Sos mi más bello error
25 Childhood feels
Notas iniciais
A respiração não chegava a ser pesada, mas o silêncio do quarto era tão profundo que o som do ar saindo e entrando de nossas narinas se fazia alto. Eu acordei atolada por vários edredons, e por baixo de todos eles os braços de German abraçavam meu corpo. Quando abri os olhos e me dei conta da cena em que eu me encaixava, mordi os lábios e soltei um sorriso. Que manhã deliciosa, podia muito bem ser eterna.
Virei o rosto para German e olhei rapidamente os seus lábios. Estavam entreabertos, de um jeito que deixava sua expressão tão serena ao ponto de me dar vontade de mordê-lo. Levei as costas de minha mão até o seu rosto para acariciar levemente sua bochecha. Então olhei para o seu peitoral sem camisa, que o edredom cobria quase inteiramente. Mas sorri. Pensei em nossos estados. Estávamos completamente nus debaixo das cobertas, uma cena que alguns meses atrás seria extraordinária para mim. Feliz, me lembrei de nossa noite... e que noite! Todos os detalhes foram memorizados. Inclusive a parte em que eu quase larguei o momento para ir fuçar na sua prateleira de livros. Soltei uma risadinha, balançando a cabeça. Só por amor German me aguentaria mesmo. Aliás, tendo isso em mente, tirei delicadamente seus braços de mim e saí da cama para ir ver os tais livros. Agora eu podia, não?
Abri minha mala, vesti uma roupa simples e caminhei até a prateleira. Passei os dedos por alguns deles, sorrindo. Havia uma estante apenas para livros de economia, sobre como ser um bom empresário, engenharia sustentável e outras coisas relacionadas a sua profissão. Mas na estante debaixo encontrei diversas obras de Agatha Christie, Conan Doyle, Tolkien, e George Orwell. Era imaginável que German fosse fã dos romances policiais de Agatha, eu já havia lido diversos livros dela na adolescência e todos os mistérios me davam arrepios de medo, o que era a cara de meu noivo gostar. Também era óbvio que ele gostava de Sherlock Holmes, o que me deixou muito feliz, pois eu também amava. Mas seu interesse por Senhor dos Anéis e Hobbit com certeza me surpreendeu. Tirei o livro do Hobbit da prateleira e folheei-o calmamente, impressionada. A sensação de ver aqueles livros era de uma paz imensa. Eu me sentia cada vez mais dentro do mundinho de German, e quanto mais entrava, menos queria sair dali um dia. Eu amava aquilo. Amava o jeitinho que ele organizava seus livros na prateleira. Amava o cuidado que tinha com eles, pois estavam todos em ótimo estado. Amava seus gostos por mistério e ficção. Amava ainda mais sua maneira de sempre se mostrar um super e sério empresário para os outros ao seu redor, mas dar a mim o privilégio de poder descobrir o mundo todo que havia por trás de seus olhos, recheado de gostos por literatura, CDs antigos e filmes clássicos. Se eu já me apaixonei pelo durão de antes, como não estar apaixonada por tudo o que eu sei do homem de agora?
Estar tão inserida no universo de German me fazia olhá-lo como se ele fosse apenas um garotinho indefeso. Estava longe de ser, mas para mim, ele era tão precioso quanto. German era como um diamante. Rígido, mas ao mesmo tempo frágil. E eu também o amava por isso. Suspirei, sorrindo. Devolvi o livro para o seu lugar e dei mais uma observada, quando meus olhos bateram em um livro um pouco mais desgastado e usado. Franzi a testa e o peguei rapidamente.
Demorei para me lembrar, mas quando li "Romeu e Julieta" na capa, posso jurar que meu coração tremeu. Comprimi os lábios. Aquele era o livro preferido de Maria. E quem o havia lhe dado de presente fora eu. Eu não sabia que German o guardava até hoje, mas vê-lo ali trouxe uma sensação esquisita dentro de mim. Só não sabia explicar o que era.
– Angie? — uma voz rouca me assustou. Eu estava sentada no chão do quarto, e acabei dando um saltinho quando ouvi sua fala.
– Oi, Ge — me levantei. — Bom dia. — sorri, abraçando o livro contra meu peito.
– Bom dia — coçou os olhos, se sentando na cama. — O que está fazendo aí?
– Vendo os livros que você tem — mordi os lábios — Estava infiltrada no meio de histórias de mistério quando me deparo com Shakespeare. — sorri triste, mostrando o objeto que abraçava. German abriu um sorriso pequeno.
– Maria amava, você sabe. Foi você quem deu este livro a ela.
– Me lembro como se fosse ontem. — suspirei, abrindo a capa e passando os olhos pela minha dedicatória escrita com uma letra redonda e desajeitada. Soltei uma risadinha. Eu devia ter uns dez anos quando escrevi.
– Nunca consegui ler esse livro — German balançou a cabeça, rindo — Muito meloso pra mim. Prefiro Agatha Christie.
– Eu percebi! — exclamei, apontando pra prateleira — Você tem todos os livros dela!
– Fazer o que, sou fã — ele ergueu os ombros. Deixei Romeu e Julieta no lugar onde o encontrei e caminhei até a cama, me sentando ao seu lado. Achei que o clima entre nós ficaria estranho por termos falado de Maria, mas no final das contas estava normal. Isso era um bom sinal.
– Me empresta os do Sherlock? Eu sempre gostei, mas nunca li todos — juntei as mãos, fazendo uma cara meiga para convencê-lo.
– Hmmm, você, fã de Conan Doyle? — German sorriu, puxando minha cintura para perto. Ele ainda estava sem roupa, mas o edredom cobria até sua cintura. Já eu estava vestida com um short e uma blusa lisa.
– Está me subestimando? — ergui as sobrancelhas, brincando — Gostar de romance não me impede de gostar de suspense também, bobão — beijei seu queixo, sorridente.
