Soro Positivo

1 Capítulo 1- Charlotte


Notas iniciais
Espero que a história atenda suas expectativas

Estava terminando de remixar uma faixa. Ouvi-a pela 10° vez para ver se me agradava por completo. Para mim, minha música só está perfeita quando a ouço, fecho os olhos e me imagino em um lugar onde eu me sinta a vontade. Tomei um gole do meu descafeinado e olhei para o relógio, eram 7h17AM, ou seja, eu estava atrasada já que era o meu 1° dia. Tinha quase um mês que tinha me mandado de Manhattan para a Inglaterra. Mais por questões econômicas que pessoais.

Meu pai e minha mãe receberam ofertas de emprego. Um aumento salarial bem significativo. Fomos morar na parte rica de Londres. Qual o emprego dos meus pais? Meu pai é neurocirurgião e minha mãe é engenheira civil. Moramos um pouco distante da cidade por não gostar do tumulto e outras coisas... Como eu me mudei tem pouco tempo, não saí e nem conheci ninguém ainda. Só vi os vizinhos saindo, pondo lixo pra fora, molhando a grama e até mesmo em situações constrangedoras que não precisam ser citadas e muito menos lembradas... Deixei meus pensamentos de lado e fui me arrumar. Salvei minha faixa e desliguei o computador. Minha escola era particular, ou seja, uniforme. E que uniforme! Uma camisa social branca, uma gravata vermelha xadrez, uma saia (bem curta) vermelha xadrez e um blazer azul escuro com o brasão da escola. Ótimo! Já não bastava o meu cabelo ser vermelho agora o uniforme todo era... Passei lápis de olho e rímel pra ver se minha cara de defunta ganhava um pouco de vida. Peguei minha mochila, meus headphones e desci as escadas. Meus pais trabalham o dia inteiro então fico sozinha a maior parte dele. Peguei a chave do meu carro na mesa da cozinha, saí, tranquei a casa, entrei no carro e fui embora.

Não tinha trânsito então cheguei rápido. Em uns 10 a 15 minutos. Estacionei meu carro na escola e fui procurar saber sobre aquele lugar. Não falei com ninguém, nem cumprimentei e muito menos me apresentei, apenas fui direto para a diretoria. Sentei e esperei a minha vez. Tinha um garoto lá dentro. Assim que ele saiu, dei uma leve analisada no sujeito. Ele era alto, branco, tinha olhos azuis, cabelo castanho médio que batia no ombro com leves cachos nas pontas e era um pouco sarado. Quando ele viu que eu o observava, sorriu. Não sorri de volta e virei o rosto ao ouvir meu nome.

— Charlotte- a diretora chamou

Me levantei e entrei na sala.

— Feche a porta e sente-se, por favor.

Obedeci os comandos e ela se dirigiu a seu assento. As paredes de sua sala eram cheias de quadros, jornais, fotos e diplomas. Parecia alguém de extrema importância. Ela estava digitando algumas coisas em seu computador e depois de algumas tecladas ela se voltou pra mim com um sorriso.

— Bom dia, senhorita Charlotte- disse, estendendo a mão- Sou a diretora Stacy

— Bom dia- disse, retribuindo gesto

— O que está achando da escola?- perguntou, curiosa e ainda com um sorriso no rosto

— Não conheci ainda para opinar- dei um leve riso

Ela sorriu como quem não tem o que dizer mas é claro que ela tinha. Ela voltou a olhar o computador.

— Bom, pelo que vi na sua ficha você acabou de se mudar de Manhattan e tem uma doença degenerativa...

— AIDS.

Nesse momento eu imagino suas caras de choque e espanto. Sim, AIDS. Você deve estar pensando: "Nossa, ela é uma piranha". Acertou. Contraí numa orgia do Tomorrowland. Depois disso perdi o ânimo de tudo e aquietei. Agora sou uma antissocial. Esse também foi um dos motivos para eu me mudar. Muito tumulto.

A diretora fez uma cara triste. Odeio quando sentem pena.

