Sopre as velinhas e faça um pedido!
1 Antes que alguém sopre por você
Notas iniciais
Na noite anterior ao dia cinco, bem tarde por sinal, Hijikata foi expulso do Shinsengumi quase aos chutes. Foi deixado, após terem o ameaçado de amarrá-lo se fosse preciso, na entrada principal, trajando apenas seu uniforme usual. Nem sua katana tivera chance de pegar. Aliás, até seu precioso isqueiro com formato de pote de maionese ficou abandonado sobre a mesa onde estivera trabalhando a tarde inteira, pois a invasão súbita e o sequestro realizado pelos seus próprios homens tinha o impossibilitado de se ater aos detalhes.
Quando já estava largado na frente do Shisengumi, confuso sobre o que aquele motim representava, Kondou apareceu e lhe entregou as chaves de casa.
— Vá descansar, Toushi.
Hijikata franziu o cenho numa expressão ranzinza, ainda sem entender o que acontecia. Foi preciso Kondou relembra-lo de qual era o dia seguinte para Hijikata cair em si. Era seu aniversário! E para evitar que este fosse como todos os outros anos onde ele ficava atolado de trabalho, recusando-se a dar uma pausa sequer, fizeram um complô para retirá-lo da área do Shinsengumi antes mesmo que desse meia-noite.
Vendo que o próprio Kondou estava envolvido, Hijikata viu que não tinha muito o que fazer além de obedecer. Ele pediu, ao menos, que o entregassem seu isqueiro antes de ir, mas Kondou apenas alargou o sorriso enquanto ordenava que fechassem os grandes portões de madeira.
— Aproveite e tenha um aniversário mais saudável, Toushi! Um dia sem fumar não vai te matar... Acho.
E foi assim que Toushirou foi acabar sentado no engawa¹ de sua casa, de frente ao jardim, observando o céu estrelado se perguntando se tinha sido muito severo com seus subordinados para ser torturado daquela forma. Bufou irritadiço, tirando um cigarro do pacote que guardara dentro de seu kimono de descanso e somente lembrou da falta do isqueiro quando já tinha colocado o bendito cigarro nos lábios.
Revirou os olhos, voltando a mirar o céu. Que tipo de aniversário ruim era aquele que o privaram do que realmente queria fazer? E o pior era que ali, naquela silenciosa residência japonesa tradicional, descobriu-se estranhamente solitário. Como quase sempre havia baderna e pessoas barulhentas ao seu redor, não costumava ter sossego para ter refletir sobre a vida e agora que fora forçado a relaxar, se encontrava tendo desconfortáveis vontades que não queria admitir nem para si mesmo. Afinal, com que cara se olharia no espelho se admitisse que desejava ver, nem que fosse de longe, o irritante espadachim faz-tudo?
Definitivamente ele preferia ficar sobrecarregado de afazeres do que meditar sobre o que sentia. Talvez fosse algum tipo de sensibilidade que o estivesse dominando por estar sendo óbvio que passaria seu aniversário sozinho. Até ele, conhecido por ser o vice comandante demoníaco, tinha seus momentos de fragilidade.
Praguejou alto. Seja lá quem tivesse tido essa infeliz ideia, ele queria que a pessoa fosse acometida de uma terrível diarreia e que só saísse do banheiro quando ele voltasse a trabalhar.
Estava considerando a possibilidade de Sougo estar por trás de tudo aquilo quando viu uma estrela cadente precipitar no céu antes tranquilo. Sorriu irônico. Depois de toda aquela história de aliens indo e vindo para a terra como bem entendiam, coisas como estrelas cadentes tinham perdido todo e qualquer encanto. Realizar desejos? Bah, isso era uma tolice. No entanto... Suspirou, fechando os olhos. Se pudesse fazer um desejozinho qualquer pediria que aquele cigarro em seus lábios acendesse misteriosamente. Apenas isso.
Abriu os olhos, continuando a fitar o céu. Uma outra estrela cadente surgiu, agora vindo na direção contrária da que a outra tinha tomado. Piscou confuso quando a dita estrela pareceu dar a curva em pleno trajeto e começou a vir em direção a terra.
