Sono Te Hanasanaide
38 Capítulo XXXVIII
Atama no naka omoi de ippai
Meus pensamentos são só sobre você
Afuresou na no chotto shinpai
De fato, acho que vão transbordar
Toriaezu heddohon de fusagou
Vou colocar meu fone de ouvido e cantar agora
Hoshii mono wa hoshii tte iu no
Sou honesta quando quero alguma coisa
Shitai koto wa shitai tte iu no
Sou honesta quando quero falar alguma coisa
Dakedo ienai kotoba mo aru no
Mas há algumas coisas que não posso dizer
~Capítulo 38~
Miyako andou pelo caminho sinuoso entre as mesas de madeira redondas, espalhadas pelo lugar, equilibrando com ambas as mãos uma bandeja grande. Já fazia algum tempo desde que ela quebrara alguma das louças, ou deixara cair comida em um cliente. Enquanto entregava os pedidos certos em cada mesa, pensava consigo mesma que estava acostumada àquele trabalho, depois de tantos meses. Depois de sorrir e agradecer, ela voltou para trás do balcão, para pegar os produtos e limpar a mesa do outro lado que havia acabado de esvaziar.
Benjamin estava ali, cuidando do caixa. Como era final de semana, e o café ficava bastante cheio nesse horário, ele havia saído da livraria e vindo ajudar, ainda mais por que uma das funcionárias escalada para aquele dia havia pedido folga. Miyako tentou não olhar muito para ele naquele instante, e concentrou-se em continuar o que havia vindo ali para fazer. Desde o Natal, eles não haviam conversado muito, e de fato, a relação entre eles já não era mais como antes. Silêncios incômodos, falta de assunto e desconfortáveis troca de olhares ocasionais se tornaram constrangedoramente comuns. Miyako não gostava disso.
— Muito obrigado por ter vindo hoje, Miyako – ele disse, repentinamente. Desde o Natal, também, Ben já não usava mais o apelido pelo qual a tratava desde que se conheceram. – Se não fosse por você eu não sei o que faria aqui…
— Não foi nada… — Miyako continuou a fitar para suas mãos sobre o balcão, e retirou uma mecha de cabelo que caiu pela testa. – Eu não estava fazendo nada, em casa, também… — ela acrescentou, apertando os olhos de vergonha, arrependida de cada palavra. Nunca sabia o que dizer quando estava perto de Benjamin, e tudo o que tentava parecia idiota demais. Essa sensação só parecia ainda mais amplificada depois do que aconteceu (ou deixou de acontecer) entre eles. Ah, ela devia arrumar alguma coisa para fazer logo e fugir dali.
— Está bem cheio aqui, e ainda era o seu dia de folga… você realmente ajudou muito… Eu… pensei que você não ia poder vir, quando liguei… — hesitou, fechando a caixa registradora. Mordeu a língua, sentindo-se culpado. Ele já havia resolvido deixar Miyako, ser somente seu amigo, mas continuava a fazer essas coisas incompreensíveis. Chamá-la, mesmo que conseguisse dar conta do trabalho… reservar os mangás que sabia que ela ia gostar… assistir aos animes que ela via, apenas para poder arrumar um assunto no dia seguinte… ficar observando-a servir as mesas, ao longe…
Ainda assim… ele simplesmente não conseguia deixa-la sozinha. Mesmo que soubesse o que era o certo, ou pelo menos, achava que sabia, ainda era impossível para ele apenas sair da vida dela, como se não fosse nada demais. Não… ele queria ficar perto dela, ainda assim, queria muito…
Miyako deu apenas um pequeno e tímido sorriso em resposta, e então saiu para limpar as mesas. Benjamin ainda atendeu mais dois fregueses no caixa, e então, voltou a fitar Miyako de longe, sem que ela notasse. Ela estava agora atendendo a um dos clientes assíduos, e sorria para ele, como sempre. Aparentemente, o garoto estava puxando assunto, e não apenas fazendo seu pedido como deveria. Ben não era idiota. Sabia que vários daqueles garotos que vinham sempre ao café, vinham por causa das atendentes, mesmo que a ideia não fosse a de ser um maid café. E muitos desses, vinham por causa de Miyako, é claro.