– Bom saber, Angeles — me fez sentar em suas pernas. Tinha uma carinha um tanto safada. Quis rir. Ele com certeza tentaria fazer o que eu estava pensando. — Então o que acha de termos uma manhã cheia de romance e suspense agorinha mesmo? — me deu um beijo nos lábios e já se dirigiu para beijar o meu pescoço. Sua pressa repentina arrepiou os pelos de meu braço.
– Eu acho — o afastei para olhá-lo nos olhos — Que está fugindo do assunto. — mordi os lábios — Vai me emprestar os livros ou não? — segurei a risada. German rolou os olhos.
– Você sabe que eu vou emprestar, agora para de frescura — ele me puxou para si e ambos caímos deitados na cama. Se posicionando por cima, o homem iniciou um beijo intenso e gostoso. Busquei suas mãos e segurei as duas enquanto era prensada sobre o colchão. Senti o membro de German começar a se esticar em contato com o meu short e isso me fez prender a respiração.
– Chega, senão não vamos conseguir parar mais — murmurei ao quebrar o beijo. German bufou e eu ri.
– Sua chata — ele se levantou e foi vestir a bermuda. Me agarrei no edredom e joguei meu corpo nos travesseiros macios novamente.
– Que sonoooooo — fiz manha, encarando o teto.
– Levanta daí, folgada, o dia está lindo — German caminhou até o closet e eu o vi procurar uma camiseta.
– Hum, quero tomar banho — apertei ainda mais o edredom em meus braços, enquanto conversava com meu noivo.
– Se quiser pode tomar aqui no meu banheiro mesmo — escutei-o abrir uma gaveta de onde tirou uma toalha de banho azul marinho. Depois voltou ao quarto e jogou-a para mim.
– Tá bem. — analisei o pano que foi dado a mim. — Poxa, você não tem uma toalha mais feliz, não? — mordi os lábios, sentando-me na cama. German me encarou, confuso. — Sei lá, esse azul escuro é meio mórbido. Não tem uma roxa, rosa, ou vermelha?
Ele soltou uma risada — Quando nos casarmos, prometo comprar um kit de toalhas coloridas só pra você. Agora vai logo que eu estou com fome!
Fiz careta, mas me levantei e fui até o banheiro. German me seguiu e entrou junto comigo, para ensinar-me a ligar o chuveiro.
– É confuso. Se ligar só a quente, você cozinha, se ligar só a fria, você congela. Tem que achar um meio termo entre as duas que fique bom pra você. — ele ia rodando os registros na parede dentro do box.
– Eu gosto de morna — comentei. Então German ajustou a água do jeitinho que eu pedi e sorriu, me dando um selinho e se afastando para que eu pudesse entrar. Deixei a toalha pendurada na porta do box e entrei. Tirei a roupa e deixei meu corpo relaxar debaixo da água gostosa.
O box era de vidro, portanto era possível ver o resto do banheiro. E eu vi que German não saíra de lá. Ele se dirigiu até a pia e começou a lavar o rosto. Não me importei de tomar banho em sua frente, mas aquela situação era bem nova para mim, o que me fez achar graça no começo. Nossa intimidade já estava a um nível tão alto que não me incomodei em começar a cantarolar algumas músicas enquanto passava o sabonete.
– Sua voz é linda — German dizia, enxugando a cara com a toalha de rosto após lavá-la. Sorri.
– E aqui só tem shampoo de homem — falei divertida, pegando os frascos na mão e analisando-os. — Você é um péssimo anfitrião para sua noiva! — gargalhei.
– Você está começando a fazer eu me sentir mal com essas coisas, pare com isso — German fez biquinho, me fazendo rir de novo.
– Relaxa, amor, eu estranharia se encontrasse pertences femininos no seu banheiro. Estou feliz assim. — mordi os lábios.
– Engraçadinha — ele me deu a língua. — Quer que eu vá buscar suas coisas de mulher na sua mala? Ou você num levou shampoo pra Sevilla?
– Nossa, tinha até me esquecido disso! Sim, por favor, pega lá pra mim — sorri meigamente. O homem então saiu do banheiro para buscar minhas coisas enquanto eu peguei novamente seu frasco de shampoo, apenas por curiosidade. Foi quando li algo no rótulo que me fez dar risada, e no mesmo segundo ele voltou.
– Do que está rindo? — se aproximou, abrindo a porta do box e entregando-me a minha necessaire.
– Shampoo anti-caspas! — mordi os lábios, lendo alto. — Você tem caspa, amor?! — segurei a risada.
– Ow, claro que não! — bufou, tirando o frasco de minhas mãos. — Não compro shampoo pelo que vem escrito nele, e sim pelo cheiro! — tentou se justificar. Eu sorria, agora passando o meu próprio shampoo em meu cabelo.
– Eu imagino. Mas só acredito porque fiz carinho no seu cabelo a manhã toda e realmente não vi caspa nenhuma — dei mais uma risada, que o fez rolar os olhos.
– Por que eu te amo mesmo? Você é tão chata! — German fez careta e voltou a atenção para o espelho do banheiro, agora penteando seus fios cuidadosamente.
– Porque eu conquistei seu coração — mandei um beijo e fui terminando de lavar a cabeça. Assim que enxaguei tudo, fechei os registros e me enrolei na toalha. Saí do box e me aproximei de German. — Príncipe — beijei o cantinho de sua boca.
– Você é ousada, mulher — o homem me abraçou e beijou minha bochecha ainda molhada pelo banho. Deixei meu cabelo molhado apenas para o lado direito e o apertei sobre a pia, para eliminar o excesso de água.
– Tem uma escova de dente nova para eu usar? — sorri, olhando a nossa imagem no espelho do banheiro.
– Tem sim — German beijou minha bochecha mais uma vez e se afastou para abrir uma gaveta embaixo da pia e tirar um pacotinho de escovas de dente de lá. — Aqui, novinha em folha — entregou-me uma.
– Muitíssimo obrigada — ri baixinho, enquanto ele também pegava sua própria escova e colocava o creme dental para nós dois. Então, começamos a escovar os dentes juntos.