Espera.
Aquilo não estava vindo em sua direção?
Mal seu senso de perigo alertou e uma bola flamejante caiu bem em cima do seu jardim onde suas flores foram pulverizadas sem dó. Elas tinham florescido há pouco tempo! Contudo, não teve muito tempo para se preocupar com elas visto que a bola flamejante, agora sem chamas, se remexeu e se levantou, revelando ter uma forma humanoide. O mais chocante, no entanto, foi perceber, depois que a fumaça diminuiu e a vista tornou-se mais límpida, que se tratava de um estranho homem parecendo ter por volta dos quarenta anos vestindo uma roupa de coelho peça única e rosa, que deixava apenas o rosto de fora. E como ela era justa, deixava bem evidente os braços e pernas um pouco musculosas, além da barriga proeminente de quem bebia muita cerveja.
Hijikata ficou sem palavras.
— Hm. Foi você que fez o pedido? — perguntou o estranho num sotaque típico de gângster.
O vice comandante do Shinsengumi não conseguiu responder devido o choque de tudo aquilo estar acontecendo na sua frente. Percebendo que não teria resposta, o coelho vindo do espaço andou até ele pisando duro e com uma pequena chama brotada no topo do seu dedo indicador, acendeu o cigarro do homem aturdido.
— Espere... — conseguiu falar depois de tragar automaticamente e soltar a fumaça num sopro. — O que diabos é você?
— Eu vim do céu realizar teu desejo e você ainda está na dúvida?
— Uma... Estrela cadente? — arriscou, sentindo-se um pouco idiota logo depois que falou.
— O quê? Está tirando uma com a minha cara, humano? Eu sou um coelho-cometa-da-sorte! Estrelas cadentes não passam de uma história bobinha contada para crianças. Nunca imaginei que a ignorância da humanidade fosse tão grande.
Para Hijikata esse lance de coelho cometa era mais bizarro e inacreditável que a história da estrela cadente, mas preferiu ficar quieto sobre o assunto.
— Você ainda tem dois desejos, aliás. — continuou o homem com roupa de coelho o fitando sério.
Então eram três desejos no total? Hijikata tinha a impressão de ter ouvido sobre outra história para crianças que envolvia três desejos, mas a presença peculiar a sua frente não o permitia se concentrar o suficiente para se lembrar.
— Posso pedir qualquer coisa?
— Desde que não quebre as leis do universo.
A própria aparição daquele alienígena lhe parecia ter quebrado alguma coisa, mas novamente guardou seu comentário para si. Ao invés de se preocupar com isso, levantou-se subitamente animado. Uma ideia pronta na mente.
— Há uns anos foi interrompida aqui na terra o comércio de um cigarro com essência de maionese. Ao que parece não fez muito sucesso, embora ele fosse realmente muito bom. Desejo um maço fechado de cigarros dessa marca.
O homem-coelho assentiu simples e com uma cenoura retirada sabe-se lá de onde, fez uns movimentos no ar e logo um maço de cor amarelada surgia na palma de sua mão livre. Tão logo o maço surgiu, ele o jogou na direção de um realmente surpreso Hijikata. O vice comandante achava que nunca mais veria um dos cigarros daquela marca em especial, mas ali estava um em sua posse um autêntico Mayoboro. Aproximou a caixa do nariz, fungando para sentir a leve fragrância de maionese.
Certo, aquilo tinha sido o suficiente para lhe convencer que tudo aquilo era real pra caramba. Decidido a caprichar no próximo pedido, apagou o cigarro que ainda estava em seus lábios – agora que possuía um Mayoboro aquele parecia subitamente desinteressante – e fechou os olhos para pensar melhor. Havia tantas opções e tantos desejos que poderia realizar... Mas qual escolher para ser realizado naquele exato momento?
Ficou tão concentrado nas possíveis escolhas que nem percebeu que passou mais de meia hora em pé diante o coelho. E esse foi tempo o suficiente para um relógio em algum lugar começar as clássicas badaladas da meia-noite. Um novo dia se iniciava.
— É seu aniversário... Hm. Isso dá um teor mais especial a coisa. — constatou o homem coelho, chamando a atenção de Hijikata. — Certo, vou realizar seu desejo mais íntimo atual.
