Soul
23 Me perdendo
Notas iniciais
Eu beirei a inconsciência e sai dela muitas vezes. Peguei alguns flashes de imagem, um som de avião e um frio na barriga. Fui amordaçada e amarrada, revistada. E depois trancada em algum lugar. Depois a viagem de consciência acabaram, e eu dormi.
Senti a dor antes de acordar. Meu corpo todo doía, cada célula em chamas. Estava deitada em algo macio, de tecido de algodão. Me lembrei de quando nasci. A sensação seria igual se eu não estivesse sentindo dor.
Ultimamente eu estava quase me arrependendo de ter ganhado a vida. Matei duas pessoas e quase matei a pessoa que eu mais amava no mundo. Eu o trouxe de volta, era verdade. Mas pra começo de conversa, ele não teria morrido se eu não estivesse ali. Então acho que tudo acabava sendo minha culpa.
Porque isso está acontecendo comigo? Perguntei aos deuses. Eu não quero machucar ninguém. Não quero trazer mais dor. Sou extremamente grata pela vida que vocês me deram, e não quero perder ela. Mas não quero mais machucar as pessoas.
Dessa vez, cai no sono. E foi como se tirassem todo o fardo que eu carregava. Quando abri meus olhos estava em um salão, que poderia ser no Mundo Inferior devido à decoração estilo morra e venha parar na minha sala de estar. Eu estava sonhando, porque tudo estava tão leve e tranquilo que era impossível que fosse verdade. Respirei fundo e apertei meus olhos.
–Oi. — Parei de coçar os olhos imediatamente.
–Para alguém que me deixou sozinha por 75 anos, quase 76, você está bem presente ultimamente pai. — Murmurei enquanto abria os olhos e me recuperava da coceira e do choque de estar ali e ainda mais ter sido trazida por ele.Ele bufou impaciente, enquanto isso aproveitei para analisar tudo. A sala era mais ou menos como uma sala de estar, só que de couro, metal e preto. E algumas ossadas humanas por ai. Acho que eles tinham um problema com ossos.
Meu pai parecia do mesmo jeito que eu o encontrei da última vez, exceto pelo novo corte de cabelo. Sua pele negra, os cabelos lisos e bagunçados estavam curtos agora. Suas asas faziam grandes sombras pela sala, e ao mesmo tempo parecia que as atraíam. Usava jeans, camiseta branca e uma jaqueta. Ele era bonito e imponente.
Eu admiro o fato de que Afrodite tenha me feito o oposto dele. Ele era todo escuridão, mas ela colocou luz em mim. Eu tento pensar no porque, já que somos tão parecidos por dentro.
–O que aconteceu? — Eu perguntei sentindo uma beira de pânico. Me lembrei da invasão. Nico morrendo. Eu o trazendo de volta. Não tinha nem certeza de como ele estava. Se ele realmente tinha retornado. Por deuses, se aquilo não tiver realmente funcionado eu não fazia ideia do que eu iria fazer.
–Pra ser honesto eu também não sei. — O encarei, incrédula.
–Então por que diabos eu estou aqui?! Se você não vai me ajudar então me mande de volta!
–Não, ainda não. Nós temos que conversar. Eu não posso lhe dizer quem era aquela garota, você tem que descobrir por si mesma. — O encarei novamente e ele ergueu as mãos. — Eu não fiz as regras. Mas eu fiquei sabendo o que você fez. Sophie, você não podia ter feito um erro maior.
A raiva surgiu dentro de mim, tomando cada centímetro do meu corpo. A temperatura do lugar caiu, como sempre ocorria. Comecei a gritar com ele, apesar de saber que não era o certo a se fazer.
–O que você queria que eu fizesse? Eu não ia deixar ele morrer! Deuses eu nem sei se funcionou de verdade, se ele vai ter sequelas. Mas eu só sei que não podia deixar ele morrer. Não ia deixar a pessoa que eu mais amo, e também que me deu a oportunidade de viver, morrer! Eu não faço idéia de quem seja minha mãe, nem de onde eu vim mas você deve entender sobre amor, eu sei que sim, porque você teve a mim. E até onde eu saiba, eu não nasci espontâneamente. Nem os filhos de Atena nascem espontâneamente.
Ele ficou quieto e congelado, como se fosse uma estátua. Ele parecia chocado, e ao mesmo tempo irritado. Podia ver em seus olhos que ele entendia exatamente o que eu estava sentindo. E isso me machucou. Não devia ter tratado ele assim, ele deve ter sofrido mil vezes mais do que eu.
