1x1 – Reality.

Já fazia quatro anos desde que uma garota normal que apenas estava começando o Ensino Médio havia descoberto aquela tenebrosa habilidade de senti-los. E só fazia um ano que ela realmente começara a se importar com isso, afinal, não são todos que possuem a grandeza e honra de ter aquelas criaturas no seu dia-a-dia. A forma na qual elas apareciam, talvez realmente assustadoras, mas o mistério que elas tinham era o melhor de saborear.

17 de Fevereiro — Faculdade Estadual Artticus.

Artticus era a melhor faculdade estadual que havia por aquelas redondezas. Não era a toa que pelo menos sete de dez pessoas estudavam lá e nove de dez pessoas que haviam a frequentado tinham uma vida incrivelmente boa. O único problema era os alunos que explodiam os laboratórios e sujavam banheiros de várias substâncias que poderiam vencer o fedor de um gambá. E o pior aluno que a Artticus já teve, não por ser ruim, mas por ser o mais destruidor e encrenqueiro era justo um dos mais inteligentes.

─ E é incrível como aquele garoto consegue criar aquelas coisas malucas e gosmentas e grudar nos vasos sanitários dos banheiros. Tipo, o que leva uma pessoa a fazer isso?

─ Talvez ele só esteja revoltado porque as aulas começaram há algumas semanas e ele estava muito bem aproveitando suas férias.

─ Revoltado? Ele ri e foge da coordenação da Artt e NÃO é expulso. Como ele consegue fazer isso?

─ Vejamos... Acho que na sua época ainda não existia. Ou talvez não fosse muito valorizado. Já ouviu falar de dinheiro, Ivy?

─ Você realmente acha que vão apenas aceitar o dinheiro dele e deixa-lo de ficha limpa? A Artticus é mais do que uma simples faculdade que aceita dinheiro e fica tudo bem. Obviamente tem algo por traz disso.

─ Você pensa sobre isso depois, meu amor, agora a gente vai direto para a aula de História antes que nosso professor resolva anotar nossos lindos nomes e eu não estou afim de fazer outro trabalho extra.

Ivy ia sendo empurrada pela amiga em direção a uma sala mediana e muito bem organizada, com várias mobílias antiquadas para que pudesse dar um “ar do passado”.

O professor deveria ter uns quarenta e cinco anos, cabelos castanhos curtos e bagunçados, típico de adolescentes de quinze anos, roupas clássicas e aquele perfume que dá vontade de nunca mais sair de perto. Sim, o Sr. Hudson era incrivelmente bonito e clássico, bem charme de historiador. Suas aulas nunca eram chatas, sempre envolviam e surpreendiam os alunos dia após dia. Mas ao mesmo tempo, era cruel e maligno quando alguém se atrasava para suas aulas, alguns de seus alunos eram a prova viva disso.

E o sinal definitivo tocou; aquele que todos suspiraram e agradeciam por finalmente escutarem o som vindo de Deus. As horas que os alunos passavam na Artticus pareciam nunca acabar. Nunca. Mas havia finalmente acabado. E de todos os alunos da sala de História, apenas duas sobraram. Uma era mediana, um e sessenta e oito de altura para quem tem dezessete anos, talvez meio baixa. Seus cabelos eram ondulados e pretos, sedosos e brilhantes. Olhos comuns, mas não deixavam de ser lindos; o castanho escuro e profundo mostravam coragem e força. Seu nome poderia transpassar fraqueza e inocência; exatamente o que ela não era. Ivy Collins.

Ao seu lado, sua fiel melhor amiga. Consideravelmente mais alta, com um e setenta e três de altura, cabelos longos e lisos, castanhos claros, assim como seus olhos cor-de-mel. Era inteligente e certamente era uma das mais bonitas para os homens; mas ela era uma das garotas mais difíceis da Artticus e talvez, de toda a cidade. Determinação e um pouco de mistério compõem o seu nome; Carrie Griffiths.

Elas eram completamente inseparáveis. Faziam de tudo juntas: compras, almoços em família, festas, viagens, estudos. E Ivy sabia de um segredo que nem os pais de Carrie sabiam. Era o mais profundo e assustador segredo que a garota possuía.

─ Bhhhhrrr. – Grunhiu Carrie, cobrindo seus antebraços com as mãos.

─ Muito frio? Quer meu casaco?

─ Não é frio, é aquela sensação. – Parou e pensou. Aquilo a incomodava, mas ela nunca pensou em fazer algo sobre, não queria expor seu segredo a mais ninguém.

─ Pelo amor de Deus, Carrie, você não pode simplesmente escondê-lo de profissionais, tipo psicólogos e, sei lá, seus pais. ─ Carrie abaixou a cabeça. Ivy poderia dizer quantas vezes fosse necessário, mas ela nunca iria mudar de ideia. ─ Isso lhe incomoda, então resolva isso o mais rápido possível.

─ Ivy, apenas esqueça, ok.

Em poucos minutos, elas já estavam completamente diferentes; não paravam de falar, seja qual assunto for. Como moravam perto uma da outra, tinham tempo o suficiente para falar tudo o que precisavam – e o que não precisavam – até chegar em casa.

─ Tá brincando que o Sr. Hudson está tendo um caso com a Sra. Thompson! Mas o Sr. Hudson não era casado?

─ Eles terminaram. E a Sra. Thompson está tão carente e sozinha porque seu marido morreu que o nosso professor de História galã tem que conquista-la e fazê-la sentir o que nunca sentiu com o marido dela. – Brincou Carrie. As duas riam no meio de uma das ruas principais de Harddwch. Estavam tão distraídas que mal haviam percebido que havia poucas pessoas ao redor.

