Na segunda-feira, Joan chegou do trabalho exausta. Enfrentara um enorme conges­tionamento provocado por três acidentes na estrada, e estava suada e irritada.

Também estava nervosa. Sherlock telefonara no dia an­terior para avisar que atrasara-se carregando o cami­nhão, e por isso só chegaria tarde da noite.

A demonstração de consideração a agradara. Passara o final de semana tentando assimilar tudo que acontecera recentemente, e concluíra que o maior choque era ter Sherlock novamente em sua vida. Como pudera concordar com essa ideia maluca de ele mudar-se para sua casa? E dormir com ela! Como pudera colocar-se em posição tão vulnerável?

Conseguira marcar uma consulta médica para a terça-feira da semana seguinte. E se descobrisse que o teste havia fornecido um resultado errado? O que faria se o doutor dissesse que não estava grávida?

Sherlock poderia imaginar que havia tentado enganá-lo, e não suportaria perder a confiança de alguém tão im­portante. Por outro lado, gostava tanto dele que não sen­tia-se capaz de amarrá-lo a uma vida tão diferente da­quela que sonhara. Por isso não podia aceitar o pedido de casamento. Caso contrário, passariam o resto de seus dias arrependidos.

Acionando o controle remoto, esperou que o portão do condomínio se abrisse e surpreendeu-se ao ver alguém parado ao lado da garagem, sorrindo.

Sherlock estava de volta. Agora não poderia nem contar com algumas horas para descansar e refazer-se antes de encará-lo novamente.

Ainda estava soltando o cinto de segurança depois de estacionar o carro quando ele se aproximou e abriu a porta.

— Olá. Não quis correr o risco de assustá-la espe­rando junto da porta dos fundos, e por isso vim apreciar o jardim. Esse lugar é bem bonito. Deve ter trabalhado duro nele.

— Ou chegou mais cedo do que imaginava, ou estou muito atrasada. Como conseguiu entrar?

— Pulei o muro.

— Sherlock, aquele muro tem três metros de altura!

— Ainda bem. Pelo menos sabemos que a segurança é completa. Ou quase...

— Espero que os bandidos da vizinhança não sejam esportistas. Sabe que acaba de destruir minha fantasia de segurança?

— De agora em diante estarei aqui para protegê-la.

Era vergonhoso, mas gostava disso.

— Quando chegou? — Joan perguntou enquanto apro­ximava-se da porta de casa.

— Há cerca de duas horas. Parti o mais cedo que pude para escapar do trânsito de final de tarde.

— Gostaria de ter feito a mesma coisa. Voltar para casa foi um verdadeiro sacrifício! Vamos ter de provi­denciar uma chave extra — ela lembrou. — Na verdade, já devia ter pensado nisso.

— Temos todo o tempo do mundo. Bem, vou descar­regar o caminhão. Devia tê-lo estacionado aqui dentro, mas achei que se assustaria ao vê-lo.

— Espere até eu mudar de roupa e virei ajudá-lo.

— De jeito nenhum! Não vai fazer esforço algum en­quanto não for ao médico.

— Tenho certeza de que nem todas as coisas naquele caminhão são pesadas.

— Esqueça. Vá mudar de roupa enquanto verifico o que há para o jantar.

— Vai cozinhar outra vez? Vejo que está realmente disposto a me mimar. — Ela riu, virando-se em seguida para subir a escada que levava aos quartos.

Estava nervosa com a presença de Holmes. Gostaria de saber o que Srta. Hudson havia dito sobre a gravidez, mas ainda não tivera coragem de perguntar.

Por que não notara antes como ela conseguia encobrir os próprios sentimentos com aquele jeito dela?

Estava notando coisas que jamais percebera em Joan. Por exemplo, ela nunca havia evitado encará-lo como ago­ra, nem tentado manter as mãos ocupadas sempre que conversavam.

Quando ela apareceu na cozinha vestindo uma cami­seta e um short que revelava as pernas longas e bem torneadas, Sherlock cortava vegetais para uma salada.

— E então, o que teremos para o jantar? — ela per­guntou com tom casual.

— Salada de vegetais e legumes. Pensei em grelhar esses filés, mas decidi esperar para ver se gosta da ideia.

— Prefiro apenas a salada, mas faço o filé para você, se quiser.

Joan sentou-se junto à bancada e serviu-se de um copo de chá gelado.

— Tenho pensado muito desde a última vez em que estive aqui — Holmes disse sem encará-la. — Gostaria que conhecesse o conteúdo desses pensamentos.

— Vá em frente.

