Sorte E Azar

1 Capítulo Único


Notas iniciais
As músicas que uso nessa histórias no início e final é "Sorte e Azar" do Cazuza e Frejat e no decorrer é "Fever", a versão que a Sara Ramirez canta de preferência.

“Tudo é questão de obedecer ao instinto
Que o coração ensina ter.
Correr o risco, apostar num sonho de amor.
O resto é sorte e azar.”

-Deveríamos comemorar- Callie disse sentindo uma ansiedade crescente. Não tinha como negar que tinha ficado o dia inteiro pensando em Arizona, mas até aquele momento ela estava na tentativa de mascarar o sentido real daquilo. “É uma admiração apenas, ela é uma médica incrível”. Mas como disfarçar aquela atração que estava sentindo enquanto conversavam sobre o sucesso do caso? O convite para a comemoração saiu antes que pudesse pensar melhor, seu lado que queria ficar mais tempo com aquela mulher falou mais alto do que sua preocupação com seus sentimentos confusos.

-Sim, vamos sim, podemos ir ao Joe’s tomar uns drinks, esse definitivamente é para se comemorar.

Ela aceitou, e agora a ansiedade chegou ao pico máximo.

-É...-Seus olhos buscavam uma tradução dos olhos dela, o que será que ela devia estar pensando?-Eu vou falar com o Owen para ele buscar as crianças na creche, eu te encontro daqui a pouco na entrada.

-Tudo bem, eu tenho que arrumar uma papelada antes de qualquer forma. Até daqui a pouco.

Dito isso as duas seguiram em direção opostas. A mente de Callie dava voltas, ela respirou fundo e tentou organizar os pensamentos enquanto andava a procura do marido. “É apenas uma uma saída entre colegas de trabalho”. Não podia ser nada a mais, afinal ela era casada com um homem e tinha três filhos. Mas fazia anos que não se sentia como uma adolescente como tinha acabado de se sentir. Ela balançou a cabeça espantando a ideia. Devia ter outra explicação além da que ela estava evitando assumir. E, além disso, mesmo que fosse esse absurdo, Arizona não iria corresponder. Corria um boato no hospital que ninguém nunca a viu com um homem, e ela sempre estava conversando com mulheres a sós, mas pessoas gostam de fofocar sobre a vida das outras, podia ser mentira.

Uma pontada de felicidade a invadiu quando pensou que não podiam ser só boatos e que ela tinha aceitado o convite com a intenção de algo a mais. Ela se permitiu sorrir e depois reprimiu, quando viu o marido no corredor conversando com Yang. Sua mão estava enfaixada, e a preocupação tomou o lugar dos devaneios.

-Que houve com a sua mão?

-Ah...u-m um...-Ele gaguejou, o que até poderia levantar suspeitas em outros dias, mas não nesse- Um paciente bêbado me empurrou em cima de uma bandeja de instrumentos.

-Own, Tadinho...Está tudo bem agora?

-Sim, sim. Você já buscou as crianças?

-Eu na verdade ia vim pedir para você buscar elas porque eu estava pensando em ir no Joe’s comemorar com a Dr. Robbins depois do caso que resolvemos hoje, mas se você quiser eu posso ir para casa, você pode ter alguma dificuldade por causa da mão.- Esse final saiu mais para agradar o marido, e obviamente ela torceu para que ele não aceitasse.

-Não meu amor, pode ir, muito tempo que você não se diverte um pouco. Eu não vou ter problemas nenhum, não foi nada demais.

Os dois estavam um pouco superficiais nas falas, mas ambas as partes não repararam nisso por estarem receosos com os próprios segredos.

-Então até mais tarde, qualquer coisa me liga.- Callie se despediu de Owen com um beijo rápido, e maneou a cabeça para Yang, que não tinha pronunciado uma palavra ainda. Ela apenas respondeu com o mesmo gesto, mantendo o silêncio.

Nem a estranheza de Yang, nem a relutância do marido se destacaram para Callie, que agora estava mais feliz ainda por não ter que se preocupar com suas obrigações familiares.

Ela pegou sua bolsa na sala dos atendentes e desceu para a entrada principal, mas a sua companhia ainda não tinha chegado.

“Vai ver ela teve uma emergência” O pessimismo floreou. Sentiu-se mal por ligar mais para si do que para crianças doentes, mas ela queria muito a atenção especial da pediatra aquela noite.

Ela estava se confrontando mentalmente, tentando justificar que atenção especial não tinha nenhuma conotação amorosa para o seu lado sensato quando viu Arizona descendo a escada com um sorriso no rosto. A médica estava com a mesma roupa, só que a ausência do jaleco fez uma diferença significativa, e sua beleza se destacava mais ainda. A única coisa que Callie conseguiu fazer foi sorrir de volta e se esforçar para não fazer nenhum comentário que soasse mal, não queria deixar a saída estranha logo antes de começar. A única coisa que conseguiu dizer foi:

-Vamos?

-Claro. Desculpa a demora, sabe como é a papelada.

