Sorte (dramione)
1 Capítulo 1
17 de Março de 2002
Não eram nem 9h da manhã e ela já queria matar alguém.
E imaginar que aquele dia irritante havia começado tão bem... Tinha certeza que teria um domingo tranquilo, em casa, com seus livros queridos, algum filme, possivelmente mandaria um email para os pais, iria tomar um chá com sua vizinha Brighid, uma sexagenária que o que tinha de adorável, tinha de independente. Teria o que Hermione gostava de chamar de “dia perfeito”. E, com sorte, ficaria bem longe de toda aquela algazarra, bebedeira e avalanche verde que o Saint Patrick’s Day sempre trazia.
Mas, nããão!
Parece que seu chefe tinha outros planos pra ela quando lhe telefonou antes das 8h pedindo que fosse correndo para o escritório para receber uma encomenda urgentíssima, pois era um produto delicado e precisava ser recebida em mãos de um entregador particular. Ele estava tão desesperado, que ela nem raciocinou direito, trocou de roupa, pegou um táxi e foi. Pensando bem, aquilo soara tão estranho. Não seria o Liam nenhum contraventor internacional, né? Nesse momento, rezava para todos os deuses celtas que não.
Bem que seus pais sempre diziam que não se atende telefonema de chefe no final de semana. Nem mesmo quando esse chefe era Liam Fitzpatrick, um senhorzinho de meia idade, bem humorado e gentil, que lhe tratava como uma filha.
Bem-feito! Quem mandou ser metida a prestativa! Aaaaaaarght!
Mas, como ser diferente para o Fitzpatrick? Ele havia lhe ajudado tanto, há dois anos, quando chegou na cidade. Não é todo dia que alguém contrata uma recém-formada, ainda por cima vinda de um país estrangeiro, como assistente pessoal para ajudar a gerenciar uma grande empresa têxtil, que atendia o mercado bruxo e também muggle de boa parte da Europa. Mesmo quando essa recém-formada era Hermione Granger. Entretanto, Liam Fitzpatrick não pensou duas vezes, e sempre se dispôs a ensiná-la tudo. Agora, lá estava ela, se metendo em furada, em pleno feriado, pra ajuda-lo.
Ao olhar qual era a tal encomenda urgente, Hermione não sabia se sentia vontade de chorar, de gritar ou de tacar aquela embalagem com 200 pacotes de feijõezinhos de todos os sabores na cabeça do Sr. Fitzpatrick. Ou, quem sabe, as três ao mesmo tempo! Aquilo ali não era urgência nem aqui, nem no expresso de Hogwarts. Por Dagda! Quantos anos seu chefe tinha? Certamente, não os que aparentava... Aquilo poderia ter sido resolvido por pó de flu, por correio coruja, por correio trouxa, até por um armário sumidouro.
Desde o instante em que colocara os pés pra fora de casa, a escala de estresse dela vinha crescendo em uma exponencial de raiva. Seria capaz de estuporar qualquer um que cruzasse seu caminho. Seria! Se não fosse por um detalhe: tinha esquecido a varinha em casa.
Hermione saíra tão desesperada pra atender o pedido do seu chefe que até esqueceu que era bruxa. “Quem esquece que é bruxa, Merlin?”, era o pensamento que rondava sua mente. Esse era o tipo de coisa que parecia só acontecer com ela. Logo neste dia, cujo seu único desejo era ficar quietinha, em casa, de preferência de pijamas e pantufas, bem longe de todo o mar esverdeado que invadia as ruas de Dublin todo ano naquele dia. Para ela, já tinha tido sua cota de fanfarrões verdes por uma vida inteira. Mas, reclamações à parte, a jovem bruxa sabia que em nada adiantaria ficar de choramingos. Era hora de ser prática, e quanto mais rápido agisse, mais rápido estaria no conforto de casa. Só de pensar nisso, uma onda de ânimo revigorava a garota. Guardou a tal “encomenda urgentíssima” em uma arca enfeitiçada, que Liam mantinha na saleta adjacente a sua sala particular, deu uma última olhada ao redor para garantir que estava tudo ok no escritório. Preparou-se para sair, ajeitando o cardigã azul-escuro e cheio de estrelas no corpo (Um presente de Luna, por sinal. Não pode conter um breve sorriso ao lembrar da sonhadora amiga corvina. Ligaria pra ela assim que chegasse em casa! Aaah, sua casa, sua linda casinha, de onde não devia ter sequer saído hoje). Fez uma, duas, três respirações completas pra criar coragem. “Bem, seja o que Godric quiser”, pensou.