— Bem, sei que posso tornar sua vida mais fácil nos próximos meses. Imagino que queira continuar traba­lhando e, sendo assim, pensei que poderia assumir parte das tarefas domésticas. Posso passar o aspirador de pó e manter tudo arrumado e limpo, lavar a roupa suja e ajudar nas refeições e nas compras.

Joan não acreditava no que ouvia. Esse era mesmo Sherlock Holmes?

— Não me lembro de ter esfregado uma lâmpada mágica, mas é como se um gênio me oferecesse três desejos. Por que está fazendo essa sugestão tão... generosa? Posso estar grávida, mas não sou nenhuma inválida.

— Bem, já que não posso carregar o bebê, decidi dividir o peso das tarefas domésticas.

— Obrigada, Sherlock, mas não posso aceitar. Conheço você, e sei que vai odiar passar os dias trancados dentro de casa. Em menos de uma semana estará planejando fugir para o Taiti.

— Já estive lá e não gostei do calor excessivo e dos preços altos. Além do mais, não pretendo passar o dia todo em casa. Tenho amigos na cidade, lembra-se? Quero visita-los. Um deles trabalha para NSA, tenho a impressão de que trabalho não vai faltar.

— Você sempre odiou trabalhar com a NSA.

— Não é tão ruim assim.

Joan emitiu um grunhido abafado, mas manteve a ca­beça baixa. Sherlock virou-se.

— O que disse?

Ela balançou a cabeça.

— Não está chorando, está?

— Ultimamente meus olhos parecem ter desenvolvido uma espécie de sistema de irrigação próprio. Talvez sejam as mudanças hormonais, ou algo parecido.

— Por favor, não chore.

— Choro quando quiser, droga! Vai ter de acostumar-se com a ideia de me ver chorando sem qualquer motivo aparente. Ainda estou me adaptando a tudo isso, sabe? Você parece ter se ajustado à ideia melhor que eu.

Em silêncio, Sherlock terminou de preparar a salada e levou-a para o balcão, onde comeram sem dizer nada. Depois de um certo tempo Watson ofereceu:

— Vamos revezar, está bem? Esta noite você cozinhou, amanhã eu farei o jantar.

— Como quiser — ele respondeu, aliviado por constatar que sua presença começava a ser aceita.

— Acha que será sempre tão conformado? Está me tratando como se eu tivesse uma doença incurável, Holmes! Relaxe!

— Estou relaxado. — Ele sorriu, inclinando-se para beijá-la. — O fato é que gosto de mimá-la, e vai ter de acostumar-se com isso, também.

Já estavam limpando a cozinha quando Sherlock voltou a falar.

— Oh, a propósito, Srta. Hudson quer saber quando podem vir nos visitar. Nunca a vi tão excitada. Quem poderia imaginar que sonhava tanto com o papel de tia?

— Então já contou a ela?

— Esse é um segredo que não se pode guardar por muito tempo, Joan. Jennifer queria saber por que decidi vir morar com você, e então expliquei que estava tentando convencê-la a se casar comigo. A mudança é só o primeiro passo.

— Não podia ter dito apenas que passaria algum tempo nos Estados Unidos, sem mencionar meu nome?

— Sim, acho que podia, mas a verdade é sempre mais fácil de explicar.

— Ela ficou horrorizada comigo, não é?

— Pelo contrário. Ela pensou que eu havia tirado proveito de sua inocência.

— Oh, não! Não contou como tudo aconteceu, contou?

— É claro que sim! Já disse que prefiro a verdade. Naquela noite tirei vantagem de sua vulnerabilidade, e isso foi o que mais me perturbou enquanto estive fora. Finalmente decidi que tinha de voltar para reparar o que havia feito.

— Você não tirou vantagem de coisa alguma! Será que não entende?

— Oh, sim, depois de pensar um bocado consegui en­tender o que havia acontecido. — Ele riu, divertindo-se com a explosão temperamental. — Em algum momento daquela noite você decidiu me envolver em sua teia de sedução. Sendo o inocente que sou, não percebi suas in­tenções. Acho até que me dopou com aquele último drin­k para facilitar o serviço. Tudo que teve de fazer foi usar sua vasta experiência e depois desfrutar de mais um escravo sexual.

— Você é um idiota, Sherlock Holmes! — ela riu. — Completamente idiota e maluco!

Então ele a abraçou.

— Já estou acostumado com isso. E você, acha que vai conseguir habituar-se?

Joan balançou a cabeça e esquivou-se ao perceber que ele pretendia beijá-la. Percebendo a resistência imediata, Sherlock afastou-se sem dizer nada.

— O que Srta. Hudson disse quando contou que pre­tendia se mudar para cá? —Ela perguntou, servindo chá gelado em dois copos antes de dirigir-se à sala íntima.

