Soul Christmas (Alma de Natal)
1 A Alma do Meu Natal.
Notas iniciais
Amanhecia no Polo Norte, o Sol fraco da manhã iluminava a casa feita de pauzinhos doces, os duendes alimentavam as renas e também trabalhavam duramente dentro da fábrica, no entanto, uma delas estava andando calmamente pelos corredores e entrou num dos quartos, sorrindo serenamente se aproximou da cama onde dormia um garoto, colocou seus lábios bem próximos dos ouvidos dele, com um leve abrir de sua boca gritou:
— Acorda seu preguiçoso! Temos mais o que fazer! — os berros da garota fizeram com que o jovem pulasse da cama, assustado com o que podia estar acontecendo, mas logo ficou irritado ao ver a menina do lado da cama, sorrindo em tom de deboche.
— Melody! Quantas vezes eu disse para não fazer isso? — o jovem reclamou levantando-se, veias saltavam de sua testa, rosto e mãos. Aquela outra realmente o irritava muito, muito mesmo. — Nossa! Você está se achando muito mais velha que eu, né?
— Ora. — A garota suspirou sorrindo, sua tarefa matinal de provocá-lo já havia sido cumprida. — Eu sou um ano mais velha que você... Esqueceu que tenho dezesseis e você quinze? — soltou uma leve risadinha, deixando o garoto corado, sem manter contato visual com ela. — Você deveria trocar-se Winter, não se esqueça de arrumar seu cabelo. — comentou apontando para os fios negros totalmente bagunçados do jovem.
Winter era um garoto de quinze anos, sua pele pálida, branca como neve, olhos azuis claros e puros, lembrando o Céu iluminado pelos primeiros raios de Sol da manhã, alto e bonito, realmente o sonho de qualquer tipo de garota. Porém, não sabia se atraia ou não Melody.
Já Melody era dona de cabelos castanhos escuros, com certas mechas claras, presos em marias-chiquinhas, sua pele era parda, os olhos dourados, apesar de se mostrar um pouco assustadora, era doce e gentil, principalmente com Winter, amigo de infância e protegido.
— Eu te odeio! — o moreno gritou mais uma vez, no entanto tudo o que conseguiu foi tirar mais e mais risadas da menina que segurava uma prancheta contra o peito. — Ei, o que é isso?
— Como assim o que é isso, Winter? — perguntou apertando as bochechas dele, o fazendo reclamar de dor. — Amanhã é noite de Natal, lembra? Você vai com Mestre Noel entregar os presentas para aprender como se faz! Ou se esquece de que daqui a cinco anos vai substituí-lo como novo Papai Noel?
— Hm, sei! — Winter respondeu amargamente dando as costas para ela e andando para seu Guarda-roupa, sério, nem parecia o garoto sorridente e alegre de dias antes, chegava a assustá-la um pouco. — Melody, oque ainda está fazendo aqui? Vou me trocar! Saia!
Ela recuou um pouco, surpresa com a reação de Winter, já sabia que o menino havia discutido com Noel, e que guardou ressentimentos daquele dia, mas para Melody o jovem já havia superado, afinal, ontem mesmo ele estava sorrindo por todo canto sem demonstrar tristeza.
Realmente depois de tantos anos não o conhecia direito.
— Grosso! — a morena gritou inflando as bochechas ruborizadas, com raiva, bateu a porta do quarto, saindo com pressa encostou-se a parede do lado de fora e pôs-se a esperar. — Vou te matar Winter! Odeio-te! Argh! Garoto idiota! — continuou a reclamar, botando para fora tudo que sentia naquele momento, o jovem não deveria tê-la tratado assim. Só por que estava irritado, quantas vezes ela estava em plena TPM e nunca agiu assim? — Homens são uns idiotas! Burros! Odeio todos eles!
Com mais um suspiro, ela voltou seu olhar para o chão melancolicamente, pensando na pressão que Winter estava passando, será que se fosse ela conseguiria resistir a isso? É seu amigo estava passando por momentos difíceis, e precisava do seu apoio, não importa como!
Virou-se para a porta, olhando determinada a abriu com tudo que tinha de olhos fechados para pegá-lo em roupas intimas, dizendo:
— Winter, eu sei que está a ser difícil para você, mas vamos nos esforçar juntos!
— Melody... — o moreno murmurou totalmente corado e em roupas de baixo, a única ação que conseguiu ter foi empurrá-la para fora do quarto, aos berros e a chamando de pervertida, ele negaria para o resto da vida, mas a verdade é que achara a cena cômica. — Caia fora daqui sua pervertida! Maldita! Vocês meninas reclamam e nos socam quando invadimos sua privacidade, mas fazem o mesmo! Que coisa!
Do lado de fora, mesmo sem ter olhado nada, Melody estava corada, mas ao mesmo tempo feliz, afinal, logo ela seria a ajudante do novo Papai Noel, e com essa menina atrapalhada, realmente seria uma aventura divertida e inesquecível.
Foi certo tempo entediante de espera para a menina, o que quase a fez dormir ali mesmo, mas antes que o fizesse, Winter saiu do quarto completamente trocado, em suas vestes vermelhas.
— Que demora. — ela reclamou mostrando a língua. — Vamos logo, Mestra Natalia e Mestre Nataneal devem querer vê-lo.
— Por que sempre eu? — perguntou o garoto coçando a parte de trás da cabeça, ainda bocejando um pouco por conta da noite mal dormida.
— Por que você é o único neto do Mestre Noel? Por que a Soul Christmas brilhou pra você, a apenas pra você quando nasceu? — Melody colocou em prática seus argumentos, deixando o jovem de fios negros calado, apenas a seguindo para um sala com a porta toda decorada com luzinhas de Natal piscando em várias cores e formas, mas antes que entrassem ouviram vozes vinda de dentro do local, vozes preocupadas, meio exaltadas, o que deixavam os dois meio preocupados.
(...)
