Soul
7 Alemanha e minhoca de saia
Notas iniciais
A última coisa que lembro era de ler Mason dizendo que Dimitri era quase um deus da luta. Ai as minhas pálpebras se fecharam e tudo ficou escuro e calmo.
Eu tenho a breve sensação de que eu dormi. E acordei com alguém cutucando meu ombro e dizendo meu nome. Bruscamente, e levemente assustada, segurei o pulso do indivíduo e abri os olhos.
-Que isso, Sophie? — Hazel me perguntou com olhos levemente arregalados.
-Desculpe. — Soltei seu pulso. Eu não estava acostumada a ser viva, ainda. — Só assustei. O que foi?
-Eu vim te acordar. — Ela disse indiferente.
-Isso eu percebi. Mas pra que?
-Ir á escola. — Fiz um barulho estranho por causa da minha preguiça.
-Eu quero dormir. — Me aconcheguei na coberta e no travesseiro. Eu não lembrava de ter pego nenhuma dessas coisas.
-Todos queremos. Mas nem sempre ganhamos o que queremos. — Ela disse com um meio sorriso. — Agora levanta antes que eu jogue água gelada na sua cara.
Ela saiu do quarto e deixou a porta aberta atrapalhando meus planos de dormir mais. Bufei e procurei pelo meu livro. Só esperava que ele não estivesse jogado no chão. Me sentei e o vi em cima da escrivaninha. Me perguntei novamente quem havia me posto na cama decentemente.
Coloquei os pés no chão e logo praguejei.
-Merda de chão gelado. — Busquei por algo que pudesse cobrir meus pés e não achei. Aí me lembrei que aos pés da minha cama havia um tapete branco felpudo. Rastejei pela minha cama até a ponta e me levantei. Me espreguicei, vendo o quão bom aquilo era. Caminhei lentamente até a sala, me sentindo uma daquelas crianças que só pisavam em pisos de certas cores. Mas no meu caso era o tapete que eu estava pisando e evitando o chão.
Fui assim até a metade da sala, onde tive que encarar o piso para ir até a cozinha. Minha barriga doia e se contraia e uma das minhas hipóteses era que aquilo era fome. Cheguei na cozinha e quase todos estavam lá, menos Piper e Frank. Estava meio bagunçado. Haviam caixas de cereal na ilha, leite, achocolatado, outro pó da cor de achocolatado, potes, canecas.
-Bom dia descabelada. — Jason brincou e eu instintivamente coloquei a mão no cabelo sentindo alguns nós.
-Droga. — Murmurei tirando a mão do cabelo e deixando do jeito que estava. — Bom dia. Cadê a Piper e o Frank?
-Tomando banho. — Leo apareceu entrando na cozinha vestindo calça de moletom e camiseta. — Está com fome? — Assenti.
-Come cereal com leite. Você vai demorar pra beber cappuccino ou leite com chocolate. — Ele disse.
-Obrigado pelo insulto sutil. — Disse me encaminhando para a ilha da cozinha.
Fiz o cereal do jeito que eu havia visto as pessoas fazerem durante toda a minha 'vida'. Peguei o cereal de chocolate, coloquei leite e pronto. Peguei uma colher e comi lentamente. Eu realmente demorava muito pra comer. Enquanto isso notei algo no braço de Hazel e Jason. Eles tinham uma tatuagem parecida. Ambas tinham um escrito S.P.Q.R, e linhas. A de Hazel tinha uma, a de Jason tinha doze, eu acho, e uma águia.
-O que é isso ai? — Falei a frase que eu dizia com mais frenquência, mas dessa vez eu estava com a boca cheia. Mastiguei e engoli antes de continuar. — S.P.Q.R é algo de Roma, em Latim não é? Senatus populusque romanus. — Citei. — O senado e o povo romano.
-Sua Nerd. — Nico murmurou ao meu lado e eu ignorei.
-É uma marca do Acampamento Romano. — Jason me explicou. Ele colocou o braço sobre o balcão. — S.P.Q.R você já sabe o que é. As linhas significam os anos em que fiquei lá, e vivo. A águia quer dizer que sou filho de Júpiter.
-Legal. Parece doloroso fazer ela. — Coloquei outra colherada de cereal na boca. Era tão gostoso.
-E é. — Hazel disse fazendo uma careta.
-Eu sempre tive vontade de fazer uma tatuagem. — Murmurei e todos eles me encararam. — Eu acho legal ué.
