Sorrisos e desencontros

8 A crueldade do destino


Eu beijarei teus lábios; por acaso algum veneno ainda perdura neles, para fazer-me morrer com beijo restaurador.
"Romeu e Julieta"- William Shakespeare

Matthew o que você...?-ela se afastou, estática.
Matt olhou para Maeve, sem saber ao certo o que dizer, até que ela o beijou novamente, o surpreendendo ainda mais.
Então era isso. O sentimento dos dois estava confirmado, e ambos estavam condenados caso isto viesse a conhecimento de alguém.
Matt deslizou as mãos pelo cabelo escuro de Maeve, para em seguida juntar sua testa à dela, sussurrando tudo o que havia guardado durante sua ausência.
Até que lhe ocorreram que estavam na frente do castelo, se separaram após ouvir passos, mas ninguém os flagrou, apenas alguns poucos convidados estavam saindo da festa.
Após se recuperar do súbito susto, Maeve se apressou para ir embora, seu misto de alegria e desespero agora estava completo.

—Maeve, espere.-disse Matthew indo atrás dela.

—Não! Você não tem ideia do que acabou...do que acabamos se fazer. E se alguém tivesse nos visto? Poderia assinar nossa sentença de morte.

—Eu nunca arriscaria a sua vida, mas não me importaria de morrer após receber o seu toque. Maeve, me diga, sente o mesmo por mim?

Ela aproximou-se dele, falando mais baixo

—Você está louco, que bem isso traria? Eu sou noiva do seu irmão. Parece não se lembrar disso.

—A cada vez que me lembro disso a angústia dentro de mim cresce! Eu amo meu irmão, e amo você. Se estou condenado por isso, aceito de bom grado, mas permita-me saber, eu imploro.

Maeve queria chorar, gritar para o mundo, e beijá-lo novamente. Tudo ao mesmo tempo.

—Eu não vim até aqui para ver você sendo morto. Temos nossos deveres, precisamos cumpri-los. Aprendi isso a muito tempo.-sua expressão triste partiu o coração do príncipe.

—Não precisa ser assim. Nós podemos...

—Fazer o quê? Pergunte a si mesmo se faz sentido antes de me responder, ou se apenas traria tragédia à essas portas.

—Maeve...

—Não posso vê-lo morrer. Sinto muito.
Ela correu para dentro do castelo, entrando novamente para a festa que teria que aturar até que chegasse ao fim.

—Maeve, onde estava, minha querida?-A rainha perguntou.

—Fui tomar um ar, my lady. Estava um pouco abafado aqui.-Falou, tentando disfarçar o melhor possível.

—Sente-se bem, criança? Parece corada.

—Sim, eu apenas... não me acostumei com o clima daqui, apenas isso. Posso me retirar para meus aposentos?

—É claro, descanse, teve um dia muito cansativo. Bons sonhos, querida.

—Obrigada.-Maeve respondeu, dando um terno abraço em sua futura sogra.
Ela seguiu para o quarto acompanhada de suas damas de companhia. Tudo parecia estar em preto e branco e em câmera lenta. Absolutamente tudo ofuscado pela constatação recente.
Maeve passou a noite em claro, pensando em como seria dali pra frente. Queria dormir e sonhar com uma vida sem deveres, onde apenas Matthew e ela existissem.
A batida súbita na porta a acordou de seu "transe" já era de manhã e uma de suas damas a avisou que sua companhia era requisitada pelo próprio rei na sala do trono. Um mensageiro havia entregado a mensagem.

Uma sensação gélida lhe subiu a espinha.
Com a ajuda de sua dama, banhou-se e vestiu-se o mais rápido possível.
Caminhou apressadamente acompanhada pelos guardas e ao entrar na presença do rei, viu que Matthew também estava na presença de seu pai.

"Alguém descobriu. É o nosso fim" pensou.
Talvez devesse assumir a culpa, considerou ela, talvez o rei tivesse misericórdia de seu filho.
Ela fez a reverência,

em seguida colocando-se ao lado de Matthew.

—Bom dia, vossa Majestade. Eu gostaria de dizer que...

—Apenas um momento, princesa. Temos uma notícia urgente. Seu casamento será daqui a dois dias, e meu filho teve que partir para o reino de Gales com urgência para resolver assuntos de Estado. Sequer teve tempo de despedir-se de você, espero que compreenda.

—Então, o casamento será adiado?-ela perguntou, confusa.

—De maneira alguma!-o rei David exclamou.
Meu filho Matthew será o representante do irmão, por isso o convoquei igualmente.

Maeve olhou para Matt pela primeira vez após a noite passada.
Ambos permaneceram em silêncio. Até que Matthew respondeu.

—Claro, pai.-Serei representante do meu irmão, não há com o que se preocupar.

—Ótimo.-o rei David consentiu.-então agora devo avisar a sua mãe que acelere os preparativos do casamento. Creio que os convidados dos reinos vizinhos já estão a caminho.

—Está radiante hoje, princesa.-o rei se dirigiu a Maeve.-o que gostaria de me dizer quando chegou?

—Eu gostaria de...agradecer pela comemoração a minha chegada ontem. Foi belíssima.-Maeve respondeu, com a primeira coisa que pensou.

—Não há de quê. Bom, então estão dispensados.

Foi de fato uma surpresa. Tal fato era possível?

—Maeve.-Matthew a chamou após as portas da sala do trono se fecharem.-você está bem?

—Sim... estou bem. Sobre o que o rei disse...

—Parece uma piada, não é? Uma das ruins, porém ainda assim com sentido cômico.

—Eu li sobre os costumes daqui e percebi que um representante da nobreza pode ocupar o lugar de outro caso este não esteja presente, mas... nunca imaginei que aconteceria.

—Sim. Eu também não. Mas é o nosso dever, não é?

—Se eu disse algo que o ofendeu ontem, me perdoe.

—Jamais poderia me ofender, Maeve. Eu nunca quis o lugar do meu irmão, até agora.-Matthew admitiu.

—Temi que tivéssemos sido convocados pelo que aconteceu ontem.
Matt segurou as mãos dela. Estavam frias e tremendo.

—Eu jamais deixarei que nada de mal aconteça a você. Entendeu?
As lágrimas há muito tempo acumuladas, desta vez ousaram cair. Maeve se jogou sobre ele num abraço apertado, soluçando.

—Eu não quero me casar com seu irmão.-disse, enquanto as lágrimas continuavam a cair.