Soul

26 Brincando com a mente, por Korinna


Notas iniciais
Oi genteeeee. Esse é um dos capítulos mais diferentes que eu já fiz, e vocês vão entender por que. Mas é meio forte, não tanto. Mas é o tom sombrio que eu queria dar para a fic. Então está ai, espero que gostem.

Ser mantida em cativeiro era extremamente angustiante e entediante ao mesmo tempo. Nunca imaginei que tal combinação existiria, aliás.

Uma boa notícia, era que eu não estava mais presa a mesa. Mas agora não tinha o que fazer, e tinha que me manter acordada por que não podia dormir por quase um mês novamente.

Sim, era uma espécie de alívio. Dormir e acordar muito tempo depois, sem ter que lidar com tédio ou a agonia que as dúvidas traziam.

Dúvidas eram coisas frenquentes no meu... Dia a dia, também. O que eu mais me perguntava era, o que eu havia feito à Korinna. Quando eu olhava pra ela, não tinha nem aquelas sensações de dèjá vu, que não é exatamente um dèjá vu, as vezes aconteciam comigo na rua, quando eu via pessoas que já havia visto antes na rua ou na escola quando ainda era fantasma. Não me vinha a sensação de que eu conhecia ou já tinha visto ela uma vez sequer.

Outra coisa que me rondava, era o meu passado. Estava cheia de dúvidas, mas Korinna se recusava a me contar algo mais, ou qualquer outra coisa. Imaginava o rosto da minha mãe, enquanto encarava a parede branca. A aparência que eu tinha antes, era a que eu deveria ter se tivesse crescido? Se fosse, minha mãe deveria ser bem branca pois meu pai não é. Os olhos e o cabelo, eu não fazia ideia. Formato dos olhos, nariz e boca muito menos. Mas imaginá-la era de certa forma reconfortante. Eu me sentia menos excluída do mundo normal.

Outra coisa que eu queria saber, era: como era viver na grécia antiga? Viver no meio de crenças, teorias para o universo, deuses, guerras por território e liderança. Mas havia certa beleza na forma que eles viviam, que nós acreditamos que eles viviam na verdade. Havia de certa forma uma inocência. Tinha a mesma beleza de uma página em branco. A pureza, o leque de possibilidades, o vazio mas ao mesmo tempo que está cheio.

Eu queria poder me lembrar de como era lá. Os cheiros, como se parecia, a pureza que havia no ar porque não haviam nem ideias para as maquinas que poluem que existem hoje.

Sai dos pensamentos quando percebi que estava quase dormindo. Fiquei em pé e me estiquei. Eu queria dormir para acabar com o tédio, mas tinha que me manter lúcida por pelo menos mais algumas horas.

Então tive a brilhante ideia de fazer alguns exercícios, porque estava me sentindo meio fraca ultimamente. Na verdade, muito fraca. Havia dormido um mês e meio, e meus músculos haviam atrofiado. Então eu era basicamente pele e ossos.

Deitei no chão e comecei a fazer exercícios, mas não aguentei nem de longe o tanto que estava acostumada. Parei quando comecei a sentir uma dor forte por todo o corpo, e fiquei ali deitada no chão respirando fundo.

A porta abriu com um estrondo, e eu levantei o mais rápido que consegui e me arrastei para o canto. Não havia ninguém entrando no cômodo, mas não queria dizer que não havia nada indo lá.

Me encolhi no canto, tentando me proteger mas a força invisível me pegou pelos braços e senti um choque passar por eles, paralisando-os.

Fui levada para fora daquele quartinho pela primeira vez desde que havia chegado ali. Seguindo a linha do raciocínio, dois ou três meses.

As paredes eram extremamente brancas, e o corredor era muito longo. Não haviam portas ou janelas por ali, era simplesmente algo branco e infinito. Antes que eu desse um passo, minha visão se tornou escura e eu parei de enxergar.

Sabia que não era para sempre, mas senti um desespero enorme ao ficar cega. Me senti presa e ao mesmo tempo perdida. Tarde demais, descobri que estava entrando em pânico.

A força me empurrou para a frente, e continuou dando as coordenadas até que ouvi uma porta se abrindo e fui empurrada para dentro. Depois, a porta se fechou atrás de mim e eu voltei a ver aos poucos.

Estava em um banheiro, e eu nunca havia me sentido mais feliz na vida por causa de algo tão pequeno. Havia apenas um chuveiro, uma pia e um vaso sanitário. Sem ao menos um espelho. Mal liguei pra isso, finalmente podia tomar um banho.