E enquanto conversavam cruzaram a porta do hospital em direção ao outro lado da rua, aonde se encontrava o bar.

-Não demorou nada, eu acabei de chegar também.

A noite estava fria como sempre, mas não chovia.

-Muito tempo que eu não vou lá, depois que tive os gêmeos meu tempo livre ficou mais curto ainda.

-Imagino, mas faz bem de vez em quando mudar a rotina, fazer alguma coisa diferente.

“Realmente, queria que a noite de hoje fosse muito diferente” É claro que não foi isso que ela disse, e o que saiu foi mais parecido com uma resposta de conversa casual:

-Com certeza.

Da porta do hospital à porta do bar não devia ter cinco minutos, e ao entrarem na segunda o silêncio da noite foi substituído pela música dançante e o barulho de conversa. Não importa o dia da semana, sempre tinha gente no Joe’s, e para felicidade de Callie ninguém conhecido do hospital estava presente, por enquanto.

-Vamos sentar em uma mesa?-Arizona convidou.

-Eu prefiro- No bar a conversa podia ser escutada com mais facilidade, mas será que foi nisso que a outra tinha pensado?

-Sente-se então que eu pego a primeira rodada, o que você vai querer?

-O mesmo que pegar para você.

Enquanto a loira ia ao barman, Callie sentou e esfregou as mãos na perna em sinal de nervosismo. Sobre o que elas iam conversar? Será que o caso médico tinha variantes suficientes para a noite toda? Ou depois de algumas bebidas ela iria abrir o jogo sobre os boatos? O seu plano era deixar a noite correr e se jogar à sorte.

-Duas margaritas para começar bem- Arizona se sentou à frente entregando o segundo copo para Callie. Elas estavam em uma mesinha redonda, que comportava no máximo quatro pessoas confortáveis.

-Hmm, adoro tequila e todas as suas variações.

-Que bom que eu acertei de primeira então. Um brinde ao nosso paciente e sua incrível recuperação.

-E as suas incríveis médicas.

O toque de copos foi feito e as duas beberam um gole generoso.

-Tá uma delícia, o Joe tem uma mão ótima para isso. –A morena foi a primeira a se pronunciar.

-Concordo plenamente, é um dos meus drinks preferidos dele.

Os olhares estavam fixos uma na outra, mas a conversa ainda não tinha engatado. O que era esperado, as duas nunca tinham parado para ter um momento amigável, na verdade antes daquele dia ela nunca tinha trocado mais de duas frases seguidas com a colega, e nenhuma que não fosse sobre trabalho.

-Então Calliope, posso te chamar assim?- Ela pronunciava o nome com um jeito especial, como se gostasse de fazê-lo.

-Pode ser Callie também, poucas pessoas me chamam de Calliope para dizer a verdade. Mas fica a vontade.

-Eu acho muito bonito o seu nome, diferente e único. Representa muito bem você.

-Obrigada- Ela queria ficar mais a vontade, mas como se cada fala de Arizona a mexia mais?

-Você pode me chamar de Arizona mesmo, meu nome além de ser o que é não dá nem possibilidades para ter um apelido decente.

-Ah, claro que dá para ter um apelido. Pode ser...

-Pode ser nada, Ari é homem, Ar é elemento, Zona é Zona.-Ela disse rindo, o que fez Callie rir também.

Suas pernas se esbarraram por debaixo da mesa, o que fizeram-nas transformar a risada em um sorriso. Callie com o nervosismo pegou o copo e bebeu o resto de sua bebida em um gole só.

-Vou te acompanhar também- E Arizona fez o mesmo.

A morena fez um gesto para o garçom para vim mais dois pedidos daqueles. Ela se deu conta que ia precisar da ajuda do álcool mesmo para viver aquela situação.

Aquela mulher devia ter um campo magnético, e estar nele só a fazia pensar o quanto queria agarrá-la ali mesmo. Nunca tinha pensado nisso com uma garota antes, mas agora não tinha como dizer que era outra coisa. Seu olhar, seu jeito de falar, seu toque por mínimo que fosse, tudo a atraia. Callie mordeu o lábio de angústia, queria fazer o que não podia, com uma pessoa que não sabe se aceitaria em um lugar que nem se quisesse muito iria passar despercebido aos olhares dos fofoqueiros.

Uma música de fundo que estava sendo ignorada acabou, dando vez à uma com um baixo de introdução. Era Fever.

-Eu adoro essa música- Arizona exclamou.

“Never know how much I love you, never know how much I care
When you put your arms around me, I get a fever that's so hard
to bear.”

Era exatamente esse Fever que Callie estava sentindo, a voz sexy da cantora mais o segundo copo de magarita que foi servido aguçavam seus sentidos. Isso tudo no campo magnético, podia ser pior? Sim, Arizona e ela cantando uma para a outra. Como se estivessem curtindo a música apenas, claro.

“Now you've listened to my story, here's the point I have made:
Chicks were born to give you fever, be it Fahrenheit or
Centigrade”

Todas as mulheres não haviam nascido para despertar isso em Callie, mas essa em especial veio com força, e no final ela estava quase fazendo uma declaração enquanto cantava. Como ela queria se entregar a esse sentimento.