Sem pensar duas vezes, caminhei até ele e fiz algo que o surpreendeu ainda mais. E a mim também. Eu o abracei o mais forte que pude. No começo foi como se eu estivesse abraçando uma estátua. Mas então, essa estátua foi se tornando um homem de verdade, ou deus.
–Me desculpa. — Sussurrei enquanto lutava contra as lágrimas que se formavam em meus olhos. — Eu estou com tanto medo, estou com medo de acordar.
Ele passou a mão pelos meus cabelos, e o ato foi como se as coisas derretessem como um gelo. Eu não consegui segurar, e comecei a chorar e soluçar alto. Ele fez aqueles sons tranquilizadores, ficou abraçado comigo e me acariciou até que eu me acalmasse.
–O feitiço. Como aconteceu? O que você disse e fez?
Eu me separei dele, e me sentei no sofá enquanto falava. Ele andava de um lado para o outro, quieto e concentrado em tudo o que eu dizia. Ao ter que falar, tive que reviver cada momento daquele momento. A dor só não ficou pior porque eu já estava sentindo ela em uma quantidade absurda.
–Então, você recebeu uma espécie de autorização? E um manual?
–Aham.
–Isso muda as coisas. Alguém, que conhece esse tipo de magia, ficou sabendo do que iria acontecer e quis te ajudar.
–Algum palpite ou teoria?
–Alguns. Mas só posso te contar na hora certa.
Eu pensei que fosse ficar brava ao saber que ele não iria me contar, mas na verdade fiquei calma até. Eram as leis deles. Ele não tinha culpa nisso.
–Uma outra coisa. Algo que eu disse no feitiço. Eu disse em nome de Hécate e de sua Espectro. O que isso significa?
–Significa sua história. Algo do seu mais distante passado. — Fiquei perplexa. Ele estava dizendo que eu tive uma vida? Antes de ser uma fantasma que vaga por ai? — Desculpe, é o máximo que posso te dizer. Não devo interferir. Você vai entender algumas coisas logo, eu espero.
–É, eu também.
Mastiguei o meu lábio inferior, mas sem morder exatamente. Eu queria acordar. Mas ao mesmo tempo não queria. A questão era o que eu precisava fazer, não o que eu queria. Eu precisava voltar para a realidade por mais infernal que fosse.
–Só mais uma coisa, antes que eu vá. Por favor, tenha certeza que Nico está bem. Eu te imploro. Diga pra ele que... — Respirei fundo. — Diga pra ele que eu estou bem, na medida do possível.
–Eu vou. — Dei um sorriso leve, para ser simpática. Mas meus olhos cheios de água contradiziam o sorriso. — Você não precisa ir agora, sabe. Se quiser pode ficar aqui e ler um livro. Só acordar quando chamarem por você.
–Eu sei. Mas eu preciso ir. Não posso fugir assim da realidade. Me faça essa oferta quando as coisas estiverem ruins de verdade. — Pela sua expressão, vi que não havia uma próxima vez. Não tão cedo. — O que não vai acontecer, não é?
–Eu não sei. Não posso fazer promessas assim. Os deuses estarão de olho em mim, ficar de olho no que eu faço. Não vai ser tão fácil ver você de novo. Mas vou fazer o máximo, isso eu prometo.
–Obrigada.E com isso, a sala gótica foi saindo de foco. Até tudo ficar escuro de verdade.
Soube quando acordei quando senti o ar frio bater em mim. O toque de um colchão coberto por um lençol. Eu estava confortável, na verdade. Esperava estar deitada em um chão de pedra, em um lugar úmido e quente em que eu estaria soando a minha alma para fora do corpo. Mas eu estava bem, até demais.
Abri os olhos mas logo fechei. Ao abrir, uma luz puramente branca brilhou em meus olhos. Um branco mais do que hospitalar.
Quando me acostumei, os abri. E entrei em um estado de pânico.
Eu estava na sala com a qual havia tido um pesadelo de tortura.
Eram as mesmas paredes brancas, o cômodo extremamente iluminado, sem portas ou janelas.
Eu poderia facilmente dizer que o meu pesadelo ganhou vida.
Nico
Eu vi Sophie ser levada, carregada incosciente pela sala e não pude fazer nada. A pessoa que eu mais amava, que salvou a minha vida de milhares de maneiras diferentes. Sendo carregada para algum lugar que poderia sofrer muito, tudo isso porque eu não conseguia me mover sem sentir uma dor enorme e porque não tinha forças para levantar.
Quando eu consegui levantar, eram alguns minutos depois. Mas eu tinha que fazer algo e ir atrás deles. Não ia deixá-los irem embora desse jeito.
Estava no hall do andar quando o elevador cheio de semideuses se abriu.
