Sono Te Hanasanaide
21 Capítulo XXI
Doushiyoumonai tomerarenai
Eu me sinto impotente e sou incapaz de parar
Kono kanjou no namae nante wakaranai
Não sei mesmo qual o nome desse sentimento
Ochizukanai nemurenai
Não posso me acalmar e não consigo dormir
Mou nanimo atama ni hairanai
Nada mais entra na minha cabeça
Te wo gutto nobaseba
Minha mão se estica até você
Furesouna kyori de
A distância entre nós é curta o suficiente
Tada sotto mitsumeteru
Eu tenho olhado apenas para você
Kokoro ga sawaideru
enquanto meu coração fica impaciente
Capítulo 21
As folhas secas que eram varridas pelo vento se quebravam quando Yuri pisava nelas. Ele sempre achou divertida essa sensação, mas agora, olhava direto para frente sem dar atenção a esse detalhe, com a cabeça cheia de pensamentos, o que já era algo não muito usual para ele.
As suas pernas ainda tremiam, ele tinha certeza de que nunca se sentiu tão nervoso, nem mesmo antes de um grande jogo. Mal conseguia andar, no caminho para a escola. Estava frio, e o cachecol que ele usava ao redor do pescoço mal dava para esquentar, a mão que segurava as alças da mochila já estava congelada. Ainda faltavam algumas quadras para chegar à escola, mas ele estava pensando em desistir, e fingir uma dor de barriga para voltar para casa. Por quê? Era óbvio. Ele não queria ter que encarar Wolfram.
Dois dias se passaram desde aquele fatídico dia, e nenhum contato havia sido feito depois daquela mensagem durante a manhã de sábado. Yuri não sabia o que pensar diante disso. Será que Wolfram já estava o odiando agora? Se não estava, deveria. Yuri oscilava entre a irritação consigo mesmo por ter feito aquilo com a completa confusão por não ter uma razão boa o bastante que explicasse sua atitude e ainda o medo de que Wolfram começasse a odiá-lo por causa disso.
Queria poder conversar com alguém sobre isso, e saber como lidar com esses sentimentos conflitantes que continuavam crescendo, mas a quem poderia recorrer em uma hora como essa? Murata era tão inexperiente quanto ele, e ele sentia que ele ia apenas rir e fazer alguma brincadeira sem graça sobre o assunto. Yuri não sabia com chegar com esse assunto para seu pai, e seu irmão estava fora de questão, ele com certeza surtaria. Sua mãe… Bem, com certeza uma mãe que obriga seu filho a usar vestidos até os 3 anos de idade não é um exemplo de bom senso…
— Você está bem, onii-chan? – Miyako indagou, inclinando-se na direção do primo. Miyako com certeza parecia disposta a ajudar, mas… Não, ela se empolgaria demais com o assunto, e acabaria deixando-o ainda mais confuso do que já estava. – Está meio corado, e tremendo! Não está com febre?
— Eu estou bem! Totalmente bem. – Yuri respondeu rapidamente, com a voz trêmula, apressando o passo para que Miyako não o olhasse diretamente na face e percebesse que nada nele parecia bem.
— Yuri Onii-chan… Desde que você voltou da casa do Wolfram-kun, anda meio estranho. E nem quis conversar comigo quando eu cheguei do trabalho no outro dia… — Miyako inquiriu, caminhando mais rápido com suas pernas curtas para alcançá-lo. – Aconteceu alguma coisa lá, não foi? Eu sei que aconteceu, não adianta esconder de mim! E eu sei que você andou mexendo nos meus mangás também!
— O q-que? – Yuri escorregou no chão úmido pela neblina, e quase caiu. Miyako ainda o encarava acusadoramente, por trás dos óculos de lentes grossas. Ela conseguia parecer perigosa mesmo usando aquela touca com orelhas de ursinho.
— Eu sei que você entrou no meu quarto e leu alguns mangás! – Ela afirmou, e mesmo que a atitude delatora de Yuri não fosse o bastante para incriminá-lo, não havia dúvida nenhuma para ela.
— Como você sabe?? Foram aqueles pôsteres, não é?! Eu sabia que tinha alguma coisa de errado com eles!
— Os pôsteres?
— Foram os bonecos então?
