Notas iniciais
Primeiro capítulo, espero que gostem.

Assim que saí do prédio cinzento acendi um cigarro. Já passava do meio-dia e uma fina chuva de inverno caía sorrateira e silenciosa. Encarei meu reflexo no espelho por um minuto. Cabelo castanho e bagunçado, olhos claros, roupas largas e cara mal-humorada. Não sei se me pareço com o meu pai ou com a minha mãe, talvez com nenhum dos dois.

– Hey! – Uma garota baixa carregando uma mochila enorme gritou. – Você é Benjamin Ladris.

– Sim.

A garota era um pouco mais nova, seus cabelos completamente negros e despenteados, seus olhos eram de um tom bonito de verde e se eu não tivesse prestado atenção provavelmente confundiria ela com um garoto. A cabeça de um gato branco surgiu no alto da mochila.

– Sou Ayumi Matsumoto, sua nova colega de trabalho. – a garota apertou a minha mão e retirou o gato da mochila. – Esta é Nikki.

– Olá Ayumi e olá Nikki. – Nunca gostei de gatos nem de crianças.

– Aonde você vai? Posso ir junto? Qual é a sua classe? Já tem idade para fumar? – a menina me metralhou de perguntas. – Pode me chamar de Ayu.

– Encontrar um amigo na biblioteca, sim, descendente e não – respondi seco.

Odeio que me façam perguntas e acima de tudo odeio crianças.

– Eu também sou uma descendente – ela comentou enquanto caminhávamos. – Esse anel é o meu portal, qual é o seu?

– Um espelho.

Assim que chegamos na biblioteca Ayu enfiou a gata na mochila verde oliva. Como eu imaginei Nikki arranhou a garota que xingou e praguejou a gata, logo depois pediu desculpas.

– Qual o nome do seu amigo? Ele é como agente? – Ayu perguntou espantada com o tamanho das estantes.

– Azasalamel e ele é um anjo – digo.

– Vai mata-lo?

– Eu fui banido, bonitinha – ouvi a voz rouca ecoando em algum lugar da biblioteca antiga. – Não represento mais nenhum risco.

Uma figura surgiu em meio as estantes. Az carregava um livro grande em frente ao corpo. Depois de muito tempo me acostumei com o fato dos anjos não terem sexo, então Azasalamel parecia um garoto e ao mesmo tempo uma garota, o estilo andrógeno mudava de acordo com as roupas. Ele usava um terno vermelho e uma blusa branca, a pele clara praticamente brilhava devido o realce do cabelo acobreado e a roupa de cor forte.

– Você parece uma garota – comentou Ayu.

– Queria, posso ter sido banido e perdido quase toda minha divindade, mas posso fazer o coração do seu lindo gato parar debater se você falar mais alguma coisa que não me agrade.

Conheci Az há muito tempo, estou acostumado com sua personalidade explosiva e o rancor que ele guardava por ter sido banido do paraíso.

– Olá Az.

– O que você quer?

– Você sabe o que eu quero – eu disse sorrindo.

– Ok – Azasalamel abriu o livro e arrancou uma página. – Mas antes você precisa fazer isso.

– O que é isso?

– Sabe que eu só sou jovem enquanto tiver penas de anjo – Az sorri. – Preciso de penas e você pode conseguir aqui, ou terá que subir e cá entre nós, seria muito perigoso.

As letras da pagina que o anjo arrancou do livro começaram a mudar até se tornar um mapa da cidade com um grande X no lugar aonde eu devia ir. Ayu ficou na ponta dos pés para ver o papel.

– Volte uma hora.

Az virou as costas e sumiu entre os livros e o pó da biblioteca.

Uma hora era tempo mais do que o suficiente para exterminar um ou dois anjos e conseguir uma quantidade razoável de penas, o que me renderia uma grande recompensa.

– Você tem gengibre? – Pergunte à Ayumi que praticamente corria acompanhada da bichana.

– Por que eu teria gengibre.

– Você nunca matou nenhum anjo?

– Não, nem demônio.

– Como você foi contratada?

– Sou boa com as descidas.

– Gengibre encobre o cheiro de sangue de anjos – expliquei. – O cheiro do sangue atrairá demônios, como não somos Hereges não somos bem vistos para eles, então nos matariam assim que tivesse a oportunidade, e como os anjos também não gostam da gente, será perigoso de qualquer modo.

– E por que você vai matar um anjo?

– Preciso de cabelo de anjo, afasta demônios e eu consigo burlar a segurança dos próprios anjos, mas infelizmente eles acabam rápido.

