Sortilégio...
4 Capítulo 4 SEÑORA MUERTE…
Notas iniciais
O som do violino parecia um lamento e se unia aos prantos que ecoavam pelo acampamento. Um vento frio somava-se ao conjunto, como se fosse um menestrel das lágrimas e da tristeza que baixara, repentino, naquelas terras...
Manigoldo, o rei dos Rom se fora, rindo e bebendo junto da fogueira quando a Señora Muerte o levou de súbito e ele caiu sob o olhar incrédulo dos homens e mulheres que dançavam.
Kardia foi tomado pelo horror ao vê-lo levar a mão ao peito e fixar os olhos nos seus...
— Padrinho! – gritou o jovem cigano correndo na direção de Manigoldo.
De olhos abertos, o líder dos ciganos deixou este mundo com as mãos crispadas entre as de Kardia e quando Hakurei chegou aos limites do acampamento, os ciganos já se preparavam para iniciar os rituais fúnebres.
No centro, entre as carroças, um grupo de mulheres rezava em volta de um imenso tacho de cobre e uma tenda estava sendo montada entre tochas acesas que bruxuleavam ao sabor do vento.
O aroma de limão e cravo enchia o ar e na carroça que fora o lar de Manigoldo, seu corpo era lavado e preparado com ervas e perfumes para adentrar a eternidade.
Havia muita tristeza nos rostos, mas também orgulho. Manigoldo havia sido um bom líder para o seu povo, promovendo a fartura, fazendo bons negócios e ensinando seu afilhado a trilhar o mesmo caminho.
Kardia, que segurara sua mão durante a travessia era uma escolha unânime dentro do clã e sua juventude e talento, uma preciosidade para a continuação das fortes e milenares tradições.
O jovem cigano mantinha-se junto ao corpo de seu padrinho em uma atitude de reverência e cumplicidade. Ainda era difícil acreditar que agora, ele deveria liderar e manter seu povo em segurança.
Hakurei desmontou do cavalo e sinalizou para que os homens baixassem as armas. Foi Makri quem se adiantou e o recebeu.
— Thie aves thiailô lom, manrô tai sunakai, senhor Hakurei... (Que você seja abençoado com o sal, com o pão e com ouro). Perdemos o nosso rei e nossa cerimônia não pode ser manchada com sangue ou desavença. – disse a velha olhando nos olhos do comerciante.
— Não sabia que isso tinha acontecido. Mas, agora que a vejo de perto... é a mesma mulher que ajudou a trazer meu filho ao mundo. – falou Hakurei estreitando os olhos.
— Sim, senhor Hakurei... Eu sou Makri e fui eu quem fez o parto da sua mulher dezoito anos atrás... Vejo que o senhor veio com muito ódio em seu coração, mas nessa noite, a Señora Muerte só veio buscar um!
— Sinto pela sua perda, mas venho à procura de um homem. Um homem que desencaminhou meu filho.
— Uma vida pela outra... Dei-lhe a vida de seu filho e também a de sua mulher. Kardia, agora, é o rei dos Rom e nosso povo não permitirá que seja tocado. Deve-me um favor de sangue e eu estou cobrando-o agora.
Hakurei ficou sério e levou a mão ao queixo, ponderando aquela nova situação. Era um homem de palavra e orgulhava-se disso. Tornou a encarar a cigana que se mantinha a sua frente com os olhos fundos e, mesmo assim, permanecia altiva e sem demonstrar nenhum temor.
— Pois bem, façam seus rituais fúnebres, mas logo em seguida deixem as minhas terras para sempre e achem um lugar bem longe daqui para enterrar o corpo! Quero esse tal Kardia longe do meu filho. Sou um homem de honra, mas também sou pai e não permitirei que o mal atinja a minha família.
— Nossos rituais duram três dias. A alma precisa cumprir sua jornada. Ananke, senhor Hakurei...
— Que seja! Mas, somente, três dias! Se após o prazo eu ainda os encontrar aqui, vou expulsá-los e prender seu líder, rei ou que diabo for!
Makri concordou com a cabeça e moveu o corpo com relativa agilidade. Esmeralda a viu e veio ao seu encontro vendo que Hakurei organizava seus homens e se retirava do acampamento.
