Ela estava sentada no sofá, com as pernas cruzadas e a cabeça escorada nelas, chorava baixinho. Meu coração pareceu me sufocar. Não gostava de vê-la triste, acho que por costume de estar sempre sorrindo, brincalhona, e me passando a energia que só ela tinha. É claro..que já havia a visto assim, não foi uma e nem duas vezes, porém, uma era por ter caido e ralado o braço, a outra por ter tirado uma nota baixa, e entre outras bobeiras (..) agora era diferente, ela não era mas uma criança, e não era apenas um remédio ou ajuda-la a estudar para a prova de recuperação que mudaria a situação. Eu não sabia o motivo dela estar assim, mas sabia de uma coisa, ela precisava de cuidados, precisava de mim. Fechei a porta com cuidado e me aproximei dela.

— Ei! O que foi? — Perguntei com cuidado, ela levantou o rosto, o enxugou com as mangas do pijama. Me sentei ao seu lado, ela escorou a cabeça no meu ombro. — Tá legal, você não tá bem..eu não sei o que aconteceu, mas tô preocupado, me fala o que houve?

— Eu..eu.. — Fiz sinal com a mão para esperar, ela concordou, fui até a cozinha, peguei um copo com água e a entreguei, ela tomou, respirou fundo, e me entregou, coloquei na mesinha da sala e voltei a me sentar ao seu lado, mas uma vez ela escorou a cabeça no me ombro. — Eu tô com saudade da minha mãe, do meu irmão, dos meus amigos, eu tô me sentindo só..eu..quero voltar, eu não consigo Blanco.- Meu coração apertou. Como assim ela queria voltar? Me deixar? Ah não!

— Não, você.. não! — Senti um nó na minha garganta. — Você não pode me deixar assim.

— Eu não consigo..eu pensei que era forte o suficiente, mas não dá..eu nunca sai de perto deles.

— Mas Martina..

— Blanco, eu entendo que você deve tá pensando "que bobeira", "que frescura", "que menina mimada", mas não é..não é fácil.

— Não acho nada disso..por que eu também passo pelo mesmo. — Respirei fundo e ela me olhou. — Passo por isso a seis anos. Eu vivo cercado por fãs, pela banda, produção, a gente é uma familia, só que tem momento que eu me sinto só, arrasado..

— Eu..

— Eu sei. "Olha lá, o Jorge Blanco, tem uma mansão, um carro do ano, viaja todo dia, tem as melhores roupas, frequenta os melhores lugares, deve ter a vida perfeita." Eu não sou perfeito, eu não tenho uma vida perfeita, alcancei muito mas do que sempre quis, sou grato a Deus por tudo sempre, mas só existe ele de perfeito e pronto.

— Ai Blanco, o que eu faço?

— Bom, você não sei.. — Beijei sua testa. — Mas tô me sentindo um idiota por não vindo ficar com você.

— Ai não né. Você tem sua vida..e trabalha.

— Mas tô de folga.

— Mas quando não tiver?

— Tem minha mãe, meu pai, a Lodovica, Ah! para.

— Eu vou tá sempre na casa de alguém, ou alguém aqui pra me superar, é isso?

— Bom..você trabalha de manhã, e de tarde, almoça lá com a equipe..de noite, quando eu não tiver aqui, ou nem ninguém, conta as estrelas, me liga, assiste um filme..

— Você não existe sabia?

— Existo e tô afim de ver um filme.. — Ela me olhou. — De comédia, dessa vez. — Ela gargalhou. — Comendo besteira.

— Então, escolhe o filme, que faço a pipoca e o brigadeiro, tá bem? — Se levantou rumo a cozinha.


Pov Martina Stoessel.

Jorge, ali.. ele salvando minha noite, minha viagem, meu eu. Tê-lo por perto me fazia bem, era assim e sempre seria assim. Enquanto ele pegou várias alfomadas no meu quarto e jogou no tapete, se jogando em cima, para escolher o filme eu fiz pipoca e brigadeiro.

— Escolheu? — Me sentei no chão ao seu lado.

— Escolhi! American Pay. — Ele riu maliciosamente. — Calma, é o primeiro, não tem nada de tão assim.

— Acho bom viu? — Falei, olhando bem vestido.

Uma bermuda jeans clara, blusa preta, meia branca e curta, enquanto seu all star vermelho, estava jogado perto da porta. Me olhei, de pijama, vestia uma calça de algodão rosa, blusa fina de manga rosa também, improvissei um coque e provei meu brigadeiro.

— Hum, comer besteira. — Ele colocou o dedo na tigela de chocolate e levando até a boca.

— Ei! A colher.

— Assim é mas gostoso.. — Ele lambeu os lábios. — Prova.

— Ham, Blanco..

— Vai! — Ele colocou seu dedo frente aminha boca, fechei os olhos e coloquei na boca. — Né?

— Hum..é mesmo! — Coloquei meu dedo dentro da tigela também. — Você não deveria comer essas bobeiras, a Pris....

— Shiu, vai começar. — O olhei sorrindo, me escorei no sofá, me lembrando da noite passada e ri.

— Égua, o filme mal começou e você já tá rindo.