Tomei um dos melhores banhos da minha vida, apesar dos pesares. Havia até um tubinho de condicionador e shampoo, que eu usei inteiro.

Quando sai penteei os cabelos com os dedos, tentando arranjar um jeito de ficarem bons, mas prendi um coque quando perdi a paciência.

Era demais pedir uma escova de dentes e pasta, não era?

Abri a porta do banheiro e sai devagar, olhando para os lados completamente perdida. Estava em um corredor longo e branco pra variar.

Assim que coloquei o pé para fora, minha visão escureceu de novo e eu praguejei. Fui levada todo o caminho de volta, e ao chegar na minha prisão e voltar a ver, levei um susto.

A maca estava lá. A maca que assombava meus pesadelos, com algemas para prender cada junta do meu corpo, inclusive meu rosto.

Recuei e me virei, querendo arranjar um jeito de sair daquela sala. Qualquer jeito serviria. Mas a porta que havia atrás de mim havia sumido como de costume. Bati e empurrei, tentando fazer ela se mover de qualquer jeito. Era parede sólida de novo.

–Korinna! — Eu gritei com todas as minhas forças. — Me deixe sair daqui.

Entrei em desespero. Eu podia sentir meu coração batendo tão forte que poderia causar um estrago, minhas mãos tremiam com o medo e a minha visão começava a ficar turva com as lágrimas.

Bati e chutei a parede, devo ter quebrado alguma coisa porque minhas mãos doíam de uma forma horrível. Fiz de tudo, mas me mantive longe da maca. Evitava até mesmo olhar para ela.

Por fim, me sentei no canto e me encolhi o máximo que pude. Não seria de muita proteção, na verdade eu não tinha proteção nenhuma naquele lugar, mas não havia nada que eu pudesse fazer a não ser esperar.

–Bom dia, querida. — A voz de Korinna me assustou, e eu levantei o rosto e me encolhi ao mesmo tempo em uma mistura de susto e desespero. — Agora que já está mais calma, as coisas melhoraram.

Ela se aproximou de mim, talvez tentando me encurralar. Mas eu levantei de um jeito desajeitado e corri para longe dela. Infelizmente tive que passar perto da maca.

Eu estava agindo como animais que eu via no zoológico e na TV, quando eles ficavam acuados por causa de predadores. Eles corriam e se escondiam, mas no meu caso eu não tinha onde me esconder.

Korinna foi na minha direção me pegar, e eu tentei jugir de novo. Mas ela segurou meu braço com força, e uma dor se espalhou por todo o meu corpo. Pele, carne e ossos. Tudo doeu como se estivesse em chamas.

Eu gritei, de dor e medo, enquanto ela me arrastava até a maca. No meu desespero, implorei para que ela me soltasse mas acho que ela nem deve ter me ouvido.

Em um minuto, eu estava presa e a dor havia cessado. Chorava de soluçar, com um medo que nunca havia sentido antes.

–Por favor me solta. — Murmurei entre soluços e continuei repetindo, e repetindo. Até ela se irritar e sacar uma adaga do bolso, e colocar contra a minha barriga.

–Diga mais uma palavra e o segundo som que vai sair da sua boca vai ser um grito de dor.

Fiquei em silêncio, evitando respirar bruscamente por medo da adaga entrar em mim. Lutei contra o choro e o soluço também. Fechei os olhos e, mentalmente, orei aos deuses pedindo por proteção e ajuda. Depois pedi para o meu pai para que ajudem a chegar até mim o mais rápido possível.

–O que você quer comigo? — Perguntei entre soluços e em um tom de súplica.

–Eu quero, investigar seu cérebro. Preciso ver como funciona a maldição da memória que ela colocou em você.

Eu queria perguntar quem era ela, mas tinha medo de que ela colocasse a adaga na minha barriga de novo. E dessa vez não tirasse.

Apertei as mãos desejando com todas as forças ser possível deixar de ser matéria como havia feito naquela noite com o meu pai, mas tudo o que consegui foi uma dor de cabeça horrorosa.

–Pare de choramingar, não quero meleca espalhada por ai. — Korinna murmurou enquanto colocava duas mãos em minha cabeça, uma de cada lado.

Suas mãos estavam frias como gelo, e eu me encolheria se pudesse. Mas de repente, suas mãos começaram a queimar como fogo e eu tentei conter um grito.

