Soro Positivo
3 Capítulo 3- Dana
Notas iniciais
Era o segundo dia de aula e nesse eu iria. Eu sempre falto o primeiro dia pra dar aquele tchã quando chegar na aula. Eu deixo meu uniforme pronto na noite anterior e o que vou usar de acessório. O uniforme é sempre o mesmo então não tenho o que dizer. Estava começando o ensino médio, 1° ano. Seria muito bom, ou muito ruim. Independentemente do que fosse, eu tinha que estar preparada. Voltando sobre o meu look. Coloquei meu adidas superstar e nada mais além de um par de argolões dourados. Levantei da cama, eram 5h40AM, e fui tomar um banho. Enquanto tomava meu banho, fiquei pensando no que faria naquele dia. Se eu finalmente beijaria alguém ou se continuaria da forma que estava. Eu sempre tive medo disso, não sei o porquê. Sempre tive medo de beijar, me apaixonar e me lascar, mas tem algo dentro de mim que dizendo que devo fazê-lo, devo enfrentar isso. De vez em quando fico pensando com quem poderia ser, como seria e onde seria, mas aí vêm o medo e toma meus pensamentos. Minha amiga, Wendy, tenta me ajudar com isso, mas não sei se tá funcionando. Ela de vez em quando mostra alguns garotos em potencial, mas eu acho que na minha mente só tem um, Josh. Ele é o melhor amigo do meu irmão e, eu nego, mas acho que sou apaixonada nele desde o 7° ano. Ele é lindo, engraçado e sei lá, faz eu me sentir bem quando está comigo, mas acho que ele não sente o mesmo. Peguei minha toalha e me sequei. Depois saí do boxe e peguei o secador. Sequei meu cabelo em pouco tempo e depois dei uma passada rápida na prancha. Perfeito. Depois passei um pouco de iluminador, rímel e vesti meu uniforme. Eu sempre me produzo toda e depois visto a roupa. Calcei o tênis, dei uma última olhada no espelho e desci as escadas. Trevor estava sentado na cozinha lendo o jornal matinal, comendo um waffle e tomando um café.
— Bom dia- disse e dei um beijo em seu rosto
— Bom dia, Dana.
Fui pegar meu waffle que ele tinha deixado pronto e coloquei mel em cima.
— Essa saia não tá muito curta?
— Claro que não.
Claro que estava.
— Tem certeza?
— Sim, Trevor. Não já falamos disso?
— É... Mas pra mim parece curta.
Trevor sempre cuidou muito de mim e esteve muito na minha cola. Talvez porque ele não quer que eu tenha o mesmo destino que ele, mas é quase impossível, quer dizer, você não sabe quando, como e onde você vai contrair AIDS. Ele me protege de tudo e todos e sempre fica filtrando minhas roupas. É fofo, mas é um saco.
— Tá bem, Trevor, mas vai continuar assim.
— Só toma cuidado...
— Eu sempre tomo.
Peguei um suco que tinha na geladeira e sentei na mesa, junto com ele pra fazer minha refeição. Eu nunca vi graça em ler jornais matinais, mas Trevor os devorava. Sempre admirei a velocidade e a concentração com que ele lê as coisas.
— O que tem de bom no jornal de hoje? — perguntei, puxando assunto
— Nada demais. Notícias sem sal.
Ele olhou o relógio e limpou as mãos.
— Vai querer carona? Daqui a 10 minutos vou sair.
— Não, obrigada. Eu vou com a Wendy. Mas por que tão cedo?
— Tenho que buscar o Josh. Esqueceu? Ele vai comigo. — disse ele, se levantando- Vou escovar meus dentes e sair.
Se bem que... Trevor estava subindo as escadas quando mudei minha cabeça.
— Vou querer a carona.
Ele parou na escada e virou-se de lado.
— Por que mudou de ideia?
— Por nada. Só achei melhor.
Bem melhor...
— Está bem. Só esteja pronta em 10 minutos. — disse ele e continuou a subir
Devorei o resto do waffle, tomei meu suco para não me entalar e subi as escadas correndo. O motivo de eu ter mudado de ideia é óbvio. Só espero que Trevor não tenha percebido. Escovei meus dentes, passei um gloss e dei uma última olhada no espelho. Perfeita! Peguei minha mochila, desci as escadas e fui para o carro. Trevor já estava lá. Sentei no banco de trás. Vi pelo retrovisor que ele olhou as horas e fez uma cara de surpreso.
