Soul
29 A espada e a cruz
–Sophie você precisa descansar! — Annabeth estava muito brava comigo.
–Eu não quero descansar. Eu descansei por um ano, Annabeth! — Consegui responder enquanto mantinha a pose. Meu corte doía mais a cada segundo. Eu queria que Aella usasse um comando em mim e fizesse a dor parar.
Nós estávamos sentados na mesa de reunião, logo depois de Aella se negar a me contar mais sobre nosso passado ou futuro. Ela disse que não queria e que não deveria me sobrecarregar. Que eu saberia mais quando fosse a hora.
Ela parecia essas pessoas mais velhas de filmes que guiam e que sabem tudo, mas se negam a compartilhar todo o conhecimento. Eu geralmente odiava essas pessoas, mas como nesse caso era minha irmã, não conseguia odiar.
Apertei meu corte para ver se ajudava. A resposta é: não ajudou.
–Eu vou pegar um pouco de néctar pra você. — Leo disse se levantando da mesa e indo pra outro corredor, um além daquele dos quatros que acabava dando no deque também.
Nico pegou minha mão e apertou de leve, me distraíndo um pouquinho da dor.
–Onde estamos indo? — Perguntei.
–O barco? — Me perguntou Elisa para ter certeza do que eu estava falando. — No momento estamos indo de volta para o Acampamento.
–Porque "no momento"?
–Por que nessas viagens, nunca se tem certeza de muita coisa Sophie. Podemos desviar e parar em outro lugar em questão de minutos.
Eu fiquei quieta no meu lugar, até Leo voltar e me entregar uma garrafinha pet de néctar. A abri com um pouco de dificuldade, chocada ao ver o quanto eu estava magra e meus ossos eram quase todos aparentes. Agora eu entendia por que eles me tratavam como se eu fosse uma boneca de porcelana.
Tomei um gole e senti um gosto que não sentia há muito tempo. Cappuccino, não muito quente mas não muito frio também. Com uma colher a mais de açúcar. Foi quase divino. Fechei os olhos e pude imaginar que estava em casa de novo.
A dor foi parando aos poucos enquanto eu bebia, e a minha mente se tornou mais calma.
Leo disse que ia dormir e Percy decidiu se juntar a ele. Ao passarem por mim, Leo me deu um beijo na bochecha e Percy bagunçou meu cabelo de leve. Eu sorri. A sensação de estar em casa se tornou um pouco mais forte.
–Então...? — Falei, sem ter exatamente o que dizer. Eu estava ficando sonolenta, na verdade. — Tem alguma coisa no néctar além de, bem, néctar?
–Eu acho que não. — Elizabeth disse.
–Não era pra me dar sono, eu acho. — Bocejei.
–Pra se curar o corpo precisa de descanso. — Annie observou. — Talvez o néctar esteja de fazendo esse efeito pra te curar melhor. Te avisando.
–Fala pra ele que eu não quero esse efeito. — Esfreguei meus olhos, por que eles começaram a arder um pouco. — Não quero dormir. Se eu dormir ela vai aparecer.
As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse controlar elas totalmente. Logo um silêncio se espalhou pela sala e tarde demais notei o que tinha dito. Tomei o último gole do néctar e larguei a garrafa em cima da mesa.
A mão de Nico estava em cima da minha, mas ambas estavam frias. A dele era fria a maior parte do tempo, mas a minha estava assim por medo e ansiedade de cair no sono.
Mas a poltrona estava tão quente, tão confortável e gostosa. Meu corpo pedia por descanso, mas minha mente gritava o tempo todo para eu não dormir.
Só fui perceber que estava quase caindo no sono quando Annabeth falou algo e eu não fazia ideia do que era. Abri os olhos, assustada, e perguntei o que ela tinha dito.
–Você não quer que ninguém durma com você hoje? — Eu queria que alguém dormisse comigo todos os dias pelo resto da minha vida.
Balancei a cabeça de forma indecisa, fiz uns movimentos circulares que não mostravam nem que não, nem que sim. Aella semicerrou os olhos e me estudou, tentando entender o que eu estava fazendo.
–Vocês drogaram ela? — Sem que os outros respondessem algo, balancei minha cabeça daquela forma circular estranha.