Foi uma cena engraçada, e nada romântica. Estávamos os dois com espuma na boca, dividindo a mesma pia, sendo que eu ainda estava toda molhada e enrolada na toalha de banho. German tentou falar qualquer coisa com a espuma na boca, o que não deu certo e me fez dar mais risada ainda. Podia ser nojento, mas momentos como aquele também mexiam comigo. Pois eram os momentos mais simples e banais do dia a dia, e mesmo assim estávamos passando-os juntos, fazendo alguma graça e trocando carinho. Era essa a vida que eu sempre sonhara com ele.
– Ei, eu ia cuspir primeiro! — falei toda embolada pelo fato de ter muita espuma na boca, e que justo quando eu ia cuspir na pia, German foi na minha frente e o fez antes.
– Tem que ser rápido, madame — ele disse rindo, erguendo o rosto. Foi minha vez de cuspir e em seguida bufar.
– Você podia ter escovado os dentes enquanto eu estava tomando banho, que culpa eu tenho se você é tão implicante? — sorri divertida.
– É porque eu amo te irritar — German sorriu junto e então tascou um beijo em minha bochecha, deixando-a toda suja com a espuma da pasta que ainda estava nos lábios do homem.
– Eca, seu nojento! — soquei seu braço e abri a torneira para limpar meu rosto. German ria da minha cara e se aproveitou para pegar água na mão e enxaguar a boca.
Quando terminamos, German foi entrar no banho e eu fui me arrumar. Coloquei um vestido florido e penteei meus cabelos molhados, deixando-os liso mesmo. Então calcei uma sandália e saí do quarto, pois pelo jeito German ainda demoraria e eu estava faminta. Assim que fechei a porta, me deparei com minha sobrinha também saindo de seu quarto. Ela me olhou e soltou uma gargalhada.
– Por que será que eu sabia que você tinha dormido aí? — a menina mordeu os lábios, se aproximando e me abraçando.
– Bom dia para você também, gracinha — correspondi o abraço, soltando uma risada. Fomos descer a escada juntas, sem nos soltar.
– Bom dia, tia — ela sorria — Desculpe, mas vai demorar para eu acostumar te ver dormindo no quarto do papai. É engraçado!
– Por que é engraçado? — indaguei, confusa. Chegamos ao andar debaixo e eu a soltei.
– Porque sim! Até uns tempos atrás vocês quase se matavam. Aí do nada viraram melhores amigos. Agora dormem na mesma cama!
– Sou apaixonada por aquele homem — ri baixinho e me dirigi até a mesa. Sentei-me no lugar de sempre e minha sobrinha sentou-se ao meu lado.
– Eu sei! E o casamento? Já tem data?! — Violetta sorria, pegando uma torrada e já mordendo-a.
– Claro que não, mal voltamos da Espanha! — mordi os lábios. Peguei a jarra de suco e coloquei um pouco em meu copo. Pensar que em breve eu estaria casada era um tanto assustador. Até uma semana atrás eu nem namorava!
– Eu quero que seja logoooo — ela deu tapinhas na mesa, ansiosa.
– Eu não! Preciso de tempo para armar minha surpresa — sorri. A menina me encarou, erguendo as sobrancelhas.
– Uhhh, então teremos surpresas? — soltou uma gargalhada. Continuei sorrindo, e bebi um gole do suco. — Angie! Não fique calada, me conte!
– Eu não! Vou guardar só pra mim — ri, me divertindo com a curiosidade dela. — Vocês dois vão descobrir juntos.
– Autch, até lá eu morro curiosa — Vilu fez careta. — Por que não posso saber? — então sua careta se transformou em um bico. — Não confia em mim?!
– Não, meu amor! — sorri carinhosa, pegando a mão dela. — Eu só quero que também seja uma surpresa pra você. Prometo não decepcioná-los.
– Hum, sei — Violetta cruzou os braços. Neste momento, ouvimos a voz de German gritando meu nome lá de cima. — Ele tá te chamando!
– Eu ouvi — fiz careta — Não sabe viver sem mim — soltei uma risada e me levantei da mesa — Já venho, princesa — então me dirigi até as escadas.
Subi quase correndo e entrei no quarto dele. Me deparei com um German já arrumadinho, com os cabelos úmidos pós-banho. Ele me olhou, com um sorriso sacana no rosto. Franzi a testa e me aproximei.
– Me chamou?
– Quero saber por que me abandonou aqui! Que tipo de noiva é você? — German exclamou.
– Ô, tadinho. Eu pensei que você ia demorar, amor — falei em um tom carinhoso e risonho ao mesmo tempo. Cheguei perto dele e o abracei pelo pescoço.
– Agora por isso você vai ter um castigo — respondeu. Olhei confusa para seu rosto e percebi o sorriso de lado em seus lábios.
– Quê? — mal deu tempo de processar a informação, German já se afastou de mim, pegou o desodorante que estava sobre a cômoda, e o espirrou em minha direção. — EI!
Ele começou a rir.
– Vai ser assim? Foi pra isso que me chamou?! — fiz cara de indignada, abandando o ar em frente ao meu rosto para tirar o cheiro de desodorante masculino da minha cara.
– Sim, quero demonstrar minha insatisfação! — German falava de uma maneira tão engraçada e infantil que eu quis entrar em seu jogo. Sorri.
– Ah, se é assim... — dei dois passos cautelosos para perto da cama, enquanto ele me acompanhava com o olhar. Então, num movimento rápido, peguei o meu tubo de desodorante que havia deixado ali e o espirrei em sua direção.
– Angeles! — o homem não esperava, por isso arregalou os olhos e sacudiu a cabeça, pois a fumaça branca foi direto para suas narinas. Soltei uma gargalhada. — Desculpe, mas agora você acabou de declarar guerra! — ele exclamou, risonho, e começou a espirrar mais do seu desodorante em mim.