A dor e o calor se espalharam por toda a minha cabeça e eu senti tudo ficar nublado. Ouvi Korinna dizer algo em uma língua antiga, diferente de grego ou latim. A dor continuou por alguns segundos, e depois o mundo explodiu.

Foi como se houvessem várias mini granadas dentro da minha cabeça, detonando e bagunçando minha visão. Eu via imagens estranhas, via o teto branco acima de mim, ouvia a entoação de Korinna, meus próprios gritos, escuridão e clareza, tudo ao mesmo tempo somado a dor.

Em uma das imagens, vi uma floresta densa. Era noite de lua cheia, então a imagem era um pouco mais nítida mas não menos assustadora.

–Aimée, pare de se esconder. — Uma voz gritou. Parecia a voz de Korinna, mas eu não tinha razão.

Eu corria e tropeçava, não fazia ideia do que eu estava pensando ou o que eram aquelas imagens que estava vendo.

–Aella! — Uma voz gritou com todas as forças que puderam. A minha voz.

A imagem ficou escura, e eu não ouvi ou senti mais nada. Por um segundo, pensei que havia morrido. Não, eu não vou morrer tão cedo assim! Então, a dor recomeçou e eu não consegui gritar. Tinha algo errado, eu não estava vendo ou conseguindo fazer algo. Mas estava consciente.

Se já não estivesse desesperada o suficiente, entraria em pânico. Mas como já estava sobrecarregada emocionalmente, apenas fiquei quieta tentando contruir uma barreira para evitar a dor. Mas era como colocar gelo perto do fogo.

O que era aquela visão? Consegui formar o pensamento antes que a sensação horrível voltasse de novo.

Comecei a ver e ouvir tudo de novo. Korinna continuava entoando, as luzes ainda brilhavam acima de mim. Do outro lado, eu ouvia gritos e via fogo. Senti meu corpo em chamas e gritei, dentro e fora de minha mente, enquanto meu corpo me consumia.

Eu estava em uma espécie de casa, e havia fogo em todos os lugares. Meus pulmões, pele, olhos e nariz ardiam. Eu estou morrendo, pensei.

E a imagem sumiu, meus olhos doeram quando a luz branca invadiu minha visão de novo. Eu estava no pesadelo real, dessa vez. Minha cabeça ainda doía muito, mas não tanto. A voz de Korinna não estava mais no ar, o que me instigava a pensar que havia acabado. Com a minha sorte, ela só havia feito uma pausa para tomar fôlego.

–Preciso de você mais fraca. — Ela murmurou meio que falando consigo mesma e comigo ao mesmo tempo.

Eu estava me sentindo extremamente fraca. Minha visão girava, meu corpo queimava como se tivesse sido queimado de verdade pela visão, minha cabeça doía havia uma sensação estranha no meu nariz. Já havia chorado quase todo o líquido que havia no meu corpo, e lutava para não deixar o resto ir embora. Estou tão forte que não poderia nem levantar daqui se quisesse, pensei amargamente.

De repente, Korinna sacou a adaga e cravou ela na minha perna. Soltei um grito pior do que qualquer outro. A dor gritou em minha mente, me impedindo de pensar. Ardia, queimava e latejava. Eu podia sentir a dor atingindo meu osso por causa da ponta da adaga. Emplorei para que eu desmaiasse.

E ela recomeçou tudo de novo. A entoação, a dor de cabeça, as explosões dentro do meu crânio. Surgiram as imagens e os sons e eu não pude lutar, não enquanto houvesse tanta dor.

Não consegui identificar as imagens e os sons que passavam. Elas estavam muito rápidas e desfocadas. A sensação é parecida com a que temos ao folhear um livro em velocidade média. Não dá pra ler nada, apenas captar as palavras. Formar uma ideia do que se trata aquele livro.

Ouvi as palavras amor, ódio, paz, imortalidade, servidão, entre várias outras. Risadas, gritos, palavras estranhas que pareciam com as que Korinna estava dizendo. Nomes também apareceram. Korinna estava lá. Junto com Hécate, Aella, Tânatos.

Vi imagens de fogueiras, florestas, construções, estátuas, rostos com feições delicadas, monstros e também alguns que pareciam ser deuses.

Ela estava vasculhando minha mente enquanto eu estava ocupada sentindo dor, e eu sabia que não devia deixar. Então, comecei uma batalha mental contra ela. Toda vez que ela acessava algo, eu lutava contra o poder dela. Construía uma parede para evitar que ela visse as imagens que supostamente eram memórias enterradas, que eu não sabia que estavam ali, ou nem ao menos deveriam estar ali.

