Sortilégio...

17 Capítulo 17 SET FIRE TO THE RAIN...


Notas iniciais
Fic se encaminhando para o final! Desde já, agradeço a todos que leem e me deixam feliz a cada comentário.XD A música que o inspirou é Set fire to the rain - Adele

But I set fire to the rain,
Watched it pour as I touched your face,
Well, it burned while I cried,
'Cause I heard it screaming out your name, your name

Mas eu ateei fogo à chuva,
Vi a chuva cair enquanto eu tocava seu rosto,
Bem, o fogo queimava enquanto eu chorava,
Porque eu ouvi gritar seu nome, seu nome...

As sombras arroxeadas da noite se espalhavam e o crepúsculo parecia acentuar as formas geométricas da cidade.

Milo olhou para o relógio de rua e suspirou. Estava quase na hora de ir para o bar e ainda tinha de passar no apartamento de Camus e arrumar suas coisas. Estava decidido e, mesmo que estivesse sendo doloroso, tinha que dar um jeito em sua vida.

Sabia que neste horário, Camus ainda estaria trabalhando. No entanto, quando abriu a porta, viu o ruivo sentado no sofá da sala lendo um livro.

— Não devia estar no escritório? – perguntou Milo.

Surpreso com a pergunta e com a expressão de Milo, Camus largou o livro e levantou-se.

— Foi um dia cheio e eu resolvi vir mais cedo. Pensei em pedir uma pizza, acho que dá tempo de você comer antes de ir para o bar. – disse o ruivo indo em direção a Milo que desviou os olhos.

— Não posso jantar. Tenho algumas coisas urgentes a fazer. – disse sério e já rumando em direção ao quarto.

Camus notou que Milo estava estranho. Não o tinha beijado e parecia chateado. Questionou- se quanto a abrir o jogo em relação à venda do bar. Tinha enviado um e-mail à Saori pedindo que ela reconsiderasse e, mesmo sob pressão do caso que tinha em mãos e dos repórteres, teve todo o trabalho de fazer um levantamento sobre as transformações radicais que tinham acontecido durante o gerenciamento de Milo e o lucro que ela teria se não vendesse o bar neste momento. Esperava que ela lesse e entrasse em contato. Se ela recusasse, aí sim contaria. Queria poupar Milo do máximo de aborrecimentos.

Foi atrás do grego, querendo saber o que tinha acontecido quando o viu socando as roupas na mochila.

— O que está fazendo? – perguntou o ruivo franzindo o cenho.

— Arrumando minhas coisas. Depois que eu sair do bar, não volto prá cá.

— Como assim não volta? O que está acontecendo Milo?

— Me diga você, Camus. Porque não me contou que o bar está à venda?

— Ah, é isso... – disse Camus levando a mão aos cabelos. – Milo, eu não queria contar antes de tentar reverter essa loucura. Eu sei o quanto você se empenhou e... Puxa vida! Acho que aquele bar só deixou de ser uma espelunca depois que você assumiu a gerência. Eu não quis decepcioná-lo com uma notícia dessas sem ao menos tentar. Hoje eu fiz um relatório completo com números, fotos, recortes de jornais. Espero que Saori tenha juízo e, depois de ler, reconsidere.

Ainda irritado, Milo olhou nos olhos de Camus e o que viu foi... Amor. Apesar de todo o trabalho e da situação de Aiolia, ele ainda tinha pensado em ajudá-lo. Envergonhou-se de pensar que Camus o havia negligenciado e, ao mesmo tempo, sentiu amá-lo ainda mais por esta demonstração de cumplicidade.

Largou a mochila e abraçou o ruivo. Os olhos dele embaçaram e ele o beijou, roçando seus lábios com os dele, até evoluir para um beijo mais profundo...

Quando eles se separaram, fitaram-se intensamente, ainda tomados por aquela emoção que vinha do fundo da alma e os conectava de um modo inexplicável e misterioso desde a primeira vez que tinham se visto.

— Eu te amo, Milo... Perdoe-me se, ao tentar poupá-lo eu...

— Não tem importância, Camus, eu entendo. Você é... incrível e eu sei que, além de ter uma mente brilhante, você tem um coração generoso. – disse Milo encostando a testa na de Camus.

— Então deixe isso aí e vamos...

— Camus...

— O que foi?

— Eu não posso mais ficar aqui.