Eu queria dizer sim mas só conseguia fazer aquele movimento estranho que parecia um cachorrinho com cabeça de mola. Ri quando me imaginei com um corpo de humano e cabeça de cachorro. Isso seria divertido pensei com os meus botões.
–É melhor eu levar ela pro quarto. — O garoto ao meu lado levantou. Nico, minha mente me lembrou. Ah sim, ele é meu namorado.
Ele afastou minha cadeira da mesa e me fez levantar, me puxando pelos braços. Eu franzi o nariz. Estendi os braços para ele, como crianças fazem quando querem colo. Eu era uma criança. Tinha menos de dois anos e meio de vida.
Ele me olhou e encarou. Ele está me estudando, me alertou a parte mais lúcida da minha mente. Que era muito pequena no momento.
Depois de um tempo me encarando e estudando, ele passou um braço pelas minhas costas e outro por minhas pernas e me pegou no colo. Passei meus braços por seus ombros e me apoiei em seu pescoço.
–Você cheira bem. — Murmurei baixinho. — Me faz ter vontade de te beijar e fazer coisas indecentes. — Respirei fundo pra inalar mais aquele perfume gostoso. — Maravilhoso.
–Se continuar a cheirar o meu pescoço assim, quem vai fazer coisas indecentes sou eu. — Sua voz estava profunda, como se estivessem vindo do fundo dele.
Respirei mais uma vez e dei um beijo em seu pescoço. Ele parou e abriu a porta do quarto, ainda comigo no colo.
–Você é um ninja. — Observei e ri sozinha.
–Sou. E você é a mocinha indefesa que foi sequestrada e se machucou, precisa descansar.
–Sou? Nos filmes de ninja, a mocinha acaba dormindo com alguém.
–Quantos filmes de ninja você já assistiu? — Eu ri.
–Nenhum! — Disse entre risos enquanto ele me colocava na cama.
Ao me colocar na cama o rosto dele ficou próximo de mim, o suficiente para eu sentir sua respiração. Estiquei a mão e a passei em seu rosto sentindo as maçãs do rosto saltadas, a pele macia e os olhos cansados mas alegres. Coloquei a mão na nuca dele, meus dedos se enroscando nos cabelos dele que já estavam ficando grandes.
O trouxe devagar até mim e o beijei. Não sei que parte de mim estava no controle do beijo, de verdade. Sophie que havia acabado de ser resgatado, a apaixonada Aimée ou a Sophie/Aimée drogada. Mas foi profundo o suficiente para fazer ele subir na cama e sentar em cima de mim.
Ele só percebeu o que estávamos fazendo quando minhas mãos estavam na barra da sua camiseta, erguendo de leve.
–Sophie, para. Não vou fazer isso, não enquanto está assim. — Eu queria. Naquele momento não importava pra mim.
Ele levantou bruscamente e eu me senti idiota. Me sentei e abracei as minhas pernas.
–Desculpa. — Murmurei enterrando meu rosto entre os joelhos.
O que estava errado comigo? Eu estava dividida entre três personalidades diferentes naquele momento, cansada e desejando Nico perto de mim.
Percebi que Nico se sentou na minha frente, na cama, quando o colchão deu uma afundada.
–Hey, — Ele ergueu meu rosto. Meus olhos estavam ardendo. — está tudo bem.
Em um gesto de carinho, afastou os cabelos do meu rosto com cuidado. Depois me deu um beijo calmo.
Ele me convenceu a deitar um pouco e descansar, e eu convenci ele a ficar comigo durante a noite toda para espantar meus fantasmas. Ele esboçou um sorriso quando mencionei os fantasmas, mas se comprometeu a ficar. E ainda por cima o fiz deixar um abajur ligado, pelo meu medo de dormir no escuro.
Deitei na cama com ele, e eu me virei para o lado oposto do dele. Como se imaginasse o que eu queria, passou um braço ao redor de mim e se encaixou em mim.
Deitada de conchinha, dormi em segundos.
Acordei sentindo o cheiro de lavanda da roupa de cama, inclusive do cobertor que cobria Nico e eu. Seu braço não estava mais ao meu redor, mas eu podia sentir o cheiro de seu perfume masculino e ouvir sua respiração suave vindo de trás de mim.