— O que ele queria, Makri? – perguntou a jovem cigana.
— O gajo não nos quer mais em suas terras.
Esmeralda levou a mão aos lábios, mas não disse mais nada. A carroça de Manigoldo já havia sido trazida e preparada para ser queimada com todos os seus pertences e o banquete de despedida já se encaminhava.
A cigana foi ter com Kardia que tocava seu violino na esperança de embalar o sono eterno do homem que o criara. Consternado, ele não notara a movimentação, mas mesmo assim, a imagem de Dégel não saía de sua mente e cada nota tirada no violino parecia levá-lo a mais lembranças.
— O pai de Dégel nos quer fora daqui. Como iremos enterrar Manigoldo? – disse Esmeralda.
Kardia cessou a música e olhou a jovem cujos olhos claros estavam vermelhos de tanto chorar. Agora, todas as decisões passavam por ele e, mesmo preparado para liderar ele começava a sentir o peso do que isso significava.
— Não vamos enterrá-lo aqui, onde não somos mais bem-vindos. Vamos queimá-lo junto com sua carroça e seus pertences. Depois pegamos suas cinzas e levamos conosco, para lançá-las ao vento. – disse o jovem.
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Da janela de seu quarto, Dégel notou a luz intensa e avermelhada que tingia o horizonte sempre que a fogueira dos ciganos era acesa. Seu coração acelerou como se todo o seu corpo ouvisse um chamado. Entretanto, ao mesmo tempo, observou que pelo outro lado, surgiam silhuetas de cavaleiros e o fato só acentuou sua preocupação ao perceber que seu pai estava entre eles.
Correu até a porta e achou-a trancada. Certamente, seu pai havia verificado e como o criado a deixara, apenas fechada, ele cuidara para que suas ordens fossem cumpridas. Tentou forçar a fechadura, sem sucesso. Então, retornou até a janela e observou como seria descer pela vegetação que se agarrava às paredes e qual a altura até o chão. Respirou fundo e decidiu que o faria de madrugada quando todos estivessem dormindo.
Minutos depois, Dégel ouviu a fechadura dar um estalido e eis que Hakurei entrou com uma expressão grave e uma aparência cansada.
— Vamos conversar. – disse ele.
Dégel fitou o pai, sentindo um estranhamento e uma espécie de vazio. Seu pai era a sua única família. Perdera a mãe ainda criança e não possuía irmãos ou parentes mais próximos. Mesmo que não tivessem uma relação afetuosa, ainda assim, ele reconhecia que Hakurei sempre o protegera e cuidara dele quando muitos o teriam enviado para um colégio interno.
— Pai, eu...
— Antes me escute, Dégel. Eu fui até o acampamento cigano e lhes dei um ultimato. Deixarei que fiquem em minhas terras até terminarem os rituais fúnebres do tal líder que morreu. Depois os quero fora daqui e será como se eles nunca tenham estado aqui!
— O senhor Manigoldo morreu? Por Deus, Kardia deve estar... – disse Dégel com uma expressão consternada.
— Não fale o nome deste homem! De hoje em diante, você esquecerá que o conheceu e voltará a ser o filho sensato e obediente que eu criei. Eu dei minha palavra que os deixarei ir embora Dégel, mas se insistir nessa loucura eu volto atrás e acabo com todos eles! E o primeiro a morrer será esse Kardia, esse monstro que virou sua cabeça!
— O senhor não é um assassino e não faria isso! O senhor nunca...
— Por Deus, eu o faria Dégel! Hoje eu fui lá disposto a tudo e só não o fiz, porque a cigana que o trouxe ao mundo cobrou-me este favor. Sangue por sangue, ela disse. Mas, se insistir nessa loucura eu mesmo matarei aquele cigano. Eu juro!
— Vai ter de me matar também. – desafiou Dégel.
Hakurei levantou a mão, pronto para desferir uma bofetada no filho, mas se conteve. Grossas lágrimas brotaram de seus olhos e ele estancou com a mão tremendo e o coração descompassado.
