Sono Te Hanasanaide
8 Capítulo VIII
Marude sei hantei no futari
Nós somos completos opostos
Demo nande darou?
Mas desde quando é
Issho iru to itsu no mani ka
Que começamos a estar juntos?
Arukidasu
Ei, levante sua cabeça
Shinjita mirai ga
Para que eu possa
Koko kara mata
Rir ao seu lado
Hajimaru you ni!
Novamente
Capítulo 8
Dentro do trem, novamente, Yuri observava a paisagem, dessa vez, com Wolfram sentado ao seu lado nos bancos laterais. Depois de deixaram a casa de Susanna Julia, com promessas de visitá-la novamente, e muitas recomendações de cuidado, os dois foram de carro, que era guiado por uma das empregadas, até a estação e, de lá, pegaram o trem para Tókio. Foi tudo custeado pela gentil Lady von Wincott, e Wolfram prometeu recompensá-la, embora ela insistisse que apenas sendo felizes juntos, eles já a recompensariam o suficiente.
Da casa de Julia, eles também ligaram para suas mães. Yuri não ouviu a ligação de Wolfram, mas ele ficou absolutamente pálido e com um semblante amedrontado. Depois, contara que quem atendera o telefonema fora seu irmão mais velho, Gwendal, o que fez Yuri pensar que esse era alguém a ser temido. Yuri falou com sua mãe no telefone, mas tudo o que ela fez foi chorar copiosamente, acompanhada por Miyako. Quando seu irmão, Shori, puxou o telefone, Yuri achou melhor fingir que a ligação estava ficando ruim e desligar. Os gritos dele eram ensurdecedores.
Agora, no trem, eles apenas apreciavam a viagem. Yuri estava sentindo-se especialmente satisfeito consigo mesmo, apesar de saber que a volta para a casa seria complicada. Ele havia se lembrado de Wolfram, da sua infância, e isso era incrível. Estava agora contemplando a maravilhosa sensação da recordação, e sentia-se mais leve por isso.
Estava assim, pensando em muitas coisas ao mesmo tempo, quando sentiu um peso alojando-se em seu ombro. Já ia reclamar, quando virou a cabeça e reparou que o que se encostava a ele era Wolfram, adormecido. Yuri sorriu para si mesmo, ajeitando-se para repousar melhor a cabeça dele em seu ombro, e o sentiu ressonar levemente.
Yuri acabou por adormecer logo também, recostando o rosto nos cabelos macios de Wolfram. Passaram-se várias horas assim, durante a viagem, e ambos acordaram ao mesmo tempo, assim que o trem refreou e os jogou para o lado. Wolfram levantou-se num salto, ainda atordoado, e sem perceber que na verdade dormia em Yuri.
— Vamos logo! – Ele disse, pegando a mala que estava no bagageiro acima das suas cabeças.
— Certo... – Yuri balbuciou, esfregando os olhos. Eles andaram até a plataforma de desembarque, lentamente, e então ouviram gritos ao longe. Tremeram, finalmente se dando conta da gravidade dos seus atos, e pela primeira vez, temendo as consequências.
— Yu-chaaan!!! Por que você fez isso com sua mãe?! – Ele sentiu seu corpo ser puxado bruscamente, e então sua mãe estava abraçada a ele, chorando sem parar.
— Oniichaaan! Você deixou a Miyako sozinhaa!!! – A prima chorava no outro ombro.
— O que você tem na cabeça, Yu-chaan?! – Shori avançou contra o irmão menor, encarando-o com seriedade e preocupação. – Sumindo desse jeito, tem noção do quanto nos preocupamos? Você poderia ter morrido, ter sido assaltado, ou até pior, ter sido violentado por andarilhos na estrada e...
Enquanto ouvia o interminável discurso do irmão, Yuri olhou para o lado de Wolfram. Ele também estava rodeado de pessoas, todas falando ao mesmo tempo. Uma mulher de onduladas e esvoaçantes madeixas loiras, trajando um vestido negro que era simplesmente luxuoso demais para aquela plataforma de trem, abraçava-se a ele, espremendo-o contra seu peito, enquanto choramingava. Outro homem censurava Wolfram, com os braços cruzados e um semblante nada amigável. Tinha cabelos escuros e compridos, amarrados em um rabo de cavalo alto. E um terceiro, igualmente alto, com cabelos castanhos e curtos, e uma cicatriz cortando a sobrancelha, sorria aliviado, afagando discretamente os cabelos de Wolfram. Yuri o achou vagamente familiar.
— Me responda, Yuri, por que você fugiu de casa com esse garoto? – Shori tornou a perguntar, já irritado com a falta de atenção do irmão.