Eles estavam conversando entre si, mas logo me viram e pude ver o choque nos rostos deles ao me encontrar ali, escorado na parede lutando para me equilibrar.
–Deuses, Nico! — Hazel foi a primeira a falar. O primeiro a agir foi Jason, que correu até mim e passou meu braço por cima de seus ombros.
–O que aconteceu? — Ele perguntou enquanto me levava de volta para o apartamento. Fiz um esforço para falar, estava me sentindo um pouco melhor aos poucos mas ainda sim era ruim.
–Eles levaram a Sophie. Eu preciso ir atrás deles.
–Eles quem?
Como a sala de estar estava quase que destruída por completo, me levaram até a cozinha e me fizeram sentar em um dos bancos da bancada. Hazel correu para pegar água para mim e se sentou ao meu lado, extremamente preocupada e olhando todo o sangue em minhas roupas. Contei a história, da forma que pude, enquanto bebia uns cinco copos de água.
–Eu não faço ideia de como Sophie me trouxe de volta, mas foi algo forte. Pude sentir a energia pairando no ar quando voltei.
–Isso ao menos é possível? — Leo perguntou. — Sophie ter um poder tão grande?
–Eu não sei. Mas tenho certeza que foi ela. Ela desmaiou assim que eu acordei. E eu tenho certeza que não foi pela emoção.
O silêncio reinou na sala, e eu levantei de onde estava sentado.
–Hey, onde você vai? — Frank parou na minha frente e me impediu de passar.
–Eu estou indo atrás deles. Não vou ficar sem fazer nada.
–Você não vai sair daqui agora. — Esclareceu Piper. — Vamos pensar com clareza. E você obviamente não está em condições de sair vagando.
–Já estive pior.
–Não! Você nunca morreu, então não! — Hazel gritou, algo que ela nunca havia feito.
–O que vamos fazer então?! Ficar aqui e esperar?
–O que vamos fazer agora, é avisar o máximo de pessoas que pudermos. — Jason começou a dar ordens. — Você vai tomar um banho, trocar de roupa e comer algo. Porque você precisa.
–Eu preciso é começar a procurar. — Perdi o controle e gritei.
–Droga Nico, você não vai sair daqui. Eu sei que você quer achar ela, nós também. Nós a amamos também! Claro que de uma forma diferente da sua, mas isso não deixa de existir. — Disse Leo, extremamente irritado e assustado pelo que havia acontecido. Todos estavam, na verdade.
Respirei fundo e apertei os olhos, tentando evitar as lágrimas de raiva e frustração que haviam surgido. Coloquei as mãos nos meus cabelos e puxei sem arrancar.
Empurrei Frank para o lado e passei por ele, indo para o quarto e batendo a porta atrás de mim.
Sophie
Eu podia ter continuado dormindo se eu soubesse que ia morrer de tédio. Estava um pouco tonta e enjoada, mas estava bem. Na medida do possível. Assim como tinha dito ao meu pai.
Meu pai. Eu queria ter sido mais legal com ele na noite em que nós saímos, do que tinha sido de verdade. Só nesse momento em que eu descobri que ele realmente se importava comigo. No final das contas, ele acabou se tornando meu pai de verdade.
Trocaram a minha roupa. Eu estava usando um vestido branco, básico que ia até a metade das minhas coxas. Acho que era a ideia era me torturar com branco, ver até onde eu aguentava ao ver apenas aquela cor. E eu não queria nem pensar em quem havia o feito. Não conseguia ligar pra algo tão pequeno nesse momento.
Um pedaço da parede se abriu, uma porta escondida. Me levantei da cama, me preparando para me proteger.
Quem passou pela porta foi a mesma garota que havia me trazido até ali, sequestrado basicamente. Seus cabelos estavam presos em um rabo alto, então pude ver melhor suas feições. Ela tinha um ar de árabe. Olhos fortes e marcantes, levemente puxados. Nariz delicado e na medida certa. Lábios finos, mas não daquele estilo inexistente. Sua pele era em um tom dourado. A única coisa que tínhamos de parecido era a mesma cor dos olhos. De resto, não tinha nada a ver.
Mantive a pose defensiva, corpo pronto para atacar caso algo acontecesse. Não que eu soubesse luta corpo a corpo. Na verdade eu só sabia em teoria. Sabia como socar alguém pelo menos.
–Oi Sophie.
Fiquei quieta, a seguindo com os olhos esperando pelo que ela veio fazer. Ela caminhou pelo cômodo, e eu me mantive paralela a ela. Meu coração batia forte, eu estava com medo mas ao mesmo tempo sentia raiva pelo que ela fez a Nico e por ter me sequestrado até ali.-Você não precisa ficar agindo assim comigo. Eu não vou mach
ucar você. — Depois de falar ela deu um sorriso cordial, tentando conquistar minha simpatia. Ela não ia me machucar ainda.