-Dizem que doem muito, as normais. — Jason comentou. Todos fizeram careta.
O assunto acabou, mas não ficou um silêncio ruim. Mas parecia que eles não conseguiam ficar quietos, porque logo Jason e Hazel entraram em uma conversa sobre faunos que conheciam. Leo saiu para tomar banho.
-Você dormiu cedo ontem a noite. — Nico disse para mim. — Estava tão animada com o livro e dormiu? Assim faz ele parecer chato.
-Eu estava cansada. Foi você que me arrumou na cama? — Perguntei não muito chocada. Nico estava sendo cuidadoso comigo desde o começo.
-Não foi difícil. Você é muito leve e estava com sono pesado.
-Está me elogiando ou se gabando?
-Descubra qual. — Ele deu um sorriso de pequeno mas lindo. Por um momento eu vi seus olhos deixarem de ter tanta tristeza. Desviei o olhar com um leve sorriso.
-Quem quiser tomar banho pode vir. — Piper disse colocando apenas a cabeça na porta da cozinha. Ela estava de toalha, provavelmente.
-Eu vou. — Respondi, colocando o pote vazio na pia.
-Não demora. — Hazel alertou.
-Ok. — Sai da cozinha tentando esconder o sorriso.
Eu não havia demorado no banho porque Hazel batia na porta de minuto em minuto. Sai quando completaram cinco. Antes de sair escovei os dentes. A pasta de dente tinha um gosto forte e ardia. Fui de toalha até o quarto. Me sequei, troquei de roupa, penteei o cabelo. Coloquei uma calça jeans skinny clara, uma camiseta vermelha e uma jaqueta de couro azul que eu gostei, uma sapatilha da cor da blusa. Deixei meu cabelo meio preso meio solto, e coloquei um colar de borboleta que eu achei no porta-colares. Ao prender meu cabelo, notei que eu tinha dois furos na orelha.
Sai do quarto, e a casa estava tumultuada, com todo mundo andando de um lado para o outro. Quando cheguei na sala me lembrei que tinha esquecido a mochila.
-Mas é uma merda mesmo. — Me xinguei.
-Você é mesmo. — Nico disse quando passei pela porta do quarto dele e de Leo.
-Ah cala a boca.
Peguei minha bolsa e aproveitei e peguei meu livro de ontem a noite. Voltei para a sala jogando a bolsa azul, preta, branca e vermelha no chão. Me joguei no sofá também, e abri meu livro, ignorando todos. Não foi difícil achar a página porque havia algo marcando as páginas, que caiu em cima da minha barriga. Peguei, era um papel. Um guardanapo do McDonalds. Dei um sorriso enorme.
-Nico? — Chamei ainda sorrindo.
-O que é? — Ele perguntou do quarto.
-Aparece aqui. — Ele colocou a cabeça pra fora. Ele parecia estar morrendo de sono. Levantei o guardanapo, tentando não sorrir. Apenas tentando. — Sério?
-Foi o que eu achei. — Ele deu um sorriso torto.
-É o melhor marca-página do mundo. — Dei um sorriso grande. O sorriso dele também aumentou, assim como o sono saiu de seu rosto. Sua cabeça sumiu do vão do corredor.
Consegui ler só uma página antes deles começarem a aparecer para irmos para a escola. Isso só aumentou meus pensamentos de "aff". Fechei o livro, coloquei a bolsa no ombro e abri a porta da entrada.
-Que cara é essa Sophie? — Leo me perguntou, esperando os outros no hall comigo.
-Eu to com sono. E nervosa.
-Relaxa. Pelo menos você já tem amigos. A parte difícil já foi. — Suspirei.
-O mais difícil é ser aceita, eu acho.
-Fica tranquila. Você é legal e simpática. — Era um elogio pequeno, mas corei mesmo assim.
-Valeu Leo. — Ele corou também, dando um sorriso leve.
-Vamos? — Hazel perguntou saindo e fechando a porta atrás dela.
-Cade o resto de todo mundo? — Perguntei.
-Vão depois no outro carro. — Ela respondeu indo até o elevador e apertando o botão para chamá-lo.
-Posso dirigir? — Perguntei animada.
-Estou a fim de morrer em uma luta, não em um acidente de carro. — O elevador chegou e nós entramos.
-Mas eu tenho carteira de motorista. — Choraminguei e fiz muxoxo.
