Sons

4 Beijos.


O ônibus parou. Olhei para a escola, aquele grande presídio. Mesmo buscando todas as mudanças possíveis em minha vida, parecia ainda estar presa ali, presa em não querer entrar e ser obrigada a fazer isso.

Todos os alunos de todas as idades começaram a correr em direção ao inferno, abraçando seus amigos, olhando seus telefones, apenas caminhando até lá como se algo maior, como se uma força gravitacional os puxasse para dentro. Mas não era assim comigo. Fiquei ali dentro, agarrada a minha mochila, estava assustada, pela primeira vez em muito tempo.

O motorista saiu da frente e veio para o meu lado, se sentando no banco.

—Você está bem?

—Sim. – suspirei.

Antes do acidente, qualquer tipo de esforço para se aproximar de mim seria em vão e recebido com facas na mão. Mas não agora. Algo em mim simplesmente aceitou ouvir o que ele buscava falar.

—Tinha um garoto que pegava este ônibus para vir aqui todos os dias. Ele se matou e acho que ninguém da escola inteira notou sua falta. Sempre que tem alguém pra baixo, eu me lembro dele. – o velho deu uma pausa, como se realmente estivesse pensando na figura do garoto. – Se precisar de alguém para conversar, há pessoas para recorrer, nem que seja o motorista do ônibus da sua escola.

—Matei um cachorro. – apoiei meu braço no vidro e segurei minha cabeça com a mesma mão, falar daquilo me deixava pesada – Foi um acidente e tudo... Eu estava drogada. Mas não consigo não me sentir um lixo a respeito de tudo isso. Passei a minha vida inteira nesse estado meio adormecido e agora que acordei estou incomodada com tudo, comigo.

Meus batimentos cardíacos aceleraram, tanto que podia senti-los batendo rápido e forte em meu peito. O ar parecia acabar. Eu tinha de sair dali.

Então, apenas me levantei e saí, passando por cima daquele senhor, sem me despedir.

Em uma reação automática, contornei o prédio pela sua esquerda, a fim de chegar ao estacionamento. Lá estariam os meus garotos.

Em nosso grande grupo de amigos, eu era a única garota. Isso me fazia um ponto de referência. Como uma irmã mais velha, eu os ajudava, com relacionamentos e qualquer bobagem de sentimento, mesmo que não fosse uma garota sentimental e nunca tivesse entrado em nenhum relacionamento. Gostava disso, de ser uma espécie de mãe para um bando de adolescentes que não queria estar em casa.

Toda essa união também significava que eu tinha vários irmãos. Inclusive aquele tipo mais velho, bem ciumento, que trocaria de escola apenas para ficar ao meu lado, cuidando de mim, me vigiando. Esse era o caso dos três garotos perdidos sentados sobre o carro, Brad, Chip e Nolan.

A bagunça, risadas altas, arremesso de coisas e socos cessou ao me verem. Desceram do capô e se apoiaram na lateral, em fileira daquele antigo carro preto, me observando caminhar até seu encontro. Chip acendeu um cigarro.

Normalmente, a presença deles me daria um conforto muito grande. Mas não naquele dia. O julgamento iminente me fez tremer um pouco nas bases.

Tomei o cigarro e sentei-me sobre o capô, me colocando a tragar. Se fosse de ser ruim, pelo menos meu coração iria se normalizar. Só ele iria me fazer esquecer a ansiedade que as lembranças traziam.

—Achamos que não viria. – Brad se sentou ao meu lado.

—Eu não tenho essa escolha. – continuei com os olhos firmes para frente.

—Porque? – Chip, a minha frente, era o mais próximo de mim, de todos eles.

—A polícia, lembra? Eu não tenho nenhum ferimento grave para faltar as aulas. Tenho de ter todos os meus horários em dia, talvez até melhorar uma nota ou duas. Não vou presa por faltar alguns dias. – o olhei fundo nos olhos.

Era um garoto realmente muito bonito. Tinha cabelos que iam até os ombros, pequenos e castanhos. Com um maxilar proeminente e braços malhados.

Não queria o observar demais, sabia que já fazia isso o suficiente.

Coloquei a mão sobre meu curativo. Do lado direito da cabeça, eu tinha levado alguns pontos, então estava com esse pedaço de gaze na cabeça que coçava um pouco. Não era nada como Steve.

—Ninguém pode entrar para visitá-lo. Você sabe como o Steve esta? – Brad suspirou.

—Está vivo. É isso que importa.

Terminei a conversa ali.

Acabei o cigarro e me levantei, descendo do capô.

—Vamos perder a aula de trigonometria. – bufei.

—Você realmente vai para a aula? – Chip segurou meu braço.

O soltei com força.

—Você não me ouviu?

Toda aquela tentativa, de todos, de me segurar, naquela manhã, estava me deixando especialmente irritada.

—Vou com você. – Nolan sorriu.

—Não se torne essa garota chata. – Chip entrou no carro.

—Só quando você deixar de ser esse babaca.

Caminhei ao lado de Nolan até dentro da escola. Assim que nossos pés entraram no prédio, ele sorriu, um sorriso de quem sabia demais.

—Porque vocês nunca ficaram juntos?

—O que? – levantei ambas as sobrancelhas.

Do que ele estava falando? E mais especificamente, de quem ele estava falando?

—Não sei exatamente... Você e Chip ou você e Steve. Todo mundo percebe, os dois sentem algo por você. É claro que você também nota isso, não é? Sempre comentamos como você olha para eles e a forma como eles tratam você, cuidam de você, mas nunca ninguém viu nenhuma ação.

Nolan parecia calmo, ainda que andasse em ovos. Era como se sempre quisesse me perguntar aquilo e finalmente tivesse a sua entrada. Sabia que tinha de conduzir aquilo com cautela, já que me conhecia.

A resposta pulou em minha mente. Não importava o quanto eu gostasse de uma pessoa, eu não podia ser tocada, nem um mísero aperto de mão, quem diria beijos ou algo a mais. Aquela opção era tão distante da minha realidade que não havia nem ao menos passado pela minha mente.

Chip era um garoto muito bonito e Steve era a única pessoa em quem realmente confiava. Por um segundo avaliei todos os cenários. Eu gostaria que ocorresse? Não gostaria que ninguém chegasse perto demais que eu pudesse sentir sua respiração sobre meu corpo... Não era uma opção.

—Nada vai acontecer, Nolan, como nunca aconteceu. – chegamos aos nossos armários.

—O que você quer dizer com: "nada nunca aconteceu"? – ele ficou parado, ao meu lado, apoiado no armário, me observando.

—Nada nunca aconteceu... Comigo. Você já deveria ter percebido isso.

—Você tem algum problema com germes ou toques, mas isso não parece muito sério, não aponto de...

—Ninguém nunca me beijou, Nolan, porque as pessoas não encostam em mim.

Seus olhos não me julgaram, apenas desapontados procuraram outra coisa para se focarem.

—Vai deixar muitas pessoas de coração partido, Frankie. – suspirou.

Abri meu armário, estava envergonhada. Enfiei a minha cabeça ali dentro.

Já não queria mais o fim do dia, mas sim, o fim da vida.