Eu também estava armada, e fiz o mesmo enquanto ao mesmo tempo tentava desviar do dele. Uma guerra de desodorante se instalou ali, deixando o ar do quarto completamente branco e quase impossível de se respirar. O cheiro era um misto de aerosol feminino e masculino, que juntos não ficavam nada agradável. Mas, ignorando esses fatos, eu e German morríamos de rir e não parávamos com a guerra de jeito nenhum. Ninguém queria se render. Assim, ele começou a correr atrás de mim, enquanto com um braço eu tentava me defender e com o outro espirrava o meu desodorante em sua cara.
– AI MEU OLHO, SUA LOUCA! — German gritava. Eu ria muito.
– Calado! Você está em vantagem! — gritei e subi na cama, ficando de pé nela. Ele sorriu e fez o mesmo. — Sai daqui! — apertava o botão do tubo ainda mais forte, para que saísse ainda mais do produto e assim German ficaria com o cheiro ainda mais forte de mulher.
– Agora você vai ver! — ele espirrou seu desodorante masculino na minha blusa, que ficou toda branca. Bufei.
– Ridículoooo! — indignada, pulei em suas costas, o que nos fez cairmos primeiro na cama e depois quicar ao chão. Soltávamos ainda mais risadas, e nesse meio tempo, consegui arrancar o tubo dele de suas mãos. — AHÁ, parece que o jogo virou! — saí de cima de seu corpo no chão e me posicionei, agora armada com as duas mãos.
– Isso não vale! — gritou igual a uma criança, se levantando e erguendo os braços.
– Vale sim! — tossi, porque o ar me faltava naquele ambiente. Eu mal enxergava German por causa da fumaça. — Um bom guerreiro não se prende a armas! — soltei uma risadinha.
– Ah, é? — o homem sorriu, parecendo pensar em algo. Então, antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, já voltei a espirrar os desodorantes nele. Eu me acabava de rir enquanto via suas caretas.
– VOCÊ SABE QUE EU TE AMO? — gritei no meio dos ruídos que o espirrar do produto fazia.
– Eu estou percebendo! — German gritou de volta. De repente, se aproximou de mim com rapidez, segurando meus dois pulsos e me empurrando até que eu fosse encostada na parede. — Ahá, te encurralei.
– EI, ME SOLTA! — tentava espirrar mais dos desodorantes nele, mas suas mãos segurando meus braços me impediam. — Isso não vale!
– Um bom guerreiro não se prende a suas armas. — ele mordeu os lábios, sorrindo grande. Em seguida, segurou minha cintura e juntou sua boca na minha.
Eu tinha certeza de que nossa guerra terminaria nisto. Se não terminasse, seria incompleta. Sorri entre o beijo, eu simplesmente amava o nosso jeito de amar e sermos melhores amigos ao mesmo tempo. Inclusive, foi justamente pelo fato de também sermos melhores amigos, que eu tive que zoá-lo apenas mais uma vez. Portanto, agora com os braços livres, ergui-os e espirrei os dois desodorantes em seu pescoço, no meio do beijo. German se afastou de mim, respirando fundo com sua cara de bravo. Observando sua reação, não consegui conter a risada.
– Estou começando a achar seriamente que você não gosta dos meus beijos, porque sempre dá um jeito de interromper todos eles. — ele bufou, enquanto eu ainda sorria sacana.
– É que ainda estou decidindo se amo mais te beijar ou te irritar — fiz carinho no seu nariz com o meu.
– E depois eu que sou o implicante, né, gatinha? — German sorriu de um jeito safado e apaixonado ao mesmo tempo. Então, tirou os dois desodorantes de minhas mãos, deixou-os de lado e me puxou para perto tão rápido que eu soltei um gritinho de susto. Não tive tempo de pestanejar, pois os lábios de meu noivo já haviam capturado os meus novamente.
Este beijo foi infinitamente mais gostoso. A parte amiga irritante dentro de mim se escondeu e sobrou apenas a Angie apaixonada. Eu sei que era costume eu me fazer de difícil, mas hoje minha vontade era de beijá-lo para sempre mesmo. Ainda mais agora, que o momento estava intenso. Poucos segundos depois, German me tirou da parede, abraçando-me e caminhando comigo pelo quarto até cairmos juntos na cama. Ele ficou por cima de mim.
– Hum — German se afastou um pouquinho. Soltei uma risada baixa, abrindo os olhos.
– Quê? — o encarei, sorridente.
– Não sei descrever o quanto eu amo esse beijinho doce — ele mordeu minha boca. Então, apoiou um antebraço de cada lado meu, para diminuir o peso em cima de mim. — Me arrependo de todas as vezes que eu quis te beijar e não o fiz.
Sorri. — E que tal compensarmos todo o tempo perdido? — acariciei seu cabelo.
– Uau, essa foi a melhor ideia que você já teve — rimos juntos. — Vamos lá. Este aqui vai ser pela vez em que eu quis te beijar no carro, e você me deu um fora — então, meu noivo me deu um beijo tão tranquilo e doce que chegava a ser tímido. Sorri, correspondendo da melhor forma.
– Argh, por que eu virei o rosto naquele dia mesmo? — murmurei sem abrir os olhos, extasiada com a delicadeza daquele beijo. Senti-o sorrir.
– Agora é pela vez que você limpou a maçã caramelada de meus lábios — dessa vez o beijo foi um pouco mais desesperado, proporcionando-me um formigamento gostoso na boca, como se aquele tivesse sido realmente o nosso primeiro beijo.
– Achei que eu tinha sido a única a querer te beijar naquele dia — sussurrei, sentindo o polegar de German acariciar minha bochecha.
– Shhh, deixe-me continuar. — beijou meu queixo. — Pela vez que estávamos na cozinha de madrugada, e a Violetta nos interrompeu — então ele me beijou longamente, porém meio receoso. Eu estava percebendo que seus beijos estavam propositalmente carregando as sensações que estávamos sentindo naqueles dias. Eu estava ficando sem fôlego de tão forte que meu coração batia. — Pela vez em que eu fingi desmaio na cozinha — German me beijou sorrindo, de uma forma um tanto profunda. Se eu soubesse que ele me daria um beijo assim, eu juro que teria aceitado na época. Juro. — Pela vez que você disse que me amava minutos antes do meu casamento com a Jade — ele deu um risinho, e me beijou rapidamente. Quer dizer, dessa vez foram vários beijos.