-Mas não sabe dirigir. — Leo completou tentando não rir da minha cara de birra.
Fiquei fazendo careta o caminho inteiro até o carro, e eles simplesmente ignoraram. Quando chegamos no carro, Leo abriu a porta do banco do passageiro e disse:
-Eu deixo você ir na frente, pelo menos.
Bufei, mas entrei no carro. Hazel entrou no passageiro e Leo murmurou algo sobre estar perdendo sua dignidade ao chegar lá no carro que uma garota dirigia. Eu e Hazel gritamos, entre risos, com ele sobre o fato de ele mal ter dignidade ali dentro daquela escola. Virei o vento do ar condicionado para vir no meu rosto, sentindo o gelado. Tudo ainda era muito estranho pra mim. As vezes me assustava quando sentia as coisas que tocavam minha pele. Sempre esperava o duro e a falta de temperatura.
O céu estava com muitas nuvens, e eu esperava que chovesse. Tentei imaginar como deveria ser sentir a chuva caindo sobre mim. A água natural era gelada, e eu tentei imaginar ela em forma de pingos de chuva. Não consegui ter uma noção completa.
Mal notei quando chegamos. E quando notei, algo se agitou dentro de mim. Ansiedade. Meu coração batia menos delicadamente. Minha mente girava em mil possibilidades de como poderia ser esse dia. Mas acho que isso era imprevisível, no final de contas. Na verdade, o dia foi bem diferente do que eu imaginava.
Sai do carro ainda me sentindo agitada. O estacionamento estava movimentado. As pessoas passavam indo ver velhos amigos, e eu ‘conhecia’ quase todos ali. Seria difícil me policiar a não dizer os nomes caso elas conversassem comigo. A coisa foi a mesma que aconteceu quando eu fui embora no dia anterior. Mas enquanto eu andava sob o olhar de quase todo mundo eu fui ficando tranquila e pensei no que Leo havia dito. Pelo menos eu já tinha meus amigos. Eu não precisaria de mais nada.
Mudei a posição da bolsa para colocar o livro dentro dela, porque estava ficando irritada em carregar ele sendo que eu tinha uma bolsa no ombro. Enquanto a abria, um braço passou ao redor de minha cintura e me puxou para o lado. Foi muito rápido. Na mesma hora olhei para cima e vi um garoto a centímetros de mim. Eu fui puxada para o lado, saindo do caminho do garoto.
-D-desculpe. — Murmurei para o garoto, que agora passava do meu lado. Jogador de futebol americano, um dos astros do time. Ele era parecia quase meio metro maior. Seus olhos pareceram se prender em mim, pude ver um sorriso com um toque de malícia. O braço ainda estava ao redor da minha cintura, e eu olhei para o lado. Era Leo. — Meu salvador? — Brinquei, respirando fundo e sorrindo tímida.
-Está mais para evitador de atropelamentos. — Ele sorriu corando e sorrindo também. Seu braço continuou ali. Era quente, aconchegante. Diferente de Nico. Nico era frio, intimidante, intrigante. Me fazia gostar mais dele.
Ele esqueceu o braço ali na minha cintura, mas não me importei muito com isso. Ainda um pouco embaraçada, coloquei o livro na bolsa, fechei e a ajeitei denovo nas costas. E parecia que o incidente do quase atropelamento havia chamado mas ainda a atenção das pessoas. O braço de Leo saiu sutilmente, e eu logo notei a diferença. Com ele próximo eu sentia um aconchego, que logo me deixou.
Entramos na escola pra fazer a minha matrícula, e acabamos descobrindo que ela já havia sido feita por uma mulher alta e bonita. Afrodite ou alguém trabalhando pra ela, provavelmente. Hazel trocou algumas palavras com a moça. Logo a mulher entregou dois papéis. Um com o meu horário, outro com um número de armário e a senha. Eu sabia a senha de metade dos armários daquela escola e aquele estava nessa lista.
-Ei, ele não é perto do armário de vocês? — Perguntei quando saimos da secretaria. — Alias, como conseguiram armários perto um do outro?
-Piper persuadiu a secretária, usou charme. Eu só disse umas coisinhas e ela deu o próximo ao nosso. — Hazel explicou.
-Vocês são loucos. — Disse em meio a um sorriso.
-Muito, minha cara Sophie. — Leo disse colocando o braço em meus ombros. E já que eu era baixinha não era difícil. Novamente o aconchego apareceu para mim.