— E por que não? Está preocupado com o que aconteceu com Aiolia? Isso já está resolvido e francamente, eu não dou a mínima para esse tipo de sensacionalismo.

— Não, não é por causa do que aconteceu. É por mim. Não posso continuar vivendo ao seu lado como... Como alguém sem futuro, sujeito aos caprichos de outros. Eu preciso me encontrar, Camus. Quero que sinta orgulho de mim, quero que esteja ao lado de um homem inteiro. Olhe pra você... é um cara bonito prá caramba, tem talento, se sustenta e ainda acha tempo prá ajudar os outros. Eu quero merecê-lo, entende?

— Eu tenho muito orgulho de você, Milo. Eu nunca...

Milo levou os dedos aos lábios de Camus e o interrompeu. Sabia o que ele diria, porque era o mesmo que sentia em seu coração. Amava-o, enlouquecidamente, ao ponto de quebrar todas as regras conhecidas e entregar-se como se só houvesse os dois no mundo. Mas, a realidade era implacável e como o idiota do Saga tinha dito: haviam coisas que não mudavam e, pior, se tornavam obstáculos poderosos para o crescimento de um homem como Camus e ele não se tornaria um obstáculo na vida do homem que amava.

— Eu sei... mas eu preciso ir.

—Você está me deixando, é isso?

— Não, Camus, eu não vou abrir mão de você. Só não posso ficar aqui e talvez a gente fique um tempo sem se ver.

— E para onde vai?

— Vou voltar para o albergue. Depois vou ver se alugo alguma coisa. Com o salário que tenho a receber mais a porcentagem sobre o lucro, que foi oferecida vai dar prá segurar até eu decidir o que fazer. Hoje, será meu último dia no bar, portanto vou encerrar a minha participação com chave de ouro. Vou deixar Shiryu no meu lugar até que o bar seja vendido.

— Porque não espera o retorno do meu e-mail? Talvez Saori decida não vender.

— Você não entendeu Camus. Essa situação me fez ver que, se eu não tomar as rédeas da minha vida, sempre estarei sujeito a esse tipo de coisa. Eu ainda não sei como fazer, mas vou dar um jeito. Afinal, tenho inclinação para improvisar em vez de planejar com antecedência! Lembra disso? – disse Milo sorrindo, embora estivesse com os olhos cheios de lágrimas.

Camus não pode evitar sorrir, ao lembrar-se do teste de personalidade no dia em que se conheceram. Sentiu um aperto na garganta e tornou a abraçar Milo, desta vez tão forte que as batidas de ambos os corações se fundiu por um momento.

— Você mostrou ser bem diferente... No fundo, mesmo sem conhecê-lo, eu acreditei e me entreguei em suas mãos. – disse Camus próximo ao ouvido de Milo.

— Eu confesso que, desde o primeiro instante que o vi, eu fui seduzido por esta sua pose e quis muito que acreditasse em mim. – disse Milo de olhos fechados, sentindo o cheiro da colônia que Camus usava. Amava aquela fusão de pele e perfume em perfeita combinação...

Nenhum dos dois queria sair de perto um do outro, mas o tempo estava passando e quando a escuridão mostrou-se nas janelas amplas, contrastando com as luzes noturnas que piscavam nas ruas, Milo beijou Camus, mais uma vez e deixou o apartamento. Se ficasse um pouco mais, não conseguiria deixá-lo, então era o momento de seguir em frente.

Camus ficou imóvel, vendo Milo sair pela porta. E, mesmo que o grego dissesse que não era adeus, sentiu um vazio e uma angústia no peito. De repente, aquele apartamento sem Milo pareceu-lhe vazio, grande e silencioso demais...

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“Pare de bobagem! Encare o medo e, por Deus, não desista.”

Decidido, o belo jovem engoliu em seco, ergueu a mão e quase, quase tocou a campainha do imponente portão de ferro da mansão onde Saga morava. Em um ano de relacionamento, nunca o procurara no lugar onde o promotor considerava seu lar. Porém, depois de ver aquela cena na internet, algo emergiu dentro de si e ele decidiu enfrentar a realidade.

Sua mão tremeu um pouco, mas ainda assim ele tocou e sentiu o coração acelerar.

— Sim? O que deseja? – perguntou uma voz feminina um tanto rouca pela idade avançada.

— Gostaria de falar com o senhor Saga, por favor.

— E quem gostaria?

— Me chamo Afrodite.

— Afrodite? Bem, espere um instante.

