Sou Humano?

1 Sou Humano?


Notas iniciais
Capítulo único. Boa leitura! ♡

Caixa. Coroa. Flores. Choro. Cinzas. Nada.

Está escuro e frio. Que lugar é esse? Não importa se abro ou fecho os olhos, tudo ao meu redor está tingido do mais escuro dos tons de preto, não vejo nada. Frente ao desconhecido, sinto o nervosismo tomar conta do meu corpo. Mas que corpo? Não o vejo. Não o sinto. Mas o tenho – devo ter – afinal, todo ser humano o tem, não é mesmo? Não sei onde estou, não sei de onde vim. E minhas memórias, como se obscurecidas pela espessa escuridão que me cerca, são meros fragmentos soltos em minha mente.

Uma viagem de carro rumo a outro país. Um dia de aula. Um ensaio fotográfico. Uma música. Uma longa viagem ao voltar do trabalho. Mais um dia cuidando de casa.

Acontecimentos cotidianos. Porém, meras lembranças que são capazes de causar dores pelo meu corpo. Feridas que não sei de onde vieram. Não consigo me lembrar. Mas sei que estão ali, sinto-as. Minha mente, embaçada pelas emoções, pelas dores e pela confusão, enche-se cada vez mais de memórias aleatórias que me angustiam a alma.

Uma oportunidade de emprego costurando roupas em outro país.

Uma ameaça, delatada à segurança da faculdade, que foi deixada de lado.

Um desfile durante um grande protesto político.

Uma passagem internacional, rumo a Orlando.

Uma pequena caminhada entre o ponto de ônibus e minha casa, localizada na periferia.

Um homem bêbado se movendo agressivamente em minha direção.

As dores latejam vividamente por cada parte do meu corpo. Locais diferentes, dores diferentes. Mas intensidades tão fortes que se equiparam umas às outras. Minhas memórias, tudo o que eu tentara lembrar, de súbito voltam à minha mente. Agora eu me lembro, me lembro de tudo.

Eu morri.

Adoeci devido ao forçado trabalho, análogo à escravidão, ao qual fui submetido. Não me parecia mais ter sido uma boa ideia sair da Bolívia. Fui abandonado à própria sorte e vi meus últimos resquícios de vida serem tomados pela súbita doença, enquanto observava, inerte, o mundo prosseguir sem se importar com a minha ausência.

Fui agredido e envenenado, dentro do campus da minha própria faculdade, devido ao preconceito em relação à minha cor e à minha sexualidade. Toda a satisfação de chegar a um novo estado e ser capaz de ingressar em uma prestigiada faculdade fora tomada de mim à força, assim como minha vida.

Fui esfaqueada na rua por fundamentalistas religiosos que se opunham preconceituosamente à minha crítica sociopolítica feita durante a Parada do Orgulho LGBT. Meu orgulho colocado à prova frente à faca junto ao meu rosto.

Fui morta a tiros durante um atentado dentro da boate na qual estava. O pânico e o desespero, resultantes do som dos tiros a poucos metros de distância, não impediram meu impulso de tentar proteger minha namorada, mas me impediram de retornar ao meu país, e nem se quer sei se consegui salvá-la de ter o mesmo destino que eu.

Fui baleado por policiais, que confundiram meu celular com uma arma de fogo e me julgaram como um criminoso. Minha visão escurece aos poucos, enquanto vejo passar pelos meus olhos dias de trabalho duro em vão, pois agora de nada me vale o pouco dinheiro acumulado nos últimos anos.

Fui espancada e estuprada dentro do meu próprio matrimônio. Dias de terror infindáveis, cada vez mais traumáticos, cada vez mais doídos. Quer seja por um infortúnio da vida, quer seja por pura sorte, eu quebrei, juntamente com as correntes que me prendiam ao meu cônjuge.

Uma vivência interrompida. Caixa. Coroa. Flores. Choro. Cinzas. Nada.

Eu sou o jovem imigrante ilegal. Sou o gay. Sou a transexual. Sou a lésbica. Sou o jovem negro da periferia. Sou a mulher. Sou humano? Os Direitos Humanos não se aplicaram a mim. Pensei ser igual aos outros, mas não sou, sequer tive direito à vida. Eu morri, pois os Direitos Humanos não foram respeitados. E só me resta suportar, na plenitude desse eterno silêncio, a dor e o sofrimento marcados a ferro no meu espírito.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!