Sons

13 Steve.


O hospital me lembrava da escola de surdos. Os grandes azulejos brancos; a falta de poluição visual; a gélida triste realidade de algo pouco distante e pouco próximo de mim. Não queria ficar ali.

—Steve Johnson? – Apoiei-me ao chegar na recepção.

—Quem deseja visitá-lo? – A mulher atrás daquela mesa levantou o rosto, me encarando profundamente, com um ar irritado.

—Frankie... Francesca Wang. – Suspirei.

—Identidade com foto. – Ela ergueu as sobrancelhas.

Apoiei meu skate no chão, o segurando com o pé. Retirei minha mochila das costas e a abri, procurando a minha carteira.

Passei algum tempo remexendo no conteúdo daquela bagunça, mas a encontrei. Entreguei a minha identidade e sorri.

—Tudo bem... – Ela respirou fundo, olhou para o pequeno cartão, então para o meu rosto – Porque tem um nome italiano e um rosto chinês?

Japonês. É o nome da minha avó, ela era uma imigrante italiana. Existem asiáticos fora da Ásia, acredita? – Ironizei e dei uma pausa – Não é falsa. Eu sofri o acidente junto com Steve. Posso vê-lo?

A mulher da recepção fez uma careta. Então digitou algumas coisas em seu computador e me devolveu a mesma.

—O policial na porta vai te pedir a identidade. Quarta porta no corredor à esquerda, quarto 327. – Com uma feição irritada, ela me entregou uma pulseira azul daquelas de papel escrito "visitante".

Prendi aquilo em meu pulso, segurei meu skate e segui até o corredor indicado. Haviam várias portas lado a lado naquele pequeno lugar, mas só uma vigiada por um policial. Fui em direção a ele.

O oficial me olhou de cima abaixo e sorriu.

—Identidade.

—Você é mais simpático que a mulher da recepção. – Entreguei a ele o pequeno cartão.

Seus olhos correram ao que segurava e então ao meu rosto.

—Você já veio ver seu amigo em um hospital, não há motivos para ser rude, Francesca.

—Frankie. – Sorri.

—Frankie, — ele continuou – vou pedir que deixe seu skate aqui e me deixe revistar a sua mochila.

—Eu só vou precisar entrar com meu telefone. Posso deixar todo o resto aqui se preferir. – Coloquei meu skate apoiado no chão ao lado da porta.

—Menos trabalho. – O guarda ergueu sua mão.

Abri a mochila, retirei meu celular de dentro dela, a entregando para o policial, que se moveu para o lado, deixando a entrada da porta aberta.

Tremi. Queria muito ver Steve, com suas grandes mãos de dedos curtos e sorriso escondido. Seu cheiro e a sua voz me faziam muita falta, mais até que todas as drogas das quais eu tinha parado de usar por toda aquela semana. Ainda sim, tremi.

Havia, no mínimo, uma semana que não o via. Uma da qual havia me mudado ao extremo. Queria abraçá-lo, mas não sabia qual seria a sua reação, eu era outra, eu tinha a Chip.

Respirei fundo.

Frankie treme, mas sempre viveu pela adrenalina.

Abri a porta e entrei, cabisbaixa.

—Bonequinha. – Sua voz baixa ecoou no quarto vazio.

Adorava aquilo. A forma como meu apelido idiota soava em meio a rouquidão de suas palavras, sempre me arrancando um frio na espinha. O cheiro másculo e inebriante que ele exalava e me dominava. Levantei a minha cabeça. Seus olhos verdes encontraram com os meus.

Minhas pernas tremeram em urgência de correr até ele. Seu corpo parecia pequeno na cama, ligado a tubos e a máquinas além do braço totalmente enfaixado e imobilizado. Resolvi não reprimir meus desejos.

—Steve! – Corri até a sua cama e o abracei.

—Você bateu a sua cabeça com força. – Ele passou o braço bom ao meu redor, me apertando com cuidado, carinho e intensidade.

Um gesto que parecia ter sido almejado durante muito tempo. O que só mostrava o quanto ele também sentia a minha falta.

—Se você soubesse o que realmente aconteceu... – Enchi meu peito com o ar cheiroso próximo ao seu pescoço.

Queria morar ali.

—Temos muito tempo para conversar. – Ele se remexeu, provavelmente incomodado com meu peso.

Saí de cima dele, me sentando ao seu lado.

—Você realmente vai querer ouvir a respeito de tudo? – Suspirei.

—Qualquer que seja a ocasião, eu só amo te ouvir falar.