-Qual é a sua primeira aula? — Hazel me perguntou. Olhei o papel.
-Química teórica. E vocês? — Haviam dois tipos de aulas de Química. As teóricas, e as práticas. Eu prefiria a teórica.
-Biologia. — Leo murmurou.
-Matemática. — Hazel murmurou mais infeliz ainda.
Fomos até nossos armários e pegamos as coisas, no meu caso eu deixei as coisas. Fiquei apenas com um estojo, um caderno e uma apostila de química, física e biologia dentro da bolsa. Cada um foi para um lado. Notei que não havia visto sinal dos outros desde que tinha chegado, e mal sabia as horas. Conclui que precisava de um relógio. Aguentei olhares por todo o caminho até a sala, e fiquei extremamente aliviada ao chegar lá.
Haviam garotas sentadas nas mesas no fundo da sala, com garotos sentados nas cadeiras ao lado. Eles conversavam todos entre si, de um jeito bagunçado, rindo escandalosamente e falando alto. Mas tudo isso diminuiu para conversas baixas quando entrei. Qual era o meu problema ali dentro? Haviam quase 15 outros alunos novos nesse segundo semestre, e eles tinham que ficar prestando atenção em mim?
Não me deixei ficar intimidada. Sentei na penúltima carteira, na frente de uma das garotas que estava fundida na mesa. Coloquei a bolsa em cima da mesa e sentei. Eu me sentia em um território completamente diferente, mas não demonstrei.
Depois de alguns segundos de extremo tédio, peguei meu livro na bolsa e o abri. Então mais uma coisa, ou alguém atrapalhou minha leitura. O universo não queria que eu relesse aquele livro. Uma sombra grande apareceu, tampando a luz. Olhei para cima e vi o garoto jogador de futebol americano que eu havia esbarrado antes. Em seu rosto havia um sorriso enorme e convencido.
-Oi, Sophie. Certo?
-É. — Respondi dando um sorriso tímido. — E você é Christian.
-Como sabe? — Seu sorriso convencido aumentou e eu notei que cometi um deslize.
-Quase esbarrei com você hoje. — Disse o óbvio. — Fiquei curiosa e perguntei seu nome para os meus amigos.
Ele soltou um “aham” e deu a volta na minha carteira. Enxotou a garota — dizendo algo muito baixo — que estava sentada na mesa e sentou na carteira. Ela saiu com um sorriso malicioso ao invés de uma careta. Tentei voltar a ler e ele disse algo em um sussurro na minha orelha.
-Aquela é a Ivy.
-Não quero soar rude, mas eu não perguntei nada. — Respondi sem me virar para trás e colocando o guardanapo na página onde eu estava e fechando o livro.
-É novata aqui?
-Sou. É o garoto que provavelmente metade das garotas querem? — Continuei virada pra frente.
-Você me quer? — Sua voz soou sedutora. Rolei os olhos.
-Não. Tenho mais o que fazer.
-Você é diferente. Você é de onde? — Pensei em algum lugar.
-Alemanha. — Disse isso por causa do meu sobrenome Seele que era alemão e pela a minha aparência de pele, cabelos e olhos claros. E além do mais, eu era fluente.
-Sério? Você não tem sotaque. Era popular por lá? — Fútil, no mínimo. Mas fui inventando a melhor história que pude.
-Era. E eu não tenho sotaque porque falo inglês desde pequena, porque meu pai era americano e me ensinou. — Dei um sorriso convencido. Eu me sentia brincando de Barbie.
-Então não vai ser difícil aqui, pra você. — Ele sorriu convencido e eu acompanhei. — Você deveria andar com as meninas líderes de torcida. Você tem a aparência de uma.
-Já tenho meus amigos e eu faço as minhas escolhas.
Piper entrou pela sala, desviando levemente a minha atenção para ver sua reação, e discretamente olhou para mim e Christian conversando. Ela se sentou na fileira ao lado da janela. Christian soltou um riso pelo nariz.
-Que cabelo é aquele? — Demorei menos de um segundo para perceber que ele estava falando de Piper. Virei o rosto para ele.
-Ela é minha amiga, retardado. — Sua expressão de choque foi impagável.
Com um pouco de raiva, peguei as minhas coisas e sai daquela carteira. Sentei na do lado de Piper.