Segundos depois, Afrodite ouviu o som do porteiro eletrônico abrindo o imenso portão e, ao longe, viu a silhueta de Saga na porta de entrada. Secou as palmas das mãos úmidas na calça jeans e andou na direção do promotor. Quando chegou perto, sorriu e disse a primeira bobagem que lhe passou pela cabeça.

— Espero que não se importe, eu estava passando e...

Saga aguçou os profundos olhos verdes antes de gesticular para que ele entrasse.

Exibindo um dos punhos decorados com um par de abotoaduras de ônix, Saga indicou um corredor que mostrava várias obras de arte e levou Afrodite até um gabinete amplo e elegante.

Envergonhado, Afrodite olhava o ambiente quando sentiu as mãos fortes de Saga segurar-lhe os ombros e ouvi-lo próximo ao ouvido:

— Aconteceu alguma coisa para você me procurar com essa... desculpa esfarrapada ou é...saudade?

Afrodite fechou os olhos e sentiu o corpo amolecer. Era sempre assim, desde que tinham ido para a cama, pela primeira vez. Saga sempre conseguia o que queria com aquele sorriso encantador e safado que só ele sabia exibir. No entanto, a recepção de Saga o intrigou. Esperava que o promotor o tratasse com indiferença ou até severidade. Ele nunca o convidara para partilhar do ambiente em que morava e Afrodite era inteligente, o suficiente, para entender que ele desejava mantê-lo afastado da sua vida “real”. Os encontros eram sempre no apartamento que Saga comprara para que pudessem se encontrar e tinha muito a ver com o início da história entre eles...

Tudo começara em uma festa, onde vários estudantes de Direito haviam sido convidados para ouvir o famoso promotor palestrar. Afrodite não era aspirante a advogado e sim um estudante de Desigh, mas, por um equívoco conspirado pelo Universo, se enganara de palestra e acabara ali.

Ainda lembrava-se do primeiro olhar que trocara com Saga e como ambos se sentiram afetados, sexualmente, um pelo outro. Discreto, o promotor se aproximara com elegância e eles haviam conversado por um longo tempo. Apesar de não ser estudante de direito, Afrodite entendia de leis, pois o Desigh oferecia disciplinas sobre direito autoral de pesquisas e patentes. O fato de saber conversar também atraiu o promotor que logo o convidou para um drinque e dali, foram direto para a cama...

Apesar de ser mais jovem que Saga, Afrodite era dono de uma sensualidade exuberante e já tivera vários amantes. Amantes... essa era a definição perfeita de seus relacionamentos. Nunca um namorado, apenas amantes! Embora não se queixasse, no fundo, desejava uma relação verdadeira, sem máscaras, algo romântico e libertário para variar.

Talvez por isso, ficara tão tocado pela imagem divulgada à exaustão na internet daquele advogado bonitão beijando o tal DJ... Por um momento, sentiu inveja daquela cena e do casal, imaginando-se no lugar do jovem de cabelos arroxeados que parecia ter a sua idade.

Acorde, Afrodite! O homem que você ama é o mais famoso promotor do momento. Ele nunca vai poder assumi-lo e, mesmo que pudesse, ele não o ama, apenas o deseja como todos os outros! O pensamento gritou na mente do jovem, enquanto Saga roçava os lábios em seu pescoço...

Era difícil continuar usando a mente quando o seu corpo já esquentava, consideravelmente. Num esforço hercúleo, afastou-se de Saga, não queria desistir do que o levara até ali: despedir-se dessa relação que jamais teria futuro e que, apesar de prazerosa, trazia sofrimento ao seu coração.

— Por favor, Saga, eu não vim aqui prá isso. Eu... vim me despedir.

— Despedir?

— É, eu recebi uma proposta do Instituto Europeu de Desigh em Milão. Eles analisaram meu currículo e me ofereceram um estágio remunerado por seis meses.

— Parabéns! Você é talentoso e inteligente. Era apenas, questão de tempo que isso acontecesse. Eu me ofereci para ajudá-lo, lembra? Mas, saiba que fiquei orgulhoso quando não aceitou. Admiro quem busca erguer-se através de seus próprios esforços.

Afrodite fitou-o e sorriu, sem graça. Admiração! Que ótimo!

— Então, tá. Eu já falei o que queria, então vou embora. – disse Afrodite.

Saga aproximou-se com aquele olhar penetrante, sondando o de Afrodite. O jovem recuou, sentindo o reflexo daquele olhar nos dedos dos pés que se encolheram.

