Sortilégio...
21 Capítulo 21 DIR GEHÖRT MEIN HERZ - Parte II
Notas iniciais
Camus saiu satisfeito da coletiva com os repórteres e plenamente realizado em revelar a inocência de Hyoga. As perguntas ecoavam no hall do prédio, porém ele e Aiolia responderam a todas com uma precisão cirúrgica. Quando deixava suas instruções para June e se encaminhava para a saída, seu celular tocou com o retorno do pedido que fizera a Kanon logo após sair de casa.
— Camus? Recebi seu recado e já fiz um levantamento de todos os antiquários que teriam um especial interesse em violinos. Creio que até o final da tarde, tenho uma lista pronta para verificações. – disse o investigador.
— Ótimo! Eu preciso saber quem o comprou para reavê-lo. – falou Camus.
Em seu escritório, Kanon olhava para a caixa de charutos sobre a escrivaninha, enquanto falava com Camus. Fazia cinco dias que não colocava um só charuto na boca e, apesar de sentir muito prazer em fumá-los, nada se comparava a outros prazeres que tinha com certo alguém...
— Pode deixar, Camus, assim que eu localizar o comprador te dou retorno.
Camus desligou e preparou-se para o compromisso mais difícil e delicado do dia: falar com seu pai.
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A casa de Hades era imensa, com sala de visitas, sala de jantar e um impressionante gabinete repleto de livros, além de uma menos imponente, mas ainda assim elegante, sala de estar e uma cozinha. Tudo no andar de baixo. No andar superior, o luxo não era menor. A suíte principal era uma obra prima da decoração neoclássica, a preferida do juiz.
Ao entrar na casa, Camus sentiu-se estranho, como se não pertencesse ao lugar onde crescera e ainda frequentava nos jantares promovidos pelo pai. Havia uma assepsia emocional em toda aquela estrutura que jamais parecera um verdadeiro lar.
A governanta que o recebeu, era nova. A de sua época já havia se aposentado e ele notou que esta era bastante reservada e silenciosa, bem ao estilo de seu pai.
— Fique à vontade, senhor Camus. Seu pai já vai recebê-lo.
Camus agradeceu e ficou em pé, próximo à janela. O jardim estava bem cuidado e repleto de flores vermelhas, as preferidas de sua mãe. As únicas lembranças que tinha dela sorrindo era quando andavam juntos pelo jardim e ela aspirava o perfume das flores, enquanto ele brincava de se esconder entre os arbustos.
— Bom dia, Camus. – disse Hades interrompendo as lembranças.
— Bom dia, pai. – respondeu Camus, notando que o pai olhava-o de um modo bastante incisivo.
— Vamos até o jardim ou prefere conversar em meu gabinete?- perguntou Hades.
— O jardim me parece uma opção melhor.
Caminharam um tempo, falando amenidades, até Hades parar em frente a um banco de madeira onde mandara construir um recanto com estilo oriental. Um canteiro feito de areia e seixos criava um desenho geométrico repousante em meio aos arbustos verdejantes e flores vermelho vivo.
— Então, o que o traz aqui? Veio falar do presente que lhe dei? – disse ele sentando-se.
— Ah, não. Ainda não tive tempo de abri-lo, embora tenha me deixado curioso. O que me traz é outra coisa... algo delicado que sei que vai decepcioná-lo, mas não posso esconder de você.
Hades ficou ainda mais ereto, denunciando sentir desconforto, mas mesmo assim, encarou o filho.
— E o que me decepcionaria mais ainda que a sua recusa em tornar-se juiz?
— Minhas escolhas pessoais.
— Não venha me dizer que...
— Sou homossexual, pai. – a frase saiu direta e curta.
Hades engoliu em seco. E, por alguns segundos, ele piscou como se tentasse processar aquela informação. Em seu íntimo, algo cochichava que não era nenhuma novidade, ele é que teimara em fechar os olhos, vendá-los como Têmis, a deusa guardiã dos juramentos dos homens e da lei.
— E você espera que eu aceite isso? Diga-me, Camus... onde eu errei com você? Fui tão ausente como pai e como figura masculina que você... você me afronta com isso?
— Pai... Não receba isso como uma afronta ou como resultado das suas falhas. Eu nasci assim, está em mim! Ser homossexual não é algo comportamental ou uma doença. É, apenas, a aceitação que amamos alguém do mesmo sexo.