— Seus pais pediram para manter segredo e tem algumas recomendações: cuidados, medicamentos,... Nossa, quantos medicamentos. Você toma todos esses por dia?

— Tem o número de horas de cada um.

— Nossa...- ela pigarreou e olhou para o relógio- Já está quase na hora da sua primeira aula e não queremos que se atrase.- ela abriu uma gaveta e pegou algumas coisas- Aqui estão os seus livros, a chave do seu armário, o número está nela, e o horário de suas aulas. No mais se precisar de alguma coisa, estamos aqui.

Levantei e peguei minhas coisas.

— Obrigada.

— A sua primeira aula é na sala 14. Agora ande logo para não se atrasar.

Saí e primeiro fui guardar aquele monte de livros no meu armário. Os armários estavam logo na entrada. Eu me lembro de ter visto no corredor principal. Segui até o corredor principal e procurei meu armário. Os corredores ainda estavam cheios de estudantes. Procurei meu armário e por sorte não foi difícil de achar. Logo depois, me dirigi à minha sala. Notei que algumas pessoas me observavam, curiosas, já que nunca me viram por ali. Chegando lá sentei na última cadeira, é claro, sem falar com ninguém. Olhei para o relógio e faltavam 2 minutos para começar a aula. Até que fui bem rápida.

Olhei ao meu redor e tinham uns dois alunos além de mim mas o que chamou minha atenção foi um garoto que estava lendo um dos livros que eu mais gostava: Guerra e Paz, de Tolstoi. O garoto parecia alto, tinha cabelos pretos como carvão, era bem branco, sarado, olhos castanho-escuros e aparentava o tipo lobo solitário. O sinal tocou e os alunos entraram na sala fazendo barulho e distraindo meus pensamentos. Vi o menino do cabelão entrar. Ele sorriu quando me viu mas não veio na minha direção. Foi na mesa do lobo solitário. Eles se cumprimentaram, pareciam amigos de muito tempo. Depois ele foi falar com umas meninas e então parei de olhar pra ouvir umas músicas. Sempre deixo meus headphonesno pescoço. Fiquei olhando pra minha mesa e fazendo desenhos com os dedos. Levantei meu rosto e lá estava o garoto sorrindo pra mim.

— Ei gatinha, eu sou Josh e você?

— Não é da sua conta.

— Nervosinha- ele disse e riu- Qual é, não vai dizer seu nome, gatinha?- disse, de um modo apelativo

— Não e já pode parar de me chamar de gatinha.

Ele sorriu. Antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa o professor entrou na sala, o mandando sentar e interrompendo qualquer fala.

— Nos falamos depois- ele disse, saindo

— Tomara que não- resmunguei

Ele pareceu ouvir o que disse e riu. Se sentou na segunda cadeira uma fileira depois da minha do lado esquerdo. Depois de se sentar olhou pra mim e sorriu. Virei os olhos. Meu ano do saco cheio começou.

— Mais uma namoradinha, Sr. Josh?- perguntou o professor enquanto escrevia algo no quadro

Eu estava para responder quando ele respondeu.

— Acho que dessa vez não- ele riu e a turma toda se virou pra mim sorrindo

Começou o ano do jeitinho que eu queria, sendo o centro das atenções. Uhul. O professor se virou e andou um pouco, deixando a mostra o que havia escrito no quadro. Sr. Stevens, Geografia. Ele pegou o celular e passou o dedo no mesmo.

— A senhorita aí de cabelo vermelho deve ser a... Charlotte.

— Exato- concordei

— Seja bem-vinda e não ligue pro Josh, todos sabemos que ele sofre de sérios problemas mentais.

A turma toda riu inclusive o próprio Josh.

— Valeu.

— Poderíamos ficar a aula toda conversando ou não podemos. O último ano é o mais corrido então vamos logo com isso.