— Por favor, fique... já que vou perdê-lo, pelo menos me dê o prazer de sua presença, mais um pouco.

Merda! Não, não fique! Dizia a voz em seu interior.

Saga baixou o olhar para os lábios desenhados e carnudos de Afrodite e o jovem soube que estava perdido. Perdido de amor e vontade de senti-lo, mais uma vez...

A distância entre os dois diminuiu e logo as bocas estavam unidas. O promotor o estreitou nos braços e Afrodite entreabriu os lábios, demonstrando a avidez de sempre que vinha acompanhada de um sentimento que ele nunca revelara. As mãos de Saga capturaram o rosto cálido para tornar o beijo mais abrasador e ambos vivenciaram a combustão do desejo.

Um som, semelhante a um ronronado vibrou nos lábios de Saga, na língua... E ele sentiu os dedos de Afrodite cravarem-se em seu peito e isso o fez sentir-se poderoso... Ah, ele retribuiria o gesto, mas depois... Mais tarde.

Recuando com gentileza, Saga interrompeu o beijo e tocou o queixo delicado.

— Venha, vamos conversar e comer alguma coisa. Vou pedir que preparem um jantar especial.

Com a boca entreaberta, Afrodite olhou para Saga e murmurou:

— Eu... Eu acho melhor ir embora.

— Por quê?

— Porque eu o amo e me dói deixá-lo. Mas, se eu não fizer isso, vai doer mais quando você se cansar de ficar comigo e eleger outro para jogar com você. Adeus, Saga. – respondeu Afrodite quase vomitando aquelas palavras e sentindo o nariz arder ao conter as lágrimas.

— Afrodite...

Se havia uma cena que descrevesse a fuga de Afrodite, era aquela de Alice no País das maravilhas onde a personagem caía em um túnel obscuro e profundo. Ele deu as costas à Saga e correu como uma lista por entre obras de arte e decoração requintada. O coração aos pulos, a boca seca, as lágrimas queimando e pedindo passagem...

Quando chegou ao portão, lembrou-se que ele só abria se fosse acionado e ofegou. Merda! Por favor, anjo, Elemental ou qualquer coisa que o valha! Não permita que ele me veja chorar!

Saga estava sério quando o alcançou. A respiração um tanto ofegante rivalizou com a de Afrodite. Ele encarou o jovem cujos olhos claros brilhavam aquosos pelas lágrimas. O olhar atravessou o coração de Afrodite e, ao mesmo tempo, retornou à Saga em forma de uma emoção genuína e tão forte quanto a que sentira a última vez quando o tivera em seus braços.

— Não deixarei que saia desse jeito. – disse Saga abraçando Afrodite e roçando os lábios nos dele.

Beijou-o com ardor e Afrodite se rendeu a sua voracidade. E, mais uma vez, Saga inundou-o com a sensualidade potente dos milagres, do tipo em que fazia Afrodite se permitir sonhar que o erotismo que os aproximava era a forma de Saga expressar algo próximo do amor...

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Antes de a noite começar, Milo tinha decidido colocar todos a par dos acontecimentos. Entretanto, talvez fosse melhor esperar o fechamento da casa, assim não criaria um clima ruim antes do término da noite. Chegou ao Pégasus e deixou suas coisas no escritório. Assim que as portas se abriram, ele ouviu a música alta colocada por Mu e suspirou. Seu amigo também passava por um momento tenso e, mesmo assim, aceitara trabalhar como se nada houvesse acontecido. Mil coisas passavam na mente de Milo quando Kanon entrou, sorrindo e movendo os olhos como se estivesse procurando alguém.

— Oi, Milo! – disse o investigador que estava vestido num traje alto esporte.

— Oi, Kanon. Trabalho ou prazer? – perguntou o grego colocando uma long neck da cerveja preferida do investigador sobre o balcão.

O investigador sorriu, novamente, pegou a cerveja e olhou na direção do mezanino, onde ficava Mu.

— Digamos que... estou em aberto. Teremos música ao vivo hoje?- perguntou ele sorvendo um longo gole da cerveja gelada.

— Só o Sorento. Eu não estou a fim de tocar, hoje.

Kanon passou a língua no lábio inferior e sorriu, maliciosamente. No mesmo instante, Mu colocou uma seleção remixada de músicas pop do momento e a multidão que já lotava o bar começou a ir em direção à pista de dança. As luzes pulsaram e Kanon tornou a olhar para Milo que continuava sério.