— Pois, para mim, é como ser castigado! Você é meu único filho, como espera que eu aceite que tudo termine assim? Sem filhos, sem esposa, sem uma vida normal? Vai viver com outro homem? Que espécie de vida será essa?
— A que eu escolhi para mim e que vai me fazer feliz.
— Como eu já disse uma vez, você é um homem adulto. Arque com as consequências das suas escolhas e viva como acha que deve, mas não espere que eu concorde com elas, nem que as aceite. Acho que nossa conversa terminou, preciso resolver alguns casos no tribunal e não quero me atrasar. – disse Hades olhando para o relógio de pulso.
Camus olhou para o pai, sustentando a frieza e a decepção que ele exibia nos olhos.
— Adeus, pai.
— Adeus, Camus. – respondeu Hades deixando o filho no jardim e apressando-se em entrar.
Camus deixou a casa de seu pai e, após cruzar o portão deu um forte suspiro. Sentia alívio e tristeza, mas também a certeza que fizera a coisa certa. Não era homem de viver de aparências e mesmo que aquela revelação significasse uma ruptura com seu pai e até com colegas de profissão, sua inteireza como homem e como ser humano vinha em primeiro lugar.
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Eram 18h30min horas quando Milo retornou ao apartamento. Tudo parecia calmo e deserto, embora houvesse um delicioso aroma de comida no ar. O grego sorriu ao lembrar que ele e Camus iriam jantar e que o ruivo já se encarregara de tudo. Espiou em direção à cozinha vendo-a em perfeita ordem, sem nenhum sinal de ter sido utilizada.
— Chegou cedo... – falou uma voz grave vinda da varanda.
Milo sorriu vendo Camus surgir vestindo um jeans claro e uma camiseta de algodão branca justa. Nunca o vira assim, despojado e tão... lindo. O ruivo era o tipo de homem cuja elegância parecia ter nascido com ele, fosse vestindo um terno, um jeans ou... sem roupa nenhuma!
— Engraçado, eu sinto cheiro de comida, mas não estou vendo onde ela está. – disse Milo indo ao encontro de Camus.
O ruivo o puxou para si e o beijou.
— Eu pedi a sua pizza favorita... E, mesmo que alguns considerem um sacrilégio beber um Romanee Echezeaux 2008 tendo pizza por acompanhamento, eu resolvi que esse seria o nosso jantar especial.
Milo riu alto, abraçado à Camus, sentindo-se invadido por uma felicidade que não tinha definição.
Os dois sentaram na varanda e comeram apreciando a vista e sentindo a brisa morna. Beberam e conversaram, numa intimidade gostosa até aquele tipo de olhar abrir caminho, devagarinho...
A noite terminou na cama e quando amanheceu, Milo acordou cedo. Ainda deitado, podia ver Camus através da porta aberta do banheiro enquanto se barbeava. Ele acordara muito cedo e parecia ansioso. Em silêncio, ele retornou ao quarto e começou a se vestir. Provavelmente estaria pensando na tal entrevista que prometera àquela repórter. O homem sensual da noite passada agora voltava a vestir terno escuro e exibir uma expressão mais severa.
Mas, para surpresa de Milo, Camus o encarou e abriu um sorriso tão bonito que o fez esquecer-se das indagações que fizera ao observá-lo.
— Vou passar o dia inteiro fora. Mas, à noite, estarei na inauguração do clube. – disse o ruivo beijando Milo de leve, nos lábios.
— Vou esperá-lo. – respondeu Milo puxando Camus para um beijo mais demorado.
— Hummmm... Deixa eu escapar, senão...
— Senão... o quê? – provocou Milo, rindo rente aos lábios do ruivo.
— Afasta-te tentação!— disse Camus fazendo um sinal da cruz com os dedos com um sorriso estampado no rosto bonito.
Milo riu e deixou-o sair.
Ao fechar a porta do apartamento, Camus ouviu o celular tocar, reconhecendo o número de Kanon.
— Oi, Kanon! E aí, o que descobriu?
— Você não vai acreditar... — falou Kanon.
— O que foi?
— Quem comprou o violino foi seu pai.
— Meu pai?
— Sim, o dono do antiquário registrou a compra em nome de Hades.
Camus empalideceu e depois se lembrou do presente. Não pode ser... Seria muito surreal! Disse o ruivo para si mesmo, enquanto apressava o passo para chegar ao escritório.