— C—como assim Natanael? — a mulher de cabelos negros gaguejou, e olhos arregalados, não podia acreditar que seu irmão havia acabado de lhe contar. — I-isso é impossível!
— Peço que fique calma Natália. — o homem respondeu, segurando os ombros da irmã nervosa, era difícil o que ele tinha de explicar a ela. — Desculpe, mas infelizmente ninguém conseguiu encontrá-lo... E...
— E...? — ela perguntou levantando-se no susto, sem a mínima ideia do que o outro iria dizer, sentia seu corpo ser tomado por um enorme desespero, tremia, sentia-se fraca, como se nada pudesse tirá-la daquele transe. — Não esconda nada de mim! Nataneal, o que...
— A Soul Christmas dele foi encontrada em seu quarto. — o homem, Natanael, respondeu rapidamente, tentando evitar o sofrimento da irmã que estava em prantos, sem sucesso.
Ao ouvir estas últimas palavras, Natália caiu ajoelhado no chão, seu coração estava apertado e o estomago revirado, ia vomitar tudo o que comeu e não comeu naquela manhã, como isso podia ter acontecido? Como? Era o fim? Por quê? Por quê?
— Natália! — Natanael gritou agachando-se ao lado, apertando-a contra seu peito tentando a todo custo acalmá-la, era sua única irmã, como poderia deixá-la assim? Tinha que fazer alguma coisa, no entanto, era impossível abandonar seu posto.
— Não pode! Isso não pode ter acontecido! — Natália gritava e chorava, sua garganta estava entupida, não conseguia nem ao menos falar direito, gaguejava e soluçava muito, tremia também, a fraqueza tomava conta de si. — Papai não pode ter desaparecido!
(...)
Do outro lado da porta, olhos azuis e dourados se arregalavam diante da surpresa, as mandíbulas estavam caídas e Melody deixou a prancheta cair no chão, mas isso não era nada perto do que Winter sentia quanto a isso, o garoto não conseguiu se controlar, abriu a porta no impulso, encontrando sua mãe e seu tio abraçados, ele tentando consolá-la.
— O que querem dizer com isso? — gritou ele sem pensar, colocando toda sua raiva, culpa e preocupação para fora, não podia acreditar nas palavras que ouvira por trás da porta, seu avô não podia ter desaparecido, não podia! E o Natal? O que aconteceria com todas as crianças?
— Mestre Natanael, isso é verdade? — Melody perguntou, elevando a voz para seus superiores, o que era raro, muito raro, porém logo depois pareceu se arrepender, dando um passo para trás. — D—Desculpe...
— Não se preocupe senhorita Melody. — o homem sorriu docemente para a menina enquanto esfregava os cabelos da irmã inconsolável, com muita delicadeza na voz, continuou contando o que aconteceu. — Nosso pai não foi encontrado em seu quarto pela manhã, e sua Soul Christmas foi deixada no quarto... Nada de muito grave, ele só deve ter ido dar um passeio.
Mais um passo para trás, agora sim o desespero dela aumentava, isso era uma tragédia, a Soul Christmas era a pedra que o bom velhinho precisava para sobreviver longe de sua casa, e agora, tão perto do Natal, parecia um desastre.
Vendo o sorriso de Natanael se desfazer, a garota pode entender a mensagem, pegou Winter pelo braço e tentou puxá-lo para fora.
— Vamos, não é nada de muito grave, logo Mestre Noel estará de volta! Temos que cumprir os próximos itens de nossa lista! — tentou argumentar e tirar Winter dali, contudo foi levada a baixo com puxão violento do braço do menino, um ruga se formou em seu rosto, quase nunca o virá com aquela expressão. — Winter...
— Nada grave? — virou-se para ela raivoso, os olhos que normalmente eram grandes e brilhantes estavam assustadores, deixando-a arrepiada, sem saber o que fazer ou pensar. — Sua idiota! — mais um grito, seu olhar parecia repugná-la, depois, voltou-se para os adultos, ainda com ódio e um pouco de tristeza misturado, continuou. — Como assim? O que exatamente aconteceu? Ou melhor, o que vai acontecer? E o Natal? Se ele não voltar até a manhã à noite quem vai entregar os presentes? Temos tantos trabalhando aqui, por que não mandam um daquelas inúteis procurá-lo?
— Chega Winter! — os berros desta vez partiram de Natália, de pé, ela o encarava, os olhos molhados por lágrimas emanavam raiva, além de decepção com o filho. — Como ousa falar com ela assim? Esqueceu que foi sua ÚNICA amiga a infância e a vida inteira? E outra, seu avô vai ficar bem por que vamos encontrá-lo! Ah! E se ele não voltar a tempo, você irá substituí-lo e pronto! Agora volte para seu quarto e não saia de lá até eu mandar! — os últimos gritos foram apontando para a porta, fazendo sinal para que saísse.
O garoto não contestou, apenas saiu, sem dizer nada, porém seu olhar era rancoroso, sem contar a culpa que sentia por seu avô, e também por Melody, sabia que agiu errado, mas não ia engolir aquelas palavras tão fácil.
— Perdão por ele senhorita Melody. — Natanael pediu sorrindo para ela e limpando suas lágrimas puras e transparentes, também verificando o joelho da menina que havia sido ralado por conta da queda. — Tenho certeza que Winter não fez por querer, ele só está nervoso com o desaparecimento do avô.
— Errado. — Melody murmurou se apoiando nos joelhos para continuar chorando, aquilo a magoara profundamente. — Winter é horrível! Odeio-o!
— Oh, senhorita Melody. — o adulto a pegou nos braços e colocou no sofá, tentando acalmá-la, mas foi interrompido por Natália, agora mais séria que antes.
— Natanael, o que vamos fazer quanto a Winter? Ele tem apenas quinze aos, não está pronto... E eu duvido que Melody...
— Não se preocupe. — a menina disse terminando de limpar suas lágrimas, levantou a cabeça determinada, andando até a porta e pegando sua prancheta que estava no chão, olhou mais uma vez para dentro da sala, centrando-se nos adultos. — Eu farei o que for necessário.
