Sorriso Insano
1 Portas do Inferno
Notas iniciais
Nós já estávamos andando há quatro horas e não chegávamos nessa casa de campo. Era realmente muito distante da cidade. Meu pai, Edgar, estava no banco da frente dirigindo, já parecendo um pouco cansado. Eu podia ver as olheiras manchando seus olhos azuis, mas não à toa. Meu pai era um grande arquiteto e quase sempre passava as noites em claro trabalhando. Ao seu lado, no banco do carona, estava Ashley, minha mãe, lendo um livro, sem se queixar de tonturas ou enjoos. Não entendia como ela fazia aquilo.
O motivo da viagem era relaxar, pelo tempo que meus pais decidissem. Afinal, eles mereciam isso mais que eu e meu irmão; a propósito, à minha direita, no banco de trás, estavam meu irmão mais velho Jackson e sua namorada Aurora. Jackson tinha 19 anos, era um cara folgado, não queria nada com a vida e andava com pessoas piores do que ele. Não sei como era filho de pessoas tão intelectuais como nossos pais. Sua namorada tinha um estilo bem extravagante. Ele gostava de garotas bem femininas e de todas as 14 escolhidas que já tinham passado por sua mão, essa superava todas as minhas expectativas.
Aurora possuía um cabelo loiro e cacheado que batia além de sua cintura. Seus olhos eram incrivelmente verdes (como os meus, mas bem mais intensos) e seus cílios eram naturalmente grandes. Não precisava de maquiagem para ficar bonita, mas usava um batom vermelho como sangue, e tinha uma sombra preta perfeitamente feita em seus olhos. Usava um jeans escuro justo, e um agasalho cheio de pelos brancos e macios. Era uma menina rica e isso me deixava um pouco incomodada, me fazendo perguntar se Jackson a amava de verdade ou se só estava com ela por interesses, já que ela dava tudo que ele pedia, chorando ou sorrindo. Meu irmão tinha estilo um pouco gótico. Naquela hora, usava calça jeans preta, e um moletom cinza onde estava escrito “Morte aos Minions” e um dos pequenos amarelinhos com uma flecha na cabeça. Um garoto idiota, sem dúvidas.
Eu estava com minha cabeça encostada na janela observando a paisagem, e tudo parecia tão sombrio. Aquele clima cinzento e gelado fazia com que a neblina cobrisse a nossa frente, mas já estava vivendo há 14 anos e nunca tinha visto uma paisagem bonita como aquela. Meus olhos começaram a pesar e eu adormeci.
Acordei com Jackson me cutucando.
—Acorde, Wendy. Já chegamos.
Meus pais já estavam retirando nossa bagagem de trás do carro, que eram suficiente para três semanas. Eu estava com tudo na minha mochila em minhas costas, então deixei-os cuidarem de suas coisas e fui observar a casa. Era bem no meio do nada, estávamos em um campo, grama baixa e somente a brisa gelada batendo em nosso rosto. A casa era bem grande, mais do que eu imaginava, mas parecia um pouco velha. Era feita de madeira e tinha sua cor cinzenta um pouco gasta, mas ainda assim parecia bonita.
Meu pai me chamou e me deu as chaves, eu as peguei e abri a casa. Um esperado cheiro de madeira velha me cobriu o rosto. A casa permitia que o vento entrasse, não sendo totalmente recomendável para quem quer se abrigar do frio. Vi uma escada logo que entrei, e subi para explorar a casa. Quando cheguei, vi que havia lá em cima três portas, e a primeira que abri revelou-me um grande quarto, e decidi de imediato que era naquele que ficaria. O quarto possuía uma penteadeira grande e branca com um espelho e, ao lado da cama de solteiro, havia uma janela aberta. A janela estava voltada para a parte de trás da casa, então podia ser visto as belas e assustadoras árvores na floresta atrás de nós. No canto direito do quarto, havia um armário grande e marrom. E ainda pude perceber uma prateleira com vários livros e algumas bonecas de porcelana. Peguei algumas de minhas roupas que estavam em minha bolsa fui colocá-las no armário, mas, quando o abri, percebi algo. Algo como... arranhões, arranhões de longas unhas dentro do armário. Estranho. Percebi também que já havia algumas peças de roupas nos cabides do armário. Peças de roupas femininas e de meu tamanho, como se a casa já esperasse por mim.