— Não, Onii-chan! Eu só sei que você entrou lá e mexeu, porque colocou todos nos lugares errados! Anda, me conta por que fez isso! Você estava curioso?? – Ela estava animadíssima, e parecia nem ligar para o fato de que o primo havia invadido seu quarto sem permissão. – Era só ter pedido para ler, sabe? Você queria saber alguma coisa? Eu posso te explicar qualquer coisa, Onii-chan, é só me perguntar!!! – Ela agarrou pelo braço, empolgada. Yuri estava mesmo se interessando por essas coisas! Ah, ela estava tão cheia de esperanças!
— Não é nada, Miya! Eu só queria um mangá para ler, só isso! – Ele desconversou, voltando ao caminho, e se encolhendo por causa do frio. Queria alguém para conversar, mas, decididamente, não podia ser alguém que usava toucas com orelhinhas.
— Conta pra Miya! Onegai, Onii-chan! – Ela insistiu e fez beicinho, querendo mais detalhes. Como Yuri se recusava a responder o que quer que fosse, acabou desistindo de tentar, até que enfim chegaram à escola.
Miyako se separou dele na escadaria do segundo andar, e Yuri seguiu sozinho para o próximo piso. Estava começando a se esquecer das suas preocupações e ir tranquilamente para mais um dia de aula, quando viu a figura impaciente que o esperava no topo da escada, de braços cruzados e com o pé batendo.
— Você está atrasado, fracote! Pensei que não ia chegar nunca! – O coração de Yuri acelerou imediatamente ao ouvir aquela voz, e ele já não sabia se continuava a andar ou se voltava correndo. Como resposta à indecisão, suas pernas travaram no meio do caminho.
— W-Wolfram? – Ele balbuciou como uma criancinha que acabara de aprender a falar, olhando descrente para o loiro. Ele parecia perfeitamente normal, como se nada tivesse acontecido. Mesmo o seu semblante irritado e com pouca paciência, parecia exatamente como sempre fora.
— Vai ficar aí na escada olhando pra cá com essa de idiota para sempre? – Wolfram bufou, dando as costas para ele. – Entra logo na sala, tem um trabalho para entregar!
— T-trabalho…? – Ainda meio confuso com as ideias, a ficha demorou a cair para Yuri. – Ah! Trabalho! — Ele subiu as escadas rápido, alcançando Wolfram que já entrava na sala. – Você acabou fazendo tendo que fazer tudo sozinho depois de… d-de… — Yuri travou, incapaz de continuar aquela sentença. Sentiu algo como um nó na garganta e uma pedra no estômago, e provavelmente estava fazendo uma cara bem estranha agora. Mas se o próprio Wolfram preferia agir como se nada tivesse acontecido, quem era ele para trazer de volta à tona um assunto já ultrapassado e esquecido? Embora, para ele, fosse impossível agir normalmente depois de tudo, ainda precisava fazer um esforço. Devia estar sendo difícil para Wolfram também, era o que ele pensava, mas ele ainda conseguia agir normalmente. Como fazia isso?
— Como se eu estivesse esperando alguma ajuda de um estúpido que mal sabe diferenciar um meteorito de um satélite como você! Claro que eu fiz tudo sozinho, até parece que você daria alguma contribuição intelectual significativa para que o que quer que fosse! – Wolfram ia bradando enquanto eles andavam até seus lugares perto da janela, acomodando-se lá. Yuri ainda não conseguia encará-lo direito, e mesmo sentando de lado na classe, como sempre fazia para conversar com Wolfram, olhava para o lado oposto.
— Me desculpe, Wolfram… — Murmurou com voz fraca, fitando o chão com uma cara de filhote de cachorro que fez xixi no lugar errado. Claro que o pedido de desculpas era por mais do que deixar Wolfram trabalhando sozinho no projeto dos dois, e ambos sabiam disso.
O loiro chutou a cadeira de Yuri, por baixo da sua mesa, em resposta.
— Se você pedir desculpas para mim mais uma única vez eu juro que arranco sua língua e dou de comida para o meu cachorro!
Yuri se sentiu um pouco aliviado com aquela atitude (o que por si só era estranho), pois na sua mente simples, enquanto Wolfram estivesse disposto a irritar-se com ele, era porque pensava que ele valia a pena a irritação, ou algo assim. Apesar de tudo, Yuri queria poder continuar conversando com Wolfram, como sempre. Então, se para isso tivesse que fingir, e agir como se nunca tivesse o beijado naquela noite, faria isso.