— Pois, prefiro-o morto que... que com aquele homem! Pense bem se quer ter em sua consciência a morte de mulheres e crianças em nome dessa infâmia que você diz ser amor! – disse Hakurei deixando o quarto e fechando a porta com força.
Dégel fechou os olhos, a cabeça latejando. Seu único pensamento era Kardia e o quanto ele deveria estar sofrendo. Não temia por si, mas depois das ameaças e do olhar feroz do pai, temia que ele levasse adiante as ameaças que tinha feito. Inspirou fundo e largou-se na cama. Precisava ver Kardia, nem que fosse uma última vez...
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No acampamento, os rituais fúnebres continuavam, Manigoldo era exaltado e Kardia mantinha-se ao lado do corpo contando seus feitos e elevando brindes. Outros violinos e pandeiros enchiam o ar de música, agora alegre e a festa de despedida estendeu-se até a madrugada.
Quando as labaredas da fogueira baixaram e o ar tornou-se ainda mais frio, a tenda onde Manigoldo estava foi fechada e todos se recolheram para reiniciar as homenagens no outro dia.
Sons de galope anunciaram a chegada de alguém e Kardia soube, exatamente, quem era.
— Dégel...
O jovem desmontou e foi ao encontro do cigano. Kardia olhou-o, notando o rosto machucado.
— Sinto muito, Kardia! Sinto muito mesmo! – disse Dégel.
— Obrigado por vir. O que aconteceu com o seu rosto? Quem fez isso a você? – perguntou Kardia franzindo o cenho e tocando o rosto do jovem fidalgo.
— Não tem importância. Eu estou bem. – respondeu Dégel tentando esconder a dor que ainda sentia.
— Venha comigo. – disse Kardia levando-o até a sua carroça.
Ao entrar na carroça, Dégel não conseguia disfarçar o nervosismo. Tinha conseguido sair pela janela de seu quarto quando não ouvira mais nenhum som ou movimento dentro da mansão. Estava tenso e dolorido, mas decidira, ao menos, se despedir e não sabia o que fazer.
Kardia olhou-o, percebendo o estado em que ele se encontrava. Estava pesaroso com a morte de Manigoldo, mas os machucados no rosto e a forma hesitante com que Dégel caminhava o preocuparam e desejava saber o que tinha acontecido.
A carroça de Kardia possuía uma cama, uma mesa com duas cadeiras e um fogareiro. As janelas estavam abertas e a luz fria da lua cheia penetrava criando um rastro de luz pálida no ambiente.
— Venha cá... – disse Kardia puxando Dégel para si.
Dégel virou o rosto e tentou soltar-se do abraço, porém Kardia o reteve, murmurando.
— Não se afaste. Conte-me o que aconteceu.
— Nada disso importa, agora. Eu só vim dar as minhas condolências e... me despedir. Sei que meu pai ordenou que deixassem estas terras e agora... você...você é o líder. Adeus, Kardia... – falou Dégel, nervoso.
Num segundo as mãos de Kardia estavam nos ombros de Dégel, novamente, segurando-o contra a parede. Seu corpo vigoroso colou-se ao do jovem fidalgo e ele tocou-lhe a orelha com os lábios dizendo:
— Não haverá adeus, entre nós, Dégel... Por Deus, eu não vou abrir mão de você.
O jovem engoliu em seco. Aquela voz, em seu ouvido, tinha um efeito devastador. Era como se todo o seu corpo ficasse alerta, seu baixo ventre pulsava, seu sangue parecia correr pelas veias...
— Kardia... Por favor, não podemos...
Kardia ignorou o apelo e desceu a boca até o pescoço alvo e com vergões arroxeados, evitando os pontos feridos na pele. Roçou os lábios e depois sugou de leve a pele exposta sentindo-o estremecer.
Dégel fechou os olhos e gemeu baixo, sentindo as mãos do cigano apertar o seu corpo até que ele o beijou, lenta e profundamente, destruindo uma a uma as barreiras que ele construíra para resistir.
A força que emanava de Kardia parecia estar em cada parte de seu corpo. Na boca que o tomava, no calor que os envolvia, na atração que se transformara em um desejo faminto, violento, estarrecedor...
— Ah, Dégel... – Kardia sussurrou nos lábios do amante, enquanto o levava em direção à cama.
