Notas iniciais
OI PRA QUEM TAVA MORTA E RESSUSCITOUUUUUUUUU KKKKKKKK socorro cara nem acredito que to aqui depois desse milênio todo. Gals, decidi terminar a história depois de tanto tempo por motivos de: muita gente pediu. E é isso. mas olhem, recomendo dar aquela relida nos caps anteriores porque mano, tem muita referência que talvez voces nao lembrem, então é uma boa fazer isso kkkkkkk ok mores, isso não saiu como eu esperava que seria, e quando eu vi a quantidade de palavras eu simplesmente falei: cara, eu to com muita preguiça de revisar isso. Então porfa não liguem pros errossssss beijus

German adentrou lentamente o quarto escuro e silencioso de sua noiva, fazendo todo o esforço possível para não acordá-la. Em vão, pode-se dizer. Assim que chegou perto da cama, tropeçou em um sapato no chão e bateu o joelho na cômoda, fazendo com que ela balançasse e pilhas de livros e outros objetos barulhentos fossem ao chão. Angeles acordou assustada, e começou a gritar, afinal, a escuridão a impedia de ver quem estava em seu quarto em plena 3h da madrugada.

— AAAA, QUEM É VOCÊ? EU VOU CHAMAR A POLÍCIA! – a mulher, aterrorizada, tentou encontrar seu abajur para acendê-lo, mas este também tinha ido ao chão com as outras coisas.

— ANGIE, AMOR, SOU EU, CALMA! – German finalmente se manifestou, tentando acalmá-la. Angeles parou por alguns segundos e sua vista se acostumou com a falta de iluminação. Agora que pode enfim enxergar a silhueta de seu noivo, não tinha como ter dúvidas de que era realmente ele.

— Meu Deus, German! – ela soltou o ar que prendia. – Você está louco? O que estava pensando? E o que está fazendo aqui uma hora dessas?

— Desculpe, meu amor. – ele se sentou na cama e a abraçou. – Não quis te assustar. É que não consegui dormir, estou ansioso para amanhã.

— Hoje, no caso.

— É, hoje. – ele sorriu sem graça, olhando o relógio do celular.

— E você veio até aqui na esperança de...? – Angie continuou. Seu tom parecia irritado.

— Dormir aconchegado com você. Espero que não esteja brava. Na verdade, você é mais ansiosa que eu, então imaginei que você também estivesse com problemas para pegar no sono.

Angie esticou o braço e pegou na cômoda ao lado da cama uma das poucas coisas que não foram ao chão, uma cartela de pílulas para dormir. Então, mostrou-as ao seu noivo.

— Ah, entendi. – German murmurou.

— Não estou brava – ela suspirou. – É que você me assustou. E estou com sono. Acostume-se, se iremos acordar juntos todos os dias das nossas vidas daqui pra frente você precisa saber que eu posso acordar de muito mau humor às vezes. Logo melhora.

O homem sorriu, beijando-a suavemente.

— Hm. O que posso fazer para que melhore mais rápido? – ele puxou-a para si, deitando-se com ela em seu peito.

— Carinho é uma boa. – a mulher murmurou, se aninhando mais a seu noivo.

— Manhosa.

German atendeu o pedido do amor de sua vida, e então ali ficaram durante poucos instantes. Ele fazia carinho e ela respirava tranquilamente em seu pescoço enquanto tinha o olhar fixo em algum canto do quarto. Achou que não veria mais German até o casamento, mas ali ele estava. Soltou uma risadinha quando percebeu o quanto ele era insistente, fazia questão de vê-la sempre. Em qualquer momento do dia. O homem nem perguntou o motivo do riso, já havia se acostumado com a Angeles enfiada em seus próprios pensamentos, que ria sozinha e nem percebia. Ele apenas sorriu. Percebeu que ela estava longe de pegar no sono de novo e imaginou o que poderia estar passando em sua cabeça.

Com tanta correria do casamento acontecendo, Angeles não teve a chance de parar e ficar pensando em tudo. E isso fazia falta. É quase como que da natureza feminina ficar pensando no que aconteceu, no que vai acontecer, no que pode ou não acontecer, no que está acontecendo... E Angeles passou tantos anos da sua vida tendo momentos de pensamentos negativos, que poder parar e pensar em uma vida tão feliz hoje era gratificante para ela. Ela tinha tudo. Ela tinha seu emprego dos sonhos, o seu homem dos sonhos, conhecia sua sobrinha, iria formar uma família... As reviravoltas da vida eram engraçadas aos olhos de Angeles. Em um segundo o mundo era cinza, no outro ele podia ser azul. Isso soava tão louco, mas no fundo era tão real. Ela tinha noção de que o mundo também podia ir de azul para cinza do dia para noite, mas aprendeu que no fim, essa era a beleza da coisa. E que nenhuma fase cinza era irreversível, nem nas piores das hipóteses, como por exemplo quando German perdeu Maria. Sua fase cinza parecia irreparável, afinal, ninguém descobriu ainda como trazer mortos de volta à vida. German viveu essa fase por tantos anos que de fato parecia interminável. Mas, olhe só agora. Ele era feliz de verdade. Angeles logicamente pensou o quão horrível seria perder German, e que eventualmente algum dos dois ia deixar o outro primeiro, mas aprendeu a valorizar o que ela já tinha em vez de viver com medo de perder.

A loira era, definitivamente, outra pessoa. E percebeu que foi a sua própria fase cinza que a trouxe tantos ensinamentos assim. No fim das contas, sempre é possível tirar coisas boas das ruins. Nada tinha que ser totalmente desastroso. Além disso, ela ainda poderia ajudar alguém que estiver passando por coisas semelhantes, afinal, ela iria entender o que a pessoa sentiria e a incentivaria a continuar lutando. Angeles não tinha dúvidas de que a melhor parte de uma vitória era poder ser testemunha para os outros que ainda não venceram de que, sim, era possível. Hoje, ela podia dizer: é possível sair do breu cinza. E era possível ter uma felicidade completa mesmo depois de ter pisado em tanta lama. A mulher sorriu com o pensamento, e se sentiu rapidamente inspirada com o seus votos de casamento que ainda não tinha escrito. German ainda não tinha dormido, pois sua mão continuava acariciando seu cabelo e suas costas, então ela tentou ser muito discreta em pegar seu celular e começar a digitar no bloco de notas.

— Ei. – ele riu.

— Opa. – ela bloqueou a tela rapidamente.

— Você está a mil anos luz de pregar os olhos, né? – German a apertou em seus braços.

— Você também. – a mulher deu a língua para o noivo. – Sua culpa. Eu estava dormindo feito um anjo até você chegar.

— Bom, eu admito. Por isso estava pensando em como fazer minha vinda compensar, e tive uma ideia. Que tal termos nossa última aventura como namorados juntos, tipo, agora?

— Primeiro, ficar assim com você já compensou para mim. Segundo, achei interessante. Que tipo de aventura? Fazer pipoca e contar histórias de terror no chão da sala? – Angie deu risada.

— Não, palhaça. Vamos sair. Fazer alguma coisa doida. Podemos invadir a minha empresa, lá no último andar tem uma parede de vidro que dá uma vista linda da cidade.

A loira caiu em gargalhadas com o jeito que German dizia, como se ele fosse algum tipo de adolescente rebelde que vive perigosamente.

— German, a empresa é sua. Não estaríamos invadindo. Você tem as chaves.

— Para de rir de mim! – agora, ele soava como uma criança.

— Desculpa, amor, mas você tentando bancar o badboy para me impressionar é a coisa mais fofa do universo. – Angeles encheu-o de beijinhos.

— Não era pra ser fofo. Era pra ser uma aventura. – cruzou os braços.

— Deixa eu te contar um segredo – ela ainda ria. – Eu sei que sou alguns anos mais nova que você, mas eu amo você do jeitinho que você é. Não precisa tentar ser igual os jovens retardados que se metem em diversos problemas sem sentido.

— Você é chata, não quero mais também. – German bancava o magoado.

— Ai, vamos lá. Tenho outra ideia então. – sua noiva se sentou na cama e virou-se de frente para ele, encarando-o em seguida. – Vamos até esse lugar legal da sua empresa. Mas antes acho que podemos invadir a cozinha da Olga e roubar alguns doces que ela fez para a festa do casamento.

— Ahhh, agora eu tô gostando. Podemos roubar também uma garrafa de vinho. – ele sorriu divertido.

— Ótima ideia! Acho que ninguém vai sentir falta de uma garrafa de vinho.

— A festa é nossa. Estamos pagando. A gente pode.

— Adorei. Vamos? – Angeles pulou da cama e estendeu as mãos para seu homem. Ele pegou-a e se levantou. Segurou a cintura da mulher e encostou seus narizes, fazendo-a sorrir.

— Te espero no carro enquanto você troca de roupa. – German sussurrou. A loira mordeu os lábios.

— Não! Irei assim.

— Mas você está de camisola! Muito sexy, por sinal. – o homem deu um sorriso safado.