— Puxa! Ainda faltam 5 minutos. Você foi rápida.
— Claro. Não queria te atrasar.
Eu estava me lascando se ele ia se atrasar ou não. Só estava ali pra não perder a carona. Ele ligou o carro e fomos rumo à casa de Josh. Eu adorava o fato do meu irmão ter um conversível. Além de eu poder me exibir, tinha a brisa, que eu amo. Como a casa de Josh era perto, chegamos bem depressa. Trevor buzinou e uns 30 segundos depois Josh apareceu. Não queria parecer desesperada ou algo do tipo então peguei meu celular e entrei no instagram pra parecer que eu realmente estava fazendo algo. Vi Josh entrar com o canto do olho.
— Ei lindeza- disse Josh e deu um beijo no rosto de Trevor
Eu até hoje não entendo essa gayzisse dos dois. Os dois são obviamente héteros, então isso dá raiva.
— Ei coisa linda. Senti sua falta.
— Ah, mentira!
— Verdade pura, mas vamos logo para não nos atrasarmos.
Os dois riram e Trevor acelerou. Fui olhar no retrovisor e Josh me olhava. Por que será que ele estava me olhando? Por que ele tinha interesse também? Por que eu vi a cena dos dois? Ou por que eu não havia dito nada ainda? Dei um sorriso de canto e ele sorriu de volta depois tornei a olhar meu celular tentando conter minha emoção. "Esse garoto mexe demais comigo", pensei comigo mesma.
Dentro de 10 minutos chegamos na escola. Não conversei nem com Josh e nem com Trevor no carro. Assim que Trevor estacionou o carro, peguei minha mochila e saí.
— Valeu pela carona, Trevor.
— De nada. Agora, não esqueça de pegar seu horário.
— Tá bem. Tchau, Josh.
— Tchau, Dana- disse Josh, com aquela voz dele que me arrepia toda
Fui na frente e fiz questão de andar com meu rebolado, sabendo que Josh iria olhar. Chegando na escola, causei o efeito que queria. Todos me olhando. Uns sorriam, outros tinham olhares de desejo e outros de inveja. Vi Wendy. Ela estava de amassos com um garoto que aposto, que ela nem conhecia. Me aproximei e os dois nem notaram minha presença. Pigarreei. Ela virou pra mim, sorriu e não hesitou em me abraçar.
— Que saudade de você!
— Eu também estava, Wendy.
— Faltou ontem pra causar efeito?
— Você sabe que sim.
Ela riu. Wendy é quase que a garota dos sonhos. É ruiva, branca, tem olhos verdes, cabelo longo e liso, tem 1,70, uma bunda enorme e coxas também, fora a personalidade. Simpática, confiante, inteligente, cuida do meio ambiente e é dançarina de balé. Eu acho que comparada a ela, sou nada.
— É a sua cara mesmo.
— Vi que fez novos amigos no seu primeiro dia.
— Ah, esse é o Jeremy. — ela sorriu- E, na verdade, acabamos de nos conhecer.
Ele deu uma piscadela e dei um meio sorriso. O único problema da Wendy é que ela não tem classe, mas todos se atraem por ela então, no fim das contas, nem faz diferença.
— Meu Deus, Wendy. Como você consegue?
— Acho que é prática- ela deu de ombros e riu- Mas vamos pra a sala porque não queremos nos atrasar.
Ela se despediu de Jeremy com mais um beijo. E que beijo! E depois fomos pra a sala.
— Se você continuar assim, não vai sobrar nenhum garoto pra mim.
— Dana, mesmo se sobrasse. Você não pega!
Ela me segurou e me sacudiu.
— Amiga, tem tantos garotos por aí e você é tão linda! Quem não te quer? — ela continuou
— Mas não é só isso.
Voltamos a andar, entramos na sala e fomos procurar o nosso lugar. Sentamos nas cadeiras do meio.
— Então o que é?
— Eu não tenho essa mesma confiança que você.
— Não tem essa, Dana. Você tem que se livrar desse seu medo.
— Ah, não sei...
— O seu problema é que você pensa demais.