Minutos mais tarde, June viu uma lista passar por sua mesa, acompanhada de um bom dia que mais parecia um grunhido.
— Bom dia para você também! – respondeu a secretária continuando a digitar.
Chegando à estante, Camus pegou a caixa sem dar-se conta que estava prendendo a respiração. Abriu-a e achou um envelope junto ao estojo do violino. Era o violino de Milo! Sorrindo e, ao mesmo tempo sentindo os olhos cheios d’água, Camus retirou um bilhete do envelope e leu:
“Camus, quando você era pequeno, antes da sua mãe adoecer, você viu um violino em uma vitrine. Lembro-me da sua mãe ter dito: Você gosta deste instrumento, meu querido? e você ter respondido: Um dia, ainda quero ter um violino cigano! Seus olhos brilharam ao dizer aquelas palavras e nem eu, nem sua mãe soubemos de onde você tinha tirado a história do tal violino cigano. A verdade, é que jamais esqueci o seu olhar, naquele dia. Foi a primeira vez que vi a felicidade em seu pequeno rosto.... Enfim, dizem que as oportunidades se repetem, então recebi uma oferta de um legítimo violino cigano do século XVIII de um respeitável antiquário, propriedade de um velho conhecido. Algo me disse que ele devia ser seu. Mesmo com dezenove anos de atraso, aí está ele, seu presente por estar sempre afinado com a lei e a justiça.”
Hades.
Sem saber se ria ou chorava, Camus abriu o estojo, revelando o belo violino cigano. Sentou-se na beirada da escrivaninha e pensou em Milo. O grego tinha surgido em sua vida de uma maneira inusitada, ao som daquele instrumento que parecia mesmo um... sortilégio! Conspirações do universo ou destino? A verdade era que aquele violino parecia conectá-los com uma força sobrenatural recheada de lembranças... e, mesmo sendo extremamente lógico e racional, Camus vivenciava, cada vez mais, a premissa que nada acontece por acaso...
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A inauguração do novo clube Sortilégio contou com celebridades disputando para entrar. Jennifer Lopez e Charlie Sheen fizeram sucesso na fila, enquanto Shina os tratava com admiração, mas sem regalias.
Internamente, Sortilégio exibia uma decoração alegre e despojada, como se fosse um acampamento cigano organizado em alguns recantos mais discretos com uma luz indireta e outros iluminados por luzes reproduzindo pequenos archotes. O clima, embora sensual, atraía várias tribos e podiam-se tanto ver mulheres com vestidos provocantes e fendas laterais, quanto àquelas que preferiam calças pretas colantes com tops brilhantes que deixavam o corpo à mostra...
Sortilégio tornara-se, já na primeira noite, uma espécie de point exótico onde as bebidas elaboradas, a música de qualidade e o exército de pessoas bonitas garantia o sucesso da noite.
Milo olhava em volta, satisfeito com a casa cheia, mas faltava alguém... Diabos, onde Camus estava? Ele prometera estar ali e nada do ruivo! Preocupado, continuava procurando e sorrindo para disfarçar sua ansiedade, quando ouviu Mu anunciar a próxima atração. Para sua surpresa, uma voz conhecida assumiu o comando e o grego sentiu-se estremecer:
— Senhoras e senhores! Perdoem a minha intromissão. Eu não sou DJ , mas tenho a honra de pedir e anunciar uma atração que, certamente, agradará a todos! Eu apresento à vocês, o proprietário do clube Sortilégio e um virtuose do violino cigano. Milo, por favor, apresente-se e toque para nós! – disse Camus descendo do mezanino com o violino nas mãos.
Milo congelou e sentiu um tremor interno ao ver Camus vestindo um jeans escuro e justo que acentuava o corpo esguio e dava a ele um ar um tanto rebelde. Estremeceu mais ainda ao ver nas mãos dele o seu... violino!
— Camus... Como conseguiu? – sussurrou não acreditando no que estava vendo.
Camus sorria e Milo quase chorou ao fitar aqueles olhos sobre si. O grego tocou no violino e acariciou a mão do ruivo. Foi um toque sutil, mas pleno de significado.
— Ele é e será sempre seu. Toque para nós... Toque para mim. – disse Camus, baixinho.