— Pode deixar que eu o atendo, Miyako. – antes que pudesse perceber ou pensar sobre isso, ele já havia de deslocado até a mesa, e tirado o bloco de anotações das mãos da garota. Encarava o garoto sentado a sua frente com tanto furor que ele quase afundou de volta no sofá, temeroso.
— Ah… t-tudo bem… — ela não entendeu o que acontecia, mas voltou a limpar a mesa de antes. O garoto a frente olhava amedrontado para Ben, que ainda trazia um olhar tenso e furioso no rosto.
— Não ouse chegar perto daquela garota, ouviu bem? – ele resmungou de volta para o cliente, que acenou desesperadamente com a cabeça, confirmando que havia entendido o recado.
— E-eu entendi! Cara… relaxa!
Benjamin paralisou por um segundo, e então e se deu conta do que havia acabado de fazer. Relaxou lentamente, baixando os ombros e desanuviando a sua expressão. Ele havia se descontrolado por um segundo, e isso não era bom. Se continuasse assim, acabaria fazendo alguma besteira, ele sabia bem. E precisava fazer alguma coisa sobre isso… e logo.
~
O lugar era pequeno e aconchegante. Wolfram encontrou por acaso, em uma das caminhadas que fazia enquanto esperava Yuri encerrar o treino de baseball, e agora, era um dos seus lugares favoritos naquela área da cidade. Uma pequena casa de chá em uma rua menos movimentada, com paredes de tijolos de pedra, flores na janela, e mesas redondas de madeira, como era comum de se ver em Shin Makoku também.
Ele havia marcado com Yuri de se encontrarem ali, até a hora de outro compromisso que tinham. Quando irrompeu pela porta, visualizou o moreno acomodado em uma mesa logo na janela, que sorria a acenava de maneira pouco discreta para chamar sua atenção. Wolfram se dirigiu diretamente até lá.
— Eu já pedi dois pedaços de torta de frutas… e chá, para você. – Yuri anunciou, todo animado por ter conseguido acertar as preferências de Wolfram, que apenas sorriu em concordância, acomodando-se à sua frente logo em seguida. – Foi tudo bem? Você sabe… contar tudo… — ele introduziu o assunto de hesitantemente, já que Wolfram não havia falado nada.
A verdade é que Wolfram ainda tinha receio sobre como seu tio reagiria ao saber, e até mesmo havia o fato de que ele permanecia insistindo firmemente na ideia de Wolfram ir para a Europa com ele. Mas ele não queria dizer nada disso para Yuri. Iria preocupa-lo sem razão, e Yuri era propenso a rompantes instintivos, seria péssimo se ele resolvesse sair dali correndo para tirar satisfações com Valtrana do nada. O melhor era se esforçar para que Yuri não desconfiasse de nada, ao menos por enquanto.
— Foi tudo perfeitamente bem, como eu disse que seria. – ele entoou com segurança. Alguns segundos depois, fixando os olhos no outro, permitiu-se um sorriso – Ela ficou feliz, você sabe… como tínhamos imaginado… Quer fazer uma festa e mais milhões de coisas, eu não a via tão empolgada desde que ela foi a um cruzeiro com um dos namorados dela e ganhou um diamante do tamanho do seu punho fechado… enfim, correu tudo bem.