— Guarde a testosterona para a noite de núpcias, querido. – ela o beijou rapidamente. – Vou de camisola para dar uma apimentada na aventura. Não tem ninguém na rua de madrugada mesmo, é só pra te provocar.

— Ahhh, gatinha. – ele puxou-a mais pra perto. – Agora está pegando pesado.

— É para te deixar ainda mais ansioso. Só vai poder olhar, mas só amanhã você terá. Essas são as regras. Está dentro ou acha que não dá conta? – Angie sorriu brincalhona.

— É lógico que estou dentro.

XX

German estacionou o carro na lateral da mansão, perto da porta que dava para a cozinha. Olga se manteve enfiada naquela cozinha durante todo o dia, preparando os docinhos para a festa. Não deixou que ninguém entrasse. German e Violetta até tiveram que ir almoçar em um restaurante. Mas agora, era hora. Olga tinha tomado posse de todas as chaves que davam algum tipo de acesso à cozinha, então, tecnicamente, eles estariam mesmo invadindo.

— Não acredito que deu suas chaves para ela. – Angie rolou os olhos, sussurrando ao sair do carro.

— Shhh. Olga é convincente. Você sabe. – German murmurou enquanto dava passos com cautela na grama, para não fazer muito barulho. – Esse é o quarto dela. – disse num tom quase inaudível enquanto apontava para uma janela no canto da parede externa.

— Certeza que não acha melhor entrar por dentro? – a loira acompanhou o tom e os passos de seu noivo, se mantendo distante da janela do quarto de Olga.

— Sim, a porta de dentro da cozinha está rangindo um tanto alto quando abre. E essa maçaneta é mais fácil de arrombar. – o homem chegou até a porta da cozinha e analisou a maçaneta. – Argh, está muito escuro aqui. Não enxergo nada.

— O alarme da mansão não vai disparar se você mexer nisso aí? – Angie indagou.

— Ah, quase me esqueci. – German imediatamente desativou o sistema de segurança da mansão pelo seu celular. – Estou oficialmente assaltando minha própria casa.

— Muito perigoso. – ela assentiu, e ambos riram um tanto mais alto do que deveriam.

— Você tem uma lanterna? – o homem questionou enquanto ainda encarava a maçaneta, sem saber muito como proceder.

— Serve a do celular? – Angeles estendeu seu celular enquanto ele aceitou-o. – Ge, você tem alguma mínima ideia de como abrir essa porta?

— Honestamente? Nenhuma. – admitiu, arrancando risadinhas de sua noiva. Ela tentava se conter, mas a situação estava um tanto engraçada. – Vai acordar a Violetta assim.

— Ai, meu Deus. – a mulher olhou para cima, diretamente para a janela de sua sobrinha no segundo andar. As luzes estavam apagadas. Suspirou em alívio. – Bom, acho que consigo abrir a porta.

— Já arrombou alguma coisa antes, minha querida noiva? Tem mais alguma coisa do tipo que eu deveria saber sobre você? – indagou German. A loira sorriu, tomando seu lugar em frente a porta.

— Você descobre com o tempo, amor. – ela deu uma piscadinha e tirou do cabelo um grampo. – Não é tão eficiente quanto um clipe de papel, mas deve funcionar. – Angeles se inclinou para tentar destrancar a porta com seu grampo. Enquanto isso, o homem não conseguiu evitar admirá-la com sua camisola, o que a desconcentrou.

— Sem pressa, princesa. – ele respondeu alegremente, fazendo-a rolar os olhos.

— Põe a luz aqui, retardado. – Angeles tentava moldar o grampo da melhor maneira, sempre colocando-o na fechadura e tentando obter algum sucesso. – Ah, não dá certo! Que droga. – bufou.

— Calma, amor, você mal começou a tentar. Está impaciente? – o homem riu baixinho.

— Estou nervosa. Vai que o dono da casa acorde e chame a polícia. – a loira mordeu os lábios, virando o rosto para o seu noivo. Ele sorriu ainda mais e quis entrar na brincadeira.

— Bom, aí teríamos um grande problema. Casaríamos na prisão. – German exclamou com cara assustada.

— É, na verdade, esse sempre foi meu sonho. Nunca contei para ninguém, mas... casar na prisão parece o tipo ideal de cerimônia para mim. – ela bancou a séria.

— Hum, eu sempre soube que você tinha um parafuso a menos. É um dos motivos por que me apaixonei. – o homem deu um beijinho na bochecha de Angie, arrancando uma risadinha dela.

— Já me perdi, estamos brincando ou falando sério?

German sorriu e puxou sua noiva pelo braço, gentilmente, fazendo-a encostar na parede da casa. Segurou na cintura da mulher e aproximou o rosto para beijá-la. Angeles apenas observou sem reclamar o que ele fazia, e então correspondeu o beijo com a mesma intensidade que seu noivo colocava. Ela só caiu em si quando sentiu o homem pegar na barra da camisola que vestia.

— Não, não, queridinho. Estamos é estamos nos distraindo. – ela mordeu a boca dele, e passou a língua pelos lábios de seu noivo suavemente.

— Culpa sua. Primeiro a camisola e agora fica de gracinha com essa língua. – German segurou a língua de Angie com as mãos. Ela quis rir, mas com ele a segurando ali não conseguiu.

— Solta! – balbuciou enquanto o homem puxava a língua dela de um lado ao outro. German não parecia ligar para o fato de sua mão estar fichando cheia de saliva.

— Está de castigo. – ele finalmente a soltou e roubou um selinho dela.

— Você está tirando meu foco! – exclamou a mulher, tentando ignorá-lo e voltar ao trabalho. – Esse é um trabalho que requere muita cautela.

A loira se esforçava para não olhá-lo, e prestar atenção na fechadura.

— Sinceramente, se ele olhasse bem pra você, acho que qualquer dono iria gostar de ser assalt...

— Consegui! — disse Angie, um tanto alto, interrompendo-o após finalmente abrir a cozinha.

— Shhh — ele a repreendeu, fazendo-a rolar os olhos. Então, entraram de fininho no ambiente e tentaram enxergar alguma coisa no meio da escuridão. — Não acredito que estamos realmente fazendo isso — German sussurrou.

Em seguida, o vento que vinha de fora fez com que a porta que eles deixaram aberta batesse, causando um barulho alto. Os dois se assustaram e gritaram.

— Meu Deus! O que foi isso? — a loira tentava se recompor.

— Ô, mais que merda, ela vai acordar — German murmurou baixinho.

— Tem certeza? Ela não tem um sono pesado? — Angeles murmurou no mesmo tom, demonstrando medo de ser pega por Olga, como se aquilo fosse realmente arruinar sua vida.

— Eu sei lá, nunca dormi com ela pra saber — o homem debochou.

— Nossa! Alguém com quem você não dormiu nesse mundo, que raro. — ela rebateu com a mesma moeda, colocando as mãos na cintura. German pode ver a cara torta de sua noiva, seus olhos já tinham se acostumado com a escuridão total. Então ele sorriu.

— Não é hora pra manha — ele a fez soltar uma mão de sua cintura e a puxou pra si.

Ela tentou se soltar. Ambos iriam começar uma lutinha de braço quando escutaram passos na lavanderia. Pararam imediatamente e se encararam, em desespero.

— Shiu, se esconde — German sussurrou e puxou Angeles para baixo da bancada que ficava no centro da cozinha, no lado oposto ao quarto de Olga. Ele tentou escondê-los ao máximo.

— Ei, não pensa que está salvo pelo gongo não, primeiro insinuou que dormiu com muitas mulheres e depois me chamou de manh... — vendo que Angie não iria parar de falar e que Olga devia entrar na cozinha a qualquer segundo, ele a beijou e calou sua boca.

German segurou os lábios de sua noiva com os seus por muito tempo, e a loira desistiu de lutar contra. Era um beijo parado, apenas para impedi-la de falar. Escutaram quando Olga chegou na cozinha e foi quando se soltaram. German fez um sinal para a mulher ficar quieta, e só restava esperar. Não viam nada, mas sabiam que Olga estava ali. A faxineira olhou para um lado, depois para o outro. Não viu nada. Por sorte também não acendeu a luz, devia estar sonolenta demais para tal. Todavia, quando ouviram que ela começara a dar passos pela cozinha, estremeceram. Estavam com os rostos muito perto um do outro, mas Angie teve dificuldade em enxergar quando German apontou para que fossem engatinhando até o outro lado da bancada, antes que Olga chegasse ao lado em que estavam. Quando entendeu o que ele quis dizer, ela assentiu.

Cuidadosamente, começaram a engatinhar, confiando nos sons que indicavam que Olga estava indo pelo outro lado, afinal, se estivesse indo pelo mesmo que eles, se trombariam. Enquanto escutavam que ela ainda dava passos, eles também não paravam de se mexer, até que finalmente deram uma volta inteira na bancada e pararam no ponto inicial. Olga parou de andar e suspirou. Angie respirava ofegante, torcendo para que a morena não escutasse. A loira sentia a adrenalina exercer efeito sobre seu corpo. Sabia que no fundo a situação era pura bobeira, mas estava se divertindo. Não se importava muito que fosse madrugada de seu casamento e que precisava descansar para o grande dia. Aquela estava sendo sua verdadeira despedida de solteira, junto com seu próprio noivo. Era sua última madrugada solteira. Quem gostaria de passá-la dormindo em vez de ter um pouquinho de aventura?

