Sons
2 Mandy.
Normalmente, eu perderia a primeira aula da manhã, ou, até mesmo, todas as aulas do dia. Mas aquele era diferente.
Alguma coisa sobre consciência pesada após causar um acidente que fechou três ruas, deixou dez pessoas feridas, matou um cachorro e me fez dormir na cadeia tinha uma ligação com isso. Então, só acordei na manhã seguinte, no horário correto, tomei meu café da manhã com meu irmão pequeno e, pela primeira vez em todo aquele ano letivo, pegaria o ônibus escolar.
Com algum tempo de espera, o grande ônibus amarelo passou bem a nossa frente. Meu irmão entrou correndo em êxtase, já eu, só queria chegar logo a escola e acabar com aquilo, queria, também, ver as pessoas que passariam aquele dia maçante comigo.
Sentei-me em algum banco sozinha, liguei minha música alta nos fones de ouvido e recostei a minha cabeça sobre o vidro, orando para que aquela viagem chegasse logo ao seu fim. Mas ela não acabou, estava apenas por começar.
Alguns pontos a frente, três com exatidão, estava Mandy. Assim que sua cabeleira castanha me avistou, sabia que tinha me metido em problemas. Com um grande sorriso no rosto, ela se sentou ao meu lado, segurando sua mochila estampada em laranja. Tirei um dos meus fones e a olhei, com meus olhos apertados.
—Você nunca vai para a escola e quando vai, é dentro de um carro de algum garoto estranho.
—Talvez algumas coisas mudem. – suspirei.
—Duvido. A última vez que você mudou foi para isso, há muito tempo. Não acredito que exista saída para o lugar no qual você se meteu. – ela olhou para frente.
A observei por um momento. Mandy tinha suas raízes indianas bem explícitas em seu rosto quadrado, com nariz proeminente e olhos negros bem abertos. Era uma garota bonita, principalmente depois de ter feito seus 16, 17 anos. A puberdade tinha a feito muito bem. Ela sempre tinha aquele ar de quem sabia muito mais do que nós e exalava tudo isso naquele momento.
—Eu matei um cachorro! – ergui as sobrancelhas, virando mais meu pescoço, para que a visse melhor.
—Você odeia cachorros.
—Desde quando isso significa que eu posso simplesmente sair matando eles por aí? Isso está tudo muito errado! – abaixei o rosto, não acho que queria olhar em seus olhos agora.
Mandy colocou a mão em meu ombro, naquele que estava mais perto dela, então o esfregou, em um daqueles atos esquisitos de pessoas que já foram muito amigas e agora não sabem mais como se ajudar.
—Não faça isso! – retirei a sua mão rapidamente.
—Você ainda tem disso, Frankie? O que está acontecendo com você?
—Eu ainda tenho disso? Desde o início você acreditou nos rumores sobre como a Frankie não gosta de ser tocada? – tomei uma pausa.
Era um problema. Um bloqueio. Uma coisa que eu não sabia ao certo como tinha começado ou em qual lugar ia parar.
O que acontece é que quando você está na escola e é época de todo mundo se beijar, ser a garota no canto que não tem muitos amigos e não deixa ninguém encostar nela, é ruim. Houveram rumores horríveis sobre como eu tinha lepra e não podia deixar ninguém chegar muito perto e, até mesmo, umas vezes que eu tinha ido no psiquiatra entender porque não conseguia ser tocada pelas pessoas.
Com o tempo, os colegas de classe apenas aceitaram. Com o tempo, a minha mãe aceitou. Aquilo só fazia das consultas médicas um pouco complicadas, mas a minha vida era bem normal.
—Não são rumores quando eu tentei te abraçar no funeral do seu pai e você me empurrou. Quando precisei de um ombro para chorar, você estava lá, mas não era um ombro, porque eu não posso encostar em você... Achei que essas coisas tinham passado, que você tivesse começado a namorar um daqueles garotos e isso não fosse mais um problema. Desculpe-me.
A observei, um pouco distante na distância que havia para se ficar em um banco. Ela me conhecia e mesmo assim tinha colocado a sua mão em meu ombro.
Comecei a tremer.
O cheiro de posto de gasolina e fogo estavam ali, presos em minha memória nasal. Para não surtar dentro da minha cabeça, eu tinha de surtar com as palavras:
—Por quanto tempo eu estive fora do controle assim? Parece que.... Quando o carro bateu a primeira vez, eu acordei e daí tudo estava rodando junto com o carro descontrolado na rua da minha casa. Então, ele bateu a segunda vez, e eu saí de dentro da ilusão que dizia que toda essa bagunça era algo legal, algo maneiro. Isso tudo é tão insano! Qual é o meu problema? O carro de Steve estava no quintal da minha casa! Meu rosto inteiro estava cortado e coberto de sangue, ele quebrou o braço e todos os seus ossos estavam para fora, tinha um cachorro morto a menos de dois metros a minha direita e uns vinte carros batidos atrás de nós! E nem assim me dei conta. – respirei fundo.
Mandy fechou o cenho. Ela estava se esforçando para entender, para não me julgar com seus olhos negros e grandes.
—Você só está quebrada e precisa de um tempo para se juntar ao invés de agir assim, como se tudo estivesse bem.
—Eu odeio isso. – olhei para frente.
—O que?
—Pessoas achando que eu preciso de conserto, que eu não estou funcionando direito. Como se eu fosse uma máquina e esses não fossem os resultados esperados
—Não, Frankie. Você precisa de alguém que possa chegar até você, que saiba chegar. Você não deixa ninguém ao menos te tocar, como espera ajuda?
Virei-me para ela, a olhando nos olhos. Suas sobrancelhas arqueadas, braços cruzados e toda aquela pequena grande distância.
—Talvez eu não queira ajuda. – ou só não queira admitir que outra pessoa podia ter mais razão que eu.
Fale com o autor