Arrumei tudo em meu quarto e fui para baixo, ver o resto da casa. Ela era bonita em muitos aspectos e possuía quadros antigos.
—Pai... de quem é essa casa mesmo?- perguntei olhando para o quadro de uma criança suja chorando, obviamente, mendiga. Meu pai deixou uma mala no chão, foi até a mim e olhou para o quadro.
—É nossa propriedade filha. Não se lembra do que eu disse? Foi construída em 1924 por nossa família, e foi passada pelas gerações. Hoje esse terreno e essa casa são propriedades privadas e podemos usá-la quando quisermos.- ele respondeu.
Me deu um beijo na cabeça e foi arrumar suas coisas. Fiquei olhando para o quadro e me perguntando quantos segredos aquela casa tinha.
A noite caiu e, nessa hora, já estávamos claramente bem cansados da viajem. Meus pais pegaram o quarto de baixo e Aurora e Jackson ficaram com os dois de cima, ao lado esquerdo do meu. Era essa a regra de meus pais: cada um com seu quarto; porque de acordo com eles, isso impediria que os dois se antecipassem com as besteiras, mas eu não tinha tanta certeza disso. Era sempre assim, Jackson sempre levava suas namoradas para os eventos em famílias, enquanto eu, ainda não tinha dado nem meu primeiro beijo, incrível.
Antes de dormir, nós jantamos juntos algo não muito chique, mas que nos tirava totalmente a fome, isso era o que importava: uma deliciosa macarronada com molho de carne. Conversamos e rimos um pouco. Normalmente, nossa família parecia um pouco séria, mas era bom descontrair algumas vezes.
—Ouvi dizer...- começou Jackson- que há um garoto muito estranho que vive por aqui.
—Aqui no meio do nada? Vai começar com essas loucuras agora?- perguntou mamãe.
—Por favor mãe, não estrague o suspense.- e continuou.- Ele não é normal, definitivamente. Seus olhos são negros e sua pele totalmente branca por conta de um fogo intenso que afetou seu corpo. Ele tem um fetiche por sorrisos, então esculpiu um sorriso permanente em seu próprio rosto, com uma faca.- ele disse com um tom dramático.- Ele corre por aí matando pessoas com essa faca, que foi a mesma usada para matar seus próprios pais e seu irmão. Ele é tipo um plágio mal feito do Coringa.
Me assustei um pouco, para ser sincera, mas não acreditava naquilo.
—E como é o nome dele, Jack?- perguntou Aurora.
—Jeff.- ele respondeu.- Jeff the Killer.
Depois que jantamos, fomos cada um para seu quarto. Chegando no meu, percebi que a janela ainda estava aberta e resolvi olhar para fora. Estava muito escuro, com exceção das partes iluminadas pela lua ou pelas luzes da casa. Olhando por algum tempo, meus olhos se adaptaram à escuridão, então pude ver melhor as árvores balançando com o vento. Pensei na história que Jackson contara e senti um calafrio percorrendo meu corpo, mas ainda sabia que aquilo não era verdade. De qualquer forma, pensei pesquisar um pouco sobre Jeff, só por conta do tom de voz de Jackson contando a história, que parecia torná-la muito interessante, apesar de assustadora.
Incrivelmente, em um lugar tão longe da cidade, havia alguns pontos de Internet, bem ruins, mas que davam pro gasto. Deitei em minha cama, apaguei as luzes, peguei meu celular e comecei a me aprofundar naquela história. Era bem longa, então demorei um pouco para ler. Quando terminei, percebi que estava suando frio. Aquela história era surreal e horrível, mas definitivamente não acreditava que era verdadeira. Não há como alguém queimar os próprios olhos e não ficar cego... quem acreditaria naquilo? E sem mencionar que esse garoto havia pegado fogo. Quem pega fogo e continua vivo? Era uma história bem criativa, mas totalmente sem sentido. Vi que era do gênero “creepypasta” e decidi pesquisar mais.
Li histórias sobre Slenderman, Sally, Jane (que a propósito, Jeff estava envolvido) e achei todas muito... interessantes. Quando me voltei para o horário, percebi que eram 2:00 da manhã, então coloquei meu celular de baixo do travesseiro e fechei os olhos. Aquelas histórias martelavam minha cabeça. Estava ficando um pouco paranoica, mas consegui pegar no sono.