— F-fugiram de c-casa juntos... – Miyako murmurou lentamente, com o rosto avivando e se colorindo mais a cada palavra. Yuri tremeu, tendo uma breve ideia do tipo de pensamento que a prima deveria estar tendo naquele momento. Quando ela deu uma risada particularmente alarmante, e ele ia avançar e explicar que não era nada daquilo que ela estava fantasiando, sentiu alguém o chamando logo atrás.
— Shibuya-san, desculpe-me interromper o seu reencontro. – Ele disse educadamente, estendendo a mão para cumprimentar Yuri da maneira ocidental, e ele retribuiu, sem entender muito bem. – Eu sou Conrad Weller, irmão de Wolfram. Estes são Gwendal, nosso irmão mais velho – Ele apontou para o homem de cabelos escuros, que acenou ligeiramente com a cabeça. –, e esta é nossa mãe, Cecilie. – Ele indicou a mulher, que agora iniciava uma conversa amigável com Miko, a mãe de Yuri, sobre seus filhos. Yuri precisou de alguns minutos para processar que aquela mulher tão exuberante era mesmo mãe de três homens daquele tamanho. Apesar disso, ele reparou, Wolfram se parecia muito com ela. Na verdade, se colocasse uma peruca longa e maquiagem, eles seriam idênticos. Alheio à surpresa de Yuri, Conrad continuou. – Quero expressar a minha gratidão por acompanhar e ajudar o meu inconsequente irmãozinho nessa sua aventura descabida e imatura. – Ele disse, provavelmente posicionando-se em nome de toda a família. Wolfram bufou, virando o rosto, visivelmente constrangido com a situação. Provavelmente, já havia levado um grande esporro pela tentativa de fuga, mas nada do que se pode imaginar que deveria ter levado. Na verdade, Wolfram já tinha certa fama por causa dos seus atos extremistas, e esse fora apenas mais um para a sua coleção. – Se não fosse por você, eu não sei o que seria dele... Mas com certeza não estaria conosco agora. Por isso, eu quero agradecer o seu empenho e sua paciência com esse garoto. Muito obrigado.
— Ah... B-bem, não foi nada demais, eu só quis ajudar... – Yuri riu sem graça, coçando a nuca.
— Ei, Onii-san... eu não te conheço de algum lugar? – Miyako indagou, distraída, olhando para Conrad. Quando ele a notou, ela se escondeu rapidamente atrás de Yuri.
— Ao que me parece, é possível. Você e sua família já foram à Shin Makoku? – Conrad indagou, curioso.
— Sim! – Miko se intrometeu, animada. – Eu e meu marido nos conhecemos lá! E levamos as crianças durante as férias, há muitos anos. Foram férias lindas, nós tiramos muitas fotos, não é mesmo, Shori?
— Sim... Eu me lembro disso! – Yuri contou, animado, e Wolfram resmungou algo como “claro, agora ele lembra”. – Eu conheci Wolfram naquela época!
— Então este garoto é o amigo de infância de Wolfram do qual você me falou? – O homem chamado Gwendal pronunciou, intrigado. – Aquele pelo qual ele chorou por semanas a fio, e chamava pelo seu nome quando dormia?
Wolfram ficou tão indignado com as revelações, que nem mesmo conseguia falar. Yuri apenas sorriu, tolamente, sem saber como responder a isso.
— Esse mesmo. – Conrad confirmou. – Yuri, seu nome não é? E você, é aquela pequena garotinha com o coelho de pelúcia, estou certo? – Ele continuou, simpático, e Miyako assentiu vigorosamente, saindo de trás de Yuri.
— Você tinha um amigo estrangeiro e nem me contou, Yu-chan? – Miko reclamou, voltando-se para a conversa.
— Que bem, Wolf! Você encontrou seu amiguinho! – Cecilie bradou, abraçando o filho e também Yuri, e os apertando com força. – Muito obrigada por ajudar o meu bebê! Você é tão fofinho! – Ela depositou um estalado beijo na bochecha de Yuri, deixando ali uma marca de batom vermelho, que foi devidamente retirada com seu dedo logo depois.
— Estou tão feliz por você, irmão, encontrou novamente a sua pessoa preciosa! – Conrad disse, sorrindo, e Gwendal assentiu, apesar de sério, com um ínfimo sorriso irônico formando-se. Mesmo que não parecesse, aquela era uma típica provocação entre irmãos, e mesmo alguém que os observasse de fora, notariam o quanto estavam aliviados por ter novamente o irmão por perto.
— Já chega disso! – Wolfram finalmente se posicionou, ao perceber que Gwendal e Conrad estavam prestes a desenrolar antigas e vergonhosas histórias de infância. – Eu não sei sobre vocês, mas eu estou morrendo de fome. Vamos logo para casa!
— O mínimo que podemos fazer para recompensar o pequeno Yuri é convidar a sua família para um jantar, não é mesmo, Wolf? – A mãe de Wolfram cantarolou, muito alegre para alguém que há poucos momentos chorava a falta do filho.