— Eu também já falei com a minha mãe, e ela ficou feliz por nós dois – Yuri sorriu, aliviado – Miyako, já sabia de tudo, é claro, e ao que parece, meu pai também não se incomoda. Ele disse que quer conversar com nós dois outro dia, e minha mãe sugeriu oferecer um jantar lá em casa para a sua família… se você não se importar, é claro. Mas, e os seus irmãos… eles…
— Conrad já sabia de tudo, eu contei a ele quando… b-bem,quando descobri o que sentia por você, então, é claro, ele ficou muito contente. Gwendal disse que nos viu cavalgando juntos de uma das janelas da mansão, e já desconfiava há algum tempo… Então, ao que parece, um anúncio nesse sentido se provou completamente desnecessário, já que todos pareciam ter uma ideia da situação antes mesmo de nós dois termos nos dado conta… — ele admitiu a realidade um tanto a contragosto.
— Que sorte! – Yuri comemorou – Eu falei com meu irmão… quero dizer, em parte… eu fui contar a ele que estava saindo com uma pessoa, e ele tapou os ouvidos e não quis ouvir mais nada. Disse que eu não deveria crescer, e que deveria ser o irmão mais novo dele para sempre… o que não faz muito sentido levando em conta que eu serei o mais novo querendo ou não… Então, eu não tive a chance de dizer a ele quem você era, nem nada além… mas ele vai conhecê-lo no jantar, então não haverá problemas.
— Ele vai mesmo aceitar isso, Yuri? – Wolfram indagou, intrigado.
— Claro! E a minha mãe já disse que dá um jeito nisso de qualquer maneira, então não temos nada com o que se preocupar. Tenho certeza de que ele vai adorar você, também – Yuri deu um dos seus enormes e animados sorrisos, e por um breve momento, Wolfram sentiu que não tinha nada a temer, desde que tivesse sempre por perto aquele sorriso que iluminava toda a sua vida. – E… o seu tio? – Ele balbuciou tempo depois, o sorriso se desmanchando lentamente.
— Ainda não sei bem como falar com ele. Mas, Elizabeth já sabe sobre nós. – ele comentou casualmente, como se só tivesse se lembrado desse detalhe agora. A atendente do lugar veio com seus pedidos, e Yuri levou aqueles segundos em que ela os servia para absorver a informação.
— Como assim ela já sabe? Você contou a ela? – ele nem mesmo olhou para o prato a sua frente, mas Wolfram já comia sua torta com vontade.
— Ela nos viu juntos, tentou me ameaçar com isso, mas eu apenas confirmei o que ela tinha visto. Disse que você é meu namorado, nada demais. Eu já não aguentava mais essa garota, para falar a verdade, precisei fazer isso. Ela ficou bem chocada, mas não é nada que ela não possa superar.
— Mas Wolfram, e se ela contar ao seu tio?
— Se ela fizer isso, ele não vai aceitar, nós vamos brigar, é verdade… ele pode ficar com muita raiva de mim… mas não há nada que ele possa fazer para nos separar, pode ficar tranquilo. Nada vai acontecer — a inflexão que Wolfram trazia na voz era tão evidente, e ao mesmo tempo, convicta demais, como se ele estivesse se esforçando também para convencer a si mesmo. Yuri ficou sem palavras, e baixou o olhar. Era a família de Wolfram, então é claro que não deveria se meter. Ele saberia como era a melhor forma de lidar com o assunto.
Repentinamente, o celular de Wolfram vibrou, e ele leu rapidamente a mensagem que recebeu, engolindo um gole longo de chá.
— Conrad disse que ele está pronto, esperando por nós na praça. Coma rápido para que nós o encontremos. – ele apressou Yuri, fazendo um gesto amplo com a mão. Os dois terminaram de comer rapidamente e depois de pagar a conta, saíram em disparada até o local onde Conrad os esperava.
— Eu não sabia que você era amigo do sobrinho do Yozak, Wolfram… Querendo ir comigo visita-lo tão de repente… isso é uma surpresa, na verdade… — Depois de alguns minutos caminhando, Conrad comentou cordial e tranquilo como sempre.
Yuri riu sem graça, constrangido por estar agindo dessa forma logo com Conrad, mas era necessário – ou pelo menos era o que Wolfram dizia – para conseguir alguma informação sobre Benjamin, qualquer que fosse, que pudesse ajudar na situação dele com Miya. Depois do tanto que ela havia contribuído para que a relação dos dois estivesse da maneira como estava agora, era o mínimo a se fazer.