— Cachorro? Você tem um cachorro? – Yuri empenhou-se para parecer à vontade o suficiente e se escorar na classe de Wolfram, como fazia normalmente. – Eu não vi nenhum na sua casa!
— Eu ia te apresentar à ela, mas não deu, com tudo o que aconteceu… — Outro silêncio incômodo em que cada um procurava por um buraco para enfiar a cara. – Ela se chama Liesel, e é uma husky. – Wolfram mudou de assunto rapidamente, sem nem deixar transparecer o pequeno deslize no acordo imaginário que havia sido selado, sobre não mencionar o ocorrido.
— Eu acho mais bonito o nome Pochi. – Yuri comentou distraidamente. – É o nome do cachorrinho da minha vizinha…
— Que nome mais simples e sem noção! Liesel é um nome com muito mais nobreza e presença… E você não tem nada que comentar sobre o nome que eu dou ou deixo de dar para o meu animal de estimação, fracote! – Wolfram bufou, com a sobrancelha arqueando em irritação. Menos de cinco minutos que se encontravam em dias, e Yuri já era capaz de fazê-lo desejar não ter passado o final de semana inteiro preocupado com um idiota sem esperança.
— Ah, mas não importa o nome, eu adoro cachorros! Eu me dou muito bem com o Pochi, sabe… – Yuri comentou alegremente, imaginando como alguém como Wolfram poderia mesmo ter um animal de estimação. Sabia muito bem que ele tinha um lado gentil que não mostrava com frequência, mas nunca imaginou que pudesse gostar de animais também. Isso era um tanto inesperado… e adorável.
— Claro, vocês tem o mesmo nível de raciocínio lógico. – Certo, talvez não tão adorável assim.
— Eu sempre quis um, mas minha mãe nunca deixou! E agora, a Miya-chan e o meu irmão dizem que preferem gatos…
— Eu os entendo. Gatos têm um porte nobre e altivo que chamam a atenção. – Wolfram comentou, assentindo ligeiramente. – Eu gostaria de ter um também…
— Gatos são egoístas e exigentes, sempre fazem o que querem, nunca estão satisfeitos… — Yuri bradou como se fosse um especialista em felinos, balançando a caneta no ar. Por um breve momento, achou aquela breve descrição um tanto familiar. – Mas… Acho que são mesmo os mais fofos. Eu gosto de brincar com eles, e vê-los reagirem a qualquer coisa que eu faço… — Ele admitiu.
— Bem, os cães são leais e alegres, admiram seu mestre acima de qualquer coisa, e são sinceros quanto aos seus sentimentos. Porém… Eles podem ser realmente bobos, você não acha? Como quando correm atrás de bolinhas, ou dos próprios rabos… Eles se contentam com tão pouco, e ficam tão felizes com qualquer coisa…
— Se eles se divertem dessa maneira, não acho ruim! – Yuri riu. – Eles também são mais amáveis do que os gatos…
— Discordo. Ambos são amáveis da sua própria maneira. Você só precisa… aprender a lidar com eles, e… — Wolfram parou de falar, ao ver a cara alegre e absurdamente tola que Yuri fazia para ele agora. – Por que está me olhando desse jeito?
— Nada, só estou feliz por poder falar normalmente com você de novo… – Yuri deixou escapar, sem pensar, e sorriu de maneira inocente. Wolfram engoliu em seco, com o rosto corando.
— Idiota. – Chutou a cadeira novamente com força, no exato momento em que o professor Gunter entrava na sala de aula. Todos se ergueram, curvando-se, e então ele começou a fazer a chamada. Yuri ainda sorriu mais uma vez para Wolfram, antes de virar para frente.
— Eu quero conhecer seu cachorrinho… — Ele sussurrou, olhando discretamente para trás.
— Algum problema, Shibuya-san? – Gunter o surpreendeu nesse exato momento, parando de fazer a chamada para chamar sua atenção.
— Não, claro que não, sensei! Pode continuar!
~
Depois disso, a aula continuou como sempre, e Wolfram entregou o projeto de mapa estelar que havia terminado na madrugada anterior, quando não conseguira dormir. Só de pensar em Hikoboshi e Orihime, ele tinha reações adversas, e demorou um bom tempo para conseguir terminar aquilo, ainda mais sozinho. Yuri ainda queria se desculpar por deixar tudo com ele, mas sabia que se dissesse mais uma única palavra sobre isso, teria um fim trágico, lento e doloroso nas mãos do loiro.
