Sons
6 Libras.
Lydia buzinou.
Minha cabeça buzinou junto. A ideia de ir para a cadeia começou a parecer boa naquele momento.
Já havia a conhecido, na manhã da segunda-feira, na qual fui julgada. Era baixa, de pele escura, cabelos alisados grandes e um sorriso fosco de quem queria ajudar.
Lydia me fazia sentir uma pessoa horrível, sem ao menos tentar, apenas a sua existência ali, parada, recostada na porta do carro era uma desculpa para tal sensação.
Saí de casa, desci os três degraus desde a porta da entrada até seu carro, e parei a frente dela, que sorriu e fez com que ia me abraçar.
—Por favor, não faça isso. – fechei os olhos, sabendo que se ela colocasse seus braços ao redor do meu corpo, a minha única saída era hiperventilar até que acabasse.
—Você não gosta de ser tocada? – seu sorriso se fechou e eu assenti – Notei isso no tribunal. Não é uma coisa incomum, sabia? Vejo muito disso com quem trabalho no serviço comunitário, mas, já vou te avisando: Isso será um problema.
Lydia se desencostou do carro e entrou no mesmo. Dei a volta e entrei no banco do passageiro. Ela suspirou.
—Não vou te ensinar libras. – ela me olhou sentar no banco, já detonando a bomba em meu colo.
—O que? – ergui ambas as sobrancelhas.
Para que meu serviço comunitário fosse aceito, eu tinha de apresentar, além dos meus horários, uma prova final de conclusão para a minha juíza. Eu tinha de saber me comunicar em libras.
—Vamos fazer algo diferente.
—Como? Eu preciso disso! – gritei.
—Não, Frankie! – ela gritou mais alto do que eu – Você precisa crescer! O que acabou de fazer aqui foi começar uma espécie de birra tão infantil quanto as que vejo garotos de cinco anos fazer. Você não permite que as pessoas encostem em você. Que tipo de vida é essa? Você já foi beijada? Já segurou o seu irmão pequeno no colo? Você não vive! – seus olhos não estavam irritados, eles apenas buscavam algo dentro de mim.
Pensei em vocalizar algo, mas era inútil. Ela sabia a resposta, eu sabia a resposta. Nunca tinha sigo beijada, e, provavelmente, não seria. Já tinha desistido deste tipo de coisa. E, muito antes do meu irmão nascer, não me via colocando as mãos nas pessoas, muito menos segurando um bebê babão. Era um bloqueio, um grande bloqueio que me impedia de fazer essas coisas.
—Você tem de viver! E é exatamente com isso que vou te ajudar. – ela sorriu.
—Como? – olhei para frente, o pronunciando aquelas palavras em meio a um suspiro desistente.
—Você vai ser acompanhada por uma das minhas alunas.
Lydia ligou o carro.
As luzes da cidade através do vidro variavam em azul, amarelo, vermelho e branco, dançando uma música nostálgica e triste. Aquilo só era feliz as três da manhã, com chuva, drogas e Steve.
Não queria pensar em como eu nunca me dava bem com garotas, e que aquilo não seria diferente. Ou como, talvez, eu ficasse presa neste círculo vicioso dentro de não aprender libras.
Era desconcertante estar ali, mas era algo que precisava ser feito.
O carro parou, Lydia me pediu para carregar algumas pastas.
A escola parecia um sobrado desbotado do lado de fora. Pequeno para uma escola, grande para uma casa.
Era completamente confundível com qualquer outra moradia daquela rua.
Ao se entrar, cada lado havia uma sala, fazendo uma espécie de corredor, sem poluição visual, com grandes azulejos brancos. Havia uma listra verde, uma amarela e uma vermelha ao chão.
Perto da porta, havia uma placa para explicar o que cada listra significava. A verde era o caminho para a diretoria, a amarela a cafeteria e a vermelha o acompanhamento educacional.
Entramos, passamos pelo corredor. Havia uma grande sala, com vários armários de estudantes para todos os lados. Uma larga escada estava ao lado direito e uma grande sala ao lado esquerdo.
Era tudo muito limpo, sem poluição visual, claro. Em todos os quatro cantos da sala havia um sinalizador, que acendia, piscava e mudava de cor a cada diferente ocasião.
Entramos na grande sala do primeiro andar. Havia menos de 10 pessoas lá dentro. Todos mais velhos, todos professores. Era tudo quieto, calmo, silencioso. Minha cabeça gritava, repassava vozes e palavras conhecidas, as vezes músicas, era tudo uma grande tortura.
Lydia me entregou uma pequena agenda de espiral, com uma quantidade absurda de folhas, além de alguns pedaços de papéis sobressalentes e uma caneta preta grossa, estilo marcador.
—Muitos professores também são surdos, então tenha paciência com todas as pessoas. Vai precisar dessas folhas e da sua caderneta para se comunicar, mas serão suas únicas, não quero a ver comprando novos papéis ou algo do tipo. – ela segurou ambas as minhas mãos.
Agarrei aquilo. Era a minha única conexão com o mundo exterior, com o mundo que eu conhecia.
—Não fique assustada. – ela sorriu – Vou te apresentar uma pessoa que vai ajudar a fazer essa experiência ficar muito mais agradável.
—Tudo bem. – suspirei.
Minhas palavras saíram como se fossem muito mais altas do que o normal, ecoando dentro daquelas quatro paredes. Queria sair dali.
Anotamos o meu horário de entrada na escola em uma planilha, que seria enviada ao governo. Um sinal verde se acendeu em todos os quatro cantos da sala. Era a hora de ir para as salas.
Carreguei sua mochila e alguns papéis, junto de minha agenda, subindo para o segundo andar, no qual haviam mais cinco salas. Lydia se sentou a sua mesa, na qual havia uma cadeira no canto.
Imaginei que aquela cadeira era a minha, em um canto bem exposto, na frente de todos, como um castigo.
Sentei-me ali.
Várias pessoas entraram na sala, em silêncio, mas com mãos agitadas. Eram toques nas outras pessoas e gestos que eu nunca conseguiria aprender, em uma agilidade natural para eles. Era assustador e ao mesmo tempo, lindo.
Aquilo era confuso, me deixava imaginando como guardaria tudo aquilo.
Lydia se virou, olhou fundo nos olhos de uma garota da primeira fileira.
Virei-me para vê-la.
Meu cérebro inteiro, congelou.
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