Angie olhou para German e flagrou seu olhar terno sobre ela. Mesmo seu nenhuma iluminação os olhos dele brilhavam, e naquele momento ela jurou que nunca ia querer se esquecer daquela imagem. Ele sorriu e ela desviou o olhar, sorrindo tímida. Sentia um frio na barriga. E estar ali, naquele chão gelado, de camisola, no escuro, e pertinho daquele homem por quem era apaixonada a fazia ficar ainda mais ansiosa. De repente, porém, o clima foi cortado por uma voz inesperada, e o casal escondido no chão se assustou no mesmo instante.

— Olga, meu amor, o que está fazendo de pé? — Ramalho dizia com uma voz mole, como quem também tinha acabado de levantar.

Angeles arregalou os olhos pra German. Queria muito dizer alguma coisa, mas se conteve. Como assim, Olga e Ramalho estavam juntos? Pela expressão que fizera, German também não parecia saber.

— Escutei um barulho vindo daqui, Ramalhinho. Vim verificar, achei muito estranho. Mas não tem nada. — Olga suspirou. O casal no chão segurou a risada, não sabendo se iam aguentar se esconder até que os de pé desistissem.

— Você está ansiosa para o casamento do senhor German e está sonhando coisas. Te prometo que não é nada. — falou de uma forma tão carinhosa que German estranhou, fazendo careta. A loira quis rir ainda mais, agora tendo que morder sua língua para se controlar.

— Ah, Ramalho, não sei... não acha que deveríamos chamar o senhor German para que ele cheque o sistema de segurança da casa? Pode estar falhando, e aí quero só ver. Hoje não é o dia ideal para ser roubado!

Como os noivos só tinham os rostos pra se expressar naquele momento, Angeles mais uma vez agarrou os olhos e começou a sacudir a cabeça. Sua carinha de desespero já indicava a péssima ideia que era aquela. German tentou acalmá-la, fazendo-a sentar em suas pernas e segurando seu rosto para que ela parasse de sacudi-lo. Se Olga fosse chamar German iria perceber que ele não estava lá. Por sorte Ramalho, mais sensato, interferiu.

— Olga, deixe o homem dormir... amanhã é o dia dele, ele não vai querer ser incomodado agora.

German e Angeles agradeceram Ramalho mentalmente. Eles ouviram Olga suspirar.

— Tudo bem, tudo bem. Vamos dormir então. — a mulher finalmente concordou, e então seguiu com Ramalho de volta ao quarto.

Quando o casal no chão da cozinha escutou os passos do outro casal se afastar completamente dali, e quando por fim escutaram o barulho da porta do quarto de Olga se fechar, soltaram um ar que nem sabiam que estavam prendendo. Angie riu baixinho.

— Não acredito!!! Ela não me disse que estavam juntos — a loira sussurrou, sem mudar de posição.

— Ele também não! Estão tentando disfarçar — o homem balançou a cabeça, feliz por seus amigos. — Não levante ainda, precisamos ter certeza que eles pegaram no sono de novo antes de fazer mais barulho. — ele continuou, agora levando suas mãos sobre o cabelo de sua noiva e a acarinhando.

— E quanto tempo isso vai demorar? — ela colocou os braços ao redor do pescoço de German. Ainda estava sentada em sua perna, e ele não parecia se incomodar.

— Talvez uns cinco minutos. Estavam sonolentos, provavelmente dormem rápido. — sussurrava.

— Que pena, pouquinho tempo. — Angie sussurrou mais perto do rosto de seu homem, tirando uma mão de seu pescoço e colocando-a no seu peitoral.

— Hm, tinha planos em ficar agarrada comigo no escuro e no chão gelado da cozinha? — o homem puxou-a para mais perto.

— Só queria te provocar um pouquinho. — ela sorriu de lado, abaixando uma das alcinhas de sua camisola. German já sentia o perfume de Angeles embriagá-lo e agora, com isso, sentiu seu corpo responder ainda mais. Ela riu baixinho ao perceber o volume na calça.

— Então quer dizer que não está mais bravinha pelo que eu disse antes da Olga aparecer?

— Na verdade, estou. Essa é minha revanche, pois você sabe que não irá rolar isso entre a gente esta noite — enrolou os dedos no cabelo dele, aproximando os rostos.

— Sinto muito estragar seu plano, mas eu não vou ficar aqui sofrendo de desejo não, engraçadinha. Posso ficar apenas te olhando por uma eternidade que para mim já seria o homem mais sortudo do mundo. — ele sorriu, colocando carinhosamente uma mecha do cabelo de sua noiva atrás da orelha dela. Angeles não esperava por um German terno naquele momento, e sim por um German que se corroía por dentro devido às provocações que ela fazia. Todavia, mesmo que não fosse o German esperado, ela se surpreendeu do tanto que gostou do modo como ele reagiu.

— Hm. — murmurou, olhando para os lábios do homem. — Guarde as palavras bonitas para os votos.

— Não consigo evitar — ele soltou uma risada baixa. — Você me inspi...

— Shhhh — ela segurou os lábios do homem, impedindo-o de terminar a frase. — Já estourou sua cota de palavras carinhosas por hoje. Deixa pra me fazer estremecer amanhã.

— Ahhh, parece que o jogo virou, então? Minhas palavras te fazem estremecer? — ele sussurrava. — Bom, parece que eu quem virei o provocador agora.

— Ai, German — Angie rolou os olhos, tentando fugir do assunto. — Só fica quietinho me olhando pela eternidade desses cinco minutos e depois saímos daqui. — ela concluiu, deitando então a cabeça nos ombros dele.

Durante longos instantes, então, German a olhava e acariciava seu ombro descoberto, seu braço ou até mesmo suas mãos. De repente a loira percebeu o quão melhor era aquela sensação do que a sensação de ficar provocando-o. Contudo, obviamente ela não admitiria isso alto. Gostava desse joguinho que brincavam desde o dia que se conheceram: ninguém admite nada, mas ambos sabem tudo. Aprenderam a demonstrar o amor de outras formas. Claro, havia momentos de um pouco de chamego e bajulação, mas a dinâmica te-xingo-porque-te-amo funcionava bem com eles. Desde o começo sempre tiveram essa vontade de brigar, e foi assim que descobriram a vontade de se pertencer. Se acostumaram com isso, e a mania de zoar, provocar, dar tapas e mostrar a língua se tornou a maneira com que eles mais gostavam de se amar. Não era necessário dizer. As risadas, os beijos de surpresa, os tapinhas, os "idiotas", os "ridículas", os "palhaços" diziam por tudo. Esse era o melhor ponto da amizade junta de um romance. German e Angeles eram companheiros.

— Isso tá ficando meloso — ela murmurou depois de um tempo, ainda com o rosto enfiado no ombro de seu homem.

— Eu sei que você gosta. É cheia das patadas mas adora quando eu te mimo assim. Te conheço. — sussurou ele. — Nem precisa admitir.

— Nem preciso admitir. — Angie sorriu, se aninhando mais a ele. Como já foi dito, ninguém no relacionamento se limitava a palavras sendo que o resto já era tão claro.

— Agora chega — German deu dois tapinhas nas costas dela, como quem mandava ela sair de cima de suas pernas.

— Mas... — Angie ergueu a cabeça chateada, e então pode ver o sorrisinho brincalhão do seu noivo. Ela entendeu na hora. — German! Você não estava querendo ser legal, e sim me provocar! — exclamou indignada, levantando levemente o tom.

O homem riu. — Shiu, escandalosa! Tá vendo como eu também te tenho na palma da minha mão, vai achando que é a única com poderes com essa camisola aí — ele sorria. A loira rolou os olhos.

— Às vezes eu acho que você tem 12 anos. — ela se fez de brava e cruzou os braços, mas não fez esforços para se levantar das pernas dele.

— Ahhh, amor, que linda, você tá sensível — German apertou as bochechas de Angie. — Você sabe que estou brincando. No começo era mimo de verdade. Só agora que eu tive a ideia de dar o troco.

Ela continuava com cara feia, até que seu noivo resolveu imitá-la. A brincadeira não chegou a durar nem um minuto, Angeles não resistiu e tascou um selinho no homem.

— Ok. Talvez você realmente me tenha na palma da mão mesmo. — ela falou baixo e finalmente se levantou, estendendo as mãos para erguê-lo do chão. German mordeu os lábios, sorrindo. Se aproximou do ouvido de Angie para sussurrar:

— Fica tranquila, você também me tem. — ele brincou levemente com a alça da camisola da mulher, fazendo-a se arrepiar. A loira soltou um longo suspiro e deixou um sorriso escapar.