Natália estava incrédula, vendo como a menina agira, sorriu serenamente para ela, tinha um pedido para a garota, e não podia hesitar neste momento:
— Melody, tem uma coisa que tenho de te dizer.
(...)
Winter trancou a porta de seu quarto com raiva, a coitada até estalou assustando todos os duendes que andavam pelo corredor, conseguiu ouvir alguns choros de susto. Já dentro do quarto, escorregou pela parede branca, encolhendo-se e, sem aguentar mais, chorou, e chorou muito, lembrando-se da discussão que teve com seu avô dias antes de seu desaparecimento, dizendo que não queria substituí-lo, e que o trabalho do idoso era inútil.
O arrependimento tomava conta de seu corpo, mente e coração, por que disse tudo àquilo sem pensar. Agora seu avô estava desaparecido e ele tinha uma enorme responsabilidade em mãos, muita inteligência confiar todos os presentes do Mundo a um jovem de quinze aninhos.
No entanto, ele só queria ficar só e pedir perdão a seu avô, mais nada. Havia sido tão idiota, até Melody que era a única pessoa a confiar e apoiá-lo, agora estava chateada, nem devia querer olhar para sua cara pálida, isso era triste.
Pelo jeito havia perdido as únicas duas companhias que teve por sua vida toda, seu avô, e sua melhor amiga.
— Ei, ei... o que está fazendo aí? — perguntou uma jovem entrando no quarto, esta de cabelos beges e olhos azuis, estava vestida em um tipo de terno feminino e olhava seriamente para ele. — Oh, você é o neto do Senhor Noel?
Winter levantou a cabeça para olhar a face da garota, realmente era bonita, mas não sabia quem era, continuou em silêncio, sem dizer nada, sem saber o que dizer, queria expressar tudo o que sentia, mas deveria confiar nela?
— Maya! — o grito veio de fora, um garotinho chegou correndo, este albino de olhos vermelhos como sangue, parecia usar um tipo de casaco branco com orelhas, menor que os dois anteriores, ele tinha um rostinho fofo que deixaria qualquer uma derretida. — Quem é esse? Ah! O neto do Senhor Noel? Hmm... Ele já sabe que o avô desapareceu?
— Jun! — a mais velha o repreendeu, olhando irritada. O menor realmente podia ser irritante, mesmo sendo um pouco, muito pouco, muito pouco mesmo, inocente, lá no fundo de sua alma. — Ah! — virou-se rapidamente para Winter, percebendo que ele estava levantado. — Perdão, ele não sabe bem o que diz.
— Eu sei. — o moreno confirmou, sorrindo meio que de canto, seus olhos azulados ainda estavam molhados pelas lágrimas que minutos antes escorriam por seu rosto corado. — Quem são vocês?
— Eu sou Maya, sou uma pinguim, e este é o Jun, um urso polar. — Maya explicou apontando para Jun, ela tentava ser gentil, contudo não conseguia falsidade não era com ela.
— O mais fofo que você vai conhecer. — Jun gabou-se, piscando cinicamente sem tirar os olhos do mais velho que parecia ainda estar assustado e com as olheiras roxas por ter chorado. — E aí, o que houve? Por que estava chorando?
— Bem, eu... — Winter tentou explicar, mas como dizer para estranhos a pressão pela qual estava passando, que seu avô desapareceu, que a culpa poderia ser sua e que brigou com sua ÚNICA amiga? Algo nada fácil para o jovem que não sabia fazer nada sozinho. — Não é nada... Eu... Bem... Já volto. — disse antes de sair correndo sem dizer para onde ia.
Atravessou diversos corredores e abriu inúmeras portas a procura de apenas uma pessoa, não descansaria até que a encontrasse, precisava pedir perdão pelo menos a ela, talvez apenas ela lhe aceitaria.
Até que em fim a encontrou arrumando alguns papéis numa mesa, sorrindo de leve, como se nada houvesse acontecido, tão meiga e cheia de ternura. Sim, não tinha dúvidas, era ela mesma.
— Melody... — tentou dizer algo, mas ela lhe calou com aquele lindo sorriso gentil emanando seu calor e serenidade será que o havia perdoado.
A resposta é NÃO! Irritada e com uma veia saltando do pé a cabeça ela o socou o mais forte que podia no estomago, quase o deixando inconsciente, não tinha nenhum pingo de arrependimento, porém seu sorriso continuava lá.
— Não pense que eu esqueço tão fácil. — estendeu-lhe alguns papéis, para ser mais exata eram cartas, destinadas ao Papai Noel. — Acho que isso irá ajudar-lhe a se recompor. — dizendo isso, deixou sozinho com tais cartas, e com apenas uma opção, lê-las.
Então pegou uma delas, a letra era bem infantil, ele julgou ser de uma criança de seis ou sete anos, contudo continuou a ler por que não imaginava o quanto a tal carta iria fazê-lo chorar e refletir sobre suas ações.
'' Papai Noel, o meu vovô foi morar com o Papai do Céu há uns anos atrás e nunca mais veio passar o Natal com a gente, eu queria saber se você pode pedir para ele deixar o vovô vir passar Natal com a gente esse ano, assim a mamãe vai poder parar de chorar por causa da saudade... É a única coisa que eu peço, e tenha um Feliz Natal.
Yahiko ''
Novamente não pode conter as lágrimas, a criança desconhecida passava por algo parecido com a sua situação, porém o avô do outro jamais voltaria, não importa o quanto peça, nunca irá vê-lo mais uma vez em sua vida, nunca.
Nem sequer pensou mais, levantou-se no impulso e abriu a porta com força, trombando com sua mãe e seu tio, assustando ambos pela atitude e os olhos molhados do jovem.
— Eu vou atrás dele. — disse deixando os dois perplexos, de mandíbulas caídas e olhos mais que arregalados.