— Não é nada. — Sorri olhando para a tv, regulei o ar no controle, e voltei a prestar a atenção.

Realmente era bem engraçado, eu ria mas da risada do Blanco, do que das cenas. Entrou em comercial, levei o que havíamos sujado para a cozinha, quando voltei ele estava mexendo no IPhone.

— Bora tirar uma foto pras minhas fãs.

— Elas são ciumentas.

— Ah, anda!- Ele fez uma cara séria e riu em seguida, sorri me sentando ao seu lado. Tiramos e logo ele postou.

“Cinema com a Tini Pqs!! "

— Vai começar. — Falei apontando. Terminamos de assistir tranquilamente, no final Blanco bocejou, olhei a hora, quase meia noite. — Vamos dormir né?

— Eu não trouxe roupa.

— Dorme sem ué! — Falei na inosência e ele riu.

— Pode mesmo?

— Claro, com um roupão por cima. — Ri me levantando, ele fez bico mas concordou me seguindo. — Já tomou banho?

— Já, só quero nossa cama. — Ri do"nossa", abri meu guarda-roupas, peguei o branco o maior e joguei para ele. Quando me virei ele estava só de cueca.

— JORGE!

— O que cara? — Riu. — Ah, vai dizer que nunca viu ninguém assim?

— Claro que já. — Revirei os olhos.

— Então deixa eu ser feliz assim. — Ri mais ainda, me virei e agora ele laçava o roupão. — Boa noite pra você! — Se jogou na cama.

— Ah não! Camos ver as estrelas antes, vai..diz que sim!

— Martina..tô cansado.

— Por favor! — Fiz bico e ele se levantou. — Aê! — Corri para a sacada.

— Elas tão fortes né?

— São lindas. — Sorri admirando, peguei meu celular do bolso, e tirei uma foto.

— Pra que?

— Tiro todas as noites. — Ele sorriu. — Gosto de colocar no instagram.

— Ah, me passa seu twitter.

— Passo. Vem cá! — Me sentei na cama e ele ao meu lado, ele só me seguiu e se jogou na cama. — Tá bom, vai dormir vai.. você tá cansado.

— Boa noite. — Sorriu de leve fechando os olhinhos.

— Boa noite. — Respondi o olhando, não consegui me segurar, passei a mão no seu rosto, senti sua respiração pesada, me levantei, desliguei a luz e me joguei ao seu lado. Não acordei nenhuma vez durante a noite, só no outro dia com o alarme do meu celular, 07:00 horas, me levantei com cuidado para não acordar Blanco, fiz o café, com tudo que ele gostava e fui para o banheiro.

Tomei um banho morno, me sequei, fiz uma maquiagem leve, vesti.

Voltei no quarto para pegar meu celular. Estava gelado, peguei outro edredom no guarda-roupa e coloquei por cima dele.

— Já vai? — Ele falou, sem se mover e de olhos fechados ainda.

— Vou, mas..deixei café pronto, pode ficar o quanto quiser tá bom? — Ele concordou com a cabeça ainda de olhos fechados e deitado como amanheceu.

— Bom trabalho.

— Obrigada. — Sorri escorando a porta. Coloquei o óculos, fechei a porta do apartamento, desci, dei partida no carro e fui para a central. Todos já estavam lá, parecia mas movimentando que o normal, telefones tocando ao mesmo tempo, Rafael andando de um lado para o outro ao celular.

— Ela chegou! — Ele disse desligando o celular. — Bom dia!

— Bom dia.. — Falei baixinho olhando o movimento. — O que aconteceu?

— Vem cá.. — O segui, parou frente minha sala, peguei a chave e abri. Ele ligou o computador. — Já entrou na internet hoje?

— Não..por que? — Fui para o seu lado, ficando em pé, já que ele estava sentado. Ele abriu o google, o twitter, e vi a 3º guerra mundial.

"NÃO ACREDITO QUE O JOR TÁ NOS TRAINDO!."
"EU VI ELA NA CENTRAL ONTEM, É METIDA E FEIA." "GENTE! PARA COM ISSO! VOCÊS MAL CONHECEM A MENINA E JÁ ESTÃO JULGANDO."
"ELA SE CHAMA MARTINA, EU ACHO!!"
"ELA VAI NOS TIRAR O JORGE!"
"MAL CONHECI E JÁ ODEIO ELA."
"EU VI ELA NA CENTRAL, É LINDA E BEM SIMPÁTICA."

Rafael minimizou, olhou para meu rosto e riu da minha cara, que deveria estar estranha, já que eu processava tudo aquilo.

— Não..eu não.. — O olhei. — Isso é por minha causa?

— É, mas..fica tranquila, por favor. Isso, já se tornou comum para nós, elas são ciumentas e muitas vezes, como posso dizer.."veem coisas aonde não tem". — Ele fez aspas. — Isso é, se não tiver né? — Sorriu.

— Não! Eu e o Jorge somos apenas amigos.

— Bom..eu só te avisei para não ficar sem entender nada. Pode ficar tranquila, como disse..logo passa. — Ele se levantou. — Bom dia e bom trabalho. — Fechou a porta, me sentei na cadeira.

— Isso não pode tá acontecendo! — Escorei a cabeça na mesa. — Isso não tá acontecendo!