— Vamos pegar os docinhos e ir embora logo daqui — murmurou docemente. German assentiu e em seguida beijou o queixo de Angie, começando então a fuçar nas caixas espalhadas pela cozinha.

— Cuidado pra não fazer nenhum barulho. Se Olga acordar de novo não tem como se esconder. — sussurrou.

Angeles abriu com cautela a primeira caixa que viu na bancada da pia, e sorriu grande quando identificou, mesmo na escuridão, milhares de doces de festa feitos pela melhor cozinheira que conhecia. Pegou um na mão e sorriu ainda mais ao ver o quão lindo tinha ficado o embrulho do docinho que ela havia encomendado pela internet. Por um momento, até ficou com dó de gastar os doces da própria festa.

— Ge! — sussurrou. — Tem certeza de que é uma boa ideia? É auto sabotagem! — caminhou até seu noivo.

— Não, muito pelo contrário, amor! Quando falarem que os doces estão liberados na festa, vai todo mundo correr pra mesa do bolo pra pegar. E nós estaremos onde? — ele indagou. — Sendo puxados pra lá e pra cá pra tirar foto! — falou quase que como revoltado. — E quando finalmente conseguirmos ir comer um doce, já vai ter acabado.

— Hm... me convenceu. Pega o máximo que conseguir! — a loira voltou para as caixas. German remexia em umas no balcão do centro.

— Estava contado. Olga vai matar a gente. — por um momento ele se sentiu culpado.

— Ok, então não pega tanto assim — ela riu baixinho enquanto enchia um pratinho de doces.

Em extrema cautela com o silêncio, eles mal conversaram depois disso. Se concentraram em suas tarefas. Vasculhando muito e tentando identificar os doces na escuridão da cozinha, German pegou trufas e outros doces exóticos, enquanto Angie juntou vários tipos diferentes de bombons e brigadeiros gourmet, não vendo a hora de colocar tudo aquilo para dentro. Pegaram ao menos um de cada tipo de doce, afinal, não podiam desperdiçar a oportunidade. Quando se olharam novamente, Angie fez um gesto com a cabeça que apontava a porta. Seu noivo deu os doces que pegara para a loira segurar e fez um sinal para que ela esperasse, andando então até o armário e tirando de lá uma garrafa de vinho e duas taças. A mulher sorriu e mordeu os lábios.

— Tô amando isso. — murmurou.

— Quem disse que a gente precisa dormir na madrugada anterior ao casamento? — o homem se aproximou dela, beijou sua bochecha e deu uma piscadinha. — Vamos?

— Pra já. — Angie se aprontou e foi deixar as caixas da maneira que tinham encontrado. Quando estava tudo checado, saíram de fininho pela porta lateral da cozinha. German fechou-a com muita cautela.

Quando a porta fez um pequeno barulho, os dois correram para o carro. Quando entraram, finalmente conseguiram cair na gargalhada no volume que queriam. German ergueu a mão e Angie correspondeu com um toque, e depois deram o soquinho.

— A gente é muito idiota — ele ria, deixando o vinho e as taças no banco de trás e se preparando para ligar o carro.

— Se somos assim normais, imagina bêbados. — a loira mordeu os lábios.

— Podemos ficar pra ver no que dá — o homem apontou com a cabeça para o vinho enquanto deu partida.

— Não, senhor! Eu não me importo de chegar com sono pro meu casamento, mas gostaria de chegar ao menos viva lá! — ela exclamou, rindo. German já tinha saído da mansão a essa altura.

— Eu sou um ótimo motorista, mesmo bêbado!

— Ih, amor, desculpa mas não quero testar pra ver — Angie apertou as bochechas dele. Assim, já estavam seguindo para o seu próximo destino.

XX

— Hum, romântico. Sua empresa. — a mulher saiu do carro na rua deserta às 4h00 da madrugada de Buenos Aires. German, que segurava a porta para ela, sorriu ao vê-la de camisola no meio da calçada.

— Foi irônico isso? — o homem indagou, se aproximando e abraçando-a pelos ombros. Ambos começaram a caminhar até a entrada da empresa, onde havia apenas um segurança na portaria.

— Não, falei sério! Parece aqueles filmes sensuais de casais na empresa, em que o chefe e a secretária têm um amor secre... opa, espera aí. — a loira parou de andar e se virou para o homem com uma cara de irritação.

— Ih, lá vai a doida ficar com ciúmes de uma coisa que ELA MESMA disse — German, que já conhecia bem a mulher com quem ia se casar, cruzou os braços.

— Quem é sua secretária? — ela bufou, o rosto ficando avermelhado de raiva.

— Amor, eu não tenho nenhum amor secreto pela minha secretária. — ele rolou os olhos.

— Qual o nome dela? Quero que a demita. — Angeles cruzou os braços para imitá-lo.

— Thalita, e ela é casada e tem dois filhos. Preciso te lembrar de que a gente foi quem teve um relacionamento secreto de chefe e empregada? — o homem queria rir. Angie suspirou.

— É. Eu sei. — então ela o abraçou. — Te enganei. Adoro te irritar. Não precisa demitir a Thalita.

— Você é muito boba — ele riu com a repentina mudança de atitude dela. Continuaram andando, abraçados, até a entrada da empresa. German carregava os doces, o vinho e as taças em uma caixa de papelão que encontrara no carro.

O homem cumprimentou o segurança, que por sua vez abriu o portão da empresa para o casal, afinal, todos sabiam que German era o dono e mesmo que fosse meio da madrugada ele poderia entrar. Dirigiu-se com sua noiva até o elevador e apertou o botão.

— Vamos para o último andar. Tem uma vista linda da cidade. — sussurrou na orelha da mulher.

— Me impressione, amor. — ela sorriu, adentrando o elevador junto com seu homem quando a porta se abriu. — Só eu e você na empresa toda.

— Tirando o José. — ele riu. Angeles lhe deu um olhar de confusão. — O segurança. — ele explicou e ela assentiu. Esperaram quietos até a porta se abrir no que se mostrava décimo oitavo andar e o homem sair na frente, estendendo sua mão direita para Angie.

Quando a loira pegou a mão, ele começou a guiá-la por meio do ambiente apagado, desviando de mesas de trabalho, computadores, máquinas de café, e até mesmo sofás espalhados pelo meio do andar. Mesmo sem as luzes acesas, Angie podia enxergar as coisas com facilidade por conta da imensa parede de vidro que ia do chão ao teto do andar, e que dava vista para uma Buenos Aires totalmente iluminada e uma lua brilhante no céu. A iluminação suave que a paisagem trazia para o ambiente deixou Angeles confortável.

— Por favor não acenda a luz. — ela falou baixinho. O homem sorriu.

— Não estava nos meus planos. Fique aqui. — pararam no meio do caminho. German deixou a caixa em uma mesa e começou a se dirigir para um canto específico do andar. Enquanto isso, curiosa, a loira se aproximou da mesa em que ele tinha deixado a caixa e começou a observar os objetos.

Sorriu ao pegar um porta retrato com a foto de Violetta bebê, e se surpreendeu quando pegou outro em que se encontrava uma foto espontânea, em que ninguém olhava diretamente pra câmera. Na foto, meio antiga, estava um German de 21 anos segurando uma bebê Violetta de 3 anos no alto ao lado do sofá, e no sofá uma Angeles de 12 anos em pé, virada para a sobrinha e fazendo uma careta com a língua para fora. A loira nunca tinha visto essa foto antes. Provavelmente Maria que houvesse tirado sem que eles tivessem percebido.

— Ge. Por que nunca me disse dessa foto antes? — a loira indagou enquanto ele se aproximava com dois grandes pufes.

— Oh. Eu a encontrei nas caixas no sótão outro dia. — ele suspirou, e abriu um sorriso sem mostrar os dentes. — Meio que me mostra o quão certo desde sempre foi o nosso laço. Achei que você ia se sentir mal se visse, desculpe...

— Por que me sentiria? Quer dizer, é um pouco estranho. — ela encarou o porta retrato em suas mãos. — Mas não de uma maneira ruim. Você era só um semi-adulto que engravidou minha irmã aos 18 anos e eu era uma pré-adolescente que adorava a Vilu. Éramos todos bebês.

— Sim. A foto me faz refletir muito. — o homem a abraçou. — Tipo, se falassem a qualquer um de nós três nesse dia onde estaríamos na madrugada da data de hoje, ninguém acreditaria nem um pouco.

— Bota nem um pouco nisso. — Angeles mordeu os lábios. — Você era muito magro.

German riu. — Eu sei. Correr atrás de uma garotinha minúscula o dia todo fez isso comigo.

— O engraçado é que você parece tão novo aqui, nem parece que já andava por aí com o telefone no ouvido falando sobre japoneses. — Angeles tirou os olhos da foto para observar seu noivo. Ela sorria.

— Você sabe que comecei meu estágio na empresa assim que entrei na faculdade. Estagiários precisam se exibir. — ele bagunçou os cabelos da loira.