Em instantes, despiram as roupas, apressados e cheios de desejo. As fortes e calejadas mãos de Kardia vagavam pelo corpo esguio com firmeza. Apertava, sentia profundamente aquela carne entre seus dedos, enquanto sua boca mordia e sugava os lábios, entreabertos, de Dégel.
Sôfregas, as bocas unidas moviam-se num ritmo ávido, excitante, devorador e naquele momento só havia os dois, sua sede, sua paixão desmedida rompendo o espaço, invadindo todos os sentidos...
Dominador, Kardia percorreu com a boca o mesmo caminho que suas mãos haviam feito momentos antes. Beijou e sugou cada pedaço do corpo de Dégel, sentindo-o de todas as formas, buscando, com toda a sua habilidade em dar prazer, aliviar as dores do amante, ao mesmo tempo em que seu próprio corpo ardia em urgência, desejando fundir-se ao corpo que o enlouquecia.
Quando teve seu falo túrgido e pulsante abocanhado pelo cigano, Dégel não conteve um grito abafado de prazer, completamente entregue aos delírios proporcionados por aquela boca quente... Dobrava a cabeça para trás e levava a mão à boca, mordendo-a para tentar reprimir os gemidos, mas não adiantava. O cigano o alucinava, tirando-o da realidade, tornando-o vulnerável e poderoso, tudo ao mesmo tempo...
Com avidez selvagem, a língua de Kardia continuava a percorrer a extensão do falo de Dégel e enfiava-se entre as suas nádegas molhando sua entrada, fazendo-o arquear o corpo e fincar os dedos no colchão. O cigano cada vez mais tomava-lhe o corpo com maestria, roçando os dentes nos mamilos intumescidos, na parte interna da coxa, fazendo-o arder de maneira tão insana e descontrolada que ele não mais aguentou e implorou:
— Me possua...Kardia...por favor...não aguento mais...
Seus pensamentos se foram, seu medo se foi, sua vontade era dele, Kardia, que agora estava deitado sobre seu corpo, encaixado entre suas pernas e o penetrando de forma lenta e profunda, enquanto o olhava fundo nos olhos...
Sortilégio... Prazer... Destino...
Kardia olhava-o como se fosse penetrá-lo além do corpo e se movia com um misto de força primitiva e uma paixão transcendente, misteriosa, inabalável...
Os dois trocavam beijos profundos, fogosos, molhados, enquanto Dégel sentia o membro do cigano invadir seu corpo e acertar continuamente um ponto especial dentro de si, enviando descargas de prazer que seguiam da base de sua espinha para o restante do corpo fazendo-o ofegar rouco e crispar os dedos com força nas costas largas de Kardia.
Não importava a pele ferida, as marcas da surra que levara. Só havia a sensação gloriosa de Kardia enterrado dentro de si, estocando cada vez mais fundo, cada vez mais rápido, cada vez mais seu...
Kardia ofegava enquanto erguia um pouco mais a perna direita do amante, sustentando-a com a mão, enquanto se afundava completamente no corpo dele e gemia contra sua boca.
Dégel era tão quente, tão apertado, tão seu...
O cigano sentia o orgasmo se aproximar e apoiou as pernas de Dégel em seu ombro, sustentando seus braços um de cada lado da cabeça do jovem. Estocava mais forte agora, eliminando qualquer vestígio de controle que ainda havia nos dois.
— Você é meu, Dégel...Nunca vou deixá-lo! — sussurrou o cigano empurrando-se com força, os cabelos molhados de suor.
Dégel respirava rápido e apartava ainda mais as coxas, desejando mais contato, entregando-se por completo...
Moviam-se insanos, chocando-se com intensidade, o suor reluzindo no contraste das peles... Seus olhos estavam fixos um no outro, registrando em suas mentes cada expressão de prazer de suas faces, cada som que saía da garganta, cada toque ávido que deixava marcas ardentes sobrepujando-se às marcas de dor...