Um sorriso trêmulo se formou nos lábios do grego. Ele tomou o violino nas mãos e foi até o meio da pista. Fechou os olhos e começou a tocar... A melodia iniciou suave, envolvente, até evoluir para algo dinâmico e dançante que fez o público acompanhar com palmas entusiasmadas.
Camus sentiu-se transportado para além dali e, ao fechar os olhos, uma emoção genuína e intensa o fez sentir o calor de uma fogueira e a força de braços vigorosos em volta de si. Por alguns segundos, aquela sensação o deixou entre o presente e o passado e a realidade adquiriu uma roupagem diferente, exatamente como o nome sugeria...
Sortilégio... Prazer... Destino...
Os gritos de bis, assim como o abraço dos amigos trouxe Milo para a realidade. Seu peito parecia que ia explodir de tanta emoção. Camus se aproximou e ambos deixaram a pista.
Um pouco mais tarde, o grego pegou Camus pela mão e dirigiu-se até a saída. Precisava de ar e compreender aquela chuva de bênçãos que a vida estava lhe oferecendo! Quando chegaram até a calçada, Milo respirou fundo e puxou Camus para um abraço.
— Sério, Camus... Como você conseguiu aquilo? Não me diz que pagou uma fortuna pra reaver e...
— Ele me foi dado de presente por meu pai. Foi a coisa mais louca que podia ter me acontecido e, ao mesmo tempo, me pareceu tão certo, tão sincrônico.
— Eu achei que seu pai não tivesse aceitado a gente.
— Ele não aceitou. O presente veio antes de ele saber.
Milo riu baixinho, ainda abraçado à Camus. De repente, ele percebeu a velha mendiga arrastando seu carrinho na calçada oposta à sua e algo dentro de si o fez ir até ela.
— Só um pouquinho, Camus. Preciso falar com aquela mulher. – disse Milo.
A mendiga cantarolava com fones de ouvido que estavam, caindo aos pedaços, quando Milo acenou e chamou-a:
— Senhora! Senhora!
— Sim? – disse ela sorrindo e encarando o grego.
— Bem, eu a vejo sempre por aqui, perambulando sozinha pela rua. A senhora tem onde ficar? – perguntou Milo.
— Minha casa é o mundo, meu filho. Mas, por que pergunta?
— Eu adquiri o bar e o transformei em um clube. Na parte dos fundos tem uma peça pequena que foi reformada para tornar-se um local de descanso para os funcionários. Pode ocupá-la à noite. Tem uma cama e um banheiro, assim como um pequeno frigobar. – disse Milo pegando a mão da mendiga entre as suas.
A velha senhora sorriu, fitando os olhos azuis de Milo.
— Obrigada, meu rei... Eu sempre soube que nos reuniria, novamente. Pensou ela com carinho, enquanto falava com Milo, sentindo muito amor e gratidão.- Seu coração é generoso e abençoado. Mas, não se preocupe com esta velha... Ainda tenho muito a fazer... – completou ela.
— Bem, as portas do Sortilégio sempre estarão abertas para a senhora. — falou Milo sorrindo.
A mendiga sorriu e disse algo numa língua estranha, seguindo seu caminho.
“Thiumidau tio ilô Deula! Bartai Sastimos!” (Beijo teu coração, meu senhor! Boa sorte e boa saúde!). A frase ecoou no ar e, mesmo que nesta vida, Milo não entendesse a língua romani, seu coração aqueceu e seus lábios se abriram num sorriso de reconhecimento.
— Vamos voltar? – perguntou Camus.
Milo ainda ficou olhando a figura encurvada que agora cantava, alegremente, enquanto se afastava empurrando seu carrinho e se perguntava o porquê daquela sensação que a sua vida iniciava agora e que mesmo aquela mulher das ruas, parecia fazer parte dela...
— Vamos. – respondeu o grego tomando a mão de Camus na sua.
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Eram quatro horas da madrugada quando Hades despertou do horrível pesadelo. Nunca sonhava, mas a lembrança nítida das imagens fez seu coração disparar. Nelas, Camus estava caído na calçada com o corpo coberto de sangue. Os olhos zuis estavam vítreos e um jovem loiro estava ao seu lado gritando e sacudindo-o. Pessoas se amontoavam em volta com expressões de angústia em seus rostos acinzentados... Foi uma bala perdida! Alguém gritou. Pobre jovem! Era tão bonito e parecia tão apaixonado... Disse outra voz.