Virei para o lado que ele estava e não fiquei surpresa ao sentir pontadas de dor. Mas ignorei ela porque estava tendo a chance de observar um Nico di Angelo sonolento.
A cara expressiva estava longe, seu rosto era pacífico a não ser pelo leve biquinho que ele estava fazendo. Consegui dar um sorriso sonolento. E logo em seguida notei que ele estava sem camiseta.
Me assustei e fiquei com medo de ter feito algo com Nico. A verdade é que eu não lembrava de muita coisa depois dele me pegar no colo e eu beijar o pescoço dele.
–Bom dia raio de sol. — Ele murmurou antes mesmo de abrir os olhos. Maldito sexto sentido que você tem, me revoltei. — Aproveitando a vista?
Ele abriu os olhos com tempo suficiente para me ver corar violentamente. Ele sorriu de leve. Aquele bom humor matutino era algo que não era muito comum.
–Adorando. — Brinquei, mas não totalmente. Convenhamos que a vista do corpo magro/malhado de Nico não era bem algo horrível. — O que eu fiz ontem? Eu não lembro de nada depois de você me pegar no colo.
–E beijar meu pescoço?
–Bem... É.
–Nós nos beijamos um pouco, você achou que eu era um ninja. Mas você quer saber se nós... — Ele se interrompeu antes de falar, não sei se foi de propósito ou porque estava se sentando na cama.
–É.
–Não, não fizemos nada. — Soltei o ar em alívio.
–Não quero fazer algo sem nem me lembrar depois. — Consegui murmurar com um pouco de vergonha.
–Mas você quis. — Droga.
Depois de pegar meus pedaços envergonhados espalhados por ai, levantei da cama e fui para o banheiro tomar um banho.
Tomei um daqueles banhos que você lava até a alma. Foi como se eu tirasse quase tudo de ruim que havia acontecido comigo.
Mas as coisas ruins voltaram quando eu me olhei no espelho. Eu parecia um monstro. Meu corpo estava cheio de cicatrizes, desde discretas até queloides. Rasgos por todo o corpo. Eu podia ver e contar todos os ossos do meu corpo, não havia mais músculos ou gordura. Não aguentei mais olhar e logo coloquei o roupão.
Ao sair do quarto, não fiquei surpresa ao ver que Nico havia saído. Ele provavelmente havia ido tomar um banho e trocar de roupa. Ou ele fugiu do monstro.
Coloquei calças soltas que pareciam pijamas mas não eram, uma camiseta branca e um cardigan preto por cima. Fiz o máximo para parecer saudável, o que era difícil já que meu rosto era quase que o puro osso. Sai do quarto descalça, sentindo a madeira rangendo sob os meus pés. Pelo frio na barriga, estávamos voando.
Cheguei até a sala de jantar/almoço/café da manhã/reunião e encontrei apenas Elisa sentada lá.
–Bom dia. — Ela disse mas sua boca estava cheia de torrada então ela disse uma coisa engraçada e estranha que eu interpretei como bom dia.
Respondi de volta e dei um sorriso de leve, sendo o mais simpática que pude sem parecer como uma versão feminina do Frankenstein.
Me sentei na mesa e fiquei sem ideia do que comer. Havia tanta coisa que eu podia comer, que eu não fazia ideia do que iria comer. Por fim, optei por cereais de chocolate com leite. Enquanto comia aquilo, foi algo divino.
–Está brava com a gente? — Elisa quebrou o silêncio.
–Por terem me dopado, obviamente.
–É, Annabeth achou que fosse o melhor pra você. Mas não é por causa disso. Eu perguntei por causa de, você sabe, eu e Leo.
Respirei fundo, prevendo a conversa que eu teria naquela manhã. Já conseguia imaginar o que ela ia falar e as minhas respostas também.
–Vocês não podiam parar a vida de vocês por minha causa. Está tudo bem.
–Mas...
–Elisa, está tudo bem. Eu não estou brava.
–Desculpe que isso tenha te feito mal ontem.
–Não foram vocês, foi Korinna. Sabe disso. Não precisa se culpar. Não foram vocês que me prenderam por um ano.