Com um grito abafado dentro da boca de Kardia, Dégel gozou e estremeceu sem sequer estimular seu membro. Kardia acompanhou-o grunhindo, após mais algumas estocadas e um movimento derradeiro onde ondulou o quadril e mergulhou bem fundo dentro do corpo de Dégel, sentindo seu sêmen inundar as profundezas que o apertavam, enquanto seu corpo era molhado pelo gozo do outro.
O cigano deixou-se desabar sobre o corpo de Dégel, escondendo seu rosto na curvatura do pescoço dele, respirando quente sobre a pele alva e suada que sempre o deixava alucinado. Ofegantes, os dois agarraram-se com possessividade, como se nunca mais fossem se soltar, como se aquele momento jamais fosse se repetir...
Por vários minutos, permaneceram calados. Não havia o que dizer, não conseguiam colocar em palavras o que acontecia entre os dois. Tudo fora intenso demais, o sentimento, o prazer, a entrega... A força do amor que os unia era mais íntimo, ardente e prazeroso que qualquer outra coisa que já tivessem vivido em suas jovens vidas.
Dégel permaneceu de olhos fechados, o coração aos pulos. Kardia tocou-o com suavidade no rosto afogueado, colhendo as gotas de suor e levando-as aos lábios.
— Conte-me, agora... Você foi surrado pelo seu pai, não foi?- perguntou o cigano fitando Dégel com atenção.
— Fui. Mas, não tem importância. Eu... Eu nunca me senti assim. Nada pode superar isso... – falou Dégel tocando o rosto de Kardia e já fechando os olhos que estavam pequeninos pelo torpor após o orgasmo.
O cigano beijou-o e sorriu. Depois o estreitou nos braços, afagando os cabelos desalinhados do jovem fidalgo que mesmo sendo insone, adormeceu de imediato. Ficou sério ao pensar no que faria a seguir. Não podia fazer nada contra Hakurei, mas Zelos, ainda iria pagar caro por sua traição.
Kardia velou o sono de Dégel, sabendo que ele deveria voltar para casa dali a algumas horas. Olhou-o e cobriu-o com ternura, ouvindo-o murmurar algo ininteligível, então se levantou e foi até a janela onde a luz prateada banhou-lhe o rosto e parte do corpo nu.
Uma batida na porta o alertou e logo, Esmeralda surgiu envolta num xale negro, entrando rapidamente na carroça.
— Você enlouqueceu? – disse ela olhando para Kardia com espanto. – Por Sara Kali, Kardia, Manigoldo nem esfriou e você... Se alguém descobre que você e o gajo estão...
— Eu o amo, Esmeralda. – disse o cigano, simplesmente.
— É um amor proibido! Agora você é o nosso líder, não pode se ligar a um homem! Será que não entende isso?
— Tradições podem ser mudadas.
— Não, não podem! Nós temos que ir embora daqui e acabar com essa loucura. Tenha juízo, Kardia! Em nome de Manigoldo, de Sara kali e de sua gente, guarde esse amor em suas lembranças e deixe o gajo viver a vida dele!
— Eu não posso negar esse amor, Esmeralda. Se tiver de ser, eu cedo a liderança para outro.
A cigana arregalou os olhos e olhou na direção da cama, vendo que Dégel dormia.
— Você será execrado e expulso do clã. Será um amaldiçoado! Não haverá lugar para você em nenhum dos mundos. Nem no dele, nem no nosso. Assim como ele, também não terá para onde ir. Poderá viver com isso, Kardia? É tão egoísta que será capaz de destruir tudo por um amor que, no fim, não terá lugar neste mundo?
O cigano levou a mão aos cabelos e fechou os olhos. Amava Dégel com todas as suas forças, mas as palavras de Esmeralda, aos poucos penetravam em seu coração. O que fazer? Que decisão tomar?
A angústia pesou-lhe no coração, mas não houve tempo para que Kardia a elaborasse. Um barulho na porta alertou a todos e quando ela se abriu, a figura curvada de Makri entrou e sua expressão era firme, porém pesarosa. Ela olhou-os e, de repente, não era mais uma velha, mas uma mulher altiva cujo porte lembrava uma entidade dos cultos primitivos. Seus olhos esbranquiçados pousaram sobre Kardia e ela, apenas disse:
— Perdoem essa velha pelo que ela fará...
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