O juiz respirou fundo, sentindo a sensação inédita de medo. Algo lhe dizia que tinha de fazer alguma coisa, mas o quê? De repente, voltou-lhe a mente as palavras da mendiga que o ajudara naquela noite: Apenas abra seu coração... Abra seu coração.
Ainda meio estonteado, Hades levantou-se e pegou o celular.
— Pai?— perguntou Camus estranhando a ligação àquela hora da madrugada.
— Sim, Camus, sou eu. Bem, eu estou ligando para dizer... Para dizer que mesmo não aceitando as suas escolhas, você é e sempre será meu filho. Eu... amo você, Camus. – disse Hades.
Camus ficou mudo. Ainda estava no clube envolto pela música lenta da flauta de Sorento e esperando que Milo conversasse com Shiryu para então deixar o local. As palavras do pai o pegaram desprevenido e ele estancou, desistindo de ir até a calçada e dar mais uma respirada fora do ambiente tomado de calor humano. Ficou parado perto do balcão, digerindo aquelas palavras. Então, só ocorreu-lhe responder uma coisa:
— Eu também te amo pai.
Naquele exato momento, fora do clube, um ladrão corria e trocava tiros com a polícia. Uma bala passou zunindo pela porta de entrada do Sortilégio que, àquela hora permanecia fechada. Ninguém se feriu, mas se alguém tivesse saído para tomar ar, teria sido atingido na altura do peito...
Alheio ao que estava acontecendo fora do clube, Camus guardou o celular e sorriu ao ver Milo vindo em sua direção.
— Você deve estar cansado... Pode ir pra casa, eu fecho, falo com o pessoal e te encontro lá. – disse o grego.
— Não. – respondeu Camus.
— Amanhã é dia de trabalho e você... você já fez muito hoje, ruivo.
— Não saio daqui sem você. – ele teimou.
Sabendo que não haveria como convencê-lo e nem querendo muito, Milo retornou ao trabalho, enquanto Camus tornou a se acomodar no canto do balcão.
Já eram quase seis horas da manhã quando os últimos clientes deixaram o clube e Milo finalizara com o seu pessoal. Estava cansado, mas ainda sorria do jeito que fazia Camus ter pensamentos... Quando o grego se aproximou, viu que o ruivo estava diferente, parecendo mais relaxado. Sem ninguém para olhar, Milo enlaçou o pescoço de Camus e perguntou rente aos lábios desenhados:
— Enfim, sós... Sei que está cansado e eu também, mas... vê-lo aqui e gostoso do jeito que está vestido me faz ter ideias.
— Na mesa de bilhar ou... tem outro lugar mais sugestivo? – perguntou Camus com um sorriso malicioso.
Milo riu e beijou-o, invadindo com a língua afoita, a boca que se abria para receber a sua. Depois de um tempo, levantou e puxou Camus pela mão.
Sim, a mesa de bilhar já estava pronta e esperando...
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Seis meses depois...
— Amor? Acho que ele mexeu! – disse Lúcia tocando na barriga pouco proeminente.
— Tem certeza? – perguntou Jamian deixando as ferramentas ao lado do carro e correndo até a varanda, onde sua esposa estava sentada.
— Pareceu um... peixinho deslizando aqui dentro. – disse ela rindo.
Jamian aproximou a cabeça, a mão tocando o ventre e um sorriso nos lábios. Lúcia riu e acariciou os cabelos do marido.
— Quem diria que estaríamos aqui, sendo felizes de um jeito que eu jamais ousei sonhar. – disse Lúcia.
— É verdade. Estamos em Brighton e eu sou o único mecânico da cidade. Tenho uma linda esposa e vou ter um filho. Sinceramente, eu nunca esperava tantas bençãos em minha vida. – disse Jamian.
— Você as mereceu... – disse Lúcia tocando o rosto dele e puxando-o para um beijo apaixonado.
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A Ferrari preta estava estacionada e o homem fora dela olhava o relógio. Era óbvio que o voo estava atrasado, como sempre! Vestido à rigor, Saga esperava impaciente a chegada de Afrodite. Não revelara que vinha esperá-lo, queria fazer uma surpresa.
Da janela, Afrodite contemplou um aglomerado de nuvens e a pista de aterrissagem que refletia os raios do sol. Estava com muitas saudades, principalmente de Saga.