Um pouco longe delas, havia um homem alto, branco, com pouco cabelo, talvez uns cinquenta anos. Não seria nada de mais se ele nunca tivesse sido visto na cidade. E o pior talvez não fosse nem isso; não eram todos que podiam vê-lo.

─ Meu deus, Carrie. Você não vai acreditar.

─ O que foi, Ivy? Não irei acreditar se não me contar.

─ Sabe aquele garoto – Cinco. – que eu estava conversando ontem? – Quatro.-

─ O que lhe deu um beijo na mão?

Três.

─ Ele mesmo. – Dois. – Pois é, eu estava conversando com ele hoje – Um. – e...

─ Ai. Que dor de cabeça... – Gemeu Carrie.

─ Carrie? Você está bem?

A cabeça de Carrie parecia querer explodir. Ela sentia muita dor, ainda mais uma dor repentina. Ela nunca teve problemas com enxaqueca, muito menos uma dor de cabeça como estava tendo agora. Talvez a pior de todas, pois não era a toa que ela gemia tanto de dor que mal conseguia se manter em pé. E o mais estranho, era que logo essa dor desapareceu.

─ O que foi isso, Carrie? Não me assuste assim. – Suspirou Ivy, ajudando a levantar a amiga.

─ Desculpe, Ivy. Eu comecei a sentir muita dor de cabeça e do nada, ela sumiu. O que poderia ser?

Eu não sei. Disse Ivy olhando para a amiga. Mas Carrie não havia prestado atenção no que ela dissera. Estava assustada demais com o que via. Nos olhos de Ivy, ela apenas olhava para frente assustada, vendo árvores e carros passando, nada de assustador. Mas nos olhos de Carrie, não era nada disso que via.

─ Carrie. Carrie. O que foi? Por que está com essa cara assustada?

─ Ivy... E-Eu não sei o que está acontecendo comigo.

─ Por que está olhando para frente assim? Carrie!

A garota virou-se para trás assustada. Parecia procurar alguém, aquele alguém que ela nunca vira na cidade. Ela havia percebido. Sua dor apenas havia começado quando aquele homem estranho passou exatamente ao seu lado. Mas não fazia nem dez minutos que isso tinha acontecido e o homem não estava mais lá. Não havia atravessado a rua, não havia entrado em nenhuma loja ou casa, nada. Ele apenas sumiu.

─ Pelo amor de Deus, o que houve? Me responda! – Gritou Ivy.

─ Eu consigo vê-los, Ivy! Eu consigo ver os espíritos. Eles estão andando normalmente, como se fossem pessoas normais. Mas há algo estranho. Alguns estão com umas roupas estranhas e... Eles não são assustadores. Parecem tão humanos quanto nós, mas são brancos e transparentes.

Ivy se assustou. O que apenas era possível sentir, agora era possível ver.

─ Com licença... Você consegue me ouvir? – Cutucou Carrie a uma mulher que passava ao seu lado. Ela era um pouco mais alta que a garota, seus cabelos eram longos e ondulados, mas não sabia-se a cor deles. Suas roupas eram estranhas, não eram roupas que se viam em Harddwch. Pareciam velhas, mas ao mesmo tempo modernas.

─ Sim, eu posso.

E a mulher tornou-se a andar novamente. Era como se uma pessoa normal fizesse isso para outra pessoa qualquer. Era estranho, mas não assustador. Pelo menos não para esta pessoa, pois para Carrie, era a coisa mais horripilante que já havia acontecido com ela.

─ Eu posso comunicar-me com eles também. Ai meu Deus, Ivy, por favor, apenas me leve para casa.

Ela não conseguia acreditar. Tudo o que ela mais temia aconteceu. Carrie nunca gostou de poder senti-los, não poderia ver filmes sobre eles e morria de medo de ficar sozinha no escuro, principalmente no quarto de sua mãe. Ela acabava de ver algum filme ou seriado de suspense e ficava mais vulnerável a tomar sustos. Ela nunca gostou de ser assim. E agora, as coisas apenas pioraram. O que iria fazer com essa “habilidade”? Carrie não podia andar na rua sem ver um espírito. O único lugar que eles não estavam, talvez fosse sua casa. Pelo menos era o que ela achava.

─ Você vai ficar bem, Carrie? Estou preocupada.

─ Ficarei, Ivy. Creio que na minha casa não há espíritos.

─ Se acontecer qualquer coisa, por favor, me ligue. Eu virei correndo pra cá.

─ Eu sei. Obrigada.

Carrie pegou suas chaves e entrou em casa. Estava quieta e nenhum sinal de espíritos. Ela suspirou. Sua mãe estava trabalhando e só voltaria bem anoite. Carrie tirou sua jaqueta, deixou sua bolsa em cima do sofá e foi direto ao banheiro lavar o rosto. Precisava descansar. Ficou se encarando no espelho para ver se algo havia mudado nela que só ela podia ver, mas estava normal. Seus olhos, sua pele, seu cabelo, tudo normal. Agradeceu por pelo menos isso estar no lugar. Fez um suco de maracujá para poder relaxar e manter-se calma e foi direto para seu quarto, ligar o computador e se distrair. Entretanto, não havia sido uma boa ideia fazer isso.

─ Mentira. – Suspirou fundo. Ela desejou profundamente que o que estava vendo nesse exato momento fosse mentira. Mas ela sabia que não era.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.