Natália não conseguia ouvir aquelas palavras, como se ela fosse deixar seu filho sair pelo Polo Norte sem rumo, sendo que Winter era o detentor da Soul Christmas, que ousadia dizer isso nesse momento tão... Que idiota!
— Por favor, confie em mim... Eu... — calou-se.
Lentamente o rosto pálido de Winter se avermelhou com o tapa que sua mãe havia lhe dado, doía, no fundo de sua alma doía, esta era a primeira que a adulta levantava a mão para seu filho, primeira vez, e novamente as lágrimas voltavam a escorrer por seu rosto.
— Essa é minha resposta. — foram as palavras murmuradas por Natália antes de sair seguida por seu irmão.
— Desculpe, mas ela tem toda razão. — Natanael completou, indo consolar a irmã mais uma vez.
Mesmo com o coração e rosto doendo Winter se levantou, determinado, faria o que fosse preciso, mas iria salvar seu avô e também o Natal, isso seria sua promessa, não só para si, mas também para Melody.
Iria conseguir com toda certeza!
(...)
— O que você está fazendo aqui? — a pergunta que surpreendeu Winter partiu da jovem pinguim Maya que estava na porta principal do lado de fora quando o moreno saiu, parecia até esperar por ele. — Que eu saiba a Senhora Natália não te deixou sair.
— M-Maya... — Winter gaguejou surpreso ao ver a pinguim e o urso polar lá, olhando para si. — C-Como assim...? O que você?!
— Somos do pelotão de Elite daqui, seu idiota! — Jun respondeu rindo maliciosamente, o que fazia Winter suar mesmo naquele frio insuportável. — Pensa que vai aonde? Você não pode sair daqui, nós não permitimos.
Winter deu uns passos para trás, precisava pensar, saberia como explicar a situação para eles ou ia apenas chorar como um bebezinho? Das duas, uma, mas era uma decisão difícil que o fez ficar em silêncio, confuso e tentando entender a si mesmo.
— Senhor Noel foi visto pela última vez pelos arredores da mansão esta manhã, depois disso, desapareceu, como você acordou muito tarde não soube antes, assim como Melody... E na verdade você nem sequer deveria saber disso, foi um erro. — Maya começou a explicar a situação, olhava perdidamente para o Céu e os belos flocos de neve que caiam dele, ao atingirem seu rosto derretiam por conta do calor, uma cena que ela jamais esqueceria, já que era sua primeira vez do lado de fora. — No entanto, você é muito imaturo para substituir o Senhor Noel agora, por isso... Eu vou contigo.
— O que? — perguntaram os dois meninos, ambos incrédulos com as palavras da mais velha.
Um sorriso se estendeu pelo rosto de Winter, um largo sorriso de felicidade, depois de tempos de sorrisos falsos por conta da dor este era sincero, o sorriso que trilharia em busca do futuro.
— Obrigado... — agradeceu beijando-lhe a mão. Porém esta garota era diferente, não ficou corada nem nada do tipo, só retirou sua mão e andou em direção ao trenó, seguida por Winter e Jun, o urso não queria e nem pretendia ficar sozinho sem ela. — O que vamos fazer? Por que um trenó? Por que Renas?
— Como descendente de Noel você deve poder controlá-las. — Maya explicou apontando para Winter, que ainda continuava confuso com tudo, afinal é o que acontece na primeira vez de qualquer coisa, para você que não entende de Papai Noel pense na primeira vez que andou de bicicleta sem rodinhas.
— Está com medo, Neném Noel? — Jun perguntou com sarcasmo, deixando o outro corado de raiva.
O moreno nem esperou a continuidade das provocações, partiu para cima da primeira rena que encontrou, sendo derrubado de cara no chão pela mesma, que se levantou irritada, tomando forma humana, esta de cabelos roxos escuros e olhos amarelados, num vestido bege e capa marrom com chifres de sua espécie.
— O que você PENSA que está fazendo seu pervertido? Só por que estamos perto do Natal acha que pode se aproveitar de mim assim? Aí que te engana, quem é você afinal? — perguntou a rena batendo na cabeça de Winter, sentia como se ele tivesse tentando algo com ela, não podia simplesmente deixar assim, jamais.
— Bem... Eu sou Winter... — respondeu esfregando a face mais uma vez ferida por golpes de uma mulher, já apanhou três vezes no mesmo dia.
— W—Winter Noel?! — a Rena gaguejou ajoelhando-se na frente do jovem que seria seu comandante daqui a cinco anos, ou na próxima noite se não conseguissem encontrar Papai Noel. — Peço-lhe perdão mestre, foi sem querer.
Mais uma vez o garoto levantou desapontado com tudo o que estava acontecendo naquele dia. Uma das coisas que mais odiava, além de ser pressionado, era ser reconhecido apenas por ser neto de Noel, não por ser a pessoa que era.
— Decepcionante. — murmurou para ninguém ouvir, subindo no trenó e pegando algumas rédeas, virou-se para os outros que ainda continuavam do lado de fora. — Você vem? E você? Desconheço seu nome. — perguntou referindo-se a Rena, e sem demonstrar o que estava a sentir naquele momento.
— Ah, me chamo Sayaka. — a rena que mais parecia uma menina respondeu, andando para frente do trenó. — Não vai voar se eu não estiver aqui, tolo. — riu-se de leve, fazendo o garoto abrir um tímido sorriso.
Os outros dois também entraram. Estavam prontos para partir à procura do Papai Noel, esse seria sua mais importante missão, não podia falhar de jeito nenhum!
De repente, uma voz 'desconhecida' cruzou os ares frios do Polo Norte, fazendo com que os quatro sentissem a espinha gelar, o suor chegava a escorrer por suas faces, teriam sido descobertos?
— Melody? — a pergunta em sussurros veio de Winter, que instintivamente pulou para fora do trenó, caindo na frente de menina, fuzilando-o com os olhos ela se aproximou, levantando uma pedra verde que brilhava intensamente. — O que é isso?