Esse professor pelo menos não é invasivo. Ele começou a falar de uma matéria muito chata e longa. Parecia que a aula não acabava nunca. Fui ver o horário e eram duas aulas seguidas de geografia. Fiquei pra não viver. As aulas passaram da forma mais lenta possível e quando enfim chegou o intervalo eu dei graças ao bom Deus. Fui em direção ao pátio da escola procurar por uma árvore e achei uma perfeita. Me sentei lá e como de costume, pus uma música bem calma. Beethoven, meu ídolo. Peguei um clássico de Jane Austen, Orgulho e Preconceito. Enquanto lia percebi uma sombra além da que a árvore fazia. Ergui meus olhos e sim, era ele e seu amigo, o lobo solitário.

— Charlotte...- disse ele de uma forma perturbadora

Me senti como naquele momento em que o Sr. Collins convida a Srta. Bennet para uma audiência particular. Não respondi pensando que isso o afastaria mas ele se sentou na minha frente. Lá se foi meu momento de paz. Que criatura... Já o amigo dele permaneceu em pé.

— Se importa se meu amigo se sentar? Ele ficou mudo.

— Sejam bem-vindos...- disse, voltada para a minha leitura

Ele se sentou ao meu lado com receio e abriu seu livro. Fizeram-se uns 40 segundos de silêncio e Josh os interrompeu.

— Vocês dois são muitos parecidos. Dois antissociais- ele riu e olhou em volta

— Olha lá, Josh- o lobo solitário finalmente falou- A Petra tá ali na porta da escola

Ele virou e levantou entusiasmado.

— Vou ali e já volto, meus amores- disse, mandando beijinhos como uma miss

Que sujeito retardado... Dei graças ao lobo solitário. Achei adequado agradecimentos.

— Muito obrigada, de verdade. Você não tem noção.

— Eu tenho sim. Disponha.- ele riu- Acho que só somos amigos porque crescemos juntos. Ele é um pouco perturbado mas é um amigo muito bom.

— Ele é muito perturbado- consertei sua fala

Ele riu e jogou o cabelo para trás.

— É. Ele é bem perturbado. A propósito, sou Trevor.

— Prazer, Charlotte.

— Boa leitura- disse ele, apontando para meu livro

— Digo o mesmo- disse, apontando para o seu

Começamos a conversar sobre livros e as histórias que líamos. Trevor no momento foi a única pessoa com a qual me identifiquei. Enquanto conversávamos, uma garota alta, magra, com peitos enormes, olhos âmbar, cabelos longos e loiros se aproximou. Como se as pernas já não fossem longas, sua saia, mais curta que o normal, as deixava gigantes. Ela chegou perto, me olhou com uma cara debochada, abriu as pernas e sentou no colo de Trevor. Contive meu espanto e meu riso. Virei o rosto para rir. Abusada ela, não é?

— Ei Trevorzinho- disse ela, de uma forma sedutora. Mais como uma atriz pornô

— Chora, Meredith. De preferência, em pé, fora do meu colo

O que mais me espantou é que ele não a afastou. Devem ser namorados. Provavelmente não. Ele a olhou com uma cara de desgosto que foi de gargalhar mas me contive. Ela passou a mão em seu peito de uma forma provocadora.

— Quando vamos voltar?- perguntou, esperançosa

— Isso é motivo de riso porque se eu me lembro bem, quem terminou foi você.

Que bagunça. Eu já estava morrendo de rir internamente. Eu só queria sair dali e morrer asfixiada de tanto rir.

— Ah.- ela disse sem ter o que falar- Fazer o que né? Acontece.

— Pode sair do meu colo?

— E você, quem é?- dirigiu-se a mim, ignorando completamente Trevor

— Uma garota qualquer.

— Claro...- ela disse irônica

Ela cochichou algo no ouvido de Trevor e foi dá-lo um beijo quando ele apenas afastou seu rosto com uma mão. Não me contive. Comecei a gargalhar muito alto, ele fez o mesmo. Tinha muito tempo que não ria tanto. Ela se levantou, possuída.

— E vocês dois...?- ela perguntou, pingando sangue

— O que tem?- perguntei, me recuperando do ataque

— Vocês têm o que?

Olhei pra ele e dei um sorriso. Ele fez o mesmo. Percebi que com certeza tínhamos algo ali...

— Sincronia- respondi