— Ei! — ela tirou as mãos de German de seu cabelo. — Desde cedo com o ego lá em cima. — deu a língua para o noivo e voltou a atenção para o porta retrato que ainda segurava. — To me sentindo estranha olhando essa foto. Apaixonada e ao mesmo tempo culpada.

— Você sabe que não precisa se sentir culpada. É só uma foto alegre e inocente de três bebês se divertindo. — German sorriu. — O que veio depois foi pura coincidência. Outras pessoas. Três adultos, três vidas cem por cento mudadas. — então, o homem pegou outro porta retrato na mesa e mostrou-o para Angie. Ela não pode esconder o sorriso quando viu uma foto atual dela com German e Violetta. Tiraram aquela foto em uma noite de Sevilla.

— Eu definitivamente amo sua mesa de trabalho. — sem que ela mesma esperasse, uma lágrima escorreu dos olhos de Angeles, que ela logo enxugou.

— Ah, você sabe que eu fico mais no escritório em casa. Só venho pra cá quando é muito necessário. — o homem notou a lágrima e então se aproximou para dar um selinho em sua noiva. — Os outros porta-retratos ali vazios estão esperando por um bom motivo para serem preenchidos. — sussurrou e se afastou novamente. Pegou os pufes de volta e continuou fazendo seu caminho.

A loira ainda não havia notado que tinham outros ali, sem nenhuma foto. Achou estranho, mas resolveu nem perguntar. German gostava de bancar o misterioso. Angeles continuou andando pelo escritório e de vez enquando parava para fuçar nas mesas dos outro empregados. Encontrou a mesa de Ramalho. Depois a de Thalita. Analisou as coisas na mesa da mulher, e soltou uma risada baixa, balançando a cabeça.

— Sabe, eu até que estou ficando com ciúmes de verdade dessa mulher. — ela falou alto para que seu noivo a escutasse. Ele estava ajeitando os pufes, o vinho e os doces bem em frente a parede de vidro do andar. O homem notou que Angie estava na mesa de Thalita, e indagou:

— Por quê?

— Olha que lugar lindo que ela trabalha com você — a mulher voltou a se aproximar de German, e estava sorrindo. A intenção não era arrumar briga com seu noivo por uma mulher que nem fazia diferença na sua vida. Angie só estava brincando agora.

— De dia nem é tudo isso. O especial noturno só entra quem é VIP. — ele respondeu quando Angeles chegou perto o suficiente para que ele a segurasse pela cintura.

— Não vou dizer que te amo pra não parecer que sou muito fácil. — a loira passou os braços por volta do pescoço de German.

— Você está toda engraçadinha hoje. — ele sorriu, ajeitando o cabelo da mulher enquanto ela bocejava.

— Estamos no meio da madrugada, ninguém é normal essas horas. — Angeles se desvencilhou do homem e foi direto a um dos pufes, atirando-se com força na superfície aconchegante que ele tinha. — Nossa, vinho no escuro e esse pufe, você com certeza quer que eu durma, né?

— Nem pensar! Cadê o espírito de aventura? — German exclamou, se aproximando e se jogando no mesmo pufe em que sua noiva se encontrava de bruços e com olhos quase fechados.

— Tá morrendo, tadinho. — ela resmungou, empurrando German com um braço. — Sai, ow, tem um pufe só pra você ali.

— Mas a gente nem casou e você já tá me rejeitando?! — o homem riu, puxando-a pra si e ajeitando-a em seus braços. — Vou ficar bem aqui porque se você for pegar no sono te acordo com cócegas.

— Faça isso e eu te abandono no altar. — já meio sonolenta, a loira se aninhou nos braços de seu noivo. German riu.

— Ok, então. Se quer dormir, durma. Como todos os doces sozinho. — ele deu de ombros. Assim que escutou essas palavras, os olhos de Angeles rapidamente se abriram e ela se ajeitou sentada no pufe no mesmo instante.

— Nossa, sono? Imagina, estou elétrica. Nem tomei uma pílula pra dormir três horas atrás mesmo. — ela se esticou para alcançar a caixa de papelão com os doces. O homem não conseguia parar de rir. Ficou a observando até que experimentasse o primeiro doce. — Meu Deus! Sempre soube que Olga não ia me decepcionar.

— De zero a dez? — ele indagou enquanto se esticava para encher as taças de vinho. Entregou uma a Angeles e brindaram rapidamente.

— Nove. — ela tomou um gole da bebida.

— O que falta pra ser perfeito? — German fez carinho no joelho descoberto pela camisola da mulher.

— Ser amanhã logo. — mordeu os lábios.

— Ui, ansiosa. — ele a fez apoiar a cabeça em seu ombro e ambos olharam para a cidade iluminada em sua frente.

Aquela com certeza era uma despedida de solteiro decente para Angeles. Lógico que ela considerava o esforço das amigas para agradá-la na boate na noite anterior, mas o ambiente barulhento e abafado apenas não se encaixava mais com ela.

German estava comendo vários doces enquanto intercalava com o vinho, o que chamou a atenção da loira e a fez rir.

— Psiu, deixa um pouco pra mim. — ela sussurrou. O homem a olhou.

— Só se você me der outra coisa pra tocar minha boca. — ele lançou uma piscada divertida, provocando gargalhadas na mulher.

— Suas cantadas já foram melhores que isso! — então, colocando suas mãos no peito do homem, ela inclinou-se para beijá-lo.

— O que importa é que funcionou — ele respondeu entre os beijos. Sorrindo, logo voltaram a se beijar com paixão.

A loira sentiu seus pelos arrepiarem quando o homem colocou as mãos em sua coxa, por baixo da camisola. Sem partir o beijo, tirou as mãos de seu noivo dali, e ele quis rir. Não custava nada tentar, não é mesmo? Angeles partiu o beijo para respirar um pouco, mas não tirou os olhos dos traços daquele homem todo rendido em sua frente. Ele deitou a cabeça no pufe em que estavam e ela apenas sorriu com o movimento. Se debruçando de novo por cima dele, voltou a dar beijinhos leves em seus lábios. Haviam se esquecido do vinho e da paisagem.

— Essa é a coisa mais gostosa de todos os tempos. — German falou baixinho, sentindo o toque dos lábios da mulher. — Perdi tanto tempo com beijos que não passavam de toques sem sentido...

— Shhh. Sem falar do passado. — a loira acarinhou o rosto do homem. — O que importa é o amanhã.

— Literalmente e metaforicamente. — ele sorriu, puxando-a de volta para um beijo aprofundado.

Após alguns segundos com todo esse contato físico, o corpo de German começou a responder mais do que deveria. De início, ele tentou ignorar. Mas não foi muito tempo até que ele tivesse que partir o momento mais uma vez.

— Sabe o que eu estava pensando? — ele começou a falar quando ela fez uma carinha triste pela interrupção do momento. — Que a gente devia falar da sua mãe. Sei que está evitando mas acho que é um assunto necessário, porque está te deixando triste.

— German! Você definitivamente não estava pensando nisso enquanto nos beijávamos. — Angie rolou os olhos. — Não interrompa um beijo desses pra falar daquela mulher.

— Ok, eu não estava pensando nisso — ele deu risada. — Mas agora que eu estou, realmente acho que devíamos conversar.

— Mas você quer falar do quê? Não tem muito o que fazer. — suspirou brevemente, ficando inquieta no pufe. — Te disse que estou um pouco melhor, mas ainda dói o fato de que ela não vai vir, sabe?

— Eu sei, anjinho. Mas pense que por mais que ela esteja com raiva hoje, ela ainda te ama e sonha com seu futuro. Não tenho dúvidas de que ela está torcendo pela sua felicidade. — o homem ajeitou o cabelo de Angie. — E amanhã, é só ter no coração que ela está com você, e então você irá sentir a presença dela, assim como fazemos com Maria. Um oceano de distância é muito, eu sei. Mas pior que a distância física é a distância do coração. Então não fique com rancor dela, só vai piorar. — German foi carinhoso.

— Você também pensa assim? Com seu pai? — ela indagou, olhando-o nos olhos. German assentiu com a cabeça, suspirando com um sorriso torto. — Certo. Eu prometo tentar, meu amor. Obrigada por ser meu apoio.

Ele beijou o rosto da mulher e a fez sorrir levemente, enquanto se aninhava novamente em seus braços. A loira tomou um gole de vinho enquanto German comeu mais doces.

— Eu tenho umas coisas pra te dar. — o homem murmurou depois de alguns minutos.

— Coisas? — ela virou o rosto para olhá-lo.

— É. Espera aqui. — German se desvencilhou de sua noiva e caminhou até um armário ao lado de sua mesa do escritório. Abriu-o e tirou de lá uma pilha com sete caixas quase que do tamanho de caixas de sapato. Angie estranhou. German trouxe as caixas de volta para onde estavam, e deixou-as no chão.

— Parabéns pra nós. — ele mordeu os lábios. — Meu presente de casamento.