O que estava acontecendo dentro de mim? Eu estava em estado de êxtase total. Toda vez que German pronunciava aquelas palavras e depois me beijava exatamente do jeito que ele me beijaria na época, era como se minha mente voltasse no tempo e eu realmente revivesse aqueles momentos, mas agora com outro desfecho. O jeito que German estava me beijando ali era exatamente como nos sentíamos em cada situação. Por isso, eu estava paralisada naquela cama, sentindo aquele corpo em cima de mim indo e vindo com seus lábios, enquanto eu apenas correspondia da mesma forma que o beijo vinha.
– Pelo dia que o Leon estava aqui em casa e você derrubou a bandeja — me deu um beijo bobo, quase infantil. Mas carinhoso. — Pela vez que eu estava indo embora com a Vilu para o Qatar e você foi se despedir — German realmente me beijou como se estivesse se despedindo de mim: foi um beijo longo, suave, e que expressava que sentiria saudade a cada toque de nossos lábios. Meu braço arrepiou. — Pelo dia do meu aniversário no boliche — ele me deu um beijo tão curto que parecia até que era proibido. Mas então me lembrei que ele estava casado. De fato, era proibido. — E este vai para aquela vez que você entrou sem permissão na mansão depois de termos brigado, quando eu descobri sua verdadeira identidade. — German falou divertido, e para minha surpresa, me deu um selinho.
– Ei! — soltei uma risada, abrindo os olhos. O homem logo me acompanhou, também rindo. — Eu tenho certeza de que você não queria me dar só um selinho naquele dia!
– Claro que queria, eu estava bravo com você — ele ergueu as sobrancelhas. Fiz cara de quem duvidava.
– Você estava louco por mim, só foi covarde. — dei a língua.
– Tem razão. — German sorriu, sapeca. — O beijo que eu realmente te daria seria este. — ele disse, então juntou nossos lábios da maneira mais forte e intensa que conseguiu, já aprofundando o beijo no mesmo segundo, aumentando o calor e a intensidade. Paixão, desespero, excitação. Esse foi o mais longo e o mais fervoroso de todos. German me pressionava na cama e, quando me dei conta, suas mãos já estavam subindo a minha blusa. O afastei e comecei a rir descontroladamente.
– Seu safado! Duvido que você teria começado a tirar minha roupa naquele dia!
– Eu não teria — ele sorriu. — acabei confundindo as datas, é que hoje em dia eu também estou louco por ti.
Ri baixinho. — Oh, que lindo. — suspirei, enquanto ele saía de cima de mim e me puxava para ficarmos em pé juntos. — Amo você. — o abracei.
– Eu também te amo, loira — German correspondeu com força o meu abraço, e beijou minha cabeça. — Agora vamos tomar café.
Assenti com um sorriso e assim saímos do quarto, abraçados e sorridentes. Eu costumava abraçá-lo e sentir seu cheiro embriagante, mas em vez disso, hoje eu estava sentindo o perfume do meu desodorante impregnado em sua camisa. Soltei uma risada, balançando a cabeça, e o soltei quando terminamos de descer a escada.
– Bom dia, pai — Vilu se levantou da mesa depois de tomar o café. Eu voltei para o meu lugar, onde havia uma torrada comida pela metade.
– Bom dia, meu amor — German foi dar um beijo no rosto de sua filha, mas quando ele se aproximou, a menina fez uma cara estranha.
– Que cheiro forte é este? — ela inspirou o ar com força. — Derrubaram um vidro de perfume em cima de vocês?
Eu e German trocamos um olhar e caímos na risada.
– Culpa dele! — ergui os braços, demonstrando inocência.
– Você provocou! — o homem retrucou. De relance, vi minha sobrinha rolar os olhos.
– Vocês não têm jeito mesmo — ela riu, e então foi pra cozinha. Eu e meu noivo rimos mais uma vez e nos sentamos para terminar de comer.
XX
– DOIS MESES? — mordi os lábios, desesperada. Era início da tarde, tínhamos almoçado na mansão e agora German tinha acabado de me deixar em casa, com as malas e tudo o que eu trouxe de Sevilla. Estávamos na porta de meu sobrado quando ele disse que queria que nos casássemos daqui dois meses. — Meu Deus!
– Qual o problema?! — ele não entendeu.
– É muito pouco tempo para eu arrumar sua surpresa! — fiz bico. German ergueu as sobrancelhas, curioso.
– Que surpresa?
– Ué — rolei os olhos — É surpresa, não vou contar. Estou preparando algo pra você para o dia do casamento. E dois meses é pouco!
– Se dois meses é pouco, que tipo de surpresa é essa, então?! — o homem exclamou, indignado.
– Sem dicas. Preciso de três meses. — cruzei os braços. Ele soltou um suspiro.
– Quem sou eu pra te negar alguma coisa? — German se aproximou e me deu um selinho. Sorri, vitoriosa. Não esperava que ele fosse ceder a mais um mês inteiro de espera. — Três meses.
– Ótimo. Três meses. — dei saltinhos. — Temos que preparar os convites, agendar com a igreja, alugar um salão de festas...
– Eu sei, meu amor — German riu. — Vamos fazer tudo isso juntos. Vai ser o casamento dos seus sonhos.
– Dos meus sonhos? — meus olhos brilharam feito os de uma criança. Eu sonho com meu casamento desde muito pequena, sempre foi o evento mais especial da minha vida. Creio que foi agora que a minha ficha caiu de que esse evento estava bem ali diante de meus olhos, a três meses de distância. Meu coração palpitou mais forte.
– Sim, senhorita — German sorriu ao me ver tão emocionada — Um casamento de princesa.
– Oh, meu Deus — pulei nos braços de meu noivo, o abraçando com força. — Eu imagino esse dia desde sempre. Todos os detalhes. É como se o meu maior sonho estivesse se realizando.
