Sortilégio...

16 Capítulo 16 ALL MY LOVE ...


Eu não devo me apaixonar?
Meu fogo na luz
Perseguir uma pena no vento
Dentro do brilho que tece o tecido do prazer
Lá se move uma linha que não tem fim
Pois muitas horas e dias que passam logo
As marés fizeram a chama escurecer
Finalmente o braço está reto, a mão para o tear
Isto vai terminar ou apenas começar?

Todo o meu amor, todo o meu amor
todo o meu amor para você agora
Todo o meu amor, todo o meu amor

(tradução da primeira estrofe de All My Love)

Led Zeppelin

No final da noite, Milo olhava seu reflexo no balcão polido, sentindo o corpo dolorido de cansaço, mas com a satisfação de ter a casa cheia, sem nenhum prejuízo pelo que acontecera. Sorriu para si mesmo e pensou em Camus. Ele fora levar June em casa e depois de ter conversado um pouco com os dois, percebeu que o que sentia era ciúmes mesmo.

Era um homem ciumento e possessivo, admitia. Quando amava, fazia-o com intensidade. Agia assim com o amante e também com os amigos. Ser amado por um escorpiniano era ser desejado como jamais seria por outro e ser defendido com garras e dentes. Teve que admitir que a secretária de Camus não era tão chata, nem arrogante. Talvez um pouco afetada, mas ela também sabia ser engraçada e contara muitas piadas sobre advogados.

Todos já haviam saído e ele estava ali, sozinho, curtindo a sensação de fazer a diferença com o seu trabalho. Todas as noites, conversava com os clientes, percebendo as necessidades deles, anotando sugestões e inovando sempre que possível. Olhou para o estojo do violino que tinha deixado embaixo do balcão e tocou-o com as pontas dos dedos... Sentia orgulho de si mesmo e queria que Camus notasse o seu esforço e resultados.

Naquele mesmo instante, Camus entrou e seguiu direto ao balcão. Milo sentiu aquele calor no peito e inspirou fundo. Não esperava que ele voltasse. Achara que o encontraria em casa, mas ali estava ele, bonito e imponente como sempre.

— Toque para mim... — pediu Camus com a voz rouca e caminhando, lentamente, na direção do grego.

— Tocar para você? Agora? – perguntou Milo sorrindo um tanto surpreso.

— Sim, agora... — disse Camus afrouxando a gravata.

Milo retirou o violino do estojo e encaixou-o entre o queixo e o ombro. Fechou os olhos e iniciou uma melodia suave. Camus também fechou os olhos, recostando-se no balcão. Era incrível como a música de Milo era capaz de transportá-lo para outro lugar e aliviá-lo da carga de obrigações que pesava sob seus ombros.

Enlevado pela música e feliz por tocar para Camus, Milo movia o corpo como se dançasse e, quando o último movimento fez terminar a música, ele abriu os olhos e seus lábios se entreabriram... Os olhos azuis viajaram pelo corpo de Camus que estava a poucos centímetros do seu.

O advogado sorriu e com um olhar perverso exibido através dos olhos semicerrados baixou o olhar para os lábios convidativos de Milo, tirou o violino de suas mãos e pressionou o corpo contra o dele, abraçando-o com força. Estava louco de tesão, queria possuí-lo, tocá-lo, sentir o cheiro e o gosto dele.

— Creio que temos uma... pendência para resolver. – disse Camus.

Era estranho esse sentimento que chegara de forma alucinante e o tornara um homem totalmente diferente do advogado cuja vida girava em torno, apenas, do trabalho. Milo era capaz de incendiá-lo com apenas um sorriso e levá-lo às alturas com um simples olhar. Mesmo agora, com a culpa pela omissão daquele assunto golpeando-o por dentro, ainda assim, ao estar com Milo, sentia que o desejo era mais forte e o fazia esquecer, por hora, dos problemas e suas consequências...

Deslizou a mão, afagando a pele quente que revestia os músculos rijos do peito e dos braços de Milo. Como era prazeroso estar com ele, dentro dele...

Milo o tocava também, desfazendo-o da camisa de excelente qualidade, deixando o atrito das peles confundir a noção de onde estavam e do que faziam. Camus, acometido pela fúria do desejo, permitiu-se apenas sentir. Os desafios, a razão, a causa, tudo evanesceu perante os sentimentos que nutria por aquele homem...

Foram se desfazendo das roupas, mantendo o contato corporal e o olhar sobre o corpo um do outro. Havia uma admiração mútua, tão grande quanto à excitação que os unia naquela relação intensa.