Holmes estendeu-se no sofá enquanto ela acomodava-se numa cadeira.

— Bem, ela esperou que o tempo a amoleça o sufi­ciente para que tenha pena de mim e dê o meu nome ao bebê. É claro que os preveni quanto a alimentarem falsas esperanças. Afinal, você espera alguém melhor em sua vida...

— Sabe que isso não é verdade, Sherlock! Só estou ten­tando não tomar decisões precipitadas que possam ter consequências desastrosas para todos os envolvidos. E seu nome é absolutamente ridículo. Não pode entender algo tão simples?

— Sim, sou perfeitamente capaz de entender. Mas que­ro que saiba que estarei bem aqui, esperando paciente­mente, enquanto você pesa todos os aspectos da questão antes de tomar uma decisão. Para ser mais claro, não vai se livrar de mim até esse bebê nascer. Seguirei seus passos e farei com que cuide de si mesma, e me empe­nharei em tornar sua vida mais fácil. Essa é uma decisão que pretendo manter.

— Acha mesmo que isso é necessário? — Joan per­guntou dois dias mais tarde, quando analisavam vários tipos de móveis para dormitórios e vários formatos de colchões.

— Sim, eu acho. Experimentamos sua sugestão, lem­bra-se? Dormi no sofá da sala, e não desisti de ficar a seu lado. Portanto, é melhor comprarmos uma cama de casal e garantirmos nosso conforto.

— Já disse que só pretende ficar até a chegada do bebê. Por que gastar dinheiro em algo que não vou usar mais tarde, especialmente com todas as despesas que teremos de agora em diante?

— De onde tirou a ideia de que só pretendo ficar até o bebê nascer?

— Você mesmo disse.

— Não me lembro de ter dito nada disso.

— Quer dizer que estou ficando maluca?

— Talvez seja consequência da alteração hormonal.

— É claro que não, seu idiota! Eu só...

— Tsk, tsk, tsk. Lembra-se de quem está nos ouvindo?

— Oh, não! Você pode ser realmente irritante, quando quer!

— Estou lendo um livro fascinante sobre a vida dos bebês no útero. É surpreendente o que já se sabe sobre esses pequeninos.

— Está lendo um livro... sobre o desenvolvimento pré-natal?

— Entre outras coisas. Também há um capítulo sobre como a dieta da mãe afeta a criança, embora ainda não tenha dito se pretende amamentá-lo.... Enfim, o que você come pode afetar o bebê desde já, por isso é melhor ter cuidado. Também há um outro livro sobre o que se deve esperar desde o nascimento até o primeiro ano completo da criança e...

— Desisto! — Joan interrompeu, abrindo os braços e virando-se para o vendedor.

— Que bom — Holmes comentou satisfeito antes de se­gui-la. — Gostaríamos que aquele conjunto fosse entregue em nossa casa o mais depressa possível, por favor. Acei­tam cheque?

— O banco é local?

— Sim.

— Certamente, senhor — o vendedor sorriu, escreven­do o valor da compra na nota fiscal.

— Sherlock? — Joan o chamou em voz baixa.

— O que é, meu bem?

— Acho que não devemos fazer isso.

— Disse que não devíamos gastar dinheiro, e posso entender que esteja preocupada com seu orçamento. Como ainda não tive tempo de estudar esse orçamento e oferecer minha contribuição, vamos considerar a compra dos móveis do quarto o primeiro passo nessa nossa... so­ciedade. Ou pretende me manter naquele sofá pelo resto da vida? Não vejo motivo para sofrermos com dores nas costas. É claro que a minha sempre pode ser aliviada, mas estando a seu lado poderei massagear as suas para aliviar o desconforto provocado pela gravidez.

O vendedor voltou com a nota fiscal e Jon foi obrigada a calar-se.

Estavam voltando ao condomínio quando Sherlock inquie­tou-se com o silêncio prolongado.

— Por que está tão quieta? Sente-se bem?

— Não.

— O que houve?

— Sinto-me pressionada, manipulada e manobrada, e não gosto dessa sensação.

— Posso entender esse seu sentimento com relação à pressão e à manobra, mas a manipulação...

— Você queria a cama. Comprou a cama. E conseguiu até falar como se essa fosse a única solução razoável para nós.

— E não é?

— Não estamos brincando de casinha, Sherlock! Não estamos no jardim da infância e não estamos discutindo onde construir o clube secreto, qual será o tamanho ideal e que tipo de restrições devem ser impostas aos novos membros.

— Eu sei disso.

— Então, por que se comporta como se isso fosse um jogo?

— Por que acha que estou jogando?