Logo, o horário de almoço chegou, e Yuri virou sua classe para trás para juntá-la com a de Wolfram, como sempre fazia. Como o clima entre eles havia atenuado desde a entrada e, com o acordo mudo de não citar o assunto, ele se sentia tão leve e contente que nada abalaria sua presença de espírito hoje. Talvez Miyako viesse para almoçar com eles como ela fazia de vez em quando. Se ela viesse, e acabasse falando coisas indevidas… Ah, Yuri teria que estar preparado para lidar com isso… Podia muito bem comprar a discrição e o silêncio dela com um ou dois mangás mais tarde. Não sabia o que iria fazer caso ela mencionasse a sua invasão ao quarto dela!
— Yuri!
— Ah, eu juro que entrei só pra pegar um mangá para passar o tempo!
— O que? – A julgar pelo olhar intrigado, e levemente preocupado com a sanidade mental do outro, Wolfram já devia estar chamando-o há algum tempo.
— N-nada… — Yuri riu sem graça, tentando se recuperar. – O que você dizia?
— Não importa mais, você não está ouvindo mesmo! – Wolfram, deu uma mordida no seu sanduíche, virando o rosto para a janela. – Não vou repetir. – Um biquinho contrariado fez menção de se projetar, enquanto ele planejava fazer Yuri aprender a não ignorá-lo — ignorando-o.
Yuri se controlou para não sorrir. Naquela situação, isso era como pedir para apanhar ali mesmo, na frente de todo mundo. Mas não importava… Wolfram ficava realmente fofo quando fazia aquela expressão aborrecida. Ele se esforçava tanto para não parecer preocupado, mesmo quando era evidente que estava. O rosto dele ainda estava corado, os olhos determinados olhando para fora, as sobrancelhas tensas, com uma ruga de irritação se formando entre elas. Os lábios crispados e juntos, em uma linha reta denotando irritação. Mesmo nessa forma, os lábios rosados dele ainda chamavam atenção… E pensar que eles fossem tão macios também…
Yuri se ergueu de supetão, quase derrubando sua caixa de obento, e a cadeira atrás dele. Levou a mão ao rosto corado, indignado pelo rumo dos seus pensamentos, e se preparando para sair correndo por aí até esquecer essa vergonha.
— Onde você pensa que vai, fracote? – Wolfram virou-se para ele, intrigado.
— Comprar… suco… na máquina – Ele mentiu muito mal, soltando aquela risada nervosa e toda errada que dava quando tentava inventar alguma história. Apesar disso, Wolfram pareceu cair nessa.
— Compre para mim também! – Ele estendeu algumas moedas. – Eu quero chá de darjeeling.
Yuri pegou o dinheiro, tomando o cuidado irracional de não tocar diretamente na pele de Wolfram no processo, e correu para fora da sala o mais rápido que pôde. Seu coração ainda batia rápido. Aah, ele sabia que ia acontecer, sabia! Ele ia ter esses pensamentos estranhos de novo e de novo, não acabaria nunca! Tudo culpa dos yaois de Miyako!
— Chá do quê que ele pediu mesmo...? – Quando enfim estava na frente da máquina de bebidas, sua mente já estava em branco. – Até parece que vai ter uma coisa daquela na máquina da escola, acorda Wolfram! Vai chá de pêssego mesmo… — Ele colocou o dinheiro, e ia apertar o botão, quando uma mão vinda de sabe-se lá onde apertou na caixinha de leite de morango, antes dele.
— Falar sozinho é perigoso, Yuri-kun! Alguém pode acabar pensando que você é louco! – Mariko sorriu, e Yuri se sentiu repentinamente cansado. Lidar com aquela garota era difícil, e ele não estava com humor para isso agora.
Ela se colocou de propósito na frente de Yuri, impedindo ele de sair, e sorriu provocantemente enquanto começava a tomar o líquido cor-de-rosa. Exclusivamente hoje ela não estava acompanhada de nenhuma seguidora, e parecia ter vindo para aquele andar esperando encontrar especialmente Yuri. Ele se perguntava o que havia feito de errado para merecer uma punição como aquela.
— O que você quer?