Milo empurrou Camus no sofá que permanecia perto do jukebox. Sentou em seu colo, enroscando os dedos nos cabelos sedosos e beijando-o com voracidade, fazendo-o saber que queria ser dele, aceitando o domínio que, com Camus, era deliciosamente perfeito.

Ajeitou-se no colo do ruivo juntando pele contra pele, mordendo o pescoço do advogado e acariciando os mamilos que intumesciam ao toque das suas mãos e da sua língua. Ouviu-o gemer e sorriu, encaixando-se no belo corpo, ansioso e ardendo de excitação...

Milo se ergueu e olhou nos olhos semicerrados de Camus levantando uma das sobrancelhas e inclinando a cabeça para trás... Como numa provocação, ele mordeu o lábio inferior e se moveu para frente, fechando a mão no falo ereto do outro, apontando-o na direção de sua entrada, sentindo-o pulsante junto ao seu corpo.

— Me quer advogado? Hummmm... Eu não sei se devo... Será? — Indagou com um sorriso leve. – Quer que eu me sente assim...? – Provocante, Milo desceu mais o corpo, sentindo o membro túrgido preenchê-lo devagar, encontrando resistência.

As mãos de Camus, embora macias, seguraram forte o quadril de Milo, enquanto ele se movia. Sorriu, ofegando um pouco e mostrando parte dos dentes brancos e alinhados que ora, ficavam cerrados, ora se abriam para dar passagem aos gemidos. Pressionou com força os dedos na pele do grego.

— Quero... quero que seja meu. – Disse obstinado e com firmeza. Acomodou-se e mexeu mais os dedos fazendo com que Milo se movesse enquanto jogava o próprio corpo na direção dele, aproveitando-se de que já estava posicionado, invadindo-o mais por aquela entrada.

Uma das mãos envolveu o corpo de Milo e se abriu, passando pelas costas até chegar à nuca, afundando os dedos nos cabelos revoltos e compridos dele, agarrando-os pela raiz e, ao mesmo tempo buscando o queixo e depois a boca para morder e beijar, enquanto a outra mantinha na cintura forçando-o mais.

— Você me enlouquece, Milo... — disse sugando-lhe o lábio inferior, percorrendo-o com a língua.

O rosto de Milo exultou e ele deixou as pernas dobradas e os joelhos afundados nos lados do sofá, assim dava impulso para começar a erguer-se e sentar-se naquele falo grande e quente que o invadia, sentindo prazer em deixar Camus naquele estado. Soltou alguns gemidos longos e aproximou-se de Camus, sugando-lhe os lábios com um sorriso cheio de luxúria, deixando a todo instante seu quadril em movimento, iniciando a penetração, rebolando, esmagando aquele órgão dentro do seu corpo.

— Eu te enlouqueço...? — disse próximo aos lábios avermelhados de Camus. – Pois você faz o mesmo comigo... — Brincou, voltando a beijá-lo, afundando as mãos nos ombros, enquanto sentia os dedos de Camus lhe apertar a carne com força.

Da última vez que fizera amor com Camus, o advogado lhe deixara com marcas roxas no quadril e nas coxas. Camus parecia outro homem quando fazia amor, por vezes era terno, gentil, mas, na maioria das vezes, era tão sedento e dominador que o sexo tornava-se uma deliciosa batalha de mordidas, apertos e penetrações profundas que o faziam gritar de extremo prazer...

As ondas de prazer percorriam todo o corpo de Camus, afastando a lembrança de qualquer coisa que não fosse o que sentia com o calor do corpo de Milo. Seu falo passava pelo espaço em meio à pressão e contração dos músculos do grego e a sensação era avassaladora e viciante... Moveu os quadris contra o rebolar que o outro fazia e buscou aqueles lábios grossos em um beijo molhado, provocante e envolvente.

Jamais imaginou amar e desejar tanto alguém. Milo era o resgate de suas emoções profundas e da sexualidade que despertara em todo o seu potencial. O grego tinha uma alma livre e sem pudor algum. Sua personalidade era forte, possessiva e um tanto selvagem. Eram tão diferentes e, no entanto, essa diferença se tornara um complemento, uma chama ardente que trouxera plenitude e novas decisões...