Acordei um tempo depois com um barulho vindo de fora. Eram 3:30 da manhã. Me levantei e fui olhar pela janela. Vi uma figura saindo da floresta e correndo para a casa. Um vulto negro e indecifrável, mas que me deixou paralisada. Apertei os olhos para ver se olhava direito e sim, tinha alguma coisa vindo para casa.
Jeff, Jeff... era a única coisa que pensava.
Bati em meu próprio rosto para me livrar da paralisia do medo e desci correndo as escadas. Estava tudo escuro, somente as luzes da frente estavam ligadas. Minhas mãos estavam suando, assim como meus pés. Eu não queria gritar, eu não podia gritar e meu pânico não ajudava em nada, não pensava em nada que podia fazer. Corri até a cozinha e peguei duas facas, uma em cada mão e fui até a porta, esperando pelo pior. Estava tremendo e senti as lágrimas rolarem pelo meu rosto. A porta estava trancada, mas ouvi algo estranho, como se fossem chaves sendo colocadas e rodadas na porta, para abri-la. Fiquei em um lugar que me faria ficar atrás da porta, caso se abrisse.
Quando a porta foi aberta, algo entrou correndo. Não esperei duas vezes para levantar as facas para bater naquela coisa, mas quando o vulto virou-se para mim, percebi que era Aurora, que deu um berro e vi Jackson fechando a porta. Minhas mãos ficaram paradas no ar. Eles me olharam assustados e senti meu coração disparado, na situação em que estava e na confusão que me meteria.
—Wendy?!- gritou Jackson.
Eu estava com medo demais para falar, mas gaguejei aos soluços.
—P-pensei que... fosse... aquele cara de quem você disse antes...
—Jeff?!- ele gritou- Você acredita naquilo? Foi só uma história!
Nessa hora, meus pais apareceram correndo.
—O que está acontecendo?- minha mãe gritou e olhou para mim.- O que é isso Wendy?
Percebi que ainda segurava as facas, abri a mão e elas caíram no chão.
—E-eu... achei que alguém q-queria entrar aqui. Alguém ruim...- já estava me acalmando um pouco, mas sem entender nada.
Minha mãe olhou para Aurora e Jackson.
—E vocês dois?
Aurora olhou rapidamente para Jackson, que escolheu delicadamente as palavras, mas parecia nervoso.
—Ah... n-nós... só ouvimos Wendy descendo as escadas e viemos ver o que era... ela parecia muito estranha!
Belo mentiroso.
—O que?! Nnão foi nada di...- fui interrompida por ele que colocou a mão em minha boca.
—Ah! Olha só para você! Tá tão assustada! Eu não devia ter contado aquela história para você... só tem 14 anos. Vamos subir. Vou te colocar na cama e ficar lá até você dormir.- olhou para meus pais.- Tudo bem, eu cuido dela.
Meu pai olhou para mim.
—Amanhã vai me contar essa história direito mocinha.
Chegamos na porta do meu quarto e Aurora beijou Jackson.
—Vai explicar para ela, Jack?
—Vou sim, sem problemas.
Ela assentiu e foi para seu quarto. Deitei em minha cama e Jackson sentou-se na beirada dela. Olhei para ele, indignada.
—Seu estúpido mentiroso.
—Ei, calma aí. Me fala: o que faria se tivesse fincado aquelas facas nas costas da Aurora? Você até que é bem brava pra alguém do seu tamanho.
—O que vocês estavam fazendo de verdade lá fora?
Ele desviou o olhar. Apontei para ele.
—Estavam namorando... não estavam?!
—Namorando?- ele riu.- Seja lá o que quis dizer com isso, nossos pais não precisam ficar sabendo, certo?
Olhei para ele com desdém.
—Vá dormir.- falei.
Ele beijou minha cabeça.
—Qualquer coisa, me chame.
Apagou a luz e saiu do quarto.
Senti raiva de Jackson e pensei um pouco sobre aquilo antes de fechar os olhos. Jeff... haha. O que eu estava pensando? Talvez eu ainda tivesse meus medos de infância lá no fundo, e isso era engraçado. Mas sinceramente, não consegui dormir naquela noite.
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