Conrad não desconfiava da intenção oculta dos dois, e apenas encarava isso como uma visita a um velho amigo. Yuri ficava nervoso com o desenrolar do plano friamente calculado de Wolfram, mas o mesmo não parecia nada perturbado, e apenas seguia o fluxo calmamente.
— Eu o conheci por que a prima do Yuri trabalha no café que ele gerencia – Wolfram comentou rapidamente. Conrad virou-se para responder algo, mas percebeu um pequeno detalhe que havia passado despercebido pelos seus olhos treinados até o momento. Um sorriso se espalhou pelo seu rosto.
— Eu fico tão feliz de ver vocês dois bem, e juntos… — ele observou distraidamente, referindo-se às recém-notadas mãos unidas de Yuri e Wolfram. Eles não haviam nem mesmo reparado que estavam andando assim na rua, havia sido apenas um reflexo natural e irrefletido de ambos. Não era algo que faziam com frequência, mas estavam tão à vontade, distraídos, conversando com Conrad… havia sido quase sem querer. – Sabia que tudo daria certo no final…
Wolfram teve o reflexo de recolher a mão, mas Yuri não deixou, e sorriu de volta para Conrad, como se concordasse exatamente com cada palavra que ele disse. Wolfram corou, e desviou o olhar para a rua, permitindo que Yuri segurasse sua mão com um pouco mais de firmeza. De repente, já não importava mais tanto assim que alguém os visse ou comentasse… era boa a sensação simples e ao mesmo tempo tão complicada de meramente andar de mãos dadas na rua.
Pouco tempo depois, eles chegaram ao lugar onde ficava a Cafeteria-barra-Livraria de Yozak. Wolfram insistiu para que Conrad apertasse diretamente a campainha do apartamento, cuja entrada ficava logo ao lado do estabelecimento, pois eles não podiam arriscar que o próprio Benjamin os flagrasse durante a investigação. Parte do plano envolvia o fato de que eles sabiam que ele trabalharia àquela hora, mas fingiriam que não sabiam disso. Sinceramente, Yuri desconfiava de que Wolfram estava se divertindo mais com toda essa história de investigação do que preocupado com o problema em si. Ele adorava livros como Sherlock Holmes, afinal. Apesar de… bem, não era como se ele próprio não achasse isso um tanto divertido também…
A porta foi aberta por um homem enorme, alto, musculoso e ruivo. Usava roupas um tanto leves demais para o tempo frio, mas não parecia se incomodar, e tinha um enorme sorriso no rosto, ao vê-los ali. Yuri não se lembrava de Yozak ser assim tão grande e imponente, e de repente, a ideia de revistar a casa dele pareceu simplesmente estúpida demais. Depois de um longo abraço em Conrad, e de cumprimentar os meninos com firmes apertos de mão (Yuri pensou que a sua ia se quebrar ao meio), ele os convidou para acomodarem-se na sala.
O apartamento era aconchegante e familiar, tal como o café do andar de baixo. Era bastante organizado, para um lugar onde moravam apenas dois homens solteiros, sendo um deles um adolescente. Conrad e Yozak já haviam iniciado uma conversa animada, típica de pessoas que se conhecem há muito tempo, relembrando fatos antigos e piadas internas que ninguém mais entendia. Yuri entendia menos ainda, pois eles falavam rápido e na sua língua materna, que soava aos ouvidos como uma mistura estranha e indecifrável de alemão, francês e russo. Wolfram apenas esboçava algumas reações por vezes, mas continuava sem falar nada. Depois de algum tempo assim, e Yozak trouxe um pouco de chá e bolinhos do café, Conrad contou que Yuri e Wolfram vieram tratar de algum assunto com Benjamin.