Intensificou o beijo, enquanto sentiu a glande absorvendo o calor interior do corpo de Milo. Era apertado, úmido, quente e, mesmo sentindo a resistência os corpos pareciam se encaixar e reconhecer perfeitamente. Em meio aos gemidos e ofegos, percorreu com os olhos as marcas que deixava em Milo com as mãos, com a boca e com os dentes. A mão da nuca afastou-se e foi ao meio dos corpos, agarrando o membro dele, masturbando-o com intensidade.

— Como seu corpo me suga... — Sussurrou entre os dentes e o lábio inferior de Milo.

O ritmo sôfrego e cadenciado dos movimentos, o elevar do corpo, os fios loiros grudados no rosto, tudo isso fazia parte de Milo, que gemia, inebriado pelo prazer de ser tocado por aquela mão e sentir que Camus estava com a boca entreaberta, respirando rápido, enquanto os seus cabelos ruivos grudavam em seu rosto, devido ao suor.

Ofegante, Milo sentiu o suor correr pelas costas. Naquele momento queria olhar Camus nos olhos e ver o gozo nos orbes azuis, então levou a mão até seu rosto e se debruçou, beijando-lhe a boca, ofegante, fazendo com que o membro que o penetrava latejasse e Camus estremecesse, diminuindo a masturbação.

Por hora, queria apenas unir seus lábios aos de Camus, deixando sua língua explorar aquele recanto de prazer. Beijar aquele que amava, senti-lo tremer no gozo... Sabia pela respiração e pelos movimentos do seu corpo e do corpo de Camus que o orgasmo estava chegando e queria retardá-lo, permanecer ao máximo ligado ao ruivo.

— Meu corpo adora estar unido ao seu, Camus... Eu amo vê-lo assim... enlouquecido. – sussurrou com os lábios colados aos do amante.

Camus ouvia as palavras de Milo ditas entre gemidos... Seu corpo inclinou para trás recebendo outro beijo daqueles lábios. Os batimentos cardíacos ficavam mais acelerados. A mão que agarrava o membro de Milo continuava com os movimentos de vai e vem, até colar ainda mais o corpo ao dele e deixar que seu ventre roçasse no falo do grego, sentindo-o pulsar em sua pele e gotejar de excitação.

O ruivo moveu-se, agarrou a cintura de Milo ofegando e pronunciando o nome dele. Voltou às investidas, sentindo a glande pulsar e suas mãos prenderam-se nas coxas de Milo, espaçando as pernas e agarrando a pele. Entrava em êxtase e desespero, o gozo vindo, quente, atordoante...

Milo sentia aquele membro o penetrando, abrindo mais espaço, como se quisesse atravessá-lo. Suas mãos fecharam-se nos braços de Camus, fincando as unhas, marcando-o na pele clara. Seu rosto afogueado se contorceu em agonia e ele arqueou as costas numa estocada mais funda, soltando um grito longo de prazer, jogando a nuca para trás. Do seu falo, o sêmen começou a escorrer em pequenos jatos, molhando-o no peito e no torso de Camus.

Ainda em êxtase, continuou a contorcer os músculos, sentindo aquela onda prazerosa lhe extasiar, enquanto Camus continuou com profundas investidas no corpo de Milo que agora se contraía com força. Gemeu e grunhiu, tendo o próprio sêmen preenchendo o espaço dentro de Milo. Estremeceu e sorriu ao sentir o orgasmo invadi-lo com aquela fúria habitual que o fazia ver tudo branco, intenso e o deixava sem qualquer pensamento e sem respirar.

Puxou Milo para si e o abraçou, ofegante. Suas mãos percorriam as costas do grego, sentindo-lhe o suor, o calor, o aroma da pele.

— Milo... – Suspirou, tentando controlar a respiração. Pronunciando, várias vezes, o nome daquele que amava.

Milo fechou os olhos e abraçou o ruivo, sentindo seu suor, dizendo alguma coisa baixa e ininteligível, para depois se afastar e beijá-lo, ainda ofegante. Mesmo sob o torpor pós-orgasmo, Milo ainda percorria os lábios de Camus com paixão e o ruivo correspondia, mesmo exaurido pelo furor do gozo que o grego lhe proporcionava.

— Eu te amo, Camus... Amo demais!

Afogueado, Camus sorriu, sentindo uma pontada de tristeza. Mas logo, Milo tomou-lhe a boca e ele se deixou possuir, novamente, pelo desejo...

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Aiolia acordou com três sons distintos: seu celular, seu telefone fixo e seu despertador. Sentia os olhos pesados de sono, pois dormira tarde e ainda bebera um pouco demais. Sorriu ao lembrar-se do motivo: tinha beijado Mu e a sensação que experimentara o tinha levado às alturas. Deus, aquela boca era, simplesmente, deliciosa! Sentiu seu baixo ventre pulsar só de pensar em como seria quando fossem pra cama.