— Está chateado com toda essa fofoca que aconteceu? – perguntou Kanon.

— Isso é apenas a ponta do iceberg, como diria meu tio. O bar vai ser vendido e tem uma construtora interessada em comprá-lo e demoli-lo. Ou seja, tudo o que eu investi aqui vai cair por terra. Literalmente. — respondeu Milo com um suspiro profundo.

— Sabe o valor que estão pedindo?

— Não, fiquei tão... decepcionado que nem perguntei para o tal vendedor, o que a dona está pedindo. E também, o que adiantaria saber? Deve ser uma grana alta e eu estou à zero.

— E um empréstimo?

— Que banco, em sã consciência, me emprestaria dinheiro?

— Descubra o preço e eu aciono alguns contatos meus. Não custa tentar, não é?

O rosto de Milo se iluminou com a ideia, mas, ao mesmo tempo, não queria envolver logo o irmão de Saga na sua história pessoal.

— Obrigado, Kanon, mas acho que vou cair fora, mesmo.

— Se mudar de ideia... Sei que o incomoda eu ser irmão do Saga, mas, apesar de ser um tanto invasivo e, as vezes, um filho da puta hipócrita, meu irmão não é uma má pessoa. Nossa origem, Milo, não tem o glamour que todos imaginam e Saga lutou muito para ser quem é hoje.

Milo olhou nos olhos de Kanon e, viu admiração e tristeza, ao mesmo tempo. Não gostava de Saga, mas com Kanon era diferente.

— Seu irmão me procurou. Disse-me coisas desagradáveis, mas que me fizeram pensar... Às vezes, o inimigo é aquele que nos derruba prá que possamos ver as coisas com mais clareza. – falou Milo.

— Certamente ele deve ter dito que a sua história com Camus não tem futuro. Acertei?

O grego riu e fez que sim com a cabeça.

— Somos filhos ilegítimos de um comerciante grego socialmente proeminente e uma empregada. Ele era casado com uma mulher estéril e, quando nós nascemos, ele sofreu um ataque cardíaco e morreu sem nos reconhecer como filhos. Ele tinha um único irmão e foi esse irmão que desafiou a todos quando fez o que nosso pai não tinha feito. Ele assumiu nossa educação, deu-nos um nome e assegurou que tivéssemos nossa parte na herança. Nossa infância não foi fácil, sempre nos apontavam como os bastardos aproveitadores. Saga, desde cedo, mostrou inclinação para ser advogado e nosso tio, que era juiz investiu em sua formação e o fez sentir orgulho de ser quem era e de preservar a honra, acima de tudo. Quando Saga se formou, ele o instruiu para ser promotor e meu irmão encontrou, no pai de Camus, uma espécie de mentor. Eles são amicíssimos até hoje. Hades é um homem conservador e Camus é filho único. Mas, saiba que o ruivo não é um homem submisso e acredito que ele ama você. Portanto, meu amigo, siga o seu coração e esqueça o resto. – disse Kanon tocando o ombro de Milo.

As palavras de Kanon desencadearam algo dentro de Milo. Sim, Camus o amava, disso ele tinha certeza. E ele, estava disposto a lutar por esse amor, lançando mão de todos os recursos? De repente, surgiu-lhe uma ideia e seu rosto se iluminou, quando a resposta para a pergunta que fizera veio sem nenhuma hesitação:

— Sim!

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Em casa, Camus baixou os olhos para a escrivaninha onde estava acomodado. Leu sua agenda para o dia seguinte e conferiu seus e-mails na esperança que Saori tivesse respondido. Nada! Nenhuma resposta!

Irritado, ele afastou alguns documentos sem conseguir concentrar-se no trabalho. Sempre conseguira separar o emocional do profissional, mas agora, após a partida de Milo, essa muralha que o ajudava a proteger-se das emoções começava a ter buracos no lugar dos tijolos, cuidadosamente dispostos ao longo dos seus vinte e quatro anos...

Olhou no relógio e viu que já passava da meia-noite. Foi até o quarto e vestiu uma roupa esportiva para ir até o bar. Foda-se! Queria ver Milo, nem que fosse apenas para conversar! Aproveitaria até o último minuto ou até mesmo o observaria de longe. Pegou o casaco, as chaves e dirigiu-se a porta. Quando abriu, não esperava ver quem se preparava para tocar a campainha.

— Pai?