Hijikata piscou rápido. Quê?
— Como assim?! — tentou questionar, mas o coelho o ignorou por completo, começando a fazer uma sequência estranha de movimentos.
O ser vindo do espaço deu piruetas, giros e agachamentos entoando um peculiar cântico do qual Hijikata nada entendeu. E quando, por fim, finalizou o estranho ritual, um ‘plop’ ecoou de algum lugar e uma explosão de fumaça bloqueou sua visão por alguns instantes. Tossiu, agitando a mão na sua frente, tentando afastar aquela neblina de cheiro ruim de si. Aos poucos a vista foi tornando-se mais limpa, contudo, quando viu o que estava a sua frente quase desejou que a fumaça voltasse e ficasse ali de vez. Afinal, não estava preparado para o que a aparição de Gintoki poderia implicar depois de todo aquele lance de “desejo íntimo atual”.
Não. Definitivamente preferia acreditar que o gênio, digo, o homem coelho do espaço tinha feito algum movimento errado que causara toda essa confusão. E por que Gintoki estava em sua caracterização de Paako², vestindo uma roupa sensual de coelhinha?
O alien deu de ombros.
— Então esse era seu desejo mais profundo? Cada um tem suas preferências, realmente.
— Ei, espere! Algo deu errado! Nunca que meu desejo seria isso!
— Meu instinto não erra, humano. Você que se resolva com seus problemas de aceitação. Meu trabalho aqui está terminado.
Gintoki não sabia o que estava acontecendo – num momento estava no bar okama, servindo bebida para um dos entusiastas do evento da PlaySpace, e no outro estava no jardim parcialmente destruído da casa de Hijikata – mas sabia que não tinha melhor hora para ser invocado ali. Bebeu o resquício de bebida que havia restado na garrafa em mãos e depois de deixa-la de lado, moveu-se até Hijikata com um sorrisinho provocador. Ele não sabia como tinha ido parar ali, mas pouco se importava. Pela primeira vez em muito tempo Gintoki estava realmente feliz de estar no lugar certo na hora certa.
— Feliz aniversário. — falou, segurando o queixo do moreno, exigindo toda sua atenção.
A reação de Hijikata a seguir foi de arregalar os olhos e enrubescer até as orelhas de tanto constrangimento. Não que ele tivesse achado a frase imoral ou algo do estilo, mas perceber o quão feliz ficou por ouvir uma simples parabenização e o modo ridículo que seu coração bateu agitado, o fez concluir coisas que estava evitando há algum tempo.
E claro que ao vê-lo nervoso daquele jeito fez Gintoki dar um largo sorriso convencido antes de buscar os lábios alheios para um beijo amoroso. Logo estavam ocupados demais em pequenos gestos de carinho, perdidos em seu próprio mundo, para prestarem atenção ao alien que voltava para o espaço onde caíra mais cedo e depois de se abaixar, abraçando os próprios joelhos, subir de volta ao céu noturno numa explosão alaranjada cheia de faíscas coloridas.
Mais tarde naquela madrugada, Hijikata, deitado no futon ao lado do corpo sonolento do Sakata, mirava o teto parecendo reflexivo.
— Se era você que estava com roupa de coelhinha, porque que o comido foi eu?
Gintoki deu uma risada soprada.
— Nunca ouviu falar do “se reproduz como coelho”? Eu tinha muita semente para dar.
Hijikata deu um olhar descrente para o homem ao seu lado.
— Pois o que ouvi falar é que coelhos não duram nem dez segundos no acasalamento. — murmurou ranzinza, se arrependendo de não ter decidido o que pedir antes que tivesse dado meia-noite. — Devia ter pedido mais cigarros.
Agora o descrente era Gintoki.
— Hey, você não está falando sério, não é? Você me trocaria por cigarros de maionese?!
Mas Hijikata já tinha virado para o lado oposto e fechado os olhos, decidido a ignorar o amante barulhento. Malditos fossem os sentimentos que o fizeram perder a chance de ter uma reserva de cigarros Mayoboro até o final da sua vida.
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