Em meio aos sons distintos e uma ereção, Aiolia desligou o despertador e atendeu seu celular.

— Alô? June? Mas... O quê? O quê você está dizendo? – perguntou o leonino não acreditando no que ouvia.

— Alguém viu você beijando o tal DJ e os fotografou com um celular. A imagem de vocês dois juntos foi posta na internet e a fofoca se espalhou pelo twitter. Como você é sócio do Camus, certamente haverá um repórter na sua porta, logo mais. Esteja preparado, porque aqui, eles já chegaram e estão conversando com Camus. – disse ela.

Aiolia deu um pulo da cama e foi até seu escritório. Ligou o computador e comprovou o que June lhe dissera.

— Mas que droga! – disse Aiolia levando a mão aos cabelos revoltos.

Angustiado, pensou na repercussão que o caso teria em nível de imprensa. Sabia como havia preconceito, mesmo que houvesse advogados e juízes que assumiam suas relações homossexuais, eles eram uma exceção e não uma regra. A indicação de Camus corria um sério risco por ter um parceiro que fora flagrado beijando um homem em público.

Assim que chegara ao prédio de seu escritório, Camus relera o e-mail de Saori comunicando-o que o Pégasus já tinha um comprador interessado. Sentiu o rosto quente e, mesmo acostumado com revezes e reviravoltas nos seus casos, aquele envolvia alguém que lhe era muito caro: Milo. Depois de todo o trabalho do grego, ela, simplesmente, se desfazia do negócio com a mesma irresponsabilidade e falta de consideração habitual. Tinha a esperança de tentar reverter o quadro, mas sentia-se mal em deixar Milo cheio de expectativas que podiam se desfazer da noite para o dia. Decidiu responder com outro e-mail quando June entrou com aquela expressão de “temos problemas”.

— Uma jornalista do New York Daily News, uma tal de Aimeé, está aí e antes que você seja envolvido no fogo cruzado, veja as fotos na internet. – disse June.

— Fotos na internet?

— Sim, alguém fotografou o Aiolia no Pégasus ontem em uma situação, digamos... um tanto íntima com aquele DJ delicioso. Foi postado na internet e já têm mais de 789.967,00 mil acessos. Várias comunidades gays já enviaram uma infinidade de e-mails apoiando, assim como os conservadores também. Está uma verdadeira zona de guerra!

Camus piscou duas vezes, assombrado pela enxurrada de más notícias que recebia logo de manhã cedo, porém, logo se mostrou totalmente sob controle e preparado.

— Pois bem, vamos lá. Peça um café e uma água mineral e faça-a entrar. – disse o ruivo.

A repórter entrou confiante junto com sua equipe. Fixou o olhar em Camus achando-o, extremamente, bonito e atraente. Entretanto, após as apresentações e quando iniciou seus questionamentos, portou-se de forma arrogante e invasiva.

— Então, o mais jovem advogado a ser indicado para juiz tem um sócio com tendências homossexuais. O senhor já sabia dessa tendência ou foi uma surpresa?

— A senhorita sabe com quem o seu operador de câmara ou o seu técnico de som vão para a cama?

— Como? O que isto tem a ver com o que estamos discutindo?

— Ora, a senhorita me pergunta se eu sei da vida privada do meu sócio como se isso fosse algo indispensável para o nosso trabalho juntos. Então eu lhe devolvo a pergunta. Interessa à senhorita a vida pessoal de seus colegas de trabalho? Isso influi no seu desempenho profissional?

— Tenho que admitir que é um bom advogado, senhor Camus. Mas, a questão não é essa. Uma coisa é a vida privada, outra é expô-la em público, principalmente por ser filho de quem é. Todos sabem que tanto o senhor, quanto o senhor Aiolia são filhos de juízes importantes e conservadores. A sua indicação e a carreira de Aiolia podem sofrer sérias restrições com este escândalo, não concorda?

— O que eu vejo, senhorita Aimeé é uma busca por sensacionalismo, enquanto fatos verdadeiramente importantes são postos de lado. Meu trabalho, assim como o de Aiolia é defender os valores inerentes à ética e a justiça. Nosso escritório se propõe a representar tanto aqueles que possuem recursos, quanto aos que não podem custear os serviços de um advogado. Creio que nosso trabalho fala por si. Meu foco, neste momento é o caso em que estou trabalhando e onde a vida de um jovem está em xeque. Com quem meu sócio se relaciona e o que as pessoas que não tem nada melhor para fazer, pensam, não me interessa. Respondi a sua pergunta ou a senhorita pretende ampliar a sua pesquisa sexual em meu escritório?