– Não é como se fosse, de fato é seu sonho se realizando, Angie! — ele sorria.
– Não é de fato — minhas bochechas rosaram — Eu sonhava com meu casamento quando eu era pequena. Hoje eu sonho com meu noivo, o casamento é tipo um bônus — soltei uma risada tímida.
– O que deu em você que você decidiu ser fofa hoje? — German riu também.
– Quê?! — exclamei — Fofa, eu? Que nada, para com isso. Eu sou durona. — respondi, me fingindo de insensível. Em seguida, dei um pisão proposital em seu pé. — Ta vendo?
– Nossa, como doeu — ele rolou os olhos, se aproximando para beijar meu queixo. — Deixa essas malas aí, vai, vamos dar uma volta pela cidade — pediu, meigo.
– Proposta tentadora — mordi os lábios. — Ta bom, vai. — empurrei as malas pra dentro e fechei a porta da minha casa. — Vamos.
– Essa é minha garota — German riu, pegando minha mão e me puxando pra rua. — Quero que me conte sobre seu sonho de casar.
– Ah, é uma longa história. Tenho uma prima que se casou quando eu era criança, eu devia ter uns cinco anos. Fui daminha de honra, e foi uma experiência incrível para mim. O casamento foi maravilhoso, a comida, a decoração, os trajes das pessoas, as músicas... — suspirei. Andávamos de mãos dadas pela calçada. — Desde então comecei a imaginar como seria minha vez. Acho que toda mulher pensa assim. Você vai a incontáveis casamentos durante toda a vida, apenas aguardando quando será o seu. Você está no banco da igreja vendo a noiva entrar, e pensa como se sentirá no lugar dela quando sua vez chegar. Você vê os votos dos noivos e suspira, pensando em como será o seu, no dia em que ele chegar. É engraçado, mas quando sua vez realmente chega você nem acredita. A gente costuma duvidar quando a vida está com mais cara de sonho do que de pesadelo.
– Eu concordo, e quando você se dá conta de que não é sonho e sim realidade, a sensação que sentimos é gratificante — o homem sorriu. — Como você sonhava que seria o seu casamento?
Sorri, pensando. — Era quase um casamento de princesa. Sempre me imaginei em um vestido justo até a cintura, mas que depois era tão rodado que era até difícil de andar. Eu entrava por um tapete vermelho na igreja, e havia rosas brancas e azuis como decoração, além de velas também. O local da festa era ao ar livre, e tinha mesas brancas com vasos gigantes de flores e outros enfeites. A comida era um banquete, nada muito sofisticado, mas tudo delicioso. Tinha valsa na festa, e tocava a mesma música que meus pais dançaram no casamento deles. Ah, aquela música...
– Qual música que era? — chegamos na mansão, mas não entramos. German me guiou para o carro, onde abriu a porta para que eu entrasse, e assim começamos a rumar para algum lugar que eu não sabia onde era.
– Eu não me lembro o nome — suspirei. — Sempre quis lembrar. Era linda, Ge — o olhei. — Eu assistia a fita que gravaram do casamento deles e aquela música sempre me fazia chorar. Eu amava imitar os passos de mamãe na frente da televisão — abri um sorriso pequeno. — Mas eu nem sei mais onde essa fita está. Não tenho como saber qual o nome da música.
– Sinto muito, meu amor — ele segurou minha coxa, enquanto com a outra mão segurava o volante, que nos guiava para ruas em que eu nunca havia estado.
– Para onde estamos indo? — olhei pela janela do carro, tentando reconhecer o ambiente.
– Surpresa. Continue falando — German sorriu. Dei de ombros e voltei ao assunto.
– Bom, eu também sonhava com muitos detalhes. Gosto de fontes de água, acho lindo, e é uma decoração que me encanta. Ah, sei lá, pensei em muitas coisas. Pra que você quer saber? — o olhei.
– Curiosidade — respondeu, buscando minha mão esquerda para segurá-la.
– German Castillo e suas manias de não segurar o volante com as duas mãos... — balancei a cabeça, rindo.
– Eu não preciso das duas mãos, sou um homem super dotado. Quer ver? — ele disse, todo empolgado, e então começou a fazer movimentos bruscos com o carro para lá e para cá, como um zigue-zague na pista.
– GERMAN! Cuidado, pelo amor de Deus! — gritei, soltando sua mão. O homem soltou uma risada alta ao meu lado. Bufei. — Não tem graça! Dirige direito!
– Posso deixar mais radical, se quiser — ele continuava dirigindo com uma só mão e em zigue-zague na pista, quase batendo nos postes e desviando no último segundo só para me assustar.
– Meu Deus, você é louco! Para com isso! — eu estava realmente assustada. Quem em sã consciência arrisca brincar no trânsito assim? — Ge! — fiz voz de choro.
– Calma, meu amor — German ainda ria, mas agora voltara a dirigir normalmente. — Eu tenho controle do que estou fazendo. Não ousaria nem brincar se eu enxergasse algum risco pra você. — me olhou, carinhoso. Rolei os olhos.
– O volante poderia ter escapado! — gritei, um tanto nervosa. Então comecei a estapear seu braço. — Você podia ter perdido o controle e batido no poste! E se o pé escorregasse do pedal? Nunca mais faça isso! — continuei batendo nele, brava.
– Angie, calma! — German parou o carro no acostamento e me olhou. — Calma, respira. Eu só queria te zoar, era brincadeira. Prometo não fazer de novo. Me desculpa? — suspirou.
Comprimi os lábios, respirando fundo. Eu não podia rir, mas acabei não me contendo. A risada escapou altamente.
– Ai, seu bobo! Te enganei, não estou brava — continuei rindo, agora analisando a cara de confuso de meu noivo.
– Angeles, shhh, calada você fica mais bonita — ele retrucou, caindo em si e parecendo chateado. Sorri, me aproximando e depositando um beijo em seus lábios.
– Mas eu me assustei de verdade, então não faça mais isso — sussurrei contra sua boca.
– Pode deixar — German me deu um selinho. — Vamos? Chegamos. — abriu a porta do carro para sairmos.