-Conversando com um dos populares, é? — Piper me olhou com a sobrancelha erguida. Ela não gostava deles, eu sabia pela sua expressão.
-Ele é idiota.
-Não é novidade. — Ela passou a mão pelos cabelos repicados de um jeito desregular. Eu a achava bonita mesmo com o cabelo daquele jeito.
-Se alguém perguntar eu sou da Alemanha, e era popular na escola. — Sussurrei para ela.
-E todos os nossos pais trabalham na mesma empresa de advogacia na Europa, ficamos amigos e acabamos morando juntos. — Olhei para ela incrédula por ela já ter uma resposta perfeita e completa na ponta da língua. Ela notou minha expressão e sorriu. — Já havíamos combinado uma história. — Relaxei um pouco.
Logo depois o professor entrou na sala. Eu sempre havia achado ele bonito. Que horror, eu achava meu professor de química bonito. Ele tinha cabelos desgrenhados castanho claros, olhos cor de mel, pele clara. Notei que mais metade das garotas, incluindo eu, achava ele bonito quando elas sentaram do jeito certo na carteira. Eu não me importei com aquele fato e nem prestei atenção porque obviamente eu já sabia tudo. Fiquei quieta no meu lugar, rabiscando no canto da folha da apostila.
(...)
Fechei a porta do armário depois de colocar tudo ali dentro. Esperei por Jason e Frank terminarem de fazer o mesmo enquanto examinava as pessoas. Era o horário do almoço e todos iam para o refeitório no segundo andar. Encostei as costas no armário, bufando entediada. As aulas na maior parte foram vagas. Grande parte dos professores havia deixado para os alunos novos conhecerem os veteranos e vice versa, outros já despejavam conteúdo nas cabecinhas vazias. Só tive apenas uma aula em que nenhum do pessoal estava comigo, que era inglês. De resto, tive companhia. Fiquei com Piper uma vez, depois com Leo, outra sozinha, e duas aulas seguidas com Frank e Jason. Eu havia conversado com várias pessoas nas aulas, incluindo alguns populares, muitas perguntaram de onde eu era. Repeti a mesma história todas as vezes.
-Eu quero ir embora. — Choraminguei quando eles terminaram de guardar as coisas e caminhávamos para a escada.
-Você prefere ser vácuo ao invés disso? — Frank brincou.
-Eu não era vácuo! — Protestei mantendo minha voz baixa. — Talvez ar ou sei lá, mas não vácuo.
-Desculpe então. — Ele levantou as mãos em forma de rendição, segurando um sorriso. Ele, Hazel e Jason usavam jaquetas de frio para esconderem a tatuagem. Eu não consigo nem imaginar o que eles fazem quando precisam tirar as jaquetas para a educação física, por exemplo.
-Mas não. Eu não trocaria isso aqui por nada.
Subimos as escadas vazadas com degraus de mármore. Me foquei para não tropeçar ou passar meu pé pelo buraco no fim do degrau. Não seria agradável se aquilo acontecesse.
O segundo andar tinha uma vista muito legal. Eu gostava de pegar algum livro na biblioteca e ler por ali, tomando cuidado para não me verem. Imaginei o pânico caso vissem um livro flutuando, uma luz acesa, e uma levíssima silhueta. Iria ser o caos.
Subindo a escada, dava direto no refeitório. Havia dois corredores que iam para a sala no final. Estava uma bagunça. Eram cerca de 190 alunos. As mesas eram quadradas e redondas, brancas e sempre bem limpas. Tudo era iluminado pela luz do sol. Em uma ponta havia o lugar onde a comida era servida, e um pouco mais para frente máquinas de comida e refrigerante. Eu e os meninos fomos direto para a fila. E para ajudar com meu humor, Christian apareceu atrás de mim.
-E aí, Alemã. — Ele disse dando um sorriso. Eu não estava com paciência no momento.
-Oi. — Disse sem devolver o sorriso. Uma garota de saia plissada curta, e blusa um pouco maior do que um top apareceu atrás dele. Ela não disse nada, mas me examinou com seus olhos castanho escuros.
-Vai fazer o que depois da aula? — Dormir.
-Ir para casa, eu acho.
-Noite agitada? — Não te interessa.
-Não, só dormi tarde e tive o dia cheio. — Peguei a bandeja e comecei a me servir. Jason e Frank não diziam nada, apenas conversavam entre eles normalmente.