— Ah, meu amor! Só ia dar o seu presente amanhã. — Angie pegou a primeira caixa da pilha e a observou. Estava em um embrulho cor de rosa com uma etiqueta que dizia: "Abra na nossa primeira noite como casados."

Angie já entendeu a ideia de German e abriu um grande sorriso.

— Não acredito que vai me fazer ficar curiosa com sete caixas pra abrir. — ela mordeu os lábios. A segunda caixa, desta vez roxa, dizia: "Abra em nossa primeira briga feia." — Ansiosa para esse dia. — ela riu.

— Você gosta quando brigamos?! — exclamou German.

— Claro que não, tonto. Fico com aquela sensação ruim no estômago, tudo parece fora do lugar. Mas, é o que dizem... a melhor parte da briga é a reconciliação. Não tem preço. — a mulher ergueu a caixa. — E isso soa como uma baita reconciliação.

— Coloca baita nisso — ele deu uma piscadinha. A loira sorriu e continuou a ver as caixas.

A próxima que ela pegou, vermelha, dizia "Abra no nosso aniversário de 1 ano de casamento", já a amarela tinha na etiqueta "Abra quando nosso primeiro bebê nascer" Angeles se surpreendia a cada caixa que via, e ficava cada vez mais curiosa para saber o que tinha dentro. Seu sorriso era enorme.

— Aw, nosso primeiro bebê... — seus olhos ficaram marejados apenas em pensar na possibilidade.

— Acho que daríamos ótimos pais. — German sorria junto.

A caixa seguinte, azul, tinha escrito "Abra no nosso aniversário de dez anos de casamento" e a caixa dourada era para o aniversário de trinta anos de casamento. A última caixa, com o embrulho cinza, foi aquela que mais embrulhou o estômago de Angie.

"Abra depois que eu morrer."

— Ok, essa eu não quero abrir nunca. — engoliu em seco. German puxou-a pra perto.

— Um de nós vai deixar o outro em algum momento. — ele pegou a mão de Angie e fez carinho. — Mas, o que importa é que vamos viver intensamente cada dia sem se preocupar com quando esse vai chegar. Porque o que importa é o hoje, lembra? Você me ensinou isso. — German sorriu, erguendo o rosto de sua noiva. — O futuro é incerto, mas entendi que não preciso ter medo pois eu terei gastado todo o meu tempo com quem me faz verdadeiramente feliz.

A mulher abraçou-o com força, enxugando os olhos.

— Eu te amo. Obrigada por esses presentes. — depositou um selinho no homem. — Mas a caixa cinza eu vou esconder bem no fundo do armário, porque tem uma eternidade até eu precisar abri-la.

— Tudo bem, amor. — ele deu uma risada baixa, olhando nos olhos levemente molhados da mulher.

— Fico emotiva com sono, desculpa. — ela desviou o olhar.

— Sei. Só não quer admitir que está com medo de me perder. — ele provocou, cutucando sua cintura. Ela sentiu cócegas, mas se esforçou para segurar a risada.

— Para, Geeee. — Angie empurrou as mãos dele. — É sério! Você vai me ver amanhã nos votos. Vou estar com tanto sono que só vou chorar.

— Só não boceja no altar pra não ficar feio — o homem continuou brincando, e acabou por receber um olhar fuzilante de sua futura esposa. — Para de ser reclamona, eu sei que você ta gostando da nossa noite radical. — riu.

— Pior que estou. Argh, por que eu gosto de você mesmo?

— Por causa disso ó. — German, então, a puxou para um outro beijo profundo, arrancando um baixo gemido da loira em seus braços.

Ela subiu um pouco no colo de German para ficar mais confortável. O homem a puxava fortemente contra si enquanto Angeles enterrava-se no beijo com fervor. O gostinho de vinho e a iluminação do alto cidade davam um toque especial no momento. Até que chegou o momento que a própria Angie não estava mais conseguindo conter o desejo que se manifestava em seu corpo. Quase que como ao mesmo tempo, os dois se soltaram e desviaram os olhares.

— Não ta dando, Angie — o homem tentou esconder o volume na calça.

— É, nem pra mim — a loira riu, saindo de cima do homem e se ajeitando ao lado dele. — Tem câmera aqui não, né?

— Vou me assegurar de deletar todos os vídeos dessa noite. — ambos deram mais uma risada.

Angie pegou um dos últimos doces enquanto notou que o céu estava um pouco mais claro do que uns instantes antes. Mas não chegava nem perto de ser dia ainda.

— Acabou o vinho. — German fez bico, enchendo as taças com o último gole.

— Que horas são? — a mulher virou o que restava de sua taça. Se sentia um pouco alterada, mas não sabia se era o álcool ou o sono.

— 5h15. — ele olhou o relógio.

— Logo veremos o nascer do sol — Angeles se animou, sempre foi uma das suas paisagens favoritas.

— Quer ir ver da praia? Sem nenhum obstáculo na frente. — sugeriu o homem.

— Ah, meu Deus, simmm! Seria incrível! — a loira saltou do pufe no mesmo instante. — Vamos já!

— Calma, doida. — German se levantou com sua noiva e a segurou pelos ombros, fazendo-a parar de pular. — Quem que teve a brilhante ideia de te dar bebida mesmo?

xx

Demoraram mais para chegar à praia do que o esperado por German. Tudo porque Angeles o impediu de ir dirigirindo até lá, e os fez irem andando. Ela alegou que todo o vinho que tomaram podia não ser um bom colaborador para uma viagem de carro. German discordava, se sentia totalmente normal. Porém, tudo o que pode fazer foi acompanhar sua noiva saltitante pelas ruas desertas do fim da madrugada de Buenos Aires até que avistassem a praia.

No fim das contas, German gostou daquilo. Em toda a caminhada o céu já não era tão escuro, mas ainda não chegava a ser dia. Angeles estava tão empolgada que ia pulando e dançando na frente, enquanto ele admirava a bela vista da mulher sorridente que tinha. Até pararam para tirar uma foto juntos no meio da rua vazia. Outras ele tirou dela sozinha, porque gostaria muito de se lembrar dessas imagens. Era como se só os dois existissem na cidade inteira. A brisa suave e fresca que batia tornava tudo ainda mais aconchegante.

Durante o caminho, ele reclamou algumas vezes que ela estava andando muito rápido. Por mais que estivesse gostando, não ia admitir. Muito pelo contrário, ele se divertia horrores quando a enchia o saco por muito tempo. Quando pisaram na areia, não demorou muito para que a loira virasse para o seu noivo e dissesse:

— Como você é implicante, reclamou quando eu tava com sono e reclama agora que eu fiquei elétrica. — ela ainda andava na frente, agora dando piruetas.

— Nem vem, o mais implicante aqui está longe de ser eu! — German exclamou. — Você foi quem me fez deixar meu carro a 5 quilômetros daqui só pra me irritar. Sou eu que terei que andar tudo de novo pra ir busc...

— Shhhhh. — Angeles se aproximou e o fez parar de falar. — Eu salvei sua vida.

— Jura? Como? — o homem cruzou os braços, com um olhar desafiador.

— Está sem sono? — indagou ela.

— Não. — ele respondeu a encarando.

— Está totalmente sóbrio? — a loira mordeu os lábios, sorridente.

— Não. — ele rolou os olhos, mantendo sua postura.

— Está a fim de ser preso no dia do próprio casamento? — Angie fez uma cara de pensativa.

— Não. — German quis rir.

— Está a fim de morrer no dia do próprio casamento??? — enfatizou então a última questão, fazendo seu noivo mostrar-lhe a língua.

— Eu não ia...

— Sim ou não?! — interrompeu-o mais uma vez.

— Não, chata. — soltou seus braços. A mulher o lançou um sorriso vitorioso.

— Bom garoto. — ergueu-se nas pontas dos pés e beijou sua bochecha. — Eu salvei sua vida. — ela sussurrou na orelha dele, fazendo-o arrepiar.

— Por um segundo não sei mais de qual sentido estamos falando. — German respondeu alguns segundos depois, extasiado pelo toque quente daquela voz doce em seus ouvidos.

— Interprete como quiser. — Angeles sorriu e pegou seu noivo pela mão. Guiando-o pela areia deserta, se sentaram perto do mar. Este se camuflava com o céu escuro, mas ainda sim o som das ondas batendo era como um calmante para ambos. — Sabe o que pensei agora? — a loira disse depois de se ajeitarem. Ela não parecia se importar com sua camisola preferida sendo sujada pela areia.

— O quê? — o homem a puxou para seus braços.

— Faz tempo que a gente não briga, tipo, feio sabe? — Angeles tentou olhá-lo mesmo com a cabeça apoiada em seu ombro.

— Faz mesmo. Mas por que pensou nisso agora? — ele passou a mão pelos cabelos da mulher.

— Não sei. A gente tem mania de discordar bastante. Estou com um pouco de medo de brigarmos feio quando casados. — ela começou a desenhar na areia com os dedos.