— Eu não sabia que vocês eram amigos do Ben… — Yozak comentou com alegre surpresa dando dois tapas nas costas de Yuri que quase o desmontaram.
— C-conhecemos ele por causa da minha prima, Miyako…
— Ah! Sim, Miya-chii! – Yozak soltou uma grande risada – Ela é tão fofa! Faz muito sucesso aqui no café, sabe? Eu não contei para ela por que sei que ela é muito tímida, mas tem clientes que vem aqui só por causa dela. Mas o Ben fica sempre de olho, pode ficar tranquilo!
— Tenho certeza de que ele fica de olho mesmo… — Wolfram comentou com discreto sarcasmo, e então ergueu os olhos para Yozak novamente – Bem, sobre o assunto que tínhamos para falar com ele…
—Ah… ele está trabalhando agora… e é horário do café ficar cheio… — Yozak respondeu, confirmando o que os dois já esperavam – Mas pode falar comigo!
— Certo, ele disse que tinha um livro que poderia servir para um projeto nosso da escola. Eu gostaria de saber se ele ainda pode me emprestar. – Wolfram falou com naturalidade, enquanto Yuri o fitava quase em choque por aquele inesperado plano que ele não fazia ideia de quando havia sido desenvolvido.
— Bem, ele está lá embaixo agora…
— Nós não nos importamos de esperar – Wolfram afirmou, e parecia tão educado que Yuri quase não o reconheceu.
— Você não quer dar uma olhada no quarto dele? Talvez encontre o livro! Não sei se ele vai ter tempo de vir até aqui, já que está ajudando no café e ainda tem que cuidar da livraria…
Wolfram sorriu de uma maneira que causou arrepios de medo em Yuri. Era exatamente isso o que ele queria desde o início. Yozak conduziu os dois até o corredor onde ficava o quarto do garoto, então voltou para a sala, falando aos berros com Conrad sobre as histórias do tempo em que eles serviram juntos ao exército de Shin Makoku. Yuri já estava suando frio, naquele ponto.
— Não importa de que ângulo você veja isso, Wolf, ainda parece errado! Nós não deveríamos estar invadindo o quarto dos outros dessa forma… — Yuri sussurrou, enquanto Wolfram displicentemente abria a porta do quarto e adentrava.
— Shh! Você quer saber o que é que ele está escondendo da sua prima ou não?
Com esse argumento, Yuri se calou e entrou também. Ele realmente queria ajudar. Aparentemente, era um aposento normal para um garoto daquela idade. As paredes eram cinza claro, e tinham alguns pôsteres de um lado, de animes shounen e de algumas bandas. A cama estava levemente bagunçada, como se tivesse sido arrumada às pressas, e alguns pares de tênis e uma mochila repousavam no chão. Um casaco estava pendurado na cadeira em frente à escrivaninha, onde havia alguns cadernos e livros, e um computador desligado. Havia uma estante com mais alguns livros e vários volumes de mangás, alguns deles Yuri também colecionava. Ele aparentemente não gostava de esportes, mas lia bastante, e tinha vários jogos de vídeo game por ali também. Nada alarmante, ou chocante demais.
— Parece que tudo é normal por aqui… — Wolfram ponderou, colocando a mão no queixo e analisando a questão profundamente. – Será que ele não tem realmente nenhum segredo? Não é possível… bem, ele mesmo disse que tinha algo que o impedia de se declarar para a Miyako, não é verdade! Tem que ter algo… uma pessoa não iria deixar algo compromentedor tão em evidência de qualquer maneira… vamos lá, Yuri! Você escondia suas revistas suspeitas debaixo da cama! Olhe lá!
— O que?