-Onde estão seus amigos? — Ele perguntou. Não soou grosseiro, apenas curioso. Apontei para Jason e Frank. Eles acenaram com a cabeça em um cumprimento. — Este é Jason, e este é Frank. — Apresentei preguiçosamente. A garota atrás de Christian parecia comer Jason com os olhos. Também, com olhos e cabelos claros era difícil não chamar esse tipo de atenção.
-É amiga de todos os novatos?
-Na verdade, moramos juntos. — Respondi simplesmente.
-E os seus pais? — Esse interrogatório dele estava irritante.
-Moram na Europa. — Dei um sorriso leve para não soar irritante e chata.
-Deve ser legal viver longe dos pais desse jeito.
-Nem tanto, porque não nos falamos.
-Então é o seguinte. Hoje vai ter uma festa do pessoal — Lê-se time inteiro de futebol americano, basquete, líderes de torcida e outras garotas bonitas. — e eu queria que você fosse comigo.
Oi? Eu estava viva há um dia e já me convidaram para uma festa? Oi?
Mantive minha expressão longe da surpresa que eu estava sentindo. Tentei um pouco de ânimo com indecisão.
-Eu não sei se vou poder ir. — Enrolei. Na verdade eu não queria ir. — Mas se eu puder, eu vou sim. Onde é?
Ele me passou um endereço da casa da tal da Ivy, e eu fingi bem que não sabia direito quem era ela e onde era essa casa. Felizmente, eu terminei de pegar minha comida e sai da fila, respirando um ar menos sufocante por causa da minha atuação.
-Você vai? — Jason me perguntou. Ele, como Piper, não gostava nem um pouco deles. Sentamos em uma mesa na parede de vidro. Eu conseguia ver a cidade e os prédios altos de um ponto bom. Desejei uma câmera fotográfica.
-Deuses, não! — Coloquei a bandeja na mesa e sentei.
-Deveria aproveitar. Você tem a chance de andar com eles, aproveite enquanto pode. — Frank disse. Ele não os odiava como os outros.
-Eu quase engasguei com tanto ego vindo deles — Nico apareceu sentando ao meu lado na mesa redonda. Quase engasguei com o susto. Olhei para ele, e ele estava lindo com sua aparência habitualmente preguiçosa. Cabelos bagunçados, jaqueta de couro, calças e camiseta preta.
-Eu não gosto deles. — Respondi colocando um pedaço de frango na boca.
-E você não vai poder ir, porque eu vou começar a te treinar hoje.
-Sério? — Perguntei com um sorriso. Ele me observou detalhes do meu rosto com seus olhos escuros e pela primeira vez, eu não desviei.
-O que eu acabei de ver? — Hazel perguntou enquanto se sentava, sendo seguida por Piper. Elas quebraram a troca de olhares entre mim e Nico, e eu não sabia se achava aquilo bom ou ruim.
-Eu não sei. Os olhos são seus. — Brinquei tentando não soar grossa.
-Você estava conversando com aquele garoto que você quase atropelou?
-Você atropelou quem? — Jason disse assustado.
-Ninguém! — Passei as mãos pelo rosto. Contei uma versão mega resumida do meu dia. — É só isso que aconteceu!
-Porque você não vai nessa festa? — Hazel perguntou pela segunda vez.
-Porque, eu não estou com ânimo. E eu tenho treino com Nico hoje. Agora, podemos mudar de assunto?
-Vocês tem aula de que? — Leo puxou outro assunto.
Acabou que eu iria ter uma aula com Nico, afinal. E ainda por cima era Química Prática, uma aula em que as mesas eram substituídas por bancadas que os alunos sentavam em dupla. Terminei de comer e beber meu refrigerante de limão pouco antes do sinal tocar. Dei um "tchau" e preguiçosamente eu levantei e caminhei ao lado de Nico.
Mantivemos o silêncio por todo o caminho de ida para os armários e depois para a sala. Quando chegamos lá, eu não sabia se deveria sentar ao lado dele ou não.
-Vem pra cá. — Ele disse finalmente. Desajeitada, sentei ao lado dele. — Pretendia sentar em outro lugar?
-Não sei. Estava decidindo.
-E onde iria sentar? — Ele perguntou e eu olhei ao redor. Todas as outras carteiras tinham uma pessoa.
-Eu sei lá. Estava me decidindo ainda. — Repeti e depois bocejei. — Quero ir embora.
-Vai.