— Aaah, como você é frio, Yuri-kun! Mas eu realmente gosto de caras frios. – Ela riu maliciosamente, aproximando-se perigosamente. – Faz tanto tempo desde que nós conversamos… Eu estava com saudades, sabe? Daquela vez, o Wolfram-kun nos interrompeu… Eu acho que ele ficou com ciúmes de mim, veja só. – Ela revirou os olhos, parecendo muito orgulhosa de si mesma pelo feito. Yuri a encarou com incredulidade. Ela realmente achava que Wolfram havia aparecido daquela forma por causa dela? Francamente, era mais fácil ele estar sentindo ciúmes do próprio Yuri!
— Eu tenho que comprar suco… — Yuri murmurou incoerentemente, especialmente afetado pelo último pensamento que passou pela sua cabeça. Virou-se de costas, escolhendo alguma latinha de bebida quente ao acaso, e preparando-se para sair correndo, se fosse preciso, para se livrar daquele incômodo que era Mariko.
— Ah, Yuri-kun, nós podemos sair de novo! Eu quero ir ao parque de diversões, com você, e eu até consigo os ingressos… — Ela parecia genuinamente animada com a ideia, e Yuri intrigou-se. Mas afinal, o que uma garota que poderia facilmente sair com qualquer garoto daquela escola, estava tão motivada a ficar logo com ele?
— Por que você quer sair comigo? – Yuri indagou antes que pudesse refrear a sua curiosidade, e Mariko pareceu apreciar muito a atenção.
— Você finalmente se deu conta da sua sorte, Yuri-kun?! Ah, é muito simples… Você… Bem… Você não é exatamente bonito, alto e forte, com certeza não é meu tipo, m-mas… — Ela corou ligeiramente, desviando o olhar. – Aquele dia, você me salvou… E mesmo que eu já tenha saído com vários caras, nenhum deles agiu daquela forma por mim, nunca… Eu gostei de ser tratada dessa forma pelo menos uma vez. E você ainda recusou um beijo meu! Precisa ter muita coragem para algo assim… Então eu estou disposta a te dar uma segunda chance, e é melhor você não desperdiçar!
— S-sinto muito, Mariko-san, m-mas… eu não quero sair com você… — Yuri foi o mais direto e sucinto possível, embora fosse difícil rejeitar uma garota daquela forma quando ela estava bem a sua frente, fazendo aquele tipo de cara suplicante que tornava ainda mais difícil ser rude.
— Por que? – Ela insistiu, dando mais um passo na direção de Yuri, e novamente ele estava encurralado na máquina de sucos. – Eu não sou bonita o suficiente? Não sou atraente para você? É só me dizer qual o seu tipo, Yuri-kun, e eu fico do jeito que você quiser!
— Não é isso, Mariko-san, eu…
— Você já gosta de alguém, é isso? – Ela arqueou as sobrancelhas, nervosa.
— Ahn… — A pergunta o pegou de guarda baixa, e Yuri engasgou ao tentar responder que não. Se ele dissesse que já estava interessado em alguém, Mariko o deixaria em paz, pelo menos por enquanto, certo? Era um bom plano… E não parecia uma mentira tão grande assim afinal, pois algum dia Yuri se apaixonaria por alguém, não é? Só que esse alguém não era Mariko, e disso ele estava certo. – Sim, eu já gosto de alguém.
— Quem é? Alguém que eu conheço? Não é a sua prima, não é? Ah, isso seria nojento!
— Não interessa quem é…
— Então está certo! Eu vou fazer você esquecer essa garota e se apaixonar por mim! – Mariko bradou, como se estivesse lançando um desafio. – Aposto como ela nem é bonita, deve ser alguma esquisita que você encontrou por aí! Eu não vou perder pra ela!
— Certo, certo, deixe-me ir então… — Ele conseguiu desviar enquanto ela bradava suas palavras de motivação, e caminhou rapidamente na direção da sala de aula. – Ah, mais uma coisa, Mariko-san! – Yuri lembrou de repente, e virou-se para falar. – Você não deveria abrir mão de você mesma assim tão facilmente. Não diga que irá mudar por causa de outra pessoa, não importa quem seja, isso não é certo. Você deve sempre ser você mesma, é isso. — Ele concluiu, dando as costas e entrando na sua sala de aula rapidamente.
Mariko ficou para trás, com a expressão de uma donzela apaixonada, e o rosto todo vermelho. Parecia estar sonhando acordada, enquanto murmurava.