— Ah, você não sabe fazer nada sozinho mesmo, não é? Deixa que eu mesmo olho! – Wolfram passou a frente, parecendo muito entusiasmado em espionar. Agachou-se e se meteu debaixo da cama no mesmo instante, fazendo Yuri perder alguns segundos de concentração admirando a peculiar e privilegiada visão que tinha daquele ângulo. Logo depois, o loiro saiu dali debaixo – Só tem poeira, meias usadas e uma caneta. Nada demais… vamos tentar as gavetas… Yuri, olhe na escrivaninha…
— Você tem certeza disso, Wolf? – Yuri ainda hesitava, mesmo que estivesse realmente indo olhar na gaveta da mesa. Wolfram já havia deslizado pelo chão para verificar as gavetas do criado-mudo. Papéis usados, mas nada importante. Uma régua, o carregador do celular, uma foto de uma mulher ruiva carregando um bebezinho no colo… ah, devia ser a mãe dele! Onde será que ela estava…? Bem, de qualquer maneira, não havia nada demais ali também.
— Wolf, a gente não vai achar nada aqui, é melhor desistir! – Yuri continuou argumentando, depois de fechar a gaveta – Eu aposto que ele nem tem nada comprometedor aqui, e nada disso faz sentido. Se nós sairmos agora, ninguém nunca vai saber o que fizemos e ainda podemos ir ao cinema, o que acha?
Wolfram virou-se para Yuri, seriamente intrigado.
— Certo. Eu olho no guarda-roupa, e nós saímos, ok? Eu nem vou verificar o computador… – ele já foi dirigindo-se ao armário do outro lado do quarto, sem dar a Yuri chance de resposta. Abriu o armário, e logo, uma caixa de papelão caiu para fora. Estava fechada, mas aparentemente, havia sido colocada ali há pouco tempo, e de qualquer maneira. Claro que Wolfram não hesitou em começar a abrí-la, e Yuri se aproximou, sem nem tentar refreá-lo por que já sabia que seria impossível. Quando Wolfram von Bielefeld colocava uma ideia na cabeça, não importava o quão estúpida fosse, ninguém conseguiria convencê-lo do contrário. Nem Yuri.
Ele abriu a caixa, e lentamente, foi revelando seu conteúdo. O queixo dos dois garotos caiu quase ao chão, ao perceber do que se tratava. Definitivamente inesperado. Wolfram ficou tentado a impedir Yuri de continuar olhando, mas estava tão surpreso que não conseguia nem mesmo se mover. Revistas. Mangás. Jogos. Action-figures e todo tipo de produto que se poderia adquirir em uma loja de Akihabara. Todo o conteúdo daquela caixa, cada produto contido nela, tinha teor, no mínimo, indecente. Era o tipo de anime que Yuri assistia escondido, e não contava para ninguém. E que Wolfram nem eu seus sonhos, jamais imaginou que existiria. Yuri teve uma breve sensação de deja-vú, de quando Miyako foi morar na sua casa e ele abriu a misteriosa mala que ela mantinha consigo.
Mas os dois não tiveram muito tempo para discutir sobre seu achado, ou deduzir alguma conclusão sobre isso. A porta foi aberta, e o dono do quarto e de todos aqueles objetos surgiu por ela, acompanhado por ninguém menos do que a própria Miyako, usando seu uniforme de trabalho, parecendo muito pasma em ver os dois garotos ali, e mais ainda ao notar o que eles tinham em mãos.
— O que… vocês estão fazendo aqui? – a voz de Ben era cautelosa, quase amedrontada. Como se tivesse sido ele a ser pego em flagrante invadindo o quarto alheio e bisbilhotando, e não o contrário.
— Hm… Onii-chan… o que é isso tudo? – Miyako indagou em voz baixa, sem saber o que pensar de toda aquela situação.
Yuri mordeu a língua para não falar “a gente pode explicar”, por que seria muito clichê, e era a última coisa da qual eles precisavam depois disso, nem “não é nada do que vocês estão pensando”, por que, sinceramente, ele não tinha ideia de como essa cena pareceria aos olhos dos outros. Olhou de Ben para Miyako, e para Wolfram, e de volta para Ben. O que fazer agora? Ele não tinha ideia. Mas nada parecia estar dando certo.
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