-Não me deixam dirigir. — Contei colocando um pouco de drama no tom de voz.
-Vai a pé. — Ele sugeriu.
-Eu nem subo as escadas sem ficar um pouco cansada, vou muito bem conseguir andar 8 quarteirões a pé.
Ele soltou um riso pelo nariz. Coloquei o braço sobre a bancada gelada de mármore e deitei a cabeça. Não senti muito o frio no braço por causa da jaqueta, apenas nas mãos. A sala tinha um cheiro deplorável e forte.
-Alemã! — Mas isso é uma merda mesmo.
-Oi. — Falei virando a cabeça de lado mas ainda deitada.
-Já decidiu se vai na festa? — Cadê o professor entrando na sala quando a gente precisa?
-Não vai dar. Tenho...
-Pessoas normais praticam esgrima também, sabia? — Nico sussurrou perto do meu ouvindo, e eu tinha quase certeza de que ele estava sorrindo.
-Tenho esgrima hoje. — Respondi levantando a cabeça da bancada, arrumando o cabelo e dando um sorriso discreto.
-Sério? Não é muito sua cara. Você parece do tipo que não faz nada o dia inteiro.
-Você me conhece faz algumas horas, não pode me julgar.
-Todos julgam sem conhecer. — Ele deu um sorriso que todos considerariam extremamente charmoso. Já eu, achei um pouco bobo e charmoso no fundo do fundo. — Vai fazer onde?
-Com um... Professor particular. — Pelo canto do olho, vi Nico apertar os lábios pra segurar uma risada. Eu sabia o nome de uma academia de esgrima, mas não queria falar o nome porque vai que ele inventa de se inscrever lá e descobre que eu estava mentindo sobre aquilo. Eu sabia que aquilo era pouco provável mas era melhor previnir.
-Uma pena você não poder ir. — Ele murmurou. Ele provavelmente estava achando que eu iria ficar com ele se fosse nessa festa.
-Ei, — Uma menina que estava sentada ao lado dele disse. Cabelos escuros, bronzeada, uniforme curto das líderes de torcida. Em seus lábios havia um sorriso indecente. Pelos deuses, será que eles não pensavam em nada diferente além disso? — você é amiga daquele aluno novo loiro não é?
-Jason? — Nico sugeriu.
-Isso. — Ela disse mais animada por ter descoberto o nome dele.
-É, ele é meu amigo sim. Nosso, aliás. — Apontei para mim e Nico para eles saibam a quem era referido o "nosso". — E pela sua cara eu vou te avisar que ele tem namorada.
-Sério? — Christian entrou na conversa. — Quem?
-Piper. — Respondi.
-A garota do cabelo repicado? Ah eu posso ganhar ele, dela. — Ela deu um sorriso presunçoso.
-Acho que não. Ela vale cem vezes mais do que uma minhoca de saia. Sem contar que isso seria zoofilia. — Disse dando uma risada cruel e Nico esboçou um sorriso.
-Me chamou de que? — Seu sorriso safado sumiu sendo substituido por uma expressão de raiva.
-Minhoca de saia. Sabe aquelas coisas compridas, finas e rosas que vivem na terra? Servem de isca para pescaria. — Nico curtiu um pouco o momento.
-Cala a boca, gótico. Ninguém te perguntou nada. — E com essa doce fala, foi como se Christian declarasse uma guerra contra Nico e consequentemente a mim.
-Olha, eu acho que você não deveria se meter e dizer esse tipo de coisa. E ele não é gótico. E você não pode julgar ninguém. Você, até onde eu saiba, pagou uma garota para fingir ser sua namorada. — Disse e todos na sala ficaram boquiabertos, inclusive sua amiga líder de torcida.
-Bom dia classe. — Salva, de perguntas e insultos irritantes, pelo gongo. A professora de meia idade entrou na sala.
Nico e eu nos entreolhamos. Ele estava com raiva, era fácil ver isso. Eu me sentia triunfante por ter jogado aquela bomba na sala de aula.
-Eu não acho você gótico. — Falei muito baixo. — E aposto que nunca teria que pagar alguém pra namorar você. — Sua raiva sumiu aos poucos enquanto ele dava um pequeno sorriso. Ele novamente estudou meus olhos cautelosamente.
-É, eu acho que não.
Notas finais
-Nome, apelido
-Aparência
-Um pouco sobre você (tipo, o seu estilo e tal)
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