na loja e o gutural de um cantor de Death Metal invadiu seu aparelho auditivo. Distribuídos pela loja, alguns manequins vestindo roupas de couro, coxias lotadas de blusas e mostradores de vidro com acessórios espinhosos e na maioria das vezes escuros, eram iluminados aqui e ali por luzes de palco coloridas, e fumaça artificial enchia a sala.
O balconista era um rapaz de uns vinte e poucos anos com cabelos despenteados, lisos, e descoloridos, cravejado de piercings, pálido feito a morte, vestido com uma blusa de um grupo de rock. Havia assustadoras tatuagens negras nas maçãs do rosto. Ele se levantou assim que viu a mulher entrar e fez uma reverência.
– Como estão as coisas, Orebe? –A mulher perguntou, com um leve sotaque e entregou a bengala com que andava ao rapaz magrelo, fazendo seu cabelo loiro-prateado balançar como azougue líquido ao longo de suas costas.
– Tudo em ordem, Senhorita. O Anel já está esperando.
– Não os façamos esperar mais, então.
A mulher entrou mais fundo na Estige, enevoada por uma fumaça branca e doce à meia luz de abajures amarelos e avermelhados sempre acompanhada pelo jovem rapaz.
Seguiu por muitos corredores e desceu uma meia dúzia de escadas para o subterrâneo. A mobília ia ficando mais escassa à medida que se ia pra dentro e para o fundo da casa, até que parecia que eles estava indo em direção à um bunker militar. No fim de um desses corredores, havia uma porta trancada de metal. O rapaz abriu uma tampa na porta e discou alguns números no painel digital que apareceu. Uma voz metálica e andrógina ecoou pelo vazio do corredor de acesso. Um computador de bordo, com sensor de movimento e comando de voz.
–Quem vem lá? O Viajante saiba que se deseja chegar ao Tártaro precisa pagar o contrato de ouro. – Declarou a voz, exigindo a contra-senha e a confirmação por voz.
–O contrato de ouro não é pago pela Senhorita-Que-Ronda-A-Terra-Através -Da-Lua-Nova. Livre entrada pelo Acesso CARONTE, código H3 — K473.
– Senhorita. –Orebe entregou-lhe um sabre e uma pasta com uma lua crescente desenhada no couro marrom.
Ela retirou do meio dos seios fartos um pingente de ouro branco: um triângulo circunscrito. Posicionou-o sobre uma abertura no painel, e a porta se abriu e revelou um elevador que descia indefinidamente. Ela agradeceu ao rapaz e deu o último comando ao computador.
– Agora, leve-me até o fim, CARONTE.
– Sim, Senhorita. – voz andrógina soou pela última vez.
Algum tempo depois, a mulher de cabelos esbranquiçados estava sentada sozinha em uma sala vazia e escura.
– Estão todos aqui? –a Senhorita perguntou e repentinamente a sala se acendeu em uma miríade de vaga-lumes multicoloridos que dançaram preguiçosamente ao redor dela.
– O Anel das Fadas está fechado. – Vozes em uníssono retiniram, oriundas dos vaga-lumes.
–Iniciemos as danças.– Uma única voz masculina falou e todas as outras pequenas luzes que não as laranjas se apagaram.
– Você já soube da notícia? – outra voz soou e a quantidade de vaga-lumes azuis cresceu.
– Eu ouvi o boato. – uma fala feminina e um brilho suave de cacos de luz esverdeada.
A loira se pronunciou
– Não é mais um boato, senhores. A Banida retornou à cidade. O relatório da Aranha não nos dá a localização exata dela, mas não há motivo para tanto alarde. Eu entendo a preocupação dos senhores em uma futura investida, mas não acredito que seja possível. Ela não possui mais os aliados de antes. Está só. Com toda a reverência de minha posição inferior, não entendo o motivo desta reunião.
Ela tinha dito a última parte apenas como uma cortesia; fazia parte daquele círculo por tempo demais para saber como funcionava a hierarquia.
– A razão para nos denominarmos Anel, Senhorita– esta voz fez os fragmentos de luz laranja se sacudirem com mais violência outra vez – é que não há posições inferiores ou superiores quando se faz parte da mesma unidade e da mesma eternidade. E a causa desta reunião não foi comunicada a você antes por que é para seus ouvidos apenas.
A mulher inclinou a cabeça como um animalzinho que tenta entender conversas humanas.
– Não entendo. O que haveria acontecendo de tão grave que torna o regresso de nossa desertora número um, um acontecimento banal?
A escuridão que tomou conta da sala fez o silêncio do momento seguinte parecer maior. Os interlocutores estavam calados e impassíveis diante da farpa lançada pela mulher de cabelos prateados.
Lascas de cor azul quebraram o breu e a quietude.
– Temos dados da Aranha que estão sendo coletados diariamente e não são repassados nem para o Velho nem para o restante da Esfera. Você não estava sabendo, mas o Anel estava monitorando os Restos. E encontramos respostas adequadas.
A franzida de sobrolhos que a mulher deu poderia causar arrepios se fosse vista à luz nua. Decididamente ela não estava satisfeita em saber que informações-chave de sua subordinada estavam vazando diretamente para o Anel. Por que, a empolada humildade deles estava passando dos limites, e por mais subjetiva que fosse, era bem demarcada a posição axial que o Anel das Fadas preenchia dentro da Esfera III. Bastava olhar pra ver que a modéstia daquele pretenso conselho era apenas uma desculpa para se esgueirar fora de suas jurisdições.