— Amor, isso eventualmente vai acontecer. Mas sabe qual vai ser a diferença de antes? — ele questionou e ela negou com a cabeça. — Que quando casarmos, teremos que voltar pra mesma cama pra dormir. E eu prometo nunca passar uma noite sequer sem te dar um beijo de boa noite e dizer que te amo.

— Deus, eu vou me casar com o homem mais chato e mais maravilhoso desse mundo. — a loira apertou-o num abraço. — Estou pronta pra ser inteiramente sua.

— Digo o mesmo. — ele beijou-a suavemente e assim ficaram alguns instantes em silêncio.

Havia um grupo de amigos, provavelmente da faixa etária de Violetta, um pouco mais distante do casal na praia. Estavam em roda, e tocavam violão juntos enquanto cantavam. German e Angie aproveitaram a situação para curtirem as músicas e assistirem ao lento nascer do sol, como se aquilo fosse um show feito somente para eles.

Os jovens cantores estavam se saindo muito bem, escolhendo sempre músicas que coincidentemente o casal gostava. Muitas vezes, os dois faziam comentários e davam risadas baixas, outras vezes cantavam junto. German perguntou a Angie em algum momento por que havia gente a essa hora da manhã na praia. A loira precisou relembrá-lo que era madrugada de sexta pra sábado, e que jovens faziam esse tipo de coisa, aproveitando o embalo para incentivá-lo a deixar Violetta sair nesses horários também. Aquilo fazia bem, aquilo era aproveitar a vida, exatamente como o casal estava fazendo naquele momento.

O sol, quando se mostrou pela primeira vez, deixou o céu meio rosado. Era possível ver os raios cortando as nuvens, enquanto um vento suave levava os cabelos de Angie para trás. Ela se encolheu nos braços do noivo, sentindo um pouco de frio. Ele, por sua vez, afagou os braços da mulher, tentando aquecê-la. No fundo, o frio era um dos menores detalhes que passava por sua cabeça. Angeles estava extasiada com toda a cena no geral. Toda aquela paisagem, aquela música gostosa tocando longe, a companhia do homem da sua vida... e principalmente, o simples fato daquele dia se iniciar. O seu grande dia estava começando bem ali. O nascer daquele sol estava dando largada a uma maratona imensa de sentimentos e emoções que viriam. O nascer daquele sol simbolizava o nascer de uma relação de cumplicidade que duraria pra sempre. E a loira se sentia ainda mais feliz de estar assistindo aquele nascer de sol juntamente com German. Era muito mais do que uma paisagem bonita, era a concretização de um sonho. O tão comum nascer do sol ganhara um significado diferente naquele sábado, pois ele trazia consigo tudo aquilo que ela por tanto tempo esperava.

— Amor. – Angie sussurrou, saindo de seus pensamentos.

— Achei que você tinha dormido. Estava quietinha. – o homem disse baixo.

— Estou admirando. – ela suspirou. – É o nosso sol nascendo ali.

German então sorriu, entrelaçando seus dedos com os de sua noiva.

— Só nosso, gatinha.

— Nem acredito que realmente fizemos isso. – a loira riu levemente, se referindo a passar a noite inteira acordada com German na véspera do grande dia.

— Valeu a pena, sem dúvidas – ele bocejou.

— É, só não reclame se eu não estiver disposta o suficiente pra fazer você sabe o que na noite de núpcias – Angeles mordeu os lábios, sorridente.

— Ahhh, nada que um RedBull não resolva, né? Tecnologia, amor! – exclamou.

— Não vou nem comentar – a mulher rolou os olhos, segurando a risada.

Quando pararam novamente para admirar a paisagem, notaram que a música havia parado. Angeles não soube dizer em qual momento deixaram de ouvir as melodias, mas ficou curiosa para saber o que havia acontecido. Se desvencilhou de German e olhou para trás, enxergando então o mesmo grupo de amigos que estava tocando andando em direção até o casal.

German também percebeu, e estranhou. Virou-se em uma posição para proteger sua noiva, em caso dos jovens resolverem ir assaltar. Todavia, assim que se aproximaram, o garoto cabeludo que segurava um violão exclamou empolgado em direção a mulher.

— EI! Você é a Angie Carrara, professora do Studio, certo? – o garoto sorria como se estivesse se encontrando com um ídolo.

— Ahm.. sou sim. Como me conhecem? – a loira olhou para German e em seguida voltou a observar o grupo de seis pessoas.

— Nós fomos ao show de vocês alguns meses atrás. Queremos muito entrar na escola! – a garota meio roqueira se manifestou.

— Jura? – a mulher sorriu. – Bom, garanto que são capazes, pelo que ouvi vocês cantarem agora há pouco.

— Você acha? – o garoto cabeludo voltou a falar, com o olhar brilhante.

— Com certeza. – Angie mordeu os lábios. – Animaram minha despedida de solteiro. – soltou uma leve risada.

— Vocês vão se casar? – um garoto curioso, mais novo, indagou.

— Sim, hoje. – German abriu a boca pela primeira vez.

— Uau, que incrível! Você é o pai da Violetta, certo? Sua filha é demais – uma segunda menina, mais tímida, questionou. Angie então notou que esta garota estava segurando dois pares de patins, exatamente daqueles que ela usava quando adolescente. Os olhos da loira brilharam por um breve instante.

— Sou sim – o homem assentiu, enquanto uma ideia se passava pela mente de Angeles.

— Você é fã dela? – a mulher perguntou.

— Sim, meu Deus! Daria tudo por um autógrafo. – a garota saltitou.

— Posso oferecer algo melhor. – ela se levantou. – Se vocês nos emprestarem esses patins por hoje, no próximo show deixo vocês visitarem os camarins e conhecerem todos os nossos cantores.

German franziu a testa, não entendia por que sua noiva resolveu pedir aqueles patins emprestados no nada. A garota também estranhou, mas achou uma troca justa.

— Você quer usar os patins? – ela os estendeu para Angie. – Por mim está fechado! Posso pegar seu número? Assim combinamos tudo! – para quem inicialmente era tímida, ela se empolgou.

— Uau, muito obrigada! Garanto que não vão se arrepender. – a loira sorriu grande.

Quando trocaram os números, os jovens logo se despediram. German esperou que eles se afastassem para fazer a pergunta que tanto estava lhe deixando curioso.

— Patins, Angie?

— Sem mais, acabei de arrumar nossa maneira de volta pra casa! – ela exclamou. – Não precisamos andar, é muito mais rápido, e muito divertido.

— Olha, faz anos que eu não uso isso e... talvez simplesmente não sirva em mim. – o homem coçou a cabeça, observando o tamanho dos patins.

— Não custa nada tentar.

Desse modo, eles tentaram. O par maior ainda ficou meio apertado para German, mas com esforço ele conseguiu colocar. Foram para a calçada, onde Angeles tentou começar a andar. Quando ajudou German a reaprender, os dois começaram a seguir pelas ruas já claras de Buenos Aires em direção a casa da loira. Afinal, já era 6h e ao menos um pouco eles deveriam dormir.

Podia não ser a velocidade de um carro, mas a sensação de deslizar sobre a rua trazia um sentimento de nostalgia maravilhoso para a mulher. Até German se sentiu um pouco mais vivo com a experiência.

Estava tudo indo bem quando, no entanto, a loira avistou em sua frente uma pedra na calçada. Tentando desviar, acabou trombando em seu noivo. Ambos enroscaram os pés e perderam o equilíbrio juntos. Em questão de segundos, assim, o casal foi ao chão.

xx

— Isso vai ser um pouco difícil de esconder. — A loira murmurou, encarando seu lábio inferior pela câmera frontal do celular. Com a queda, bateu a boca e seu lábio ganhou um corte de cima a baixo.

Ouvia-se no fundo os barulhos dos bipes dos painés de senhas para atendimento. Médicos chamando pacientes. Crianças chorando por injeção. Aquele cheiro de hospital, as paredes brancas. Esse era o último lugar que Angeles imaginaria terminar a noite. Ainda sim, não se arrependia de nada.

— O batom vai cobrir o seu, amor. Agora olha pra mim! — German estava estirado na poltrona ao lado da maca dela, segurando a bolsa de gelo na cabeça. Sua noiva o olhou e soltou uma risada baixa. Ele tinha um pequeno corte na testa e um leve hematoma. E seu braço direito estava quase que inteiramente ralado.

— Pelo menos não é com o braço da aliança, né? A foto não vai sair feia. — ela mordeu os lábios sorrindo divertida. Até a enfermeira, que fazia pontos na perna rasgada de Angeles, soltou uma risada.

Eles se encontravam na enfermaria do hospital. Havia várias macas e poltronas espalhadas no ambiente e enfermeiros correndo para todos os lados, cuidando dos casos de emergência que adentravam o local. A pele da perna de Angie havia rasgado profundamente, a trilha de sangue que ela tinha deixado na enfermaria já havia sido limpada. A loira precisou de pontos, enquanto German foi tratado apenas com pequenas suturas.

Já era seis e meia da manhã. O mundo lá fora ainda dormia, mas o sol timidamente já se mostrava. Era uma manhã fresca.