Aimeé buscou um olhar de dúvida, um vacilo que permitisse que ela continuasse o assunto, mas tudo o que encontrou na expressão de Camus foi indiferença e segurança. Então, resolveu que teria uma reportagem, mesmo que não fosse bem aquela que esperava. Talvez em meio à conversa, ela arrancasse mais informações...

— Posso filmar seu escritório? Gostaria de falar sobre esse caso em que está trabalhando? Soubemos que é um jovem carente e que o senhor terá o promotor Saga como adversário. Embora tenham surgido novas informações sobre o caso, sabe-se que Saga dificilmente perde uma causa e é a primeira vez que vocês se enfrentam em um tribunal. Vocês são amigos, não? Poderia falar sobre isso?

Pela primeira vez, Camus sorriu.

— Creio que agora, estamos falando a mesma língua, senhorita. Gostaria de uma água ou um café?

Aimeé sorriu e lançou seu olhar mais sedutor. Ah, sim, gostaria... da língua de Camus em seu corpo...

— Não se incomode. Vamos falar sobre o senhor e... sua causa.

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O Kensington Stables não era um lugar sofisticado e elegante. Era apenas um conjunto de estábulos rústicos onde se podia alugar cavalos para passear em meio à propriedade que possuía árvores centenárias e retorcidas.

Saga encontrou Hades ali, estranhando o chamado do amigo e pai de seu adversário. O juiz vestia roupas simples de montaria e parecia mais sério que de costume. Ele era um homem maduro e, extremamente, atraente. Entretanto, escolhera viver sozinho, após a morte de sua esposa e mesmo que se especulasse que ele possuía uma amante, nada nunca havia sido confirmado.

— Bom dia. – disse Saga estendendo a mão.

— Bom dia não é, propriamente, a verdade. Mas obrigado por vir. – respondeu Hades apertando a mão de Saga.

— Está preocupado com as fofocas? Por isso esse lugar? – perguntou Saga, sendo direto.

— Muito. Esse rapaz, Aiolia, ele e... Camus. Você sabe se os dois tem algo? Por favor, Saga não omita nada. – falou Hades montando no cavalo.

— Aiolia e Camus? Não, não há nada além de amizade entre os dois, fique tranquilo. – disse Saga sorrindo e montando também.

— Camus vai ter de romper essa sociedade. Ficar ligado a um... pederasta só vai denegri-lo! Deus, o que estes jovens têm na cabeça? – falou Hades.

Se você soubesse, meu amigo... Se soubesse o prazer de adentrar o corpo de outro homem, talvez fosse mais feliz. Pensou Saga, enquanto sorria e tocava no ombro de Hades.

— Hades, tudo isso é sensacionalismo. A carreira de Camus é sólida demais para se deixar abalar por esses comentários tolos.

— Comentários tolos? O homem estava beijando o outro na boca! E em público!

É e no bar onde o gerente é o homem que transa e mora com o seu filho... Ah, Hades, você não sabe da missa a metade.

— Sinto que você quer que eu fale com ele... Já adianto que Camus é teimoso e não se deixa levar por nada. Além do mais, estamos um tanto afastados, um do outro.

— Vocês vão se enfrentar no tribunal. Diga a ele para manter a imagem, faça qualquer coisa, mas convença-o a, pelo menos, se afastar desse Aiolia por algum tempo.

Saga franziu o cenho. Hades não era homem de desistir e confiava nele. Tinha ao menos de tentar. Talvez o alvo certo não fosse Camus e sim... outra pessoa. Virou as rédeas do seu cavalo e cavalgou mais depressa, fazendo Hades acompanhá-lo.

Após andarem alguns quilômetros, os dois resolveram voltar e Saga despediu-se do amigo para dirigir-se ao seu destino.

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Aiolia chegou ao escritório bem mais tarde. Ao invés do terno, usava jeans e óculos escuros. Passou por June como um furacão e entrou na sala de Camus. O ruivo elevou os olhos junto com um movimento interrogativo de uma das sobrancelhas.

— Oi, Camus! Bem, eu sei que ferrei com tudo, então acho melhor a gente romper a sociedade e...