— Sua Soul Christmas. — a morena respondeu friamente, sem demonstrar nenhum sentimento além de frieza e raiva. — Como pode ver ainda não está madura, ou seja. De qualquer jeito ela não serviria para muita coisa agora. Você nunca soube o verdadeiro significado desta pedra, não é? É bem simples, se ficar afastado daqui por muito tempo e sem a Soul Christmas, você deveria morrer.
— É-é? — o Noel gaguejou, não entendia nada do ela havia falado, mas pelo que ouviu de sua mãe, seu avô desapareceu, mas a Soul Christmas continuava no lugar, ou seja, corria grande perigo. — Impossível! Precisamos ir logo, eu... — tentou pegar a pedra, porém Melody o impediu, chutando-o no estomago. — P—Por que fez isso?
— Pode me ouvir terminar pelo menos uma vez, idiota? — a voz de Melody veio recheada de ironia e sarcasmo, dura, como Winter nunca havia visto nesses quinze anos de convivência com ela. — Você não precisa da Soul Christmas... Por que seu pai não pertencia a essa família, ou seja, você tem um pouco de sangue humano. Porém, eu, como guardiã desta pedra, preciso dela para manter-me viva, então acha que vou deixar que a leve para qualquer lugar? Francamente... Você é muito egoísta!
— Melody... — sussurrou novamente, não esperava isso dela, que sempre foi doce, gentil e generosa, como isso podia ter acontecido? Melody estava sem sentimentos?
Andando lentamente pela neve espeça, entrou no trenó, sentando-se no banco direito da parte de frente, deixando Winter de boca aberta e impressionado com a ação dela.
— O que ainda está fazendo aí, idiota? — perguntou cruzando seus braços e com um sorriso sarcástico de canto, o que deixou o jovem com uma veia saltando, mesmo que esta fosse mais de felicidade do que de raiva.
Pulando para dentro, partiram, em direção ao desconhecido daquele lugar nevado nomeado Polo Norte.
(...)
— O que? Como assim Winter não está no quarto? — os gritos de Natália invadiram a sala, outra vez os olhos azulados dela se arregalaram ao ouvir a notícia partindo de seu irmão, aquele sentimento de tristeza voltava para si, agora seu pai e seu filho estava desaparecido, o que mais faltava acontecer?
— Não se preocupe Natália. — Natanael disse calmamente, acariciando o rosto de irmã para limpar-lhe as lágrimas — Eu vou procurá-lo...
Rapidamente Natália levantou o rosto com tal choque que levou, já era quase noite, como Natanael podia pensar nisso? Será que ela teria que o perder também? Por que os homens de sua vida tinham de ser tão egoístas assim?
— V-Você também? — ela murmurou se apertando contra o peito de irmão, novamente chorava desesperada. — Primeiro meu marido, depois Papai e Winter... Agora você? Por quê?
— Por que você está triste e eu odeio te ver assim. — respondeu segurando o queixo da mulher chorosa, em sua face um belo e sereno sorriso se estampava, acalmando um pouco o coração que Natália que apenas sussurrou um 'Tome cuidado' ao abraçá-lo fortemente, e depois o viu sair pela porta do quarto, ainda sorrindo.
Porém, o que ela não percebeu, foi que agora, o sorriso era outro.
(...)
— Tudo bem, para onde você acha que devemos ir, Mestre Winter? — Sayaka perguntou fazendo com que o trenó seguisse usando sua magia.
— Boa pergunta. — o garoto comentou olhando para a pessoa sentada ao seu lado, enquanto pensava se devia ou não falar algo, pedir desculpas ou qualquer outra coisa. — Melody...
— Sim? — virou-se para ele, ainda um pouco irritada, além de bochechas um tanto pálidas por conta do frio, o que preocupou Winter.
— O que houve?... — perguntou quase que exaltando a voz ao vê-la naquele estado. — Seu rosto...
— Está tudo bem. — a jovem respondeu apertando-se em seu casaco, e quando deu por si estava com a jaqueta de Winter sobre si, cobrindo-a a protegendo do frio daquele inverno interminável. — Ei, não preciso disso.
— Sua garotinha teimosa... — ele brincou mostrando a língua e apertando-a contra seu peito, assim como seu tio havia feito com sua mãe naquela manhã. — O que eu tenho que fazer para você me perdoar?
Sem pensar, Melody o empurrou para longe de si, a face dessa vez completamente vermelha por conta da vergonha, a franja tapava um de seus olhos, olhava séria e irritada, pelo jeito o menino havia feito algo mais que errado:
— Não pense que pode me comprar Winter!
— Mas eu... — tentou se explicar, mas pelo jeito que Melody virou o rosto ela não queria ouvir nada, e também, a voz de Maya os atrapalhou.
— Melhor pararmos. — murmurou sentindo os flocos de neve cair cada vez mais rápido, e os ventos sempre mais fortes balançavam seus cabelos beges, além de fazê-la levantar os braços para proteger seus olhos. — Parece que uma tempestade de neve está começando!
— Você está certa Maya! — Jun concordou gritando para que pudesse ouvi-lo, a neve ficava cada vez mais espessa e os ventos arriscavam derrubá-los a qualquer momento, como voavam alto, seria uma queda para morte.
— De jeito nenhum! — Winter negou entre berros, estava tão longe, como poderiam parar agora? — É impossível! Nós temos que continuar!
— Não seja imprudente! Se algo acontecer nem você poderá entregar os presentes! — Melody o repreendeu, colocando o capuz para proteger a cabeça, com mais alguns gritos o trenó desceu, mesmo que contra a vontade do garoto de cabelos negros, pousando entre alguns pinheiros, onde a neve caia com mais dificuldades.
— Acho que podemos passar a noite aqui. — Jun afirmou analisando o local, o que deixou Winter irado o apertando contra a árvore de tanta raiva. — O que está fazendo? — o urso perguntou tentando afastá-lo para respirar.
— Como assim passar a noite? Acha que temos tempo? O vovô pode estar em grande perigo agora e você quer passar a noite? — os berros ficavam cada vez mais altos, assombrando as meninas presentes ali, que até recuaram um pouco com a cena. — Isso é puro egoísmo!