— E você, de menos.
— É- ela riu- Mas pelo menos eu vivo.
— Ai- ri e ela fez o mesmo- Essa doeu.
— Infelizmente é a verdade, Dana. Mas não adianta te falar porque você não me escuta.
— Imagine se eu escutasse.
O sinal tocou e os alunos foram entrando aos poucos. A professora chegou 5 minutos depois de todos entrarem. Pedi o horário emprestado para Wendy, porque mesmo com Trevor me lembrando, esqueci de pegar. Era aula de física. “Ótimo”, pensei comigo mesma, “vamos começar com o fácil”. Eu quero ser arquiteta e sou péssima com cálculos. Claro que eu vou me dar bem. Trevor sempre diz que eu seria uma ótima psicóloga. Logo eu, que tenho medo de beijar. Quando parei para olhar a meu redor, conhecia basicamente todos, porque estudaram comigo nos anos anteriores. Não conhecia uns 5 a 7 da sala.
— Bom dia, classe. Eu sou a professora Jessie e vou lecionar física a vocês. Bom, antes de começarmos a aula, temos um aluno bem... diferente. Ele é um intercambista e eu espero que todos saibam o que é um intercambista. Enfim, não vou dizer mais nada. Vou deixar que ele se apresente.
Logo após ela terminar sua apresentação, se dirigiu a porta e entrou com o garoto novo. Ele tinha a pele escura, cabelos encaracolados, cheios e negros, seus olhos pareciam cor-de-mel e aparentava ter 1, 80.
— Vocês provavelmente não vão entender o que ele diz e nem ele o que vocês dizem. Ele vem do Brasil e não conhece muito da língua inglesa, mas vou deixar que ele se apresente.
Ela disse algo em português pra ele e o mesmo assentiu.
— Err... Oi.
A classe respondeu, uníssona. Ele falou algo com a professora e ela riu.
— Ele prefere não falar em público porque seu inglês é horrível. Vamos respeitá-lo. Quem pode ajudá-lo?
Assim, um brasileiro, bonito, desconhecido de tudo e todos e que eu posso perder o tempo com ele, talvez não só o tempo... É claro que eu quero. Levantei a mão e ele olhou pra mim sem saber o que estava havendo, sorri e ele retribuiu o gesto. Que sorriso
— Uau, tomando coragem- Wendy sussurrou e pegou suas coisas pra mudar de lugar
— Cala a boca- sussurrei de volta
— Ok... – a professora disse
— Dana- completei
— Isso, Dana. – ela disse e se dirigiu ao aluno novo
Ele saiu da frente da sala e sentou-se ao meu lado.
— Seja bem-vindo, Caio. Ajude ele, Dana. Agora vamos começar a aula.
Coloquei meu material em cima da mesa e olhei pra ele. Estava perdido.
— O que foi? Pega seu material.
Ele parecia não ter entendido. Esqueci que ele não sabia praticamente nada sobre inglês. Ele pegou o celular e começou a mexer.
— Guarda isso. Vão pegar de você.
Ele terminou de digitar algo e virou a tela pra mim. Estava usando o google tradutor. Tinha me perguntado de que matéria era a aula. Peguei o celular e traduzi do inglês para o português: “Física”. Depois ele soltou uma risada e pegou o aparelho para digitar algo mais. Ri quando li. Estava digitado: “Posso não saber muita coisa sobre inglês, mas não sou completamente burro”. Já vi que ali teria trabalho. Ele abriu a mochila e pegou seu material.
— Obrigado- ele falou de uma forma engraçada, em inglês.
— De nada- respondi
Ele ficou sem entender e pegou o celular para que eu digitasse. Digitei e ele fez uma cara de como quem entende algo. Ri de sua reação. Nas horas e aulas seguintes tentei ajudá-lo o máximo possível. Ensinei algumas coisas em inglês pra ele e ele me ensinou outras em português. Ele é muito engraçado. Me contou de algumas coisas sobre onde morava. Ele disse que morava no Rio de Janeiro e falou sobre o estado, sua cidade e etc. Contei também algumas coisas sobre onde morava e no geral o dia rendeu bastante e gostei muito da companhia dele. É bem diferente de tudo e todos que já vi. E mesmo ficando sem entender muita coisa.
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