– Por que você não rouba o cabelo dos anjos que vai matar? – Ayu perguntou mal-humorada.

– Tem que ser dado – respondo ríspido. – Pare de fazer perguntas ou eu te entrego para os anjos e a gata vai junto.

Felizmente Ayumi entendeu o recado e ficou quieta.

Pelo caminho até o paradeiro dos anjos encontrei uma loja de produtos naturais e consegui comprar um pouco de gengibre, o suficiente para esconder a mim e a garota por mais ou menos uma hora, o que era tempo o suficiente para despistar os demônios.

– Só coma quando avistarmos eles, ok?

– Ok. – Ayu ainda parecia tensa devido à ameaça de lança-la aos anjos.

– Ei, vai ficar tudo bem.

Passei a mão pelos cabelos escuros da garota que soltou um leve sorriso que rapidamente mudou para espanto.

Do outro lado da rua se avistava duas criaturas de cerca de dois metros com enormes asas e roupas brancas reluzentes. Seria algo lindo se não fosse pelo fato de nenhum deles ter rosto e cada um deles carregar uma lança de ouro puro.

Ayu enfiou o gengibre na boca rapidamente fazendo uma careta estranha.

Coloquei a mochila da mão e retirei a besta de madeira e metal, eu tinha cerca de doze flechas, o que não seria o suficiente nem para arranhar um deles.

– Você disse que é boa com as descidas.

– Sou.

– Preciso que você pegue algo.

– Que tipo de coisa?

– Se você para o céu me traga um cacho de uvas, mas não coma nenhuma, por mais que elas sejam maravilhosas. – A garota me olhava atenta. – Se você for para o inferno me traga uma mandrágora, elas nascem sob os enforcados.

– Ok.

– Tome cuidado.

A pequenina não respondeu, apenas sentou-se no chão, tirou o anel de prata do dedo e colocou em frente ao olho direito que ficou completamente branco. Cerca de vinte minutos depois o tom escuro do verde voltou.

A garota puxou o ar com força.

– Fui parar no inferno – disse ela com lágrimas nos olhos.

Fiquei com vergonha de perguntar o que estava acontecendo. Cada pessoa tem seu próprio inferno e seu próprio céu, esse nível é o que chamamos de julgamento. A concentração para sair do julgamento e realmente entrar na dimensão é enorme.

– Pegue a sua droga de mandrágora – Ayumi jogou o anel dentro da mochila e enfiou o braço dento da bolsa, como quando escondeu Nikki. Quando retirou o braço segurava um pequeno galho espinhento com uma deformidade que lembrava uma boca, depois choramingou e abraçou a gata.

– Tape os ouvidos e corra para longe – eu disse quebrando o galho ao meio e bebendo a seiva.

Carreguei a besta com as flechas e dei o primeiro tiro. Assim que os anjos me viram saltei sobre um banco e abri a boca.

Na mitologia a mandrágora era uma planta que nascia sob os enforcados e gritava quando era arrancada, seu grito era tão potente que podia matar uma pessoa. Bem, são mitos.

O som dá mandrágora é tão baixo que apenas anjos, demônios e qualquer um que já esteve em uma das dimensões pode ouvir. Porém o mesmo som é ensurdecedor para qualquer pessoa que não tenha ingerido a seiva.

Assim que os anjos ficaram desequilibrados consegui roubar uma das lanças de ouro que diminuiu até ficar do tamanho perfeito para minha altura. Assim que tive a oportunidade atravessei a cabeça do primeiro anjo com a lança, o mesmo soltou um som horrível e se transformou em um monte de penas.

Infelizmente não tive tanta sorte com o segundo.

A lança de quase três metros passou de raspão em minha orelha, a dor se dissipou por todo o meu corpo. Caí atordoado no chão.

A dor na orelha não foi nada comparada com ter sido cutucado com uma lança mais grossa que meu braço. O gigante provavelmente não teria parado se não fosse atacado por uma bola de pelos brancos acompanhada de um vulto vemelho.

Nikki e Azasalamel vieram me salvar.

Notas finais
Az é meu personagem. Azasalamel: http://media.tumblr.com/a3540602d9bcb5104063ca1c84518b12/tumblr_inline_muonol39tx1r3ssrz.png Benjamin: http://img2.wikia.nocookie.net/__cb20120319182854/another/images/c/c4/Bscap0017.jpg Ayu: http://www.lagi.com.br/wp-content/uploads/2013/07/Watamote-01-Large-04.jpg
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.