–Eu sinto muito, pelo que aconteceu. — Não respondi, continuei a comer meu cereal. Não queria falar daquilo, na verdade. — Um lado bom, é que vários livros e filmes bons foram lançados. Quando voltarmos, vou fazer você ver todos.
Eu sorri, não pude evitar de sentir alegria genuína em algo tão bobo e pequeno. Essa era minha Elisa.
–Uma hora, — Enfiei uma colherada de cereal na boca e apontei a colher pra ela. — você vai me contar como foi que começou essa coisa toda com Leo.
Ela corou e eu não falei mais nada, pois o próprio entrou na sala. Passou por mim, deu um beijo no topo da minha cabeça (eu havia lavado o cabelo!) e foi até Elisa.
Tive um breve segundo de choque quando eles se beijaram, aqueles beijos de bom dia que casais de filmes compartilham. Depois me forcei a sair daquilo, por que era assim que era agora. Eu tenho que me acostumar.
Quando se separaram e perceberam que eu estava ali, ambos coraram.
–De qualquer forma eu tenho que me acostumar.
Leo se sentou enquanto tomava sua caneca de café. Fiquei alarmada ao perceber que ele era um menino hiperativo tomando 2/3 de uma caneca de café. Aquele menino não precisava de mais energia do que já normalmente tinha. Olhei para Elisa de olhos arregalados e ela logo entendeu o que eu quis dizer sem palavras.
–Eu geralmente o deixo quieto, para evitar o cansaço de tirar dele.
–Não se brinca com o vício em cafeína de um homem. — Ele disse entre alguns goles.
–Se você fosse um homem, eu não contestaria. — Falei e Elisa engasgou com a torrada.
Eu ri de Elisa engasgada com a torrada e a expressão de revolta de Leo, enquanto ele levantava e tentava ajudar ela. Era como se estivesse tudo nos eixos de novo, mas eu sabia que não.
Havia uma sensação estranha no fim da minha coluna, como um calor que gerava um mal estar. Algo está para dar errado, essa sensação me avisava. Me mantive alerta.
Terminei de comer meu cereal assim que Elisa conseguiu desengasgar. Fiquei sentada, olhando o café de Leo. Ele estava balançando muito. Quando eu estava para falar algo, o movimento parou.
Então algo atingiu o barco e o virou a ponto dele ficar na transversal. A poltrona virou e eu cai, soltando um gemido de dor.
–Que diabos é isso? — Leo gritou enquanto se levantava do chão e saia correndo pelo corredor.
Elisa veio até mim e me ajudou a levantar, naquele ponto o navio já estava em sua posição correta. Então saímos correndo para o deck.
Chegando lá, havia fogo em um canto, Leo gritando insultos e Nico atacando uma criatura.
A criatura era o mais estranho de toda a cena, mas se tornou assustadora quando eu percebia exatamente o que era a criatura. Pra começar era uma Quimera, uma híbrida aparente de vários animais. No caso quatro.
Ele tinha asas de águia, corpo de cão, uma cabeça de cavalo e outra de serpente. Três dos símbolos das Espectros.
Eu gritei por Aella.
Elisa foi até um baú grande no fundo do deck e tirou de lá um arco e flechas. Eu observei enquanto ela atirava com uma mira perfeita, melhor do que a que eu costumava ter.
Aella chegou correndo, ainda de pijamas e com seu cabelo cheio de nós e fios soltos. Ela parou ao meu lado e olhou para o animal.
–Korinna vem praticando o hobby de fazer Quimeras. — Olhei para ela, incrédula.
Ela ignorou minha expressão e foi até o mesmo baú que Elisa tinha pego o arco. De lá, tirou algo pequeno e jogou até mim. Pelo menos meus reflexos estavam bons o suficientes para eu conseguir pegar.
Era a minha espada, pelo menos em forma de pedra roxa com rajados brancos e pretos. A apertei e senti uma espécie de prazer ao vê-la se transformar em uma espada. Sua aparecia ainda era a mesma. A lâmina era fina e longa, delicada, feita de bronze celestial. O punho era preto com uma esfera de bronze celestial na ponta, onde a pedra roxa ficava incrustada. Ela parecia mais pesada do que era antigamente, provavelmente por que agora eu era só pele e osso.