Quando o avião aterrissou e todos desceram, Afrodite colocou os óculos escuros e saiu por último, tentando não ficar procurando Saga entre os que recepcionavam seus familiares ou amigos. De vez em quando dava uma olhada discreta e nada. Quando já havia desistido por completo...
— De óculos, heim? Muito sexy...— disse uma voz próxima ao seu ouvido.
— Saga?
— Esperava outra pessoa?
— C-Claro que não! Mas, pensei que estaria ocupado.
— Ocupado para receber aquele que povoou meus pensamentos durante seis intermináveis meses?
Afrodite sorriu e ficou corado quando Saga levou sua mão aos lábios e a beijou.
Quando chegaram ao carro, Saga deu vazão à saudade. Puxou Afrodite pela nuca e beijou-o de forma possessiva e intensa. Após aqueles longos meses, a sensação da boca de Saga clamando a sua foi melhor que as notas altas que tirara no estágio e até que a proposta de emprego cujo salário era maravilhosamente compensador.
A ponta cálida de um dedo contornou o maxilar de Afrodite, quando Saga interrompeu o beijo e o encarou.
— Entendeu, agora?
— Hummm... Não tenho muita certeza, talvez precise de maiores explicações... – exclamou Afrodite sorrindo.
— Bem, sabe que sou um... argumentador nato. Terei o maior prazer em detalhar minhas explicações. – disse Saga cobrindo os cantinhos da boca de Afrodite de beijos.
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Hyoga estava atento a tudo, naquele julgamento. Desde as instruções do juiz ao júri, às explanações do advogado de defesa e do promotor. Pretendia ingressar na universidade de direito no próximo ano e já estava ficando por dentro das rotinas ao trabalhar como ajudante de Camus e agora o advogado o trouxera para analisar uma audiência sobre quebra de contrato.
Quando o júri foi encaminhado à sala secreta para discutir o veredicto, Hyoga aproximou o rosto ao de Camus e cochichou:
— Por que o Sr. David não protestou quando o promotor apresentou aquele antigo contrato? Tenho certeza de que ele poderia ter alegado uma série de irregularidades. Há um ponto específico que mostra algumas brechas na lei que rege a regulamentação dos contratos de confidencialidade e...
— Por Deus, você nem entrou para a faculdade e já notou isso. Parabéns, Hyoga, isso revela um talento nato. – disse Camus com orgulho.
— Eu tenho um ótimo exemplo. – disse Hyoga sorrindo e dando uma discreta cotovelada em Camus.
O advogado sorriu orgulhoso de ter uma participação na descoberta do jovem ao seu lado. Hyoga passara por tanta coisa e agora estava ali, aprendendo e revelando um talento genuíno. A família que o adotara, temporariamente, resolvera oficializar o ato de adoção e estava, verdadeiramente, apaixonada pelos dois garotos. Assim, enquanto Hyoga estudava e trabalhava com Camus, Isaac estudava e ajudava o pai adotivo na loja de artigos para pescaria.
— Que tal irmos comer alguma coisa ao sairmos daqui? Estou faminto! – falou Hyoga.
— E quando não está faminto? – falou Camus franzindo o cenho – Vamos, mas antes preciso falar, rapidamente, com meu pai.
— Certo. Você vai fazer isso, agora, durante o recesso?
— Vou. – respondeu Camus indo em direção ao gabinete da sala de audiências.
Hades recém havia entrado, quando ouviu duas batidas na porta.
— Entre. – disse ele.
— Oi, pai. Queria falar comigo?
— Sim, tenho pouco tempo, mas se eu não falar com você hoje, temo que Sasha faça greve de silêncio, novamente. Ela faz questão que você venha almoçar neste domingo e... traga o seu... Traga Milo.
Camus estreitou os olhos. Fazia dois meses que seu pai e a sua “colaboradora” haviam se casado em uma cerimônia civil simples e discreta, somente para os familiares. Dizendo-se de passagem que Sasha não tinha pais vivos, nem parentes nos Estados Unidos e Hades, muito menos, os familiares se reduziram a... Camus que, por sua vez, foi acompanhado por Milo.
Ao saber do grego, Sasha fizera questão que ele estivesse presente e Milo, agradecido pela gentileza, a presenteara com uma música especial. A partir dali, a jovem esposa de Hades fez questão de aproximar a todos, mesmo que o marido ainda resistisse à história de ver seu filho “casado” com outro homem...