Jun resolveu que não iria ficar mais tempo ali ouvindo besteiras, tomou uma atitude, chutando o estomago de Winter, obrigando o mesmo a soltá-lo para respirar, e logo depois o acertando com um soco no rosto para ver se 'acordava'.
— Egoísta, eu? — retrucou cruzando os braços e levantando as sobrancelhas, estava cético, não queria, mas para fazer o mais velho se aquietar teria de pegar pesado. — Que eu saiba é você que saiu de casa sem permissão de NINGUÉM e foi arrastando pessoas como a Melody, não é? Por acaso você acha que Senhor Noel iria gostar disso? Eu acho que não!
Winter ficou paralisado com as palavras do jovem, que podia até ser chatinho mais parecia tão... Fofo... Já não entendia mais o que estava acontecendo, aquilo tudo só lhe confundia, mas para ele, nada justificava a reação de Jun, no entanto, só para ele.
— Jun, chega! — Maya o segurou, vendo que amigo não pararia por ali, Jun era sempre exagerado, sempre. — Desculpe por ele Winter, mas ele não deixa de ter certa razão, não acha? — colocou a questão, de modo, digamos, 'leve' tentando não assustar muito o Noel, porém sem sucesso, o jovem de quinze anos se virou murmurando alguns poucos xingamentos, sem querer entender os motivos de ninguém.
Sim, realmente, Winter tinha uma cabeça dura, assim como seu pai quando vivo, não gostava de ouvir ninguém, mesmo quando sabia que estava totalmente errado, orgulhoso demais, sentou-se sozinho num canto, e mesmo contra sua vontade, lá adormeceu vencido pelo cansaço e embalado pelas ventanias do local.
(...)
Amanhecia, lentamente, a luz fraca do Sol machucava os olhos ainda fechados de Winter, o que o deixava profundamente incomodado, queria dormir mais, nem se lembrava do que estava fazendo ali no meio de toda aquela neve.
Bem devagar, ele sentiu um dedo cutucando sua face pálida, no começou achou confortável, até mesmo calmante, mas com o tempo foi ficando irritada, já estava o incomodá-lo, perdendo a paciência começou a gritar:
— Ei, o que pensa que está fazendo seu... — fez uma pausa ao se encontrar com a pessoa que o cutucava, ou melhor, com o busto da pessoa que o cutucava. — M-Melody...? — corou profundamente, ainda mais que ela parecia não ter percebido.
— É hora de ir, Winter. — a jovem sorriu calmamente, acariciando os cabelos negros para despertá-lo totalmente. — O Natal não pode esperar para sempre, né? Sorrindo de volta, o Noel se levantou a seguindo em direção ao trenó, onde os outros já esperavam, com o risco de haver outra nevasca, eles não podiam arriscar demorar muito para sair, afinal, mesmo sem demonstrar, estavam dispostos a sacrificar suas vidas para salvar este feriado tão importante.
— Estão prontos? — a rena perguntou já pronta para voar, logo, viu os outros assentirem, assim, partiu pelo Céu límpido com apenas alguns poucos flocos de neve caindo.
(...)
Assim ficaram, voando por algumas horas, nada de diferente parecia estar por perto, o que preocupava ainda mais, nada se via, algumas esperanças estavam prestes a se perder até que o grito de Jun foi ouvido, o albino apontava para algo, um tipo de casa de madeira, anormal para um lugar frio como aquele, seria uma pista ou apenas uma simples distração?
— O que... — foram os poucos e baixos múrmuros de Maya, enquanto centrava seus olhos azulados em Winter que parecia estar sem a mínima reação, mesmo nunca tendo saído de seu lar, aquela casa lhe parecia estranha.
— Mestre Winter. — Sayaka perguntou virando-se precisava saber o que deveria fazer a seguir. — Devo descer aqui?
Foi neste momento que a mente do albino se confundiu totalmente, ainda mais depois do acontecido da noite anterior, ao ouvir o esbranquiçado dizer que ele era culpado de tudo, esse sentimento se apertava em seu peito, o deixando praticamente desesperado, sem saber o que fazer, aquilo poderia ser o fim, mas também poderia colocar todos eles em perigo, o que deveria fazer?
— Winter... — Melody sussurrou levemente no ouvido do moreno, fazendo-se virar drasticamente para ele, se encontrando com o doce sorriso da jovem. — Faça o que achar certo, nós estaremos sempre ao seu lado.
— Melody... — murmurou o mais baixo que pode, tentando esconder as bochechas avermelhadas retribuiu o sorriso com calma, concordando com a cabeça, as palavras da garota o haviam animado, pelo menos um pouco. — Certo Sayaka! Nos leve para o chão!
— Deixa comigo! — a ruiva respondeu puxando o trenó para o chão, feliz, sentia que sua aventura estava prestes acabar.
Porém, Maya sentia algo estranho, como se soubesse que nem tudo daria certo, como se já soubesse que não acabaria ali.
(...)
Devagar e com cuidado para não chamar muita atenção os jovens desceram do trenó e foram analisar os arredores da casa, já que a porta estava trancada por dentro, sem encontrar nada de interessante por lá, resolveram então se separar, as meninas foram procurar pelo fundo da casa e os meninos mais para frente, sem adentrar muito da floresta, o que parecia um grande problema para Winter que estava 'meio' brigado com o jovem de cabelos brancos, tanto que não trocaram nem sequer uma palavra em toda a investigação, que durou meia hora, foram e voltaram em silencio.
Ao chegar, ambos perceberam que as meninas ainda não estavam de volta, Winter suspirou, sem falar com ninguém, aquilo seria uma longa espera, de fato era um garoto orgulhoso que jamais iria admitir estar errado, ainda mais quando achava estar certo.
‘’Voltem logo.” pensou "Não quero que algo de ruim aconteça a vocês também... Ah! Eu não devia deixar menininhas frágeis saírem por aí sozinhas... Eu sou um idiota!"