A girei, trocando o punho de mãos tentando garantir um pouco do equilíbrio que eu havia perdido e fiquei feliz de ainda estar lá, apesar de um pouco enterrado.
Olhei para Aella e vi ela sacando um chicote completamente feito de bronze. Imagens dançaram em minha mente, ela matando monstros que nos atacaram com delicadeza e ferocidade que aquela arma exigia. Ela havia usado a vida toda e geralmente usava o chicote como cinto ou pulseira. Sim, como a Isabelle Lightwood de Instrumentos Mortais.
Olhei pra ela, minhas mãos tremendo de medo. Ela veio até mim e me deu um olhar confiante, como se tivesse a total certeza que eu não iria falhar.
Olhei de volta para o monstro e ele estava olhando para nós, Aella e eu. A boca da serpente estava em chamas, e eu percebi que aquela era a boca que soltava fogo.
Os olhos dos animais se tornaram azuis, como os que nós tinhamos, e uma voz ecoou por todo o navio.
A voz de Korinna.
Irmãs, vocês vão ter apenas duas chances. A voz dela era como um sibilar de uma cobra. Se rendam, e eu não vou matar a todos. Se renda Aimée e eu vou sair dos seus pesadelos. Se renda Aella, e eu o deixarei viver.
Ao meu lado, eu vi Aella sussurrar um nome.
–Victor. — Eu consegui distinguir.
É, minha querida. Ele ainda está vivo, mas talvez amanhã não esteja.
Aella fez o som de um animal sendo ferido e eu senti uma dor no peito, como se alguém estivesse apertando. Logo depois percebi que, por alguma razão, estava sentindo a agonia dela.
Mudei a espada de mão e com a livre, segurei a mão de Aella e apertei de leve. A dor no coração passou um pouco, mas ainda estava presente.
A Quimera sacudiu suas duas cabeças violentamente, e seus olhos deixaram de ser azuis. Olhei rapidamente para Aella e quando nossos olhares se cruzaram, vi que seus olhos estavam cheios de água.
Tomei uma escolha. Atirei a espada para o alto e ela voltou a ser uma pedra. Guardei-a no bolso e soltei a mão de Aella.
–Aimée, está fazendo o que? — Ela perguntou, e eu não quis parar pra responder.
O mutante estava atacando Leo, atirando fogo nele mas felizmente ele era imune. Dei alguns passos em direção a ele e tive sua total atenção. A Quimera voltou para mim, a serpente sibilando e o cavalo relinchando. Percebi que ambos tinham olhos vermelhos como sangue e por um segundo recuei. Depois voltei a avançar em direção a ele.
Eu invoquei tudo dentro de mim. Toda a raiva, a dor, a frustração, a solidão, a dor do coração partido de Aella e acima de tudo, a necessidade que eu sentia de proteger eles de um mal que eu havia ajudado a trazer para a vida deles. Tudo me rodeou como de fosse algo físico, como uma ventania forte.
Minhas mãos formigaram e eu olhei pra elas. Estavam com as veias pretas que apareciam quando eu podia matar algo ou alguém com um toque.
Me concentrei mais na minha mente, no poder que eu queria desbloquear. Então como havia ocorrido uma vez, eu senti raiva e o mundo explodiu em cores fortes como um caleidoscópio de chamas. As formas se tornavam vagas, apenas em chamas. O monstro na minha frente era composto de chamas pretas e acinzentadas. Sem alma, meu subconsciente alertou.
Ele não vai ferir ninguém, não vai ser nada mais a partir de agora.
Me foquei em tudo que sentia e no animal. A criatura começou a se debater, e na minha visão a chama se dispersava em cinzas. Não parei, me sentindo inundada pela raiva, até que não restasse mais nada.
Quando ele sumiu, me foquei em me acalmar. Cravei minhas unhas na palma das minhas mãos e fechei os olhos com força, forçando tudo pra fora da minha mente. Tirando todos os sentimentos ruins, foquei naqueles que estavam ao meu redor e que eu não podia ferir. Não ia ferir.
Quando abri os olhos novamente, eu estava diante de uma área vazia com várias cinzas espalhadas e Leo me olhando assustado.
Mesmo depois de tanto esse tempo longe de todos os seus poderes, você ainda é um monstro. Eu disse a mim mesma. Ainda consegue fazer as pessoas se espremerem para longe de você, em uma tentativa de se protegerem.