— Olá, Camus. Posso entrar?

— Claro. – disse Camus dando espaço para que seu pai entrasse.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou o ruivo só por perguntar. Já sabia a razão de Hades visitá-lo.

— Faz algum tempo que não conversamos e os últimos acontecimentos me deixaram preocupado.

— Não há razão para isso, pai. Sei me defender e Aiolia também.

— Esse rapaz, Aiolia, ele se revelou inadequado para ser seu sócio. Conversei com Saga e até pedi para que ele ponderasse este assunto com você. Mas, depois, achei melhor eu mesmo vir até aqui. Tem certas coisas que é dever de um pai, fazer.

— Coisas como o quê? Agir como um preconceituoso do século passado? – desafiou Camus.

— Sei que tem amizade por este rapaz, mas tem de pensar no seu futuro. Não estou sendo preconceituoso, estou sendo prático. Construiu uma carreira, Camus! Quer vê-la ruir porque seu amigo não sabe ter um mínimo de decoro? Se ele fosse mesmo um amigo confiável, ele teria cuidado ao se expor em público.

Camus suspirou. Sabia que não adiantava discutir com seu pai, ele sempre teria argumentos e sempre acharia estar certo.

— Minha carreira é sólida o suficiente para passar por estes imprevistos e saiba que Aiolia quis desfazer nossa sociedade por achar que tinha me prejudicado. Eu não aceitei e não vou aceitar perder uma parceria competente por motivos fúteis como esse.

— Fúteis? Você está sendo indicado para que se torne juiz! Sabe o que isso significa para um jovem na sua idade? A chance de tornar-se um exemplo para milhares de jovens que iniciam uma carreira! Um ícone! Vai jogar seu futuro brilhante no lixo por causa de um pederasta?!

— Aiolia não é um pederasta! Essa palavra não se aplica a um homem que escolhe viver e amar outro da mesma idade.

— Que seja! Não importa a palavra. Ele faz parte dessa casta de homens doentes que... insistem em contrariar a natureza! Camus, um juiz precisa cercar-se de pessoas decentes, normais, que contribuem para o fortalecimento dos valores éticos e morais da sociedade!

Cansado, irritado e, emocionalmente, afetado, Camus olhou bem dentro dos olhos de Hades e falou:

— E quem disse que eu quero ser um juiz?

— Como assim? O que você está dizendo? Todos sabem da probabilidade da sua indicação! – falou Hades empalidecendo com aquela pergunta.

— Pois saiba, meu pai, que eu tenho outros planos para a minha vida.

— Você enlouqueceu? Como assim, outros planos? O que pode ser mais importante que ser um juiz?

— A Universidade me ofereceu um cargo de professor. Vou lecionar e ainda ganhar um adicional para pesquisas. Meu desejo é estar em contato com pessoas de cabeça arejada, ensinar e ter tempo para ser feliz. Não quero me tornar um juiz e passar o tempo todo reduzido a uma sombra sem vida pessoal ou preocupado com o que vou dizer ou fazer perante a opinião pública. Assim que eu ganhar a causa em que estou trabalhando, eu vou assumir como professor.

As palavras de Camus caíram como um tsunami sobre Hades. Ele empalideceu, ainda mais, e levou a mão ao peito, sentindo uma forte pressão e o ar escapar-lhe dos pulmões...

Notas finais
AGRADECIMENTOS: Essa fic me surpreedeu pela aceitação e por novos leitores surgindo. Sei que as vezes, a gente não tem tempo de comentar ou até dá aquela preguiça normal de pessoas que tem um cotidiano cheio de tantas coisas prá fazer que acabam priorizando a leitura em si. Então, obrigada de coração a quem deixa um comentário, seja em cada capítulo ou somente em um. Não importa. O importante é saber que leem, se emocionam, torcem pelos personagens, não gostam de uns, amam outros. Enfim,ativos ou silenciosos, vocês me inspiram e me fazem feliz!!! ENTÃO AÍ VAI UM SUPER OBRIGADO PARA:Mel Dark, Ran Inazuma Amaya, gabi-bibi, Camila, Bia Yuuji, Tuany, Hitsujikai Atsuya, Persefone_san, Angelique, Keronekoi, Lemony, Lirios, Vanessa Braga da Silva, Pandora Hiei, Song HaMi, Sion Neblina, Litha_Chan, Shall e quem mais chegar!!!Obrigada por dispender o seu precioso tempo comigo!