— Sente-se, Aiolia. – disse Camus se encostando na cadeira. – E acalme-se, não há motivo para tanto drama.

— Drama? Cara, você viu o que aconteceu! Eu tive que esperar os repórteres saírem pra entrar aqui e no meu prédio, até o porteiro sabia que eu estava na internet! Droga, Camus! Eu... Eu não... Não queria prejudicá-lo! Logo você que é meu melhor amigo, que me oportunizou chegar até aqui.

— E quem disse que está me prejudicando?

— Ah, Camus! Você vai ser indicado para juiz, um fato inédito e...

— Aiolia, sente-se e me ouça. Eu não ia contar prá ninguém antes da coisa se concretizar. Veja isso. – disse Camus virando a tela de seu computador para Aiolia.

Aiolia olhou para a tela e voltou a olhar para Camus. Por um segundo, não acreditou no que estava lendo, mas em seguida tornou a olhar para o amigo e viu a satisfação estampada na expressão do rosto.

— Mas, isso quer dizer que...

— Quer dizer, Aiolia que o importante agora é ganhar a causa. Então, deixe de tolice e vamos trabalhar. Por falar nisso, alguém ligou e disse que tinha certa urgência em falar com você.

Um sorriso aberto se fez nos lábios do leonino. Camus era mais que um amigo e sócio, era como um irmão, visto que Aiolia perdera seu irmão mais velho, Aioros, ainda quando criança. O ruivo fora seu colega de faculdade e um amigo constante. Enquanto ele aproveitava as festas e se relacionava com todo mundo, Camus mantinha um comportamento educado, mas pouco efusivo. Entretanto, os dois possuíam uma inteligência acima da média e, nos estudos, faziam uma boa dupla na universidade.

— Vou ver isso com a June. Obrigado, Camus. Olha, eu... já disse isso algumas vezes, mas repito agora, você é como um irmão pra mim.

— Você também. Ao trabalho!

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Milo abriu os olhos. O que o havia acordado? Ah, o celular! Ainda estava atordoado pela madrugada regada a sexo. Depois que haviam chegado do bar, ele e Camus compartilharam um banho quente e, apesar de exaustos, fizeram amor de novo, embaixo do chuveiro e mais uma vez na cama.

— Hummm... Alô? Mu? Espera... fala mais devagar. — disse Milo sonolento.

Do outro lado, Mu tentava se acalmar, mas a verdade era que estava apavorado com o que tinha acontecido. Tentara ligar para Aiolia, mas o celular estava desligado. Sua última chance era Milo.

Milo ouviu Mu com atenção, enquanto deixava a cama. Após um banho rápido e um café puro, pegou as chaves e saiu. Trinta minutos depois, entrava na lanchonete pequena e aconchegante chamada Quartier latin, onde Mu o aguardava em uma mesinha de canto. Ele parecia angustiado.

— Oi. – disse Milo sentando na cadeira em frente à Mu.

— Oi. Desculpe acordar você, mas eu não tinha... não sabia com quem mais falar. – disse Mu com a testa franzida.

— Tudo bem, somos amigos e amigos são pra isso. Eu acordei agora e não sei dos detalhes. Me conta tudo.

— Veja isso! – disse Mu mostrando seu celular para Milo.

— Você e Aiolia atracados. O que tem demais nisso?

— Essa foto está rolando na internet. O Aiolia é sócio do Camus e agora tá a maior confusão! Que merda, porque ele foi fazer aquilo?

— Porque gosta de você.

— Milo, você não entende! Nós ainda sofremos preconceito e Aiolia vai pagar caro por um... beijo!

— Então, dá logo pra ele e o preço a ser pago vai ser bem menor. – disse Milo rindo.

— Safado!— disse Mu sorrindo e dando um tapa no ombro de Milo. – Você tá brincando, mas o negócio é sério e envolve o Camus também.

— Os dois são advogados, Mu. Não pense que eles vão ficar indefesos frente a isso aí. – disse Milo apontando para o celular de Mu. – O melhor a fazer é seguir com a vida, normalmente, como se nada tivesse acontecido.

— Você acha?

— Acho. Me acompanha? Vou pedir panquecas. – disse Milo olhando o cardápio.

Quando o garçom trouxe as panquecas recheadas de banana com mel, Milo as devorou com tanto prazer que Mu sorriu.