Ao perceber o quase nulo movimento na rua, achou que não teria problema em ir andando, afinal eram só uns 30 minutos a pé. Como boa a estrategista que era, em alguns segundos traçou o “plano perfeito” em sua mente: Sairia da Grafton Street, onde estava, em direção a Wicklow e viraria na South William. De lá, desceria até o encontro com a Mercer Street Lower. Faria um percurso maior, andaria bem mais que o necessário, mas, em compensação, conseguiria escapar das aglomerações. Na pior das hipóteses, caso as ruas estivessem abarrotadas de gente, então entraria a direita na York Street e iria até Aungier Street, assim chegaria ao Avalon House, um charmoso hostel que atraia muitos visitantes, que nem sequer desconfiavam que a relação daquele lugar com o mundo mágico ia muito além do nome. Com sorte, encontraria Henriette, uma colega do curso de encadernação artesanal, trabalhando na recepção, pediria pra usar a lareira dela, chegaria em casa e desfrutaria de toda a paz e silêncio que feitiços bloqueadores são capazes de proporcionar.
Com toda a trajetória definida, assim Hermione rumou ao seu destino. Saiu caminhando tranquilamente pela Grafton Street até virar à esquerda na Wicklow. E quanto mais caminhava, mais percebia o quão aquelas ruas estavam calmas. Calmas até demais. Ver um centro comercial, tão efervescente como aquele, desabitado e mergulhado em silêncio causava um estranhamento que chegava gelar levemente a espinha. A jovem nunca imaginou que sentiria falta de todo aquele zum-zum-zum diário produzido pelos clientes que circulam por ali cotidianamente.
Ao chegar na esquina e pegar a Wicklow Street, parecia que a sensação desértica das ruas se duplicara. Talvez se devesse ao fato das lojas estarem fechadas, talvez pelo fato de ser uma via para pedestres e a falta de um veículo aqui, outro ali passando colaborasse para essa impressão, ou fosse apenas o medo bobo e irracional que estava sentindo. “Isso! Era só um medo bobo e irracional, fomentado por alguma parte latente de sua mente que ainda teimava em lembrar da guerra!”, repetia pra si mesma. Sim, porque mesmo após quase 4 anos do fim da guerra, seus instintos de sobrevivência ainda insistiam em viver em um tenaz estado de desconfiança. Com certeza, essa situação seria bem mais assustadora se não fosse dia, se não estivesse sentindo o efeito do sol e dos ventos daquela manhã de domingo sobre a pele. E que ventos, diga-se de passagem! Caly Berry não estava tendo pena dos meros mortais naquela ano, castigando-os sem dó com seus sopros furiosos de início de primavera. Se não estivesse tão concentrada em voltar pra casa, se hoje não fosse esse fatídico dia exagerada e enjoativamente verde, a brilhante bruxinha consideraria fortemente a possibilidade de trocar o aconchego da sua poltrona preferida por um dia no Parque St. Stephen’s Green, sentindo a brisa do dia, se deliciando com alguns doces, se aquecendo sob o sol. Um dia digno de Bichano! “Aaaah, seu gato ranzinza, sua porcariazinha mal encarada... Quantas saudades sentia daquela bolinha de pelos temperamental e querida!”, suspirou saudosa.
Mas, quando algo começa ruim, quais as chances de melhorar? E de piorar de vez?
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