Vi que estava funcionando quando a dor de cabeça aumentou com ela forçando o poder a entrar, e ouvi sua voz tremulando. As imagens e sons se tornaram mais lentos e cansados.

Me senti vitoriosa quando ela desistiu mas me senti fraca como um bebê quando ela foi até o lado da minha maca. Entrei em pânico de novo, imaginando o que ela ia fazer dessa vez. A resposta foi quase imediata. Ela tirou a adaga da minha perna da forma mais brusca que pode e a cravou na minha barriga.

–Isso que você ganha quando lutar. — Ela falou tão calmamente enquanto eu gritava de dor, que me assustaria mais se eu pudesse.

Um líquido de gosto metálico encheu minha boca, engasguei e tentei me livrar da sensação de afogamento. Estou afogando no meu próprio sangue, vou morrer assim. Foram os meus últimos pensamentos enquanto minha visão piscava e rodava, até que finalmente, tudo ficou pesado e escuro. Então, eu abracei a morte.

A morte não pareceu como morte.

Pra começar, eu sentia algo macio contra mim. Parecia tecido de um lençol, mas eu tinha medo de ter certeza disso e olhar para ver onde eu estava.

Eu provavelmente ainda estou com Korinna, ela está fazendo uma pausa para descansar e recarregar as energias.

Mas eu não me sentia suada mais, nem com a dor dos cortes. Então, abri os olhos.

Havia um teto de madeira acima de mim, uma luminária basica embutida no teto. Não havia mais o branco absurdo da prisão.

–Onde diabos eu estou? — Pensei em voz alta sem querer.

–Soph? — Ouvi uma voz que aparecia nos meus mais profundos sonhos.

Me sentei, surpresa por não sentir tontura ao fazê-lo e notei que ele estava lá. Nico estava sentado em uma cadeira perto da minha cama, e eu não prestei atenção em mais nada a não ser que ele estava ali e havia me tirado do inferno.

–Nico. — Lutei contra as lágrimas que surgiram mas perdi.

Ele veio até mim, quase correndo, e me abraçou com toda a força. Seu cheiro de terra me iluminou, mas havia algo errado. Uma nota estava diferente.

Me separei dele, e o beijei. Foi o melhor beijo da minha vida. Havia o perfeito equilíbrio entre a paixão e a saudade. Minhas mãos apertaram seus ombros, e seus braços estavam ao redor da minha cintura apertando de leve.

Nos separamos para respirar mas eu o abracei com força. Ainda chorava de alegria e alívio.

–O que aconteceu? — Me separei dele e encarei seu rosto. Ele estava um pouco mais magro e estava com olheiras maiores do que as normais. — Quanto tempo eu fiquei presa lá.

–Alguns meses. E sinceramente, eu não sei o que aconteceu.

–E Korinna? Pelos deuses vocês não me acharam em um buraco no meio do nada! — Ri de leve.

–Ela deixou você ir. Nós viajamos pra te resgatar, no Argo II. É onde você está, na verdade.

Olhei em volta e percebi que tudo, chão, paredes e teto, eram de madeira. Ele estava certo. Mas como eu sentia que algo estava errado?

–Detalhes Nico! — Só quando eu vi a expressão levemente vidrada em seus olhos, que eu percebi a verdade.

Nada daquilo era real. Eu ainda estava na maca com Korinna entoando acima de mim. A visão era apenas algo que eu queria q acontecesse, estava vendo aquilo porque ia me distrair para que ela pudesse vasculhar minha mente sem que eu lutasse.

Meu sorriso derreteu, e me senti mais vazia e sozinha do que nunca havia sentido. Nem quando era apenas uma fantasma.

Mas beijei o Nico fantasma. Com uma vontade e desejo vazios. Falsos.

No meu bolso, estava a minha pedra que se transformava em espada. Podia sentir.

Sem que Nico percebesse, peguei a pedra do meu bolso. Mas ele notou quando eu a transformei em uma espada.

–Sophie, o que...

Ele não terminou a frase. Cravei a espada em seu peito, antes que ele o fizesse.

Notas finais
Então gente. O que acharam do capitulo? Não tive nenhum comentário no último capítulo, e fiquei meio triste por causa disso. Mas tem que se seguir em frente. Deem uma nota de 0 a 10. Ah, e se vocês tiverem Twitter, me passem. Adoraria ficar mais em contato com vocês. Beijos até o próximo capítulo