– Onde estamos? — desci do banco e olhei ao redor. Era um bairro afastado de Buenos Aires, haviam muitas casas antigas e nenhum prédio.
– A época da minha vida em que morei em Buenos Aires foi aqui. — o homem inspirou o ar com vontade ao meu lado. — Nem sempre tive muito dinheiro. Eu nasci aqui, meu amor. — German se aproximou de mim e segurou minha mão.
– Sério? Caramba, Ge! Olha, que lugar lindo — olhei ao redor. Eu não estava mentindo. Não era um bairro comum. Era bem simples, claramente de uma classe social mais baixa, porém era um local bem cuidado e com um ar extremamente aconchegante. — Esse ambiente é tão acolhedor. — sorri, encantada.
– Como eu te disse ontem, não fiquei muito tempo aqui. Mas eu me lembro bem do que passei neste lugar. — começamos a andar de mãos dadas pela rua tranquila. — Eu morava naquela casa ali — ele apontou para um sobrado azul claro no outro lado da calçada, arrumadinho e em bom estado. — Ela não era muito grande, mas para nós quatro era perfeita.
– Eu posso até imaginar o que é ver um mini German correndo por aquele jardim — sorri grandiosamente. Era realmente uma cena terna de se imaginar.
– Foi uma época maravilhosa. Quem diria que aquele German se tornaria o meu Eu. — riu baixo. O encarei, confusa.
– Em que sentido diz isso? — indaguei.
– Ué, Angie, eu era uma criança feliz e hiperativa, hoje eu sou um grosso, insensível e introvertido.
– Não comigo. — retruquei. — German, você é um homem incrível. Mesmo quem não tem contato com seu jeito mais íntimo de ser consegue perceber isso.
– Quem disse? — ele me olhou. Abri um sorriso.
– Quando você me levou àquela festa da empresa... as meninas falaram muito bem de você pra mim, mesmo te conhecendo tão pouco. As pessoas percebem o carisma bondoso que você carrega no peito.
– E depois eu fico me perguntando por que eu te amo tanto — soltou um riso abafado. — Bem, eu não sabia disso. Você é minha luz, mulher. Obrigado por tudo. E por vir aqui comigo. Tudo bem que você não sabia, mas eu tenho certeza de que se eu te dissesse antes você viria.
– Claro que viria — mordi os lábios. — Dá até vontade de morar aqui — soltei um risinho quando duas crianças passaram correndo pela gente. — Viu! Eles brincam na rua sem nenhum problema!
– Eles se chamam Beatrice e Jorge — German disse, olhando as crianças. — São filhos de meu ex-vizinho Lorenzo. Ele tem a minha idade, e desde criança somos amigos. Ele nunca se mudou, mora naquela casa amarelinha ao lado da que eu morava desde sempre. Todos aqui na rua me conhecem desde a infância, na verdade. Aqui eles não costumam se mudar muito. Inclusive, a senhora que está morando na minha antiga casa era madrinha de minha mãe.
– Uhhh, então vocês são como uma família gigante? — meu sorriso não tinha mais como aumentar. Eu amava aquilo.
– Tipo isso — meu noivo riu. — Quero te mostrar algo, mas antes, vamos fazer uma visita à Luce. — fui puxada por ele até o pequeno portão que dava para o sobrado azul. German tocou a campainha e instantes depois uma senhorinha de cabelos bem brancos apareceu para abrir pra gente. Quando ela viu German, seus olhos brilharam e ela até largou a bengala para correr até ele.
– Meu garotinho! — Luce exclamou, abraçando-o. — Você está forte! Há quanto tempo não vem me visitar, hein? — ela sorria.
– Boa tarde, Luce! Já fazem uns meses mesmo... — German foi carinhoso com a velhinha. Sorri com ternura. Percebi que ela significava muito para ele e vice-versa. — Esta é Angie, minha noiva. — me apresentou.
– Prazer em conhecê-la, senhora Luce — sorri, graciosa. A mulher arregalou os olhos para mim.
– Uau, que moça mais linda! Muito prazer, Angie! — ela exclamou, beijando meu rosto e fazendo minhas bochechas rosarem. — Vocês vão se casar? Ô, mas você é muito sortuda, Angie! German é um homem e tanto!
Mordi os lábios, olhando para ele. — Eu não tenho dúvidas disso. — apertei sua mão.
– Ei, que tal entrarmos? — o homem ao meu lado sugeriu, com vergonha.
– Mas é claro, German, por que não disse antes? Vamos, vamos! — Luce puxou-nos até a entrada da casa. Havia dois degraus para chegar à porta, e isso me preocupou imediatamente.
– A senhora precisa de ajuda para subir?! — exclamei, logo segurando o braço dela para servir de apoio.
– Oh, Angie, você é um amor — Luce sorriu. — Mas não me chame de senhora! Faz eu me sentir velha demais.
Franzi a testa e soltei uma risada. — Ué, mas quantos anos a senh.. você tem? — me corrigi.
– Este ano completo setenta e oito! — respondeu animada. German sorriu ao meu lado.
– Precisamos dar uma festa de oitenta para você, hein, Luce — ele a segurou pelo outro braço e assim nós dois a ajudamos a subir os degraus.
– Nem pense nisso, garoto! — a velha riu. — Você me vem com cada uma... — ela entrou na casa e nós a acompanhamos. — Querem um café, um chá?
Olhei para German, deixando claro que para mim tanto faz.
– Aceitamos — ele respondeu e me lançou uma piscadinha. Sorri em retorno. Então olhei ao redor. A casa cheirava a bolo de chocolate com café. A televisão era daquelas antigas. O piso era de madeira e a escada também. Era tão simples e tão amável. Não conseguia acreditar que aquele foi o lar de German um dia.
Luce se dirigiu à cozinha para preparar o café, e eu fiquei sozinha com meu noivo na sala.
– Eu amo essa casa — desabafei. German riu.