Olhando para o grego, Mu sentiu-se mais leve e seguro. Milo parecia estar sempre acima dos problemas e isso o confortava. Tinha a impressão que o grego era um líder nato, do tipo que sempre tem uma solução ou uma palavra de conforto. Começou a salivar só de olhá-lo comendo com prazer, mas, quando deu duas garfadas, o pensamento retornou à Aiolia e o apetite arrefeceu...

Milo notou o abatimento de Mu e resolveu entretê-lo.

— Ei, eu tive algumas ideias para o bar e convidei o Shiryu para almoçar e trocarmos sugestões. Vem comigo e a gente faz um piquenique no Pégasus.

— Está bem, eu levo a bebida. – concordou Mu.

No início da tarde, após terem feito seu piquenique regado à cerveja, carne assada com pão e algumas frutas. Os três conversaram bastante e, logo em seguida, Aiolia ligou para Mu deixando-o mais tranquilo.

Shiryu e Mu deixaram o bar para irem se preparar para a noite e Milo dirigiu-se ao escritório. Lá, o grego se acomodou na escrivaninha de mogno e começou a digitar seu planejamento no computador.

Enquanto organizava as planilhas, ouviu o barulho de girar de chaves na fechadura da porta de entrada, na base da escadaria. Imaginando ser Camus, levantou entusiasmado. Poderia mostrar o que havia feito com a ajuda de Mu e Shiryu. Entretanto, ficou surpreso ao ver um estranho aparecer na entrada do pequeno escritório.

— Ah!... Desculpe-me, disseram que não haveria ninguém no bar a esta hora. – disse o homem ruivo que vestia uma jaqueta de couro e usava o cabelo caído sobre os olhos.

— Em que posso ajudá-lo? Sou Milo, o gerente. – perguntou Milo sério e intrigado com o fato de ele estar com as chaves do lugar.

— Sou Alberich, amigo de Saori. – revelou o homem estendendo a mão para cumprimentar Milo. – Estou aqui para verificar as instalações e promover a venda do bar.

— Venda do bar?

— Camus não contou? Saori falou com ele ontem e avisou-o das suas intenções de vender o Pégasus, aproveitando que ele se tornou rentável e uma espécie de referência em diversão noturna. O que valia uns poucos mil dólares, pode valer até meio milhão, agora, visto que uma construtora deseja este local para construir um prédio comercial.

Milo sentiu-se afundar no chão. A notícia o pegara totalmente desprevenido, mas mesmo assim ele forçou um sorriso para disfarçar a surpresa.

— Ah, claro... ele deve ter falado. Eu é que devo ter deletado essa conversa. Prefere que eu saia para avaliar melhor?

— Não, por favor! Sua presença vai ser muito útil. Isto é, se não estiver incomodando.

—C-Claro que não está. – disse Milo tentando esconder seu desconforto.

O homem olhou tudo e se desfez em elogios. Milo ouvia sem dar muita atenção. Todo o tempo pensava porque Camus não lhe contara sobre a venda. Por acaso o considerava apenas um empregado que nem sequer tinha direito de saber sobre o negócio em que trabalhava?

Milo havia investido toda a energia para tornar aquele bar uma referência em termos de divertimento adulto. Adorava o que fazia, era a primeira vez que um emprego lhe despertava interesse e revelara o seu potencial criativo e organizacional. Mas, agora, caía na dura realidade. Quem era ele, afinal? Um homem sem eira nem beira que gastara sua herança na compra de um violino e que estava, mais uma vez, fadado a rodar por aí em busca de emprego para sobreviver.

Procurou analisar a situação de maneira fria, exatamente como Camus estava acostumado a fazer. Tinha que pisar em cima dos destroços de seu sonho e seguir em frente. O melhor era encerrar sua participação o quanto antes e isso significava deixar também, o apartamento de Camus.

Sentia mágoa, raiva e decepção. Precisava sair dali e tomar um pouco de ar!

Decidido, se despediu de Alberich e saiu rápido. Quando descia as escadas, deu de cara com o gêmeo de Kanon.

— Senhor Milo, podemos conversar? – perguntou o promotor com toda a calma.

Milo sentiu seu desconforto aumentar. A desgraça nunca vinha sozinha, sempre tinha um acompanhamento. Pensou ao encarar o belo e arrogante promotor.

— Olha, não me leve a mal, mas não estou a fim de conversar com ninguém, muito menos com você!

— O que me traz aqui diz respeito a você e Camus. Mas, se não está a fim...

— Vai, desembucha logo o assunto. – disse Milo soltando o ar pela boca.

— Vamos subir ou, se preferir, vamos até aquele café. Não desejo discutir esse assunto aqui, no meio da calçada.