–Claro que eu vou confiar em você. Você matou Nico e me sequestrou. É a pessoa mais simpática que eu conheci até agora.
–Foram apenas meios para um fim. — Encarei-a, tentando ver se ela falava sério. Ela era doentia. — Eu fiz aquilo porque sabia que Hécate ia te ajudar. Ela iria te revelar o feitiço, destrancá-lo da sua mente. E consequentemente você desmaiaria ou ficaria fraca demais para eu poder te trazer com facilidade. Viu? Meios para um fim.
Semicerrei os olhos, ainda tentando ver se ela estava falando sério.
–Ah, eu adoro que matem meu namorado para que eu possivelmente possa trazê-lo de volta.
–Eu estou querendo fazer uma abordagem pacífica, Sophie Seele. Se quiser que eu a mude, é só falar.
–Se quisesse uma abordagem pacífica não teria me sequestrado. — Ela estava quase no limite. Quase. Eu queria ver até onde ela ia, sem se dobrar. E se ela se dobrar, o que iria fazer comigo. Me mantive atenta.
Ela respirou fundo e se sentou na minha cama, como se fôssemos duas amigas apenas batendo um papo sobre o ensino médio dentro do quarto. Escorei na parede, de frente à ela e cruzei os braços. Eu analisava, sem ter a mínima de vergonha na cara. A sensação quando eu a olhava era como um déjà vu ambulante e irritante.
–Eu sou estranhamente familiar, não é? — Não disse nada, mas pela forma como minha expressão e meu corpo ficaram mais tensos ela presumiu que a resposta era sim. — É, posso só imaginar como é.
Eu queria apertar seu pescoço até seu rosto inchar e ficar roxo. Ou usar um de meus poderes, e matá-la. Escapar dali e procurar meus amigos.
Ao mesmo tempo queria fazer milhares de perguntas, repeti-las até ela me responder.
–Eu imagino pelo que você deve ter passado. Completamente perdida, sem saber quem você é. — Eu poderia sufocar ela com o travesseiro.
–Você vai passar pela fase de murmurar coisas sem sentido para mim? Porque está ficando chato de verdade.
Ela levantou e veio em minha direção, dessa vez eu não fugi. Ela chegou perto o suficiente para tocar meus cabelos, em uma espécie de carinho distorcido.
Cerrei os punhos. Eu podia trocar de lugar com ela. Colocar ela no meu lugar, e encurralar. Bater nela, sufocar. Qualquer coisa.
–Então posso dizer que não senti nem um pouco da sua falta, irmã.
Perdi a cabeça. E eu nem tentei me manter no controle, na verdade. Coloquei meu antebraço em sua garganta e a forcei a trocar de lugar comigo. Coloquei ela contra a parede. Dei um soco em seu rosto com a mão direita e depois coloquei meu braço em sua nuca empurrando ela contra o meu joelho que colidiu com sua barriga com força. Depois disso tudo, a peguei com força e a empurrei através do cômodo. Ela caiu e foi parar do outro lado da sala. Raiva percorria meu corpo todo.
Eu queria fazer muito mais do que fiz. De verdade. Eu estava indo em direção à ela, quando fui interrompida pelo som de sua risada. Uma gargalhada doentia, na verdade.
Foi quando eu percebi a bosta que eu havia feito.
–Você não mudou quase nada. Só está mais bruta. Mas continua a mesma coisa.
Ela se levantou como se não tivesse sofrido nada. Seu rosto não detinha de marca nenhuma. Fiquei assustada, mas mantive a posição
.-Ainda se engana facil. — Ela veio até mim e me deu um soco. — Ainda idiota. — Ela torceu meu braço e me virou para a parede. Eu gritei com a dor. — Precipitada. — Bateu minha cabeça com força contra a parede. — Frágil. — Ela me jogou contra parede do outro lado e minhas costas bateram com força suficiente que se eu fosse uma mortal teria quebrado algumas costelas, ou fraturado a coluna.
Ela caminhou lentamente até mim, e eu sentia uma dor enorme no corpo todo. Tentei fugir dela, mas estava encurralada. Me senti covarde, tola, fraca e idiota.
–Você acabou de perder a sua chance de ter um lugar ao meu lado.
Ela ao chegar até mim, inútil e vencida no chão, me deu um chute que eu tive certeza que havia quebrado uma costela. Então ela fez isso de novo. E de novo.
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