— Está bem, talvez jogo não seja a palavra ideal. Mas está agindo como se tudo isso fosse mais uma de suas aventuras, como se não vivêssemos uma situação real. Descobrimos que estou grávida, e então você decidiu tor­nar-se o herói que vai me salvar. Não preciso ser salva, ouviu bem?

— Porque é durona, certo? Não precisa de ninguém... nunca precisou. Quem eu penso que sou, afinal?

Sherlock parou de falar enquanto estacionava o carro na garagem do condomínio e descia para ir ajudá-la. Quando alcançou a maçaneta da porta, Joan já a empurrava com a força de sua fúria. Em silêncio, estendeu a mão e es­perou que, devagar, ela a aceitasse.

— Foi muito difícil? — perguntou, mantendo o contato. Joan não respondeu.

Interpretando a reação como um sinal positivo, ele passou um braço sobre seus ombros e puxou-a de encontro ao peito.

— Não precisa me convencer de que pode fazer tudo sozinha. Sei que é forte, mas felizmente haverá alguém a seu lado. Por favor, deixe-me participar desse milagre, sim? Se não quer envolver-se comigo, não pretendo pres­sioná-la. Talvez a cama não tenha sido uma boa ideia, mas isso não quer dizer que queria tirar vantagem da situação ou forçar alguma coisa. Só faremos aquilo que nós dois quisermos, está bem?

Joan permaneceu calada. Depois de alguns segundos soltou-se do abraço e dirigiu-se à porta dos fundos, por onde costumava entrar em casa.

— Francamente, precisa acreditar em mim — Holmes insistiu, seguindo-a com passos apressados. — Pense bem. Vai ganhar peso rapidamente. E se escorregar no banheiro e eu não estiver lá em cima para ajudá-la?

— Você ouviria o barulho e subiria em seguida, cer­tamente temendo ser vítima de um desabamento.

Ele sorriu, acompanhando-a à sala íntima, onde Watson ajeitou as revistas sobre a mesa de centro.

— Está vendo? Não perdeu o senso de humor. — Se­gurou a mão dela, levando-a até o sofá e fazendo-a sen­tar-se ao seu lado. — Vai dar tudo certo. Sou seu melhor amigo, não um estranho tentando forçar passagem para dentro de sua casa e de sua vida. Acho que ainda não entendeu que preciso participar desse processo.

— Ainda nem sabemos se estou realmente grávida, Sherlock. Não acha que pode estar precipitando as coisas?

— Nós dois sabemos a verdade, e não precisamos de um médico para termos certeza dela. Foi essa certeza que me trouxe de volta e a convenceu a me aceitar aqui, em sua casa. Sabemos o que o médico vai dizer nessa consulta.

— Tem razão. Acho que tudo isso está mexendo com meus nervos — suspirou.

— Tenho uma ideia. Por que não assistimos a um bom filme essa noite? Você tem uma excelente coleção de fil­mes antigos, e alguns deles são meus favoritos. Quanto a sentir-se manipulada, posso continuar dormindo no sofá, se preferir.

— O problema não é esse, Sherlock. O que me incomoda é não conseguir tomar parte no processo de tomar deci­sões. Está habituado a viver sozinho, e por isso não sente necessidade de consultar alguém antes de decidir. Posso entender, porque também tenho vivido da mesma ma­neira, mas não consigo suportar. E você também não gostaria de ver-se subitamente envolvido em decisões que o afetam, mas sobre as quais não foi consultado.

— Tem razão. Não me sentiria confortável nessas cir­cunstâncias. Por outro lado, só estou agindo assim porque tenho medo de consultá-la e não encontrar espaço para participar de sua vida e da vida do bebê. Não quer se casar comigo... Está apenas tolerando minha presença em sua casa. É como se tivesse de lutar para manter contato com meu único filho!

— Bem, parece que não temos nos comportado como dois adultos nessa história, ou não nos sentiríamos tão ameaçados — Joan reconheceu com um suspiro. — Pelo menos estamos admitindo nossos temores, e esse é um bom sinal.

— Não havia pensado nesses termos.

— É claro que não. Nenhum homem que se preze ad­mite sentir medo de alguma coisa! — Ela riu. — De qualquer maneira, nós dois sabemos que não poderemos dividir a mesma cama sem causar uma certa tensão ao nosso relacionamento, que não tem sido exatamente tran­quilo. Nesse momento, não me sinto preparada para lidar com mais algum dado novo em minha vida.

— Juro manter distância quando estivermos juntos na cama. Não tentarei ultrapassar os limites da minha metade do colchão, a menos que seja convidado, e acei­tarei a punição de voltar para o sofá caso não cumpra minha promessa. Concorda?

Joan o estudou com cuidado antes de estender a mão num gesto solene.

— Concordo.