— Cecilie-san, eu conheço um restaurante ótimo aqui por perto, podemos ir todos lá! – Miko sugeriu, sentindo-se muito a vontade no meio de tantas pessoas.
— Pode me chamar de Cheri, Jennifer. – Cecilie respondeu, andando com Miko na frente, como se fossem velhas conhecidas. Restou aos outros acompanharem-nas, dividindo-se em dois carros para seguirem até o citado restaurante.
Yuri ainda estava assombrado com a velocidade em que as coisas corriam. Poucas horas atrás ele estava na casa de uma completa estranha, dividindo a cama com Wolfram, e agora estava indo almoçar junto com toda a família dele... Se Wolfram fosse uma garota de verdade, ele se sentiria indo a um almoço de noivado, depois de todos esses acontecimentos. Mas essa ideia era tão incabível que Yuri só podia rir dessa piada de mau gosto criada pela sua própria mente.
Miko ia finalmente realizar o seu desejo de estar à mesa com os membros da realeza estrangeira, e estava tão extasiada que mal podia parar de falar para tomar fôlego. A todo instante, durante o almoço, ela perguntava à Cheri sobre as coisas de Shin Makoku, e a rainha, apreciando toda aquela atenção, respondia à todas as perguntas. Ela também indagava à Miko sobre o Japão, e sobre sua família e, assim, em pouco tempo, as duas já sabiam tanto uma sobre a outra que poderia se dizer que eram amigas de infância. Shori, Conrad e Gwendal pareciam ter alguns interesses em comum, e discutiram sobre economia, política e esportes, como homens adultos certamente deviam fazer. O pai de Yuri foi até lá logo depois, assim que saiu do trabalho, após o chamado de Miko. Miyako até tentou entender o que eles diziam, mas depois de apenas alguns segundos, ela estava muito mais interessada na sua comida, e não prestava atenção em mais nada ao redor.
No canto da mesa, Wolfram e Yuri, um ao lado do outro, também comiam em silêncio. Eles ainda estavam absorvendo toda aquela informação. Parecia apenas surreal demais ter suas famílias reunidas de maneira tão inesperada e amigável. Ambos estavam ainda cogitando a hipótese de terem dormido por tempo demais no trem e parado em alguma realidade paralela, ou algo assim.
— Hmm... Essa comida é boa, não? – Yuri tentou puxar assunto, tão acostumado com a falta de entusiasmo de Wolfram em conversar que nem mesmo esperou por resposta.
— Sim. Embora não se assemelhe de maneira alguma aos pratos que já provei antes, eu ainda posso afirmar que se trata de uma comida realmente maravilhosa. Acho que poderia voltar aqui outra vez... – Ele disse, brevemente, ocupado em comer mais. Yuri arregalou os olhos, lívido com aquela sentença longa e completa, que ele jamais sonharia que poderia vir do taciturno e quase nunca disposto Wolfram.
— T-talvez nós possamos vir outro dia, depois da aula. Eles também servem chá aqui, durante as tardes. – Yuri pronunciou, incrédulo. Ao fundo, as conversas animadas e turbulentas dos outros, serviam como trilha sonora.
— Eu adoraria. – Wolfram respondeu, assentindo. Yuri ainda não conseguia acreditar. Estava mesmo conseguindo sustentar um diálogo com Wolfram, depois de todo aquele tempo? E as respostas não eram monossilábicas ou resmungos... Isso era apenas inacreditável.
— Eu posso chamar o Murata também, ele adora chá...
— Como queira. Talvez sua prima queira vir também. – Wolfram disse, e Yuri sentiu seu queixo despencar. Wolfram, o garoto anti-social e irritado estava marcando de sair com... alguns amigos...? O trem devia mesmo tê-los levado a outra dimensão, de fato.
— Nós deveríamos ligar para a Susanna Julia-san, para avisar que chegamos bem... – Yuri sugeriu, após o choque da mudança inexplicável de Wolfram.
— Sim, devíamos. – Wolfram respondeu, ainda absorto na comida.
— Wolfram... – Yuri murmurou incerto. – Só para eu saber... Isso tudo... Quer dizer, nós somos amigos agora?
Wolfram engasgou, corando irremediavelmente.
— D-do que está falando, fracote? – Ele se esforçou para recuperar o tom normal de voz, encarando Yuri com furor. – Desde que nos conhecemos quando crianças, acredito que... Bem, nós sempre fomos amigos. — Ele sussurrou a última palavra, incomodado. – Então não fique perguntando coisas estranhas! – Ele concluiu, virando o rosto, e tudo o que Yuri pôde fazer, foi alargar seu sorriso, sentindo-se completamente satisfeito com isso.
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