-Você canta muito bem- Arizona disse aplaudindo no final. Callie não tinha feito uma apresentação nem nada, mas só aquele cantar já deu para ver a potência de sua voz.

-Obrigada, eu sou uma cantora de chuveiro.- Confessou ela bebendo um pouco.

Arizona sorriu, bebeu sua margarita e encostou sua perna por debaixo da mesa. Só esse gesto fez Callie pegar fogo, e ela manteve a sua para ver o próximo passo.

-Mais uma qualidade sua, estou me surpreendendo cada vez mais com a cirurgiã cardiotorácica que hoje de manhã mesmo parecia uma pessoa que eu nunca fosse conseguir manter uma conversa amigável.

-Pois é...a gente acha que é uma coisa, e na verdade é outra.

-Aham...-E dizendo isso fixou o olhar azul nos castanhos da morena- Eu queria saber se o que eu estou achando aqui é outra coisa também.

“É exatamente isso que eu quero saber a noite toda” Callie pensou “Mas será que estamos falando do mesmo assunto?”

-Eu sou discreta quanto a minha vida pessoal Calliope, mas eu sei que no hospital as pessoas comentam e você provavelmente já deve ter ouvido algo.

Callie se fez de desentendida, então a outra continuou:

-E o fato de eu não ser hetero não quer dizer que eu não possa ter amigas heteros.

Era sobre o mesmo assunto, e ela acabou de confirmar o tal boato que tanto queria saber, mas agora essa conversa estava ficando confusa. Uma pontada de pânico a invadiu. Ela imaginou a chance de Arizona ter achado que ela que estava dando em cima a convidando para sair e agora se adiantou em deixar a história em pratos limpos antes de uma situação desconfortável.

-Eu sei Arizona, na verdade eu nem sabia de você, já tinha ouvido um comentário maldoso ou outro, mas ninguém tinha certeza...As pessoas falam mesmo-Ela estava nervosa e falando enrolado-...e eu não vou achar que você está dando em cima de mim só por ser gay...

-Mas eu estou. Eu posso ter amigas Heteros sim, mas não você. Não conseguiria disfarçar que sua boca me deixa hipnotizada e que você é uma mulher linda e incrível que me deixa boba desse jeito cantando Fever em um bar.

Callie ficou com a boca aberta sem saber o que falar, não esperava nunca que ela fosse dizer aquilo. A demora da resposta fez Arizona tentar contornar a situação.

-Mas como você é hetero eu posso suportar a ideia de te ter só como amiga...

-Eu sou, mas...eu tinha certeza que era até hoje...o dia que eu fiquei tentando me enganar o tempo todo porque a única coisa que queria fazer era te beijar.

-Então estávamos pensando na mesma coisa

Se não fosse tão complicado aquele seria o momento ideal para finalmente fazerem o que queria, mas como era quase impossível as pernas por de baixo da mesa estavam uma entre as outras, aliviando a vontade desse contato imediato.

-Eu moro do outro lado da rua- Arizona soltou sabendo que era um convite passível de ser negado.

-Eu queria muito, muito ir. Mas você sabe que não é simples assim.

-Eu sei, mas fiquei na esperança da minha sorte do dia continuar por mais um pouquinho.

Callie estava agoniada, seu marido estava a esperando em casa. Não pensou em nenhuma desculpa consistente para dar se dormisse fora. Ele trabalha no hospital, e qualquer falsa emergência seria facilmente desmascarada. Era errado, mas deliciosamente tentador. Por fim cedeu aos desejos:

-Eu não posso dormir, nem ficar a noite toda.

-Qualquer minuto que eu possa ter a sós com você vai ser maravilhoso.

“Como fugir disso” Callie pensou, mas não achou a resposta. Abriu a carteira e tirou o dinheiro que pagaria a conta. Pegou sua bolsa e se levantou rapidamente. Arizona a acompanhou no mesmo ritmo e as duas saíram em passos largos do bar.

Estava mais frio que antes, e suas mãos esbaravam propositalmente enquanto caminhavam na rua deserta. A luz do hospital era a mais brilhante, mas Callie desviou o olhar do estabelecimento para não se lembrar das implicações do que estava fazendo.

Pouco tempo depois, mas que pareceu uma eternidade, chegaram na portaria de um apartamento. Arizona tirou suas chaves e abriu com um olhar provocante.

Callie só conseguiu suportar até entrar no hall que levava a escada principal, ela agarrou a médica no momento que a mesma fechou a porta, apertando-a contra a parede.

Foi um beijo intenso que entre tropeços na escada chegou até o apartamento. Nem deu tempo de trancar a porta, muito menos de chegar ao quarto. As duas desinibidas pela tequila e apressadas pelo desejo tiveram uma noite muito mais longa do que poderia. Mas que cada segundo foi inesquecível.

“E se por acaso for bom demais é porque valeu.”

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