– Senhores, o que acham que devo pensar? Estou perplexa. – Deveria haver uma irritação ou surpresa latentes no seu sotaque de veludo, mas a voz era impassível como a lua lá fora. — A Aranha, ou melhor, todo o Programa Maya é um instrumento de atuação da Esfera, e de auxílio ao Anel. Não deveria haver segredos entre nós, em especial em relação à um assunto tão sério quanto os Restos. Não sei como reagir a uma traição como essa. Em primeira instância por que eu não faço idéia dos pretextos que usaram para nos esconder algo tão grave. Em segunda por que se somos um Anel e uma Esfera, o que está em um, está em todos os o...
– É exatamente a gravidade do assunto que não nos permitiu arriscar um vazamento acidental de informações. – A voz laranja cortou e tomou a rédea da reunião, que galopava pra longe da trilha pretendida. A Senhorita teve a polidez de ignorar a falta de confiança depositada em sua equipe. – Precisamos nos concentrar na forma como iremos lidar com essa situação. Depois resolveremos querelas e as discussões hierárquicas sem fim. O Lobo Skoll liberou seus poderes.
A moça platinada se recusou a arregalar os olhos. Apertou os lábios carmim e não teve mais voz. A situação, muito mais perigosa do que tinha sequer sonhado estava galopando largo pra o abismo do improvável.
– Como? A barreira que Gleipnir criou deveria ter contido a liberação! — Senhorita apertou o sabre entre as mãos enluvadas.
– Eu me pergunto se não seria melhor termos dado cabo destas escórias de uma vez quando pudemos. – uma voz grave e centenas de pirilampos vermelhos ricocheteando pela sala. – Todos os senhores e senhoritas neste círculo podem ver o problema que elesse tornaram. Foi insensato arrastar esse caso tão longe. O codinome daquela mulher devia ter mudado de Banida para Enterrada hámuitotempo.
– Sutileza não é o seu forte, não é mesmo? Não se esqueça de que eles são armas caras demais pra serem descartados assim. – O rumor verde, feminino e delicado — A série deles é especial, forjada em fogo brando por duas guerras e por uma revolução... São os últimos de sua espécie.
– Silêncio, todos os senhores do Anel. – Pediu a voz laranja. – As más notícias caem sobre nós, Senhorita. Banshee foi encontrada trabalhando para Bo Herald. A traição da Raposa nos custou caro. E o pior de tudo: Duende se aliou com a Banida.
– A movimentação deles é estranha. Segundo a Aranha, o rapaz Lobo parece estar coletando informações. Duende apenas se escondeu junto com a Banida e menina Banshee está agindo como se nunca tivesse sido caçada. – a voz lilás falou brandamente.
– Ignorância deles é nossa aliada. Devemos nos manter cautelosos – Amarelo, com um tom firme e brilhante. – Se eles chegarem muito perto... Infelizmente precisaremos de medidas drásticas.
– A situação é mais grave do que o esperado, mas reitero que não será preciso usar força bruta por enquanto. – a Senhorita se intrometeu. – A Esfera sempre esteve lidando com potenciais... Ataques. Com a ajuda da Aranha e de alguns Calculadores estamos sempre dois passos à frente... Pelo menos agora confirmo que nosso sistema de informação, rastreio e cálculo é eficaz. É uma pena que não posso aliar um “confiável” ao galanteio. Senhores, não há como eles chegarem perto sem nós sabemos, e mesmo que tentem, não conseguirão. A menos quea Banida se intrometa.
A voz laranja que parecia comandar a reunião se ergueu sobre todas as outras e milhares de milhares de pequenos estilhaços de brilho alaranjado mergulharam a escuridão em uma luz crepuscular, como se a sala se enchesse de uma infinidade de sóis poentes, brincando ao redor da figura solitária que eles chamavam de Senhorita.
– Não adianta lutar contra o destino. É tarde, tarde demais para tentar impedi-los. A Banida já está à frente de nós. Queremos a cabeça ou a lealdade deles. Na pasta entregue a você por Orebe, encontrará a ficha e todas as informações dos quatro. Banshee e Lobo Skoll já estão com as suas cabeças a prêmio no Cash Book. Senhorita, avise à Esfera. Comunique ao Velho. Estamos em temporada de caça aos Imunes.
A Senhorita, também conhecida por Angelicque LeFebvre assentiu com a cabeça. Não haveria mais espaço para discussão.
Deu as costas e saiu.
– É o fim das danças. O Anel das Fadas está aberto.
Todas as luzinhas se apagaram de repente.
Tudo após a Grande Colisão é território do Caos.
Notas finais
E outra coisa, só por curiosidade: Eu faço faculdade de história e sou apaixonada por mitologia e geografia...
Gleipnir, A Senhorita, Caronte, Estige, Orebe, Banshee, Skoll, Duende...
Todos são parte de mitologias conhecidas ou menos famosas...
Tipo, Banshee é o nome de um tipo específico de fada da mitologia celta, uma fada que prediz a morte...
Enfim. Na maioria das vezes, os codinomes, e a mitologia determinam boa parte da minha história... Por isso, se tiver interesse em conhecer mais, só pesquisar ou me perguntar. Vai te ajudar a entender uma porrada de coisas.
Ah, última coisa: A coordenada geográfica apresentada no início do texto sugere muita coisa dos segredos da cidade....
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