Também se passara dois meses e meio que Camus tinha dado a tal entrevista exclusiva e, para sua surpresa, a matéria feita por Aimeé não possuía mensagens sensacionalistas, nem dramas e sim um posicionamento de extremo bom gosto que não afetou sua carreira, nem provocou maiores estardalhaços.
O jovem advogado olhou para o pai, ciente que ele estava fazendo um grande esforço.
— Diga para Sasha que já temos um compromisso. – falou Camus.
— Não, não! Por favor, não faça isso! Sasha vai achar que eu não estou tentando ser menos... preconceituoso.
Camus riu. Na verdade, aquele Hades à sua frente em nada se parecia com o homem frio e radical que ele conhecera. Seu pai parecia... indiscutivelmente mais humano e vulnerável, embora como profissional continuasse mantendo a justiça com pulso de ferro.
— Eu sei que está tentando, pai. Mas, não quero que se crie um clima desagradável no domingo. Não é justo com Milo, nem com você.
— Vou me controlar. Por favor, aceite ou terei problemas. – disse Hades, vencido. – Convide Aiolia e o... tal Mu, pronto! Sasha também gosta do seu sócio e do... amante, marido, seja lá como for que vocês chamam este tipo de relacionamento. E dizer que os dois oficializaram sua união civil e estão em lua de mel...
— Pois vá se acostumando, eu e Milo também já estamos encaminhando os papéis. Então, se você insiste... eu e Milo estaremos lá. Mas veja bem, pai, lembre-se de não criar nenhum clima. – falou Camus deixando o gabinete.
Hades assentiu com a cabeça. Nem ele mesmo entendia como Sasha o convencera a aceitar, mesmo que em parte, uma relação homossexual. Mas, ao lembrar-se dos olhos da esposa e da forma intensa com que ela o despertara, novamente, para o amor e o sexo ele sabia que o veredicto para si mesmo era: condenado a viver feliz desde que abrisse sua mente e seu coração e, esta sentença valia a pena a ser cumprida.
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Kanon bebericou o café, mas o líquido escuro e amargo não ajudou a curar a ressaca. Sorriu, mesmo sentindo a cabeça estourando e fez o seu gesto habitual de colocar os pés sobre a mesa. Sua vida tinha adquirido uma roupagem muito interessante...
As noites com Sorento eram divertidas e quentes. Cada vez mais se sentia ligado àquele jovem exótico e fogoso. Era incrível como tinham gostos semelhantes e como o toque dele era eficiente para tirar-lhe todo o cansaço do dia.
Fechou os olhos e relembrou a noite passada...
—Vamos jogar pôquer! – dissera Sorento com aquele olhar de canto que deixava Kanon imediatamente excitado.
— Pôquer? Jogo pôquer desde bebezinho... Você não terá nenhuma chance! – respondera o investigador abrindo uma garrafa de champanhe.
— Ah, que bom! Então sabe que tipo de pôquer eu estou sugerindo, não?- retrucara Sorento aceitando a taça borbulhante e sorvendo um longo gole.
Kanon sorriu... Mas claro que ele sabia. Cada jogada perdida exigia a retirada de uma peça de roupa.
— Prepare-se para ficar nuzinho... belo.
Após a fala de Kanon foi a vez de Sorento sorrir.
— E você se prepare para a primeira derrota da sua vida... Vai ficar nu para mim e ainda dançar algo bem sugestivo...
O jogo começou. As cartas foram dadas. Sorento estava com um par de dez. Nada demais, mas não era mal. Olhou para Kanon. Nenhuma expressão. O investigador pediu mais duas cartas e Sorento, três. O jovem guardou o riso antes de mostrar as cartas. Beberam uma garrafa de champanhe e depois mais outra.
— Uma trinca.— disse Sorento com orgulho.
— Um full house. – anunciou Kanon.
Sorento olhou as cartas em silêncio.
— Bem, o jogo está apenas começando, não é mesmo? – disse, finalmente.
— Você tem de tirar uma peça de roupa... – falou Kanon.
— Certo. Sem problemas! – disse Sorento tirando os sapatos.
Kanon o observou, lentamente. Sorento pegou as cartas e as embaralhou. Sentia o desejo explícito nos olhos do namorado e adorava aquilo! Kanon não só o desejava, mas o fazia sentir-se poderoso...
— Duas cartas, por favor. – pediu Kanon.