– Significa muito pra mim. — o homem me abraçou. — Luce é como uma segunda mãe. Ela me viu crescer e sempre cuidou de mim. Ela é um anjo, meu amor. Vive aqui e cuida da casa como se uma parte de minha mãe estivesse impregnada nas paredes. Cuida do jardim de meu pai e sempre foi muito caridosa.
– Luce é encantadora só pelo sorriso dela. — sorri grande. — Mas e essa escada? Não é perigoso para ela? — fiz careta, analisando degrau por degrau.
– Eu também acho — German suspirou. — Mas ela insiste em deixar do jeito que está. É teimosa.
– Poxa — fiz bico. — Ela já caiu alguma vez?
– Não, graças a Deus. Mas sei que não podemos ficar arriscando. Logo logo vou tomar providências com essa escada.
– Faça isso. — concordei.
Luce voltou para a sala com um bule e uma bandeja com bolo. Corri para ajudá-la a deixar as coisas na mesa de jantar.
– Angie, você é uma pessoa amável! — a senhora sorriu quando terminamos de arrumar a mesa. — German também é um sortudo nessa história toda! Me diz que ele foi um homem romântico com você, vai? Que ele te pediu em casamento igual um homem de verdade e que sempre te tratou como princesa, do jeito que eu ensinei!
German lançou um olhar fuzilador para Luce, o que me fez rir alto.
– Bom, ele foi bem chato em uma certa fase da nossa relação, mas depois que isso passou German sempre me tratou igual uma princesa mesmo. Você ensinou direitinho, Luce! — puxei a cadeira para ela se sentar e em seguida sentei-me na minha.
– Vocês vão ficar falando de mim mesmo? — German fez careta, sentando-se também e pegando duas xícaras, para servir a ele e a mim.
– É que a gente te ama, lindinho — estiquei o braço e apertei sua bochecha. Luce riu ao meu lado.
– German! Você encontrou a mulher a sua altura! Estou muito feliz por vocês. — ela tomou um gole de seu café.
– Queremos que você vá no casamento, Luce — ele colocou café para a gente e pegou um pedaço de bolo para comer.
– Ah, mas é óbvio que eu vou! Não perco por nada — ela respondeu, tão alegre que parecia que iria explodir.
Sorri realizada. Luce era uma mulher e tanto, e que inclusive fazia o melhor café do mundo. Ficamos muito tempo ali, conversando e comendo os três juntos. Foi apenas um dia, mas eu criei um carinho profundo e imenso por Luce naquele momento. Quando saímos, já era fim da tarde. O céu estava meio rosado e meio laranja pelo o pôr-do-sol. Achei que já iríamos para casa, quando German me puxou pela mão para irmos em outra direção.
– Lembra que eu queria te mostrar algo? — ele sorriu.
– Ah, tinha me esquecido — entrelacei nossos dedos. — Vamos, então. Mostre-me. — sorri.
German me levou até o final da rua, onde já não havia mais casas, e sim um grande campo aberto com as gramas extremamente verdes.
– Meu pai e minha mãe sempre traziam eu e Tiago aqui para brincar. — ele começou. — Até hoje as crianças e famílias vêm passar um tempo juntos aqui. Mas como é dia de semana e o pessoal está trabalhando, o campo hoje é só nosso. — sorriu para mim e me puxou para o campo.
Ali era como o alto de um morro. Você só via o sol se pondo e uma Buenos Aires no fundo. Aquele era literalmente um bairro mais rural e afastado. A sensação de estar ali era inexplicável, principalmente com German e uma paisagem tão linda dessas ao meu lado.
– Meu Deus, Ge — quis chorar de tanta emoção — Você nunca vai deixar de me surpreender, não é? — suspirei, aninhando meu corpo ao dele em um abraço.
– Nunca. Eu vou te fazer feliz até o último dia de nossas vidas. — German ergueu meu rosto e me deu um beijo suave e apaixonado, sem pressa nenhuma, com os raios solares atravessando nossos corpos e formando uma linda silhueta nossa. — E tem mais — ele riu após o beijo.
– Hum, o que é? — sorri sem me afastar. Então, meu noivo apontou para um lugar meio distante atrás de mim.
Forcei a vista mas consegui enxergar. Era um jardim imenso de flores. Meus olhos brilharam e eu saí correndo até lá, puxando German junto comigo. Ele ria enquanto me acompanhava.
– Aaaaaahhh, que coisa mais linda! — ajoelhei-me no chão, contemplando as flores de diversos tipos e cores.
– Especialmente essa — German arrancou uma das milhares rosas brancas do chão e me entregou, fazendo uma reverência. — A flor do casamento dos seus sonhos.
– Você é o melhor do mundo — sorri grande, peguei a flor e me joguei deitada na grama. Cheirei-a e soltei o suspiro mais feliz que já soltei em toda a vida. No instante seguinte ele se deitou ao meu lado, me puxou para seus braços e daquele jeito ficamos até que escurecesse. Não trocamos muitas palavras, mas só de estar ali com ele tudo já estava dito.
XX
Pov Off
Quando German chegou em casa naquele início de noite, após deixar Angeles em sua casa, ele não pensou em outra coisa além de sair correndo para o quarto de Maria. Sempre que entrava lá era para pensar ou quando estava com saudades, mas dessa vez foi por um motivo totalmente diferente. Desde que deixou Angie em sua casa, veio pensando sobre o casamento e como queria que fosse do jeito que ela sonhou. Mas para que isso acontecesse ele precisava de algo importante, que tinha quase certeza de que encontraria naquele quarto.
Pegou um banquinho para subir e alcançar a parte de cima do armário do quarto, onde ninguém mexia. Tirou várias caixas de lá e espalhou-as pelo chão. Procurava por um objeto específico. Uma fita cassete do aniversário de casamento da mãe de Angeles.
– Papai, está tudo bem? — Violetta apareceu ali, confusa — Passou correndo por todo mundo aqui em casa e não falou com ninguém. O que está procurando aí?
– Vilu, é que Angie me disse que tem um sonho. — German virou-se para filha e sorriu. — E eu farei questão de torná-lo real.
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