— Não adianta ficar preocupado a toa. — Jun começou cruzando os braços. — São garotas, e garotas assustadoras, são fortes.
— Não são assustadoras coisa nenhuma! — o moreno gritou divertidamente apontando para o mais jovem. — Bem... Talvez um pouco... Mentira, muito... — riu acompanhado do outro, sim, esse é jeito estranho de meninos fazerem as pazes, ou deve ser por que ambos mantêm a cabeça fria.
— Meninos são idiotas. — o comentário veio de Sayaka que revirou os olhos, aproximando-se dos dois junto com as garotas restantes.
Os jovens se levantaram para receber as amigas, sérias, como se algo ruim, muito ruim tivesse acontecido, deixando-os preocupados, e muito preocupados.
— O que ouve? — a pergunta veio de esbranquiçado, que ergueu o queixo com um pouco de desconfiança.
— Não encontramos Mestre Noel. — Melody respondeu sem pestanejar, olhando de canto para Winter e Jun. — Mas achamos os presentes, que, aliás, nem sabíamos que tinham desaparecido também.
Diante da surpresa, Jun e Winter ficaram estáticos, deixando a mandíbula cair, teria Natalia não ter percebido isso? Ou simplesmente não quis lhes dizer?
Por algum motivo a morena aceitava mais a segunda opção, por que os adultos sempre escondiam as coisas assim? Isso só o deixava cada vez mais inseguro, por sorte seus amigos estavam por perto, do contrário teria voltado para casa na primeira chance que teve.
— Então, o que vamos fazer quanto a isso? — Sayaka perguntou fazendo com que todos se virassem para o Noel que desviou o olhar, pensativo.
De repente, algo lhe passou pela cabeça, se lembrou da Soul Christmas que Melody carregava consigo, tudo bem que talvez fosse uma má ideia, no entanto não custava nada tentar.
— Melody. — a chamou andando até ela. — Pode me emprestar a Soul Christmas?
Assustada, a jovem olhou no fundo dos olhos azuis de Winter, preocupada e sem saber o que fazer confiar ou não no amigo?
— Por quê? — questionou desconfiada.
— Bem, acho que a Soul Christmas pode reagir também ao vovô, e se o encontrarmos logo iremos pode sair daqui com os brinquedos a salvar o natal, confie em mim. — pediu, ou melhor, suplicou, olhando nos grandes olhinhos dela e colocando a mão em seu ombro.
Suspirando, Melody entregou a pedra, que ao entrar em contato com seu dono brilhou intensamente e depois, ainda flutuando no ar virou-se para acasa, voando em direção à um janela lateral que parecia trancada, no entanto, foi só Maya encostar que ela se abriu lentamente, criando uma passagem para os jovens.
Entrando na misteriosa casa, perceberam que ela era bem acabada, rangia a todo passo que davam, era escura, sem nenhuma luz iluminando, a não ser a da pedra, andavam lentamente para não chamar atenção de ninguém, apenas observavam para ver se encontravam algo.
De repente, uma tosse, deixando-os nervoso e viraram para a parede, onde havia um tipo de sela, e nela, um senhor já de idade, de cabelos a barba branca, deixando as crianças assombradas por sua situação precária.
— Vovô! — sem se importar se alguém podia aparecer Winter gritou, correndo até o local onde seu avô estava seguindo dos outros, que tinham olhos arregalados diante o susto. — Vovô? Tudo bem? Já vou te tirar daí, não se preocupe... — tentava, tentava e tentava novamente, no entanto sua força não era suficiente para abrir as grades, o que o deixava mais desesperado, até com algumas lágrimas escorrendo por seu rosto pálido, triste e abalado, ele caiu de joelhos, agarrado as grades. — Desculpe... — sussurrou, sentindo-se culpado por tudo que ali havia acontecido. — Desculpe por falar demais aquela noite... Eu... Eu não consegui manter a tradição da nossa família... Eu... Eu falhei... Perdoe-me...
— Winter... — o idoso murmurou secando as lágrimas do neto com um sorriso doce e brincalhão, como sempre fazia quando o menino era menor. — Não se preocupe você nunca falhou... — neste ponto sua voz estava fraca, quase sumindo, e seus olhos semifechados. — Você é o orgulho desta família, tenho grande orgulho de você, meu pequeno. — com estas últimas palavras seus olhos terminaram de se cerrar, e não abriram nem com os gritos de desespero de Winter e nem com as tentativas falhas de Melody em usar a Soul Christmas para fazê-lo acordar, o tempo havia acabado.
Papai Noel estava morto.
– Culpa... Minha... — o moreno murmurou agarrando-se a Melody para ver se aquela dor agonizante se cessava, no entanto, nada.
– Errado! — ela gritou apertando-o contra si o mais forte que podia, para sentir o corpo do jovem tocar o seu de modo confortável. — Se eu tivesse lhe dado a Soul Christmas quando chegamos isso não teria acontecido! — continuou com a garganta entupida por conta das lágrimas.
— Mestre... — com um grunhido de dor, Sayaka se abraçou a Maya, sem conter o choro cheio de emoção e decepção. — Por quê? Seria a primeira vez que eu iria ajudá-lo a entregar presentes! Por que o Mundo tem que ser tão cruel?! Por quê?
— Saya... — Maya tentava consolar a amiga, acariciando seus finos fios de cabelos. — Isso iria acontecer mais cedo ou mais tarde, aceite. — depois, virou-se para os outros dois jovens abraçados. — Não é culpa de nenhum de vocês, ele estava vulnerável neste lugar, se lembrem de que ele já tem certa idade... E... Pela palidez tenho certeza de que alguma doença, como gripe ou pneumonia levou-o para sempre... Aceitem vocês também! Ninguém aqui tem culpa!
— Meninas são tão frágeis... — Jun comentou abrindo um sorriso forçado, por mais que tentasse impedir as lágrimas, ele chorava tanto quanto Sayaka, a única diferença era que Maya não estava conseguindo consolar os dois.