Milo olhou para o Pégasus e seu peito doeu.

— Vamos até o café.

No café, as mesas redondas encimadas por velas artesanais criariam um clima aconchegante, se os dois homens que se encaravam de forma desafiadora, fossem amigos ou amantes.

Entretanto, mesmo o ambiente não mudava o mau humor de Milo nem a postura pretensiosa de Saga. O promotor pediu um capuccino, enquanto Milo pediu um expresso forte.

— Bem, senhor...

— Pode deixar o senhor de lado e falar logo o que quer me dizer.

Saga sorriu e cruzou as mãos sobre a mesa.

— Milo... Muito bem... O que eu tenho a dizer, talvez você já saiba, mas sinto-me no dever de dizê-lo, assim mesmo. Sou grego, como você, e achei por bem que pudéssemos conversar sobre a sua situação e a de Camus, principalmente depois desse incidente de hoje.

— E porque achou isso? Não somos amigos nem temos intimidade. Porque eu conversaria sobre o Camus com você?

— Porque eu conheço o Camus mais que qualquer um e me sinto responsável por ele, visto que dividimos a mesma carreira e sou amigo do pai dele, um renomado juiz, como deve saber.

Milo segurou uma risada de deboche. “Um renomado juiz, como deve saber”. Grande merda!

— Sei que os tempos mudaram, mas certas coisas não mudam e, pior, se tornam obstáculos poderosos para o crescimento de um homem como Camus. – disse Saga suspirando. – Vocês estão vivendo juntos, mas eu aposto que o único momento em que se encontram, verdadeiramente, é na cama. Camus vive, respira e almeja fazer a diferença como advogado e já conquistou o que muitos nem sonham e nem podem igualar. Ele trabalha, arduamente, para construir uma carreira sólida e isso não passou despercebido. A indicação dele para ocupar um cargo na magistratura é um exemplo para muitos.

— Você não está dizendo nada que eu não saiba.

— Eu sei. Falo, apenas, para que você pense bem nessa relação que mantém com Camus. O único amante que satisfaz Camus, plenamente, é a justiça. O restante são relações temporárias que não sobrevivem ao isolamento e a própria necessidade de permanecerem ocultas. Tornando-se juiz, Camus será testado 24 horas por dia. Sua vida, sua reputação e suas ações estarão sob o crivo da opinião pública. Você não me parece o tipo de homem que suportaria ficar na obscuridade, esperando por alguém.

— Você não me conhece. – respondeu Milo fingindo segurança para não dar a Saga o prazer de tê-lo perturbado.

— Tem razão, não conheço. Mas, mesmo assim, me senti na obrigação de avisá-lo.

— Bem, obrigado pelo aviso. – disse Milo se levantando e deixando uma nota de dez dólares sobre a mesa.

— Eu convidei, eu pago. – disse Saga pegando o dinheiro e devolvendo-o para Milo.

— Seu cavalheirismo é tocante, mas eu pago o meu café. – falou Milo devolvendo o dinheiro à mesa. — Adeus, Saga.

— Adeus, Milo.

Após a saída de Milo, Saga pediu mais um café e sorriu, certo que conseguira plantar a dúvida no coração do grego. Será que tinha sido assim que a serpente se sentira ao tramar a queda de Adão do Paraíso?

Notas finais
*****Em regra, todas as indicações para juiz são feitas pelo presidente dos Estados Unidos e antecedidas e discussões com a procuradoria geral, o gabinete da Casa Branca, senadores e outras figuras de relevância política para o chefe do executivo. Posteriormente, o nome é avaliado por um comitê da Ordem dos Advogados dos Estados Unidos (American Bar Association ABA) e enviado a uma Comissão de Justiça do Senado, que fica responsável pela avaliação do candidato. Se o resultado for positivo, a indicação é enviada ao Senado, que ratifica (confirm) ou não a indicação. Uma vez escolhido, o novo juiz recebe treinamento e orientação dos juízes mais antigos. ******Taí, gente. Como não sou advogada, pesquisei sobre a indicação para o cargo de juiz, pois Camus é um sério candidato a isso. *risos ******OBRIGADA À TODAS: Tuany,Bia Yuuji,Pandora Hiei,Song HaMi,Mel Dark, Sion Neblina, Persefone_san, Angelique, gabi-bibi, Vanessa Braga da Silva,Shall, Litha_Chan e quem mais chegar!!! Bjs, amadas do meu coração!!XD