–Sophie você não devia ter feito isso! — Elizabeth exclamou e eu me encolhi, me sentindo mal por alguns segundos.
–Se eu não tivesse feito poderia ser pior, você sabe disso.
–Mas poderia ter agravado seus ferimentos ou... — Percy parou antes de terminar completamente a frase.
–Estão com medo de que eu fique louca ou assassina?
Eu estava quase no centro do deck, com todos relativamente ao meu redor, mas não fazendo um círculo sufocante ou algo assim. Estavam espalhados.
Aella deu uns passos e parou um pouco atrás de mim.
–Não precisam se preocupar tanto assim. O que ela fez, fez mais bem à ela do que mal.
Todos ficaram quietos, mas eu podia saber o que eles sentiam como um sexto sentido macabro. Eles estavam com medo de mim, mais do que eles sentiam antigamente.
Abracei a mim mesma e me afastei deles. Fui para a beirada do deck,observando o as nuvens próximas e o chão extremamente distante. De repente senti medo do navio despencar e me afastei um pouco. A imagem do navio em chamas indo em direção ao chão em alta velocidade, me assombrou por alguns minutos.
Enquanto isso, eles limpavam o deque e colocavam as coisas nos lugares. Eu não estava parada sem fazer nada por que queria e sim por que eles não me deixavam fazer nada. Eles disseram que estavam com medo de que os meus pontos abrissem mas acho que na verdade, estavam com medo de que eu os machucasse sem perceber.
Eu estava consciente de todos os poderes surgindo, mas eu tinha um certo nível de controle. O suficiente para eu não os matar enquanto peço a vassoura.
De qualquer forma, eu era venenosa para eles. Atraía a atenção de Korinna, e a atenção de Korinna resultava em ataques de monstros criados por ela. Eu sentia que estava empurrando eles para uma armadilha em que um lado havia Korinna e seus monstros e do outro havia eu, com poderes que eu mal conhecia e que não sabia se tinha total controle.
Eu estou colocando eles entre a espada ou a cruz.
–Eu sei o que você está pensando. — Aella apareceu do meu lado, me tirando um pouco de dentro da minha cabeça. — Não faça isso.
–Fazer o que? Assustar eles mais? Colocar eles em perigo assim? Não pretendo.
–Você está agindo como uma criança teimosa. Eles estão fazendo tudo por que querem. — Queria dizer um milhão de coisas, mas decidi ficar quieta. — Não vieram todo esse caminho por que foram obrigados, eles querem estar aqui. Querem te proteger por que te amam.
–A nossa mãe não nos amava. — Comentei aleatoriamente. Vi a expressão forte de Aella se dissolver aos poucos e se tornar uma expressão de ternura.
–Nós não precisamos dela. Nunca precisamos.
Me encostei na parede e literalmente escorri, até acabar sentada no chão. Encostei a cabeça na parede também e fechei os olhos, sentindo o ardor das lágrimas que já estavam se tornando rotina.
Ouvi os passos de Aella se afastando e fiquei naquele estado de total vazio na mente. Me foquei apenas na minha respiração, respirando pelo nariz e inspirando pela boca.
A sensação que eu tive, ao diminuir a respiração e limpar por completo a mente, foi como quando se está em um lugar muito quente. E de repente, você começa a sentir o ar frio rodear seus pés. Era a sensação de estar entre dois opostos.
E eu aceitei a sensação, sem entender no que aquilo iria me levar. Me deixei ser rodeada pelo frio, e então tudo ficou totalmente quieto.
A primeira coisa que eu vi foram chamas. Pensei que estava de volta a minha infância, na casa em chamas. Mas dai a imagem foi tomando foco, e eu vi que estava diante de uma fogueira.
Era noite, uma noite fria. Eu estava sentada em um tapete com pilhas de almofadas ao meu redor, sentindo os cheiros da floresta comendo um pedaço de pão.
Eu tinha completa noção de onde estava e o que tinha acabado de fazer.
Eu acabei de desbloquear uma memória por conta própria. Estava em algum lugar da Europa, nas minhas memórias.
E aquele, foi o início da minha última noite. A noite em que Korinna havia tentado me matar.
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