— Yuri-kun…
Yuri adentrou a sala de aula, suspirando cansado por ter que lidar com aquela garota. A sala ainda estava meio vazia, e além dele só havia mais um grupo pequeno de garotos todos juntos que pareciam estar lendo alguma revista proibida, muito animados. Yuri certamente se juntaria a eles sem hesitar, mas Wolfram estava do outro lado da sala, olhando pela janela de pé, esperando por ele…
— Você demorou, estúpido! Eu já terminei de comer! O que foi, não consegue nem usar a máquina de vendas? – Ele puxou a lata da mão de Yuri, e leu o rótulo. – E não foi isso que eu pedi…!
— Ah, não tinha aquilo que você pediu! Dajerin… daajirin…
— Darjeeling, fracote! E isso é a mesma coisa que chá Preto, é claro que tem! Como você é burro… — Ele resmungou, abrindo a lata de chocolate mesmo assim. – Bem, não importa, eu estou com frio… — Ele esquentou as mãos na lata aquecida, e tomou um gole, escorando-se na abertura da janela e olhando para fora.
— Se está com frio, não devia ficar na janela… — Yuri comentou. Wolfram revirou os olhos verdes, e então apontou para baixo. Lá estava Miyako, sentada em um dos bancos debaixo das árvores que estavam completamente sem folhas e almoçando sozinha. – Você… estava cuidando ela?
— Eu a vi daqui de cima, e resolvi dar uma olhada para ver se aquela garota não aparecia para incomodá-la… — Wolfram admitiu, contrariado, e Yuri pensou se deveria falar que não havia como Mariko estar lá se estava com ele minutos antes. O vento assobiou, entrando em uma lufada pela janela, e bagunçando os cabelos de Wolfram e Yuri. O loiro estremeceu, cerrando os dentes. – Ahh, como é frio nesse lugar! Eu não quero ficar aqui, quero ir para casa, onde tem um cobertor e uma lareira… Shin Makoku é muito melhor nessa época do ano…
— No seu país não faz frio? – Yuri escorou-se na janela ao lado de Wolfram, observando Miyako comer sozinha distraidamente. Ela devia ter ido até ali almoçar com eles, ao invés de ficar do lado de fora no frio! Por que ela apenas não vinha, como sempre?
— Claro que faz, mas não tanto assim… — Wolfram tomou outro gole do chocolate quente, tentando se aquecer. – O clima de Shin Makoku é muito mais agradável e ameno…
— Então não tem jeito… Ah, tive uma ideia… — Yuri exclamou consigo mesmo, afastando-se e mexendo em alguma coisa debaixo da sua mesa. – Aqui… — Ele retirou o cachecol azul-marinho, e enrolou-o ao redor do pescoço de Wolfram. O loiro arregalou os olhos, paralisado pela surpresa. Seu coração acelerou, e ele sentiu o calor e o cheiro de Yuri invadindo seus sentidos, sem pedir permissão. – Melhor agora? – Ele indagou, sorrindo abertamente.
— S-suponho que sim… — Wolfram resmungou, olhando para o outro lado enquanto tocava com a ponta dos dedos a lã macia do cachecol, trazendo-a disfarçadamente para mais perto do seu rosto, sentindo o perfume simples de Yuri impregnado ali, e o toque suave do tecido o fazia estremecer ainda mais.
— Eu quero um pouco… — Yuri pegou Wolfram de surpresa, tirando da mão dele a lata de chocolate para tomar.
— Ei! – Wolfram ia protestar, mas o moreno havia sido mais rápido.
Encostou a lata nos lábios, e tarde demais, notou o pequeno fato de que os lábios de Wolfram haviam tocado esse mesmo local segundos antes. Da mesma forma que tocaram os seus, naquela noite…
— Obrigado! – Ele empurrou a lata de volta para Wolfram, parecendo quase desesperado, enquanto sentava em uma cadeira próxima e escorava-se deitado no peitoral da janela. Wolfram o fitou de canto, desconfiado, e voltou a beber mais um pouco de chocolate. Yuri enterrou o rosto nos braços, e resmungou: — Você acredita em beijo indireto? – Sua voz estava abafada e arrastada demais para qualquer um entender o que quer que fosse.
— O quê?