— Não acaba por aqui! — o grito de Winter cortou os ares de todo o local, fazendo com que os amigos se virassem para ele, assustados, ou simplesmente surpresos com a reação dele que havia acabado de perder o avô — 'Ele disse que tinha orgulho de mim... Não te vou decepcionar! ' — levantou-se olhando para os outros, já sem lágrimas molhando os olhos (ou talvez algumas), sorriu de leve para os outros, com determinação. — Vamos juntos, salvar o Natal!
— Winter! — um sorriso também se abria nos lábios rosados de Melody, a face rosada expressava orgulho e felicidade para com o garoto. — Certo! — assentiu enquanto as incômodas gotas de água voavam de seu rosto.
Os outros seguiram o mesmo exemplo, secando os olhos e abrindo um sorriso sincero, afinal, eles tinham um trenó, os presentes, uma rena e o sucessor de Noel, tudo estava prestes a dar certo, no entanto, aquela voz metálica os interrompeu, fazendo-os virar para aquele homem sentando a mascarado olhando para eles.
— Oh, mas que linda cena.
Já que o tal homem estava de mascara, era impossível ver se ele sorria ou estava sério, mas pelo tom que usava parecia muito satisfeito com tudo o que acontecia lá.
— Quem é você? — Maya perguntou jogando Sayaka para trás.
— Winter Noel, não? — o homem de voz metálica perguntou ignorando a pergunta da menina. — Vejo que chegou bem longe, tanto quanto seu pai... Será que vai morrer no mesmo lugar que ele?
— Ei, você fique de boca calada! — Melody berrou vendo que o moreno estava paralisado com tais palavras. — Já não basta o que você fez com mestre Noel? Por acaso acha que o Winter vai morrer num lugar assim? Tá muito enganado!
— Por acaso falei com você, garotinha? — retrucou cruzando os braços. — Para vocês termina aqui!
Dando um passo para trás, as crianças se mostravam nervosas por algum motivo, aquele homem lhes fazia suar frio, era necessário sair dali logo, não importava como. O primeiro a tomar essa atitude foi Jun, se virando em direção a porta seguindo pelos outros que correram para fora, na esperança de dar tempo para pegar os presentes e o trenó.
— Tsc, crianças... — murmurou pegando um tipo de controle, e começando a retirar a tal mascara.
Quando Winter olhou para trás para saber se o homem vinha atrás de si, arregalando os olhos quando viu os cabelos negros voando com o vento, mal conseguia acreditar naquilo, só podia ser mentira!
— Tio Natanael... — sussurrou sendo puxado as pressas por Melody, conseguindo sair a tempo de uma grande explosão que podia ter tirado suas vidas, e sem dúvida matou o homem que lhes ameaçava.
Ainda muito surpreso com tudo, o moreno sentou-se na neve para respirar e digerir toda a informação, logo estava de pé novamente, andando para o único lugar do barraco que não foi destruído pela explosão: A cela. Olhou a analisou, depois se virou para onde havia visto seu tio, sobrará apena os corpo muito ferido, na verdade irreconhecível, tudo aquilo era difícil de digerir, chegou a pensar em desistir de tudo, no entanto, sentiu delicadas mãos segurando as suas, e quando se voltou para trás deu de cara com os olhos dourados de Melody, dizem algo como 'Vamos em frente'!
Assentindo ele a seguiu e ajudou os outros a arrumar as coisas no Trenó, bem firme para não soltar durante a viagem, vários olhares, palavras e sorrisos foram trocados neste divertido e melancólico processo. Quando finalmente terminaram se depararam com um comecinho de noite, nem sequer adiantava voltar para avisar Natália, partiriam dali para entregar os presentes, Winter, Melody, Maya, Jun e Sayaka.
E com o único pensamento de salvar o Natal, neste dia 24 partiram, cruzando os céus enquanto a noite caia lentamente sobre suas cabeças, tudo completamente perfeito, ou quase, para Winter faltava algo e era desabafar com a pessoa que mais confiava:
— Sabe Melody, eu descobri que aquele homem mascarado que estava prendendo o vovô e tentou nos matar era o meu tio, por que ele faria isso?
— Se você não tivesse nascido Winter, quem seria o descendente do Mestre Noel seria Natanael, e talvez ele tenha ficado louco, se é que ainda não era por ciúmes que tinha de Mestre Noel com você, afinal, ele sempre foi mais carinhoso com você do que com os próprios filhos, além do mais Natanael nunca pode ter filho, isso deve ter aumentado seu ódio pela própria família, sem contar que quando criança ele era tratado como um servo, por que nasceu para servir os 'legítimos', ou seja, a família de Mestra Natália.
— Mas... E se ele ainda estiver vivo? E se ele voltar? O que vamos fazer? Eu... Eu não sei o que vou fazer!
— Ele não está! Você mesmo viu o corpo! — completou com firmeza — E mesmo se estiver não se preocupe... — sorriu de canto, sem tirar os olhos da face dele, em sua cabeça já sabia oque ia fazer — Winter... Não importa o que aconteça a partir de agora... — ela se aproximava cada vez mais do rosto corado dele, lentamente, até estarem com as cabeças grudadas. — Você não está sozinho... — dizendo isso, selou os lábios do garoto, com um quente beijo, o beijo que Winter sempre desejou receber, sem nem mesmo perceber, ele cruzou a cintura dela com seus braços, sem ligar para os outros dois que observavam, até que precisaram tomar ar e se separaram coradíssimos sem nem olhar um para o outro, e tendo que aguentar as piadinhas de Jun a Maya.
Porém, sem pensar muito nisso, Winter colou sua boca nos lábios rosados de Melody, sem querer soltá-la nunca, já que a mesma se entregou ao beijo cheio de amor, afinal, este era seu presente mais desejado de Natal.
E assim, os cinco continuavam voando, voando em direção a um futuro ainda desconhecido, porém, não importa como fosse desde que estivessem juntos.
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