Sorento também pediu e, logo em seguida, ambos notaram que respiravam pesadamente e em silêncio. De repente, aquela brincadeira estava deixando-os excitados em demasia.
Kanon olhava nos olhos de Sorento e não para as cartas. Sem deixar de fitá-lo como se estivesse faminto, ele desistiu, mostrando um Straight.
— Mostre seu jogo. – disse ele.
Sorento sorriu e deixou suas cartas viradas para baixo. Com os olhos fixos nos de Kanon, começou um lento striptease...
— O que você tinha? – perguntou Kanon já sentindo sua ereção se avolumar ainda mais.
— Um Straight Flush! – respondeu Sorento aproximando seu rosto do dele e pondo os braços cuidadosamente em torno de seu pescoço.
— Você venceu!- disse Kanon.
— Sim, eu venci e nós ficamos empatados, já que você venceu o jogo anterior... Só que agora, eu estou com um tesão danado e preciso me acalmar. – disse Sorento lambendo os lábios de Kanon.
— Certo... também estou necessitado. – respondeu o investigador sorrindo e adorando aquele gosto refrescante que sentia na boca de Sorento.
Fizeram amor, ali mesmo, no chão da sala. E, em meio ao riso e ao orgasmo avassalador, os dois disseram “eu te amo” e desabaram, exaustos,abraçados um ao outro.
É, assim como seu irmão gêmeo, ele tinha se rendido ao amor com alguém mais jovem e isso era, definitivamente, delicioso e rejuvenescedor...
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Na manhã de domingo, Camus acordou cedo e ficou olhando para Milo. O grego dormia pesado. Mesmo que tivesse chegado mais cedo do clube, parecia exausto e o ruivo pensava se devia mesmo ir ao tal almoço com o pai. Nesse meio tempo, Milo abriu os olhos.
— Já tá na hora? – perguntou, sonolento.
— Não, ainda é cedo. – respondeu Camus.
— Acordou cedo por quê? Tá nervoso com o almoço na casa do seu pai?
— Um pouco.
— O Aiolia e o Mu também vão?
— Vão, eu os convidei e parece que a Sasha ligou pra eles, pessoalmente, também.
— A Sasha é incrível, não é?
— Concordo com você. Olha que para tolerar meu pai...
— Sinto informar, mas acho que nesta relação quem come na mão dela é ele. – disse Milo se levantando.
— Aonde vai? – perguntou Camus estranhando a rapidez de Milo àquela hora.
— Ao banheiro, tomar um longo e delicioso banho.
— Agora? Mas, são recém sete horas da manhã e o almoço é ao meio-dia.
— Eu sei, mas não vou tomar banho por isso. — respondeu Milo, bem sério.
— Não? Então...
— Como você é lerdinho para algumas coisas, advogado... – disse Milo voltando para a cama e esfregando o nariz no pescoço do ruivo.
Camus fechou os olhos e riu.
— Me explica isso direito, grego. – falou Camus.
— Simples! Vamos almoçar com seu pai e isso me lembra daquele filme A Sogra com a Jane Fonda e a Jennifer Lopez, onde a sogra elegante, culta e, aparentemente, amorosa imagina afundar o belo rosto da nora em um pratinho com bolo. E a nora, por sua vez, também imagina e faz... coisas horríveis com sua sogra.
— Você está com medo que meu pai faça coisas horríveis contra você ou que você faça com ele?
— Não. Eu apenas quero estar bem relax e, mesmo que essas ideias surjam em minha mente, ela estará tomada por outro tipo de lembrança e... sensação.
— Ah, é? E que tipo de... lembrança e sensação você quer? – perguntou Camus num tom casual.
— A de fazer amor com você...
— Se nós começarmos com isso, agora, vai ser a manhã toda.
— E porque acha que eu to indo tomar banho?
Camus sorriu e, minutos depois, gemeu, ensandecidamente, quando Milo retornou com seu fogo peculiar e o atacou com suas mãos e lábios.
Fizeram amor de todos os jeitos e as sensações que ambos proporcionavam um ao outro, estavam além da luxúria e do prazer que acontecia, naturalmente e que possuía um genuíno encantamento... Entre os dois, havia um amor sagrado que sobrevivera ao tempo, às dores, às perdas e à morte.
Entrega... Prazer... Reconhecimento... Um doce sortilégio cuja força seria sempre e em quantas vidas, eles vivessem, um grande e infinito amor!
Fim
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