— Vocês se casam quando? — a enfermeira, que estava surpresa com o casal descontraído mesmo depois de terem se machucado, indagou curiosa.

— Hoje. — responderam em conjunto. A cara de surpresa da enfermeira fez Angeles rir.

— Não acredito! Felicidades! — ela sorria. — E que bela maneira de começar o grande dia, hein?

— Despedida de solteiro de qualidade. — German se levantou da poltrona e beijou o rosto da loira, que se mantinha sentada na maca com as pernas esticadas.

Angie, meio envergonhada, tentava se cobrir com o travesseiro do hospital, pois ainda estava apenas com sua camisola. German parecia não se importar. Pelo contrário, estava achando tudo muito divertido.

— Despedida de solteiro juntos? — a enfermeira estranhou. Angeles soltou um leve grito de dor quando sentiu o ponto pegar mais forte em sua perna.

— Autch. Somos um casal diferente. — a mulher respondeu com a voz de quem estava em sofrimento.

— Desculpa! — a enfermeira se referiu ao ponto. — Posso ver isso. Vocês trazem um ar leve pro ambiente. Parecem ser bem amigos.

— Somos. — Angie lançou, sem querer, aquele olhar bobo em direção ao seu noivo. Ela ergueu o braço para o ombro do homem, e acariciou o cabelo dele. — Ei, você não deveria estar me vendo. Já é o grande dia.

— Shhh, ainda não conta. E o Pablo já está vindo te buscar, já que meu carro ficou do outro lado da cidade. — o homem sorriu, abraçando de lado a mulher.

— E a Vilu? Certeza que ela não vai acordar antes de você chegar?

— É a Violetta, amor. Você sabe, ela vai dormir o máximo que puder. — ele respirou fundo, ficando alguns segundos em silêncio. — É hoje.

— É hoje. — Angie apertou a mão de seu noivo, sorrindo ansiosa. — To ficando com o estômago embrulhado.

— Perdeu o sono agora? — ele riu.

— Depois de tudo isso, quem não perderia?!

— Sei lá né, você é outra que consegue ser pior que um bicho preguiça! — foi a vez de German de fazer a enfermeira rir. Esta já estava acabando de fazer os pontos.

— Para de ser implicante — a loira tapou a boca do homem.

German, por sua vez, deixou a bolsa de gelo de lado e se desvencilhou da mão de sua noiva. Lentamente, então, ia se aproximando para dar-lhe um beijo. No entanto, antes que eles pudessem tocar os lábios, foram interrompidos por uma voz bem conhecida.

— Não pode beijar a noiva antes do casamento! — Pablo exclamou. — Cheguei na hora certa, hein? — ele se aproximou sorridente.

— Eu diria o contrário — German murmurou, fingindo estar bravo.

— Ele adora quebrar regras. — a mulher rolou os olhos.

— E você não ia fazer nada pra me impedir! — rebateu ele.

— Vocês dois não mudam mesmo — Pablo balançou a cabeça, mudando seu olhar então para a perna de sua melhor amiga. — Meu Deus, como vocês fizeram isso?

— Patins. — German sorriu torto.

— Eu devo perguntar por que raios vocês estavam andando de patins essa hora da manhã no dia do próprio casamento? — ele cruzou os braços. German e Angie se entreolharam.

— Despedida de solteiro — foi a enfermeira que respondeu, fazendo o casal rir.

— Vocês definitivamente são loucos. Quanto tempo dormiram mesmo? — ele indagou. Mais uma vez, o casal hesitou em responder. — Certo, acho melhor eu não saber.

— Também acho, amigo. — Angie assentiu rapidamente.

— Dois adolescentes — Pablo se aproximou e deu um tapinha na cabeça de cada um deles.

— Deixa a gente ser feliz — a loira riu, empurrando o amigo.

— Um dia você vai amar assim — German bateu nas costas de Pablo, brincalhão.

— Senhorita Angeles, pronto. — a enfermeira ergueu-se da cadeira. — Terminei os pontos. — ela então virou-se para assinar um papel. — Aqui está a alta. Se acontecer alguma coisa, só voltar aqui. E fique tranquila que seu vestido de noiva irá cobrir isso. — sorriu docemente.

— Muito obrigada, enfermeira Luísa. — Angie pegou o documento de alta e tentou, então, descer da maca. Pablo a segurou por um lado e German pelo outro.

— Não tem de quê! Boa sorte no casamento, desejo toda a felicidade para vocês. Só no modo que se olham dá pra entender o tanto que significam um pro outro. É raro isso hoje em dia. — Luísa concluiu.

— Muito obrigado mesmo — German apertou a mão da enfermeira, e logo em seguida Angie imitou o gesto. Desse modo, Luísa se retirou.

— Bom, vamos lá levar a adolescente número 1 pra casa. Tome cuidado no caminho de volta, viu, adolescente número 2? — Pablo continuou zoando os amigos.

— Não seja malvado com ela. — German respondeu enquanto Pablo ajudava a amiga a andar. — Foi tudo minha culpa, pai! — ele deu risada, e a loira o acompanhou.

— Até a noite, meu amor. — ela o abraçou antes de Pablo a puxar para longe para seguirem seu caminho.

— Até a noite, eu amo você. — ele lançou uma piscadinha para sua noiva, e observou-a sair do hospital junto com Pablo.

German estava exausto, mas estava profundamente feliz. Aquela noite havia sido totalmente inesperada e perfeita. Ele mal podia acreditar que poderia ficar ainda mais apaixonado pela mulher que decidiu passar o resto da vida junto. Mais do que antes e menos do que dali a algumas horas, ele mal podia esperar por tê-la inteiramente na noite seguinte.

Fora do hospital, Pablo ajudava Angie a chegar até o carro.

— Angie, vocês deveriam ter dormido. — disse, preocupado.

— Eu sei, Pa. Mas ao mesmo tempo essa foi uma das experiências mais incríveis da minha vida. Fizemos tantas coisas. — ela sorria com os olhos brilhantes, totalmente realizada. — E a culpa não foi só do German. Eu também dei ideias.

— Eu imagino que tenha dado. Vocês são um casal agitado. — ele sorriu.

— Sempre fomos e sempre seremos. É como nosso amor funciona. — ela quis saltitar, mas sentiu dor na perna.

— Mas tem consciência de que poderia ter acabado muito pior? E se você tivesse quebrado a perna? Ia entrar de muleta na igreja? Responsabilidade também é importante! — era natural de Pablo ser o super protetor.

— Ia, poxa! O que importa não é o jeito que estou ou não entrando na igreja, e você sabe disso. — Angie encarou o amigo enquanto ele abria a porta para que ela entrasse no carro.

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Pablo deu a volta e entrou do outro lado.

— Certo. Você se divertiu então? — ele sorriu para sua amiga antes de dar partida.

— Muito. — ela suspirou.

— Então tudo bem. — Pablo ligou o carro e começou a dirigir em direção a casa de Angeles.

Quando chegou, estacionou em frente e saiu para ajudá-la a abrir a porta.

— Prontinho. — Pablo foi cuidadoso, embora a mulher já estivesse conseguindo, com um pouco de esforço, andar melhor.

— Pablo. — a loira esperou ele olhar. — Obrigada por atender minha ligação essa hora da manhã e ir me buscar no hospital.

O homem soltou um suspiro, sorrindo. — Como nos velhos tempos, certo?

Ele começou a andar como quem ia embora, mas ela ainda não havia terminado.

— Mais uma coisa. — Angie começou e ele parou novamente para olhá-la. — Não comente com ninguém sobre o que você sabe dessa noite, ok? — sorriu.

— Pode deixar. Agora vê se vai dormir um pouco!

— Pode deixar. — ela assentiu e então adentrou a casa, fechando a porta em seguida. Naquele instante, coincidentemente, sono a abateu novamente.

Sem pensar duas vezes, Angeles se dirigiu mancando a sua cama e pegou no sono assim que caiu sobre ela.

XX

German voltou andando do hospital, entrou em sua casa e ponderou se dormiria ao menos um pouco ou se iria se sustentar ao longo do dia na base do RedBull. Quando seu corpo se manifestou pedindo pela sua cama, ele então se dirigiu às escadas, nas quais Violetta descia euforicamente em seu pijama.

— Está acordado? — a menina parou e indagou ao ver seu pai por ali.

— Insônia. Vou tentar dormir um pouco mais. — ele disse a primeira coisa que veio a cabeça.

— Mas você não está nem de pijama. — ela estranhou.

— Ahm... e você, acordada já? — o homem mudou de assunto e sua filha respirou fundo, fingindo que não percebeu.

— Eu e as meninas iremos acordar a Angie hoje. Já vou me arrumar.

— Boa sorte, filha. — German sorriu e então continuou subindo as escadas. Quando estava quase no fim, a garota o chamou novamente.

— Pai. — ela sorria quando ele olhara de volta pra trás. — É hoje.

Então, German só conseguiu sorrir junto.

— É hoje, princesa.

Notas finais
se vcs ainda existem, please comentem
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.