— Nada. Nada mesmo. – Ele escondeu novamente o rosto, sentindo-o queimar. Que tipo de pessoa era essa que ele havia se tornado, que tinha vontade de beijar seu próprio amigo? Ah, isso só podia ser alguma doença estranha, que afetava seu cérebro, e o deixava nesse estado. Tipo, uma doença de zumbis… talvez estivesse contaminando pessoas, e em breve o apocalipse aconteceria! De qualquer forma, era tarde para ele, que já estava infectado…
— Ela já foi embora… — Wolfram notou, apontando com a lata para fora, e parecia que Miyako havia ido há algum tempo, mas nenhum dos dois notou.
— Eu encontrei a Mariko ali fora… — Yuri resmungou de repente, fitando Wolfram com o canto dos olhos negros. Ele apenas olhou para baixo, arqueando uma sobrancelha intrigado. – Ela veio me chamar para sair de novo…
— E o que você fez? Caiu no decote dela e agora vocês vão ir para o zoológico ver os macacos jogando bananas uns nos outros? – Wolfram voltou a olhar para frente com um olhar quase mortífero, terminando com o último gole de chocolate de uma só vez.
— Não, eu rejeitei ela! – Yuri contou, pensando que talvez merecesse um pouco mais de confiança depois de tudo. Ele não era o tipo de garoto que se deixava levar por um decote ou um par de pernas! Tudo bem que ele havia sido fraco da primeira vez, mas já havia aprendido a lição. Sem contar que, agora, ele já sabia que não suportava garotas como Mariko, e preferia manter distância delas…
— E como você fez isso? – Wolfram duvidou da suposta atitude tomada por Yuri.
— Eu disse que já gostava de alguém… — Ele balbuciou, brincando com a manga do seu gakuran, enquanto tentava avaliar a reação de Wolfram com o canto dos olhos.
— Por que está me falando tudo isso agora, fracote? – Wolfram sobressaltou. Aquilo não foi bem o que ele esperava, mas a questão era genuína.
— Porque eu não queria que você ouvisse isso de outra pessoa e acabasse pensando que é verdade… — Yuri respondeu simplesmente, dando-se conta disso pela primeira vez. Ergueu os olhos, e se viu diante do rosto confuso de Wolfram, o que de fato não era algo facilmente visualizado.
— Então não é verdade?
— Não. Eu realmente… não gosto de nenhuma garota. Nenhuma. – Yuri tentou rir, afundando o rosto nos braços mais uma vez. – Meio deprimente, não é? A vida colegial devia ser mais emocionante do que isso…
— Não acho. Penso que é perfeitamente normal. – Wolfram olhou mais uma vez para a paisagem à frente, tentando enxergar algo além do que a névoa ao longe encobria. Yuri continuou em silêncio, tentando entender o que havia acabado de acontecer.
Tocou novamente o cachecol em seu pescoço, que o mantinha bem aquecido. Seu coração também se aqueceu, batendo um pouco mais rápido, quando ele virou os olhos de esmeralda discretamente na direção do moreno sentado ao seu lado. Então, era isso… Wolfram estava irremediavelmente apaixonado por esse fracote, o que poderia fazer? A verdade era que Yuri sempre parecia saber exatamente o que fazer ou falar para que Wolfram acabasse gostando ainda mais dele, e ele tinha certeza de que era inconsciente. Não havia como fugir. Wolfram só conseguia olhar para ele agora, e seu coração se agitava, impaciente, querendo alcançá-lo a todo custo. Ele cerrou seu punho, contendo-se. A distância entre eles dois era curta o suficiente para que esticasse o braço, e tocasse seus cabelos. Ah, ele realmente queria fazer isso agora. Mas não podia. Não deveria.
— Ah… O q-que foi isso?! – Yuri ergueu a cabeça de repente, sentindo um toque suave e agradável no topo da sua cabeça. Wolfram pulou, indo parar vários passos longe.
— Tinha um inseto na sua cabeça. – Ele falou nervosamente, caminhando a passos duros para fora da sala sem olhar para trás. Suas orelhas estavam vermelhas.
— Um inseto… — Yuri murmurou, passando a mão pelos cabelos, ainda sentindo a sensação cálida de segundos antes. Seu rosto corou, e ele afundou-se mais uma vez nos braços, olhando para fora, e sentindo-se ainda mais confuso e perdido, intrigado com aquele sentimento inominável que fazia seu coração ficar prestes a transbordar a todo o momento. Ele passou a mão